FOGO CRUZADO

Jornalismo no limite da irresponsabilidade

Por Leonardo Attuch em 04/07/2005 na edição 336

É inacreditável. Depois de dedicar a capa da revista CartaCapital a uma reportagem que busca desqualificar um tremendo furo jornalístico feito por mim (a entrevista exclusiva da secretária Fernanda Karina Somaggio à revista IstoÉ Dinheiro), o jornalista Mino Carta decidiu escrever um editorial a meu respeito [veja íntegra abaixo]. O título é "De Herzog a Leonardo Attuch". Apenas para refrescar a memória, faço uma pequena cronologia dos fatos:

** No dia 15 de junho deste ano, IstoÉ Dinheiro antecipou sua edição para publicar a entrevista de Karina, aquela em que surgiram no noticiário as tais "malas de dinheiro" e a agenda da secretária. Praticamente todos os veículos da boa imprensa utilizaram tal entrevista como roteiro para novas investigações e fizeram importantes descobertas. Nem é preciso enumerá-las.

** No dia 24 de junho, CartaCapital publicou uma reportagem de capa, com a chamada "O orelhudo tá nessa", em que tentou desqualificar a entrevista a partir de um documento falso. CartaCapital insinuou que haveria o dedo do empresário Daniel Dantas na história e apontou como "evidência" um falso e-mail, trocado entre ATT e DD, que CartaCapital atribui a mim. É um e-mail forjado, com data de 9 de abril de 2005, em que se promete a entrega de uma encomenda. E tal reportagem, diga-se, foi citada por parlamentares petistas no auge da crise política, como indício de uma conspiração contra o governo.

** No mesmo dia em que aquela infeliz reportagem foi publicada, obtive do portal Terra um documento, assinado pela diretora Fabiane Vicenzi, que atesta a fraude. A conta do e-mail reproduzido por CartaCapital – attuch@terra.com.br – foi desativada em dezembro de 2003 [veja remissão abaixo], quase dois anos antes da mensagem forjada que foi publicada na CartaCapital.

** Eis que surge novamente Mino Carta, nesta semana, com o tal editorial (CartaCapital nº 349, de 6/7/2005). Vale a pena reproduzir um trecho: "Em momento algum o documento em questão foi apresentado como autêntico. Na reportagem de capa da edição passada diz-se apenas que a mensagem faz parte de um pacote de e-mails em poder da PF. E que muitos deles circulam por algumas redações. Pode ser que se comprove a falsidade" [grifo meu].

Por mais que Mino Carta tente agora recuar, o falso e-mail foi, sim, apresentado como verdadeiro por sua revista. Afinal, se não fosse reproduzido em meia página como autêntico, como justificar uma capa? Eis o que dizia a reportagem:

"CartaCapital informa: ATT trata-se de Attuch. DD, de Daniel Dantas. A mensagem faz parte de um pacote de e-mails em poder da PF e que circulam desde abril por algumas redações (...) Boa parte das mensagens mostra um cidadão que se identifica como Leonardo Attuch, acertando com um certo Daniel Dantas, reportagens a serem publicadas na IstoÉ Dinheiro".

Cabe a reflexão. Uma revista que apresenta papéis forjados como se fossem documentos verdadeiros e, na semana seguinte, ainda tem o desplante de defender o próprio erro, deveria deixar seus leitores de sobreaviso. Pela lógica de Mino Carta, o que sai em sua revista, segundo as suas próprias palavras, pode ser "verdadeiro", "falso" ou "a verificar".

CartaCapital errou e responderá na Justiça por seus erros. E não há malabarismo retórico que seja capaz de desdizer o que já foi dito. Mino Carta, com sua nova aula de ética e de jornalismo, tenta agora consagrar a própria irresponsabilidade. É triste e lamentável ver um profissional que por muitos já foi tido como referência (especialmente pelos que não o conhecem) hoje ter que defender um jornalismo feito no limite da irresponsabilidade.

P.S.: Mino diz que eu me comparei a Vladimir Herzog. Não é verdade. Quem me comparou a Herzog foram os agentes da repressão, dentro e fora do governo (alguns até na imprensa), que deram o nome de "Gutenberg" a uma operação policial de que fui alvo. Eu apenas disse que, num passado de triste memória, houve outra Operação Gutenberg no Brasil – a vítima, naquele caso, havia sido Herzog. Tenho um segundo esclarecimento a fazer. Mais uma vez fui citado pela revista Veja, que insiste em ver "mistérios" no fato de a entrevista da secretária Karina ter ficado em minha gaveta durante nove meses. Não há mistério algum. A entrevista se tornou relevante depois que o deputado Roberto Jefferson apontou o nome do publicitário Marcos Valério como personagem central do escândalo do "mensalão". Até então, Valério era um ilustre desconhecido.

***



Mino Carta

"De Herzog a Leonardo Attuch – O tempora! O mores!", copyright CartaCapital nº 349, de 6/7/2005

"O jornalista Leonardo Attuch, da IstoÉ Dinheiro, comparou-se a Vladimir Herzog ao ser citado pela Veja em largo texto intitulado ‘Reportagens sob suspeita’ e publicado na edição de 18 de maio passado. Cabe anotar alguma diferença entre os dois profissionais.

‘No relatório final da Operação Chacal – cito CartaCapital nº 348 – a Polícia Federal dedica cerca de cinco páginas a IstoÉ Dinheiro e a Attuch.’ Lê-se ali que a revista e o repórter foram utilizados ‘para lançar matérias convergentes com o interesse do grupo criminoso’. Ou seja, Dantas e Cia. A PF chegou a pedir a quebra do sigilo telefônico do jornalista, a Justiça negou.

Os envolvimentos de Herzog eram de outra natureza. Ele tinha um sonho de liberdade e por isso foi preso, torturado e morto pelos esbirros da ditadura, a 25 de outubro de 1975. Quem sabe esta observação possa atiçar a irritação de Attuch, agora em relação a CartaCapital. Não é minha intenção. Move-me, simplesmente, o propósito de pôr as coisas no lugar devido.

Em nota divulgada pela internet, por Jornalistas & Cia e pelo Observatório da Imprensa, Attuch queixa-se veementemente contra a publicação por esta revista de um e-mail, já citado aliás na coluna "Radar" de Veja, pelo qual ficaria clara a conexão entre ele e Dantas. Afirma o jornalista ser o documento ‘uma fraude grosseira’. De sorte que vai acionar CartaCapital por difamação.

Em momento algum o documento em questão foi apresentado como autêntico. Na reportagem de capa da edição passada diz-se apenas que a mensagem faz parte de um pacote de e-mails em poder da PF. E que muitos deles circulam por algumas redações.

Pode ser que se comprove a falsidade. Mas, à espera dos resultados da investigação policial, permito-me apontar umas tantas coincidências. Um desses e-mails, datado de 4 de abril passado, e assinado DD (falso? Verdadeiro? A verificar), diz: ‘Preciso de novas matérias contra BC e o Serra’. Outra mensagem faz referência a um misterioso Mauro.

Dia 13 de abril, a IstoÉ, da mesma Editora Três de IstoÉ Dinheiro, publica uma página sobre processos e inquéritos destinados a apurar a improbidade administrativa do secretário municipal de Finanças de São Paulo. Mauro Ricardo Costa.

Não se duvide da boa-fé do colega. De todo modo, a reportagem assinada por Attuch, depois do indiciamento de Dantas e Cia., afirma que ‘o Citibank sabia de todos os passos da investigação da Kroll’. Investigação? E dá destaque a Carla Cico: ‘Eu me senti estuprada’. E a gente? Tadinha da Carla.

Quanto a DD, declara, com exclusividade para Attuch: ‘Só falta mandarem me matar’. Na edição de 4 de maio de IstoÉ Dinheiro, a gargalhada: ‘A guerra acabou’. DD acerta-se com a Telecom Italia e surge na capa com o sorriso do vencedor. Ao se referir ao bilhão e pouco de reais que os italianos se dispõem a pagar, proclama: ‘Valia mais’.

Nenhuma palavra sobre o fato de que, de verdade, a guerra continua. E DD ainda não saiu do cerco, processado juntamente com a sua turma. Talvez não morra, mas corre sério risco.

Enfim, a cena é da secretária. Por que não enxergar nela a infatigável leitora de IstoÉ Dinheiro e deslumbrada admiradora do jornalista Leonardo Attuch, Vladimir Herzog dos nossos dias?"

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