FOLHA DE S. PAULO

Marcelo Beraba

06/12/2005 na edição 358

"Deixou de circular, na terça-feira, o suplemento mensal Sinapse, criado em julho de 2002 pela Folha com o propósito de ‘tratar das várias dimensões do conhecimento’ e de ‘orientar o leitor a construir um repertório cultural que o ajudará na vida pessoal e profissional’.

Não era um caderno voltado exclusivamente para a educação, mas este acabou sendo seu principal enfoque nos 41 números de sua curta história.

Quando o Sinapse foi lançado, sua primeira reportagem foi sobre o diploma universitário (‘Mais do que diploma, é preciso ter formação’). Na sua apresentação, o então editor Oscar Pilagallo informou que a preocupação central do projeto era a de destacar a importância da educação continuada.

Foi um avanço em termos da cobertura sobre educação, tradicionalmente voltada para os vestibulares, assuntos sindicais e as carências estruturais da área.

No seu lançamento, o caderno foi anunciado durante dois dias com chamadas na Primeira Página. Agora que acabou, teve apenas um pequeno aviso fúnebre dentro do próprio caderno, tão escondido que poucos leitores puderam percebê-lo: ‘Esta é a última edição do caderno Sinapse, publicado desde julho de 2002. Os temas do suplemento -educação, responsabilidade social e desenvolvimento intelectual- continuarão a ser abordados no conjunto do jornal. A coluna do educador Rubem Alves, que era mensal, passará a ser quinzenal, publicada no caderno Cotidiano’.

Os leitores

Poucos leitores escreveram para reclamar, mas estavam todos muito decepcionados. Recebi até sexta-feira quatro mensagens, mesmo número que chegou ao ‘Painel do Leitor’. O assinante Wilson Sforza Diniz Jr., de Iturama, em Minas, se disse ‘indignado e inconformado com o final precoce de um dos melhores projetos que o jornal lançou nos últimos tempos’. Ele também reclamou da justificativa publicada pelo jornal, ‘muita vaga, superficial’, e pediu ‘explicações mais sensatas’.

Na quarta-feira, o ‘Painel do Leitor’ publicou carta de Celso Vasconcellos, doutor em didática pela USP: ‘Essa atitude não me parece coerente com os editoriais desta Folha, nos quais sempre se defende o papel da educação no desenvolvimento do país’. Além de apontar a incoerência da medida, ele avaliou que a cobertura de educação do jornal é ‘sofrível’: ‘Espero que a decisão seja revista e que a Folha cumpra melhor sua função social no que diz respeito à educação’. Para Patricia Ricardo, de São Paulo, ‘perdemos todos: a Folha, porque deixa uma boa publicação de lado, e principalmente nós, leitores, que além disso não somos informados das razões pelas quais essa decisão foi tomada. Lamentável’.

Os leitores colocaram, portanto, duas questões: por que o jornal acabou com o caderno e por que não noticiou como devia? Encaminhei o pedido de explicações para a Redação com algumas hipóteses sobre o fim do suplemento. Não tinha leitura? Não tinha publicidade? O projeto editorial era equivocado? Foi um corte de pessoal por conta dos tempos magros?

Recebi a seguinte resposta de Suzana Singer, secretária de Redação da Folha: ‘Na avaliação da direção do jornal, o caderno Sinapse cumpriu um papel importante, mas a cobertura de educação e de políticas sociais pode -e deve- ser feita nas várias editorias, em vez de ficar restrita a um suplemento mensal. Pesquisa realizada em agosto, com leitores da Folha, mostrou que a taxa de leitura do caderno não era alta (56%) e que a periodicidade, uma vez por mês, era um problema. Em um cenário de restrição econômica, de papel e de equipe, o jornal optou por interromper o caderno e utilizar os recursos em outras editorias’.

A promessa

Em termos quantitativos, o fim do Sinapse terá pouco impacto. Para ter uma idéia, levantamento feito pelo Banco de Dados mostra que, no ano passado, o jornal publicou 2.466 textos sobre educação -e apenas 76 saíram no Sinapse.

O mesmo levantamento indica que educação não é o tema social mais abordado pela Folha. Saúde, por exemplo, tem um acompanhamento mais intenso. No ano passado, foram 3.139 textos. Neste ano, o jornal publicou, no primeiro semestre, 2.007 textos referentes à saúde e 887 a respeito de temas educacionais.

O fim do caderno não significa que a Folha vá abandonar a cobertura de educação, mas o caderno tinha uma pauta bem pensada e dava um tratamento mais profundo aos temas escolhidos. Havia a preocupação de questionar o modelo educacional vigente e de discutir modelos alternativos. O último número trouxe extensa reportagem sobre uma pequena escola pública portuguesa que está inovando em termos pedagógicos e tem inspirado várias escolas no Brasil: ‘O segredo de Portugal’.

Segundo Guilherme Canela, coordenador de Pesquisa e Relações Acadêmicas da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi), se o jornal cumprir o que prometeu na nota em que informou o fim do caderno e transferir a cobertura de educação, responsabilidade social e desenvolvimento intelectual para o ‘conjunto do jornal’, o leitor estará até mais bem atendido, porque a abordagem diferenciada se espalhará pelas editorias e não ficará mais restrita a um caderno especializado. ‘O medo que existe é que isso não venha a acontecer.’"

***

"Ainda falta qualidade", copyright Folha de S. Paulo, 4/12/05.

"A Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi), especializada em acompanhar a cobertura que a imprensa faz dos temas relativos à infância e à adolescência, publicou em maio a pesquisa ‘A Educação na Imprensa Brasileira’.

Foram analisados 5.362 textos jornalísticos publicados por 57 diários. Segundo o estudo, a cobertura melhorou muito nos últimos anos, mas ainda apresenta diversos problemas sérios. É uma cobertura centrada em fontes e anúncios oficiais, com mais espaço para o ensino superior (graduação e pós-graduação) do que para os níveis básico e médio, e carente de contextualização e sofisticação.

O estudo mostra um expressivo crescimento do número de textos jornalísticos dedicados à educação de crianças e adolescentes. Em 1998, os 51 jornais pesquisados publicaram 4.906 textos. No ano passado, foram publicados 35.987 textos em 60 jornais.

A seguir, um trecho da conclusão da pesquisa.

‘Os dados (...) reunidos constroem o cenário geral de uma cobertura marcada pela influência do poder público e centrada em problemáticas e temas muito localizados, os quais, para agravar a situação, costumam ser tratados de modo descontínuo, fragmentado e descontextualizado das conceituações mais avançadas de educação e das políticas públicas em vigor no Brasil.

Ao priorizar temas como o acesso ao ensino superior e este nível de ensino, a imprensa acaba por deslocar a atenção dos leitores de questões estruturais, que exigem uma mobilização e um debate público até para que se crie um clima de pressão no sentido das mudanças e dos ajustes, que se fazem necessários a fim de assegurar a todos os brasileiros uma educação de qualidade.

Trata-se de uma cobertura que, apesar de inegáveis méritos -entre eles o aumento constante da quantidade de textos publicados e a diversificação de enfoques e fontes (graças à incorporação de outros atores da área educacional, além do governo)- ainda requer um esforço no sentido de construir e transmitir uma informação de qualidade, que permita ao leitor se situar e se posicionar em meio à complexidade que caracteriza a educação.’"

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