CRISE NO JUDICIÁRIO

Movimentações suspeitas

Por Luciano Martins Costa em 13/01/2012 na edição 676

Comentário para o programa radiofônico do OI, 13/1/2012

 

A crise no Judiciário ganha uma dimensão sem retorno. A revelação de que 3.426 magistrados e servidores realizaram, em dez anos, movimentações bancárias atípicas no montante de R$ 855 milhões coloca o problema em um patamar que trascende a reles disputa entre entidades corporativistas e o correspondente órgão de controle externo.

O que são movimentações atípicas? No geral, são operações de depósito ou retirada de valores que extrapolam em muito a média da conta bancária. Alguns exemplos: em 2002, um personagem relacionado ao Tribunal Regional do Trabalho da 1ª Região, no Rio de Janeiro, movimentou a quantia de R$ 282,9 milhões. Em 2008, três pessoas, duas ligadas ao Tribunal de Justiça Militar de São Paulo e uma ao Tribunal de Justiça da Bahia, movimentaram R$ 116,5 milhões.

Essa é a origem da controvérsia que opõe o Conselho Nacional de Justiça e entidades representativas do Poder Judiciário e que envolve até o Supremo Tribunal Federal. Como se sabe, duas decisões liminares tomadas no final do ano passado, pelos ministros Marco Aurelio Mello e Ricardo Lewandowski, interromperam investigação do CNJ sobre essas operações suspeitas. A alegação dos autores da ação, dirigentes da Associação Brasileira de Magistrados, era de que teria havido quebra de sigilo fiscal de juizes e funcionários de tribunais.

Os jornais desta sexta-feira, dia 13, colocam uma pedra sobre o argumento da entidade representativa dos magistrados. As movimentações atípicas são um claro indício de irregularidade que precisa ser esclarecido o mais rapidamente possível e com a maior abrangência. Um país democrático não pode funcionar devidamente se os poderes da República não se submeterem ao escrutínio da sociedade.

Se, por princípio, todos os juizes e funcionários do Judiciário devem ser considerados inocentes até prova em contrário, os registros de movimentações financeiras mais do que atípicas – espantosas – exigem que o Conselho Nacional de Justiça retome a investigação, com apoio inequívoco das entidades representativas da Magistratura.

Só assim poderá ser revertido o efeito que o noticiário sobre o assunto está certamente sendo produzido na opinião pública. Afinal, essas movimentações podem ser atípicas e legais.

Se a necessidade de resguardar a independência e a segurança dos operadores da Justiça impõe certos benefícios que podem ser vistos por muita gente como regalias inadmissíveis, a tentativa de blindar o Judiciário e torná-lo imune ao controle externo apenas justifica essa percepção.

Sexta-feira, 13

O mais interessante da notícia que aparece em destaque nos jornais é que a constatação das movimentações multimilionárias foi feita por um organismo que foi criado por inspiração de alguns magistrados. O Coaf – Conselho de Controle de Atividades Financeiras – foi instalado no Ministério da Fazenda com a contribuição de juizes empenhados no combate à lavagem de dinheiro. Faz parte de compromissos assumidos pelo Brasil em acordos internacionais destinados a monitorar as finanças do terrorismo, do crime organizado e da corrupção.

Do total de R$ 855 milhões em transferências atípicas identificadas em contas movimentadas por integrantes do Judiciário, nada menos do que R$ 274,9 milhões foram feitas em dinheiro vivo, entre os anos de 2003 e 2010. Não há hipótese, em um país que se queira considerar sério, que tal constatação fique sem uma explicação oficial e satisfatória, centavo a centavo.

A alegação de que o Conselho Nacional de Justiça teria agido de forma abusiva, desrespeitando o sigilo fiscal de milhares de funcionários e juizes – aceita pelo ministro Lewandowski ao conceder a liminar que interrompe a investigação – fica sem esteios. O que dizem os jornais, sem dissimulações, é que algo de muito estranho – para dizer o mínimo – anda ocorrendo em certos tribunais.

Outra questão – uma aquisição supostamente irregular feita pelo Conselho Nacional de Justiça, notícia claramente plantada na imprensa para confundir a pauta principal – também precisa ser esclarecida. Mesmo que o departamento de compras, o setor de informática ou quem quer que seja, tenha favorecido esta ou aquela empresa, isso não afeta a credibilidade do CNJ no que se refere à sua função principal, a se julgar pela maneira como os jornais isolaram uma notícia da outra. Nada pode desviar as atenções do fato central e esse fato central é a necessidade, mais uma vez comprovada, de que todos os poderes da República precisam ser submetidos a controle externo.

A constatação de que a imprensa age de forma independente, sem se deixar intimidar pelo discurso de figuras poderosas do Judiciário, é um sinal auspicioso. A primeira sexta-feira 13 do ano 2012 – este sobre o qual se repetem profecias apocalíticas – está longe de ser um dia de maus agouros. Talvez seja, sim – para aqueles que a presidente do CNJ, Eliana Calmon, chamou de “bandidos de toga”.

Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade e a pluralidade de idéias e de pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem a intolerância ou o crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Mensagens que não atendam a essas normas serão deletadas - e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.

ATENÇÃO: Será necessário validar a publicação do seu comentário clicando no link enviado em seguida ao endereço de e-mail que você informou. Só as mensagens autorizadas serão publicadas. Este procedimento será feito apenas uma vez para cada endereço de e-mail utilizado.

Nome

  Sobrenome
 
     
E-mail   Profissão
 
     
Cidade   Estado
 
     
Comentário   Confirme o código da imagem

1400
 
Recarregar imagem
   
   
   

 

 Marcio Mascarenhas
 Enviado em: 13/01/2012 13:28:16
Em 2001,um isqueiro da marca Cricket explodiu ainda dentro do estabelecimento em que eu o havia adquirido,perdi a vista direita; várias testemunhas presentes -.Este meu acidente motivou uma lei já sancionada pelo Governador e proposta pela Deputada Cidinha Campos e que regula a exposição correta e o aviso que hoje vem colado nos isqueiros.Após 5 longos anos o juiz que presidia o processo me encaminhou para um perito judicial que alegou não possuir equipamentos para a perícia.O juiz então deu ganho de causa à multinacional. O estranho é que o meu advogado no mesmo mês da sentença adquiriu uma mansão,trocou de carro e nunca mais quis falar comigo;o juiz não quis ouvir as testemunhas do ocorrido não me encaminhou para outro perito,ignorou o laudo que fiz em uma conceituada clínica de Ipanema etc etc(o resto nem preciso relatar). Na verdade perdi a visão de um olho mas quantos de nós brasileiros não teriam uma história parecida para contar?
 Célia Soares Marques
 Enviado em: 13/01/2012 14:28:28
Será que como afirma a própria Justiça "a Lei é para todos"? Todo o apoio ao CNJ ainda é pouco.
 José de Almeida Bispo
 Enviado em: 13/01/2012 15:16:11
Isso aí não é nada! Sequer a ponta do iceberg. Ou suas "magnificências", os "ouvidores-mores", se submetem à vida republicana ou vamos ter de aturá-los - uns fazendo e outros calando - o que faziam e mais fizeram com grandeza os ouvidores-mores dos tempos do confisco aos jesuítas. E o país continuará como campeão de corrupção porque, quanto mais dinheiro em circulação maior a tentação e maior a possibilidade da perda da vergonha. Não existe nenhum homem honesto que não necessite de saber que há outro o vigiando.
 RODOLFO FARIAS
 Enviado em: 13/01/2012 22:05:25
É como eu sempre digo,só há dois culpados desse país ser o que ele é,um é a própria sociedade e o outro é o judiciário que não cumpre com o seu papel.Também pudera olha pra nós como se fossemos um reles mortal e eles são os que tem o sangue azul dos reis.Percebo que a mídia só valoriza a profissão de magistrado pelo status e pelo salário,nesse caso mais grandioso do que imaginávamos,e não pelo seu papel tão importante na sociedade já que ela está ali porque estudou muito,não caiu de paraquedas.Toda vez que vejo isso me lembro do meu pai e do pai dele,que não tiveram a oportunidade de ler e escrever,mas aprenderam a ser honrados ter vergonha e caráter.E é nesse dois homens que me inspiro pra dizer que posso até morrer pobre,mas deixo meu limpo, porque quero viver um sendo sempre um homem honrado.
 Teócrito Abritta
 Enviado em: 13/01/2012 23:50:18
A corrupção judiciária que tem levado membros de tribunais superiores às páginas policiais de nossa imprensa é uma das maiores ameaças à nossa sociedade, já que esta cúpula judiciária é que garante a impunidade generalizada nos três poderes. Temos que agir com firmeza, não admitindo estas firulas jurídicas através da quais muitos se escondem. Afinal, são mediocridades com poder absoluto. Um bom exemplo vem da década de sessenta quando alguns professores da USP se candidataram a ministrar cursos noturnos. Uns posteriormente reivindicaram uma série de benefícios salariais alegando que além de trabalharem durante o dia, ficavam sobrecarregados com as aulas noturnas. A congregação da USP decidiu que isto era uma inverdade. Com o golpe de 64, uma dessas mediocridades virou Ministro da Saúde e outra Ministro da Justiça. Acabaram ganhando a questão por via judicial, recebendo indenizações milionárias. Assim como hoje perseguem Juízes da grandeza de um De Sanctis ou de uma Eliana Calmon, na época promoveram um festival de cassações e perseguições políticas nos meios científicos e universitários. Logo não podemos admitir, se estamos em uma democracia, que o foro privilegiado e o segredo de justiça sejam usados como escudo para tais infâmias. Para este caso os ditos populares: “quem não teme não deve” ou “só tem direito quem anda direito”.
 Luciano Prado
 Enviado em: 14/01/2012 00:00:11
Marcio Mascarenhas - 13/01/2012 13:28:16 - Sua denúncia é caso típico de acolhimento pelo CNJ. A Constituição atribuiu poderes ao Conselho para receber diretamente da população denúncias desse tipo. E é exatamente aí que reside a polêmica. Ministros do STF e desembarcadores querem retirar do CNJ esse poder de receber denúncias diretamente da população. Querem que as Corregedorias regionais façam esse papel com exclusividade. É sabido, entretanto, que o corporativismo e outros interesses inconfessáveis têm tornado as Corregedorias regionais num órgão inoperante, omisso e preocupadas em encobrir malfeitos.
 Fábio de Oliveira Ribeiro
 Enviado em: 15/01/2012 10:33:21
Juiz pilantra não é um instrumento de civilização, mas o fermento da barbárie. Se eles fazem "injustiça com as próprias mãos", porque a população não deveria seguir seu exemplo? Estes pilantras togados não querem conviver harmoniosamente com a Lei e sob a mesma, portanto, não devemos dar-lhes trégua, quartel ou perdão. PAU NELES SEM DÓ!
 Marcio Mascarenhas
 Enviado em: 15/01/2012 19:33:36
Meu caro Luciano Prado; òtimo seria se averiguassem as movimentações bancárias do juiz do eu processo,ele nunca poderia imaginar que algum dia,num futuro remoto alguém iria levantar alguma suspeita sobre a atuação ilícita de algum magistrado;isso levantado(as movimentações),talvez se pudesse fazer justiça. Sou natural de Minas Gerais e desnecessário escrever o lema de nossa bandeira e o que os dizeres representam. Abraços

Luciano Martins Costa

luciano@revistaadiante.com.br

RADIOLUC

JORNALISMO ONLINE

Quem manda é a audiência

Luciano Martins Costa | Edição nº 695 | 25/05/2012 | 0 comentários

CÓDIGO FLORESTAL

À espera da decisão de Dilma

Luciano Martins Costa | Edição nº 695 | 24/05/2012 | 2 comentários

ONTEM & HOJE

A imprensa e o mercado de escravos

Luciano Martins Costa | Edição nº 695 | 23/05/2012 | 1 comentários

FACEBOOK EM BOLSA

O mercado de fantasias

Luciano Martins Costa | Edição nº 695 | 22/05/2012 | 0 comentários

LEITURAS DO ESTADÃO

A História em bits

Luciano Martins Costa | Edição nº 694 | 21/05/2012 | 2 comentários

Ver todos os textos desse autor