SENSACIONALISMO

Mulheres bandidas na mídia

Por Ligia Martins de Almeida em 25/03/2008 na edição 478

Duas mulheres foram destaque na mídia na semana passada: a goiana que foi presa por torturar meninas em sua casa e a cafetina brasileira deportada dos Estados Unidos depois de fazer parte da investigação que resultou na renúncia do ex-governador de Nova York.

Essas duas mulheres bandidas parecem satisfazer os requisitos da mídia para falar de mulheres: uma porque é um verdadeiro monstro e, a outra, porque se envolveu num escândalo sexual com uma autoridade.

O crime da goiana tinha que ser denunciado. Mas os leitores poderiam ser poupados dos detalhes sórdidos e cruéis envolvendo crianças, não precisavam ver a foto da criança algemada. Embora tenha o rosto disfarçado por efeitos de Photoshop, é possível identificar a menina ilustrando a matéria "Detalhes do drama que chocou o País" (O Estado de S.Paulo, 24/3/2008).

Em vez de se deliciarem relatando a tortura a que as crianças eram submetidas, os jornais poderiam fazer matérias mostrando por que mães bem-intencionadas entregam os filhos para estranhos com a esperança de que tenham uma vida melhor. Mas os pauteiros dirão que não é isso que os leitores querem. Dirão que os leitores gostam de tragédia e não estão dispostos a ler matérias que obrigam a pensar. Nesses tempos de reality shows e culto a celebridades, até os jornais mais sérios parecem ter aderido de vez ao sensacionalismo.

"Sensualidade" e voyeurismo

Sensacionalismo que acaba transformando uma ex-presidiária, que corria o risco de pegar pena de prisão perpétua, em celebridade instantânea. Na matéria "Volta ao Brasil a capixaba que derrubou o governador de Nova York" (Estado de S.Paulo 24/3/2008), ficamos sabendo sobre as condições de viagem da deportada, suas finanças e a expectativa da família.

A Folha Online (24/03/2008), preferiu um enfoque um pouco mais apimentado. Na matéria "Cafetina diz sentir pena de prostituta que saía com governador de NY", relata o comentário que ela fez aos jornalistas:

"`Vou esclarecer toda a verdade´, disse Andréia no saguão do aeroporto. `Lá fora todo mundo é corrupto´, completou. Assediada pela imprensa, a cafetina disse: `Eu amo todos vocês´, sem dar entrevista. Segundo a Polícia Federal, ela preencheu um formulário sobre sua deportação e foi liberada. De acordo com o tablóide nova-iorquino Daily News, que a acompanhou no vôo até São Paulo – vôo esse em que também estava Pelé –, Andréia disse sentir `pena de Ashley Alexandra Dupre, a prostituta de 22 anos que tinha encontros com Spitzer´".

Os dois casos deverão continuar rendendo matérias na próxima semana. A torturadora goiana, com toda certeza, terá vida mais curta na mídia. Se não houver mais crianças para denunciar maus-tratos, a mídia vai perder o interesse. Já a prostituta cafetina terá vida mais longa. Além do prometido livro, podemos esperar fotos explícitas na Playboy, que não perde chance de explorar a "sensualidade" feminina e o voyeurismo de seus leitores.

***

Jornalista

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 Marcelo Ramos
 Enviado em: 26/03/2008 14:05:36
É, vivemos em um mundo de valores tortos. Os adjetivos "legal" e "politicamente correto", viraram sinônimos de chato, boring, tedioso. Ao publicar os detalhes da tortura, os jornalões se igualaram aos jornalecos de periferia, que pingam sangue diariamente. E a cafetina já recebeu exposição suficiente pra cobrar cachê por entrevista. O tais 15 minutos de fama estão sendo cada vez melhor premiados...
 Marcelo Ramos
 Enviado em: 27/03/2008 17:49:16
É, mais um conceito ficou relativizado. Quem é mais bandido, o jornalista que plantou a história no NYP ou a mulher, que agora conseguiu contrato com a Playboy? Engraçado, o povo não percebe mas está sendo enrolado. Existe falta de conteúdo, então a gente cria. Pensei que isso fosse tarefa da publicidade, não dos jornalistas.
 Patrícia Valino
 Enviado em: 30/03/2008 15:55:51
Mães bem-intencionadas? Heloooooo minha senhora, aquilo lá era uma mulher em estado de miséria fazendo filho pra poder vender por um trocadinho, tamanho o caos social deste país causado pela deseducação massiva deste povo. A mãe da garota cometeu crime sim, embora embora a pobreza em que vive torne a coisa toda mais triste apenas. Quanto à madame, a quem estão se referindo como cafetina sei lá por que (o bordel era dela?), alguém já andou falando por aí que uma colunista de fofoca, ops, social, fez uma pesquisazinha básica e já descobriu que se trata de rematada mentirosa oportunista, que não teve nenhum envolvimento real com o caso Spitzer e que já estava presa muito antes disso tudo estourar. Deviam era ir atrás disso. Até porque a malandra está querendo dar a volta na imprensa, cobrando pra dar entrevista... Vaidosos e vingativos como são os jornalistas, deviam apurar se essa história é mesmo verdade e se for, espinafrar a malandra. Talvez só estejam esperando ela ficar mais famosinha, e espalhar suas mentiras, antes de dar o golpe de misericórdia.
 Hélcio Lunes
 Enviado em: 31/03/2008 18:33:00
Cara jornalista: Digite no Google apenas duas palavras, "loura egua" e você encontrará mais exemplos de "mulheres bandidas" abordadas pela mídia!
 Marco Antônio Leite
 Enviado em: 31/03/2008 20:03:06
Nem toda mulher é "normal". Nem toda mulher tem marido, Nem toda mulher é casada. Nem toda mulher tem filho. Nem toda mulher cuida bem de sua cria. Nem toda mulher é ruim. Nem toda mulher tem condições para criar sua prole. Nem toda mulher é bandida. Nem toda mulher é largada. Nem toda mulher é bondosa com companheiro e filhos. Nem toda mulher tem coragem de torturar uma criança. Nem toda mulher é cafetina. Tirando as poucas desvairadas, as mulheres são meigas, carinhosas, bondosas, amigas e cuidam do macho dependente da sua força descomunal de seu trabalho com muita competência e amor. Viva as mulheres de boa vontade!
 Alexandre Weiss
 Enviado em: 02/04/2008 04:54:14
Logo a cafetína virará celebridade como aquela tal de surfistinha LAMENTÁVEL. Chega de vida medíocre e chata, só com o Socialismo teremos uma sociedade mais próspera mais viva e mais harmoniosa VIVA O SOCIALISMO REVOLUCIONÁRIO!!!!!!

Ligia Martins de Almeida

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