INSURGENTES OU TERRORISTAS?
Não se faz jornalismo sem dar nome aos bois
Por Alberto Dines em 25/01/2005 na edição 313
O Itamaraty está omisso no caso do engenheiro brasileiro aprisionado pelo grupo iraquiano al-Mujahidin ou é a imprensa que se atrapalha ao relatar com as palavras corretas todos os detalhes do episódio?
As hesitações se completam e baseiam-se na maneira de classificar os perpetradores dos atentados contra civis no Iraque. Para entender esta cumplicidade é preciso examinar como os jornais reagiram aos dois atentados ocorridos em Bagdá na sexta-feira (21/1).
No primeiro deles, um carro-bomba explodiu diante de uma mesquita xiita em pleno feriado muçulmano ( Eil al Adha): 14 mortos e 40 feridos. No mesmo dia, uma ambulância-bomba explodiu numa festa de casamento (também xiita): 7 mortos e 16 feridos.
A Folha de S.Paulo (sábado, 22/1, primeira página) designou os assassinos como "insurgentes". O Estado de S.Paulo (mesmo dia, pág. A 14), em subtítulo, abrandou o glossário habitual e classificou-os como "rebeldes" (num entretítulo, de "insurgentes"). Já O Globo (mesmo dia, pág. 31, em subtítulo) não teve meias-palavras: preferiu enquadrar os responsáveis como "terroristas".
Desinteresse e desatenção
Segundo o Aurélio, insurgente é o rebelde, revoltoso; insurreição é uma oposição violenta ou veemente. Portanto, um insurrecto não seria necessariamente criminoso; dependendo da causa, pode ser até uma figura benemérita que se levanta pacificamente para mudar a situação.
O mesmo Aurélio designa o terrorismo como "modo de coagir, ameaçar ou de impor a vontade pelo uso sistemático do terror, forma de ação política que combate o poder estabelecido mediante o emprego da violência".
De posse dessas definições, como qualificar a dupla mortandade acima referida? O assassinato indiscriminado de civis não parece enquadrar-se nos paradigmas de uma insurreição porque as vítimas nada têm a ver com a situação que os autores do atentado querem modificar – uns foram rezar e outros foram festejar as bodas de correligionários.
Na verdade (e isto está em todos os jornais) os assassinos pertencem à minoria sunita que apoiava Saddam Hussein e pretendem intimidar os xiitas dispostos a participar e vencer as eleições do próximo domingo (30/1).
O nome desta intimidação é inequívoco: terrorismo.
E os jornalistas, por desinteresse, desatenção ou mais provavelmente para não serem confundidos com os neoconservadores da Casa Branca, preferem denominá-los como rebeldes ou insurgentes. Como as eleições são do interesse do governo americano (embora supervisionadas pela ONU), todos os atos de oposição ao satânico Bush ficam validados. Inclusive a morte de inocentes.
Correção abandonada
A confirmação do seqüestro do engenheiro brasileiro João José Vasconcellos Jr. pelo al-Mujahidin nos jornais no dia seguinte acionou uma fulminante reviravolta semântica.
A Folha consultou seus manuais e tratados internos e imediatamente passou a designar os seqüestradores como terroristas (sábado, 22/1, manchete de primeira página).
O Estadão entregou-se à perplexidade: na primeira página designa os bandidos como "seqüestradores" e na página interna (A22) como "militantes".
O Globo, arrependido dos critérios adotados na véspera, colou o rótulo de "extremistas" àqueles que antes designara como terroristas.
Na segunda-feira (24/1), a Folha ficou ainda mais brava: abandonou a correção política e mandou bala em manchete: "Terror lança guerra à democracia no Iraque" – sobre o ataque do "terrorista jordaniano" al-Zarqawi ao "princípio da democracia e os que seguem esta ideologia errada".
Parceria semântica
E onde entra o Itamaraty nesta história? Nossa diplomacia deixou de lado os punhos-de-renda e entrou no negócio dos panos-quentes. Se a imprensa e a opinião pública brasileira reagirem ostensivamente contra o terrorismo, nossos diplomatas podem se sentir constrangidos a adotar uma linha antiterror que periga parecer próxima da política adotada pelo governo Bush.
Negociar com "rebeldes", "militantes" ou "extremistas" fica mais confortável. É politicamente mais correto, não afeta a imagem da política externa "independente". Chamar terroristas de terroristas pode parecer lição encomendada pela professora Condoleeeza Rice.
Tudo bem, diplomatas têm razões e estratégias que escapam à lógica e à moral dos comuns mortais. O que confronta a lógica jornalística é a parceria entre grandes jornais e os interesses políticos de governos. Sobretudo em questões que podem comprometer a vida de um cidadão inocente.
Mesmo que estejamos diante de uma parceria semântica, jornais não podem abrir mão dos compromissos de buscar a verdade.
Dar nome aos bois é o principal deles.
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| Fabio de Oliveira Ribeiro |
| Enviado em: 25/01/2005 16:37:04 |
Intrigante o que está ocorrendo na imprensa brasileira quando aborda os incidentes no Iraque. Na TV os iraquianos insatisfeitos são geralmente chamados de "terroristas". Já em relação aos americanos não há uma unanimidade. Alguns telejornalistas referem-se aos "american soldiers" como "tropas de libertação" e outros como "tropas de ocupação". Dines refere-se ao tratamento dado à questão nos jornais escritos, que oscilam, ao referir-se aos iraquianos, entre "insurgentes" e "terroristas". Alerta-nos que os atentados estão sendo praticados pela facção que estava no poder e que o mantinha à força antes da invazão americana. Será que justifica desta maneira a invasão? Na verdade todos os nossos conceitos estão em xeque. Como estamos acostumados a compreender as coisas por meio de pares opostos, ficamos tentados a compreender o processo de desconstrução do poder político do Partido Baath no Iraque como "terroristas x libertadores" ou "insurgentes x invasores". Mas creio que estamos diante de um fenômeno mais complexo, o que confunde os termos. Os EUA interferiram no processo político de outro país usando mentiras para recorrer à força bruta. Mantêm tropas estacionadas na região, realizou e ainda realiza operações militares de envergadura. Portanto, os soldados americanos podem ser chamados de "tropas de ocupação". Mas isto não quer dizer que as pessoas que estão promovendo atentados possam ser chamadas de "insurgentes". É que a insurgência pressupõe a legitimação dos atos de resistência (à semelhança do que ocorreu na França, Polônia e Sérvia durante a Segunda Guerra Mundial. Sob nossa ótica ocidental, os iraquianos que recorrem à violência contra a invasão americana não defendem valores como "liberdade" e "democracia", portanto, podem ser chamados de "terroristas". Mas serão mesmo terroristas sob a ótica islâmica? Na verdade, em razão de não partilhar o mesmo referencial cultural que os iraquianos, não estamos capacitados para entendê-los. O processo político num Estado islâmico centralizado controlado por guilda, família ou tribo não tem paradigma em nossa civilização ocidental laica e democrática. É justamente por isso que os jornalistas ficaram como "birutas" ao vento de suas próprias preferências e preconceitos. |
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