RESPONSABILIDADE SOCIAL

O desvelamento de Paulo Freire

Por Alfredo Vizeu e Heitor Rocha em 18/01/2011 na edição 625

O jornalismo é um campo de conhecimento. Não há a menor dúvida sobre isso. A questão é: que tipo de conhecimento? Há muitos anos teóricos vêm refletindo sobre o tema. Em comum, todos defendem que o jornalismo deve ter a preocupação de contribuir para a orientação no mundo. O que de certa forma o coloca entre algo além do senso comum e próximo do rigor científico.

Particularmente, entendemos que Paulo Freire fornece uma série de trilhas e caminhos para pensarmos o jornalismo e tem muito a nos ajudar. Vamos seguir seu caminho e apropriar-nos de suas reflexões para pensar o jornalismo como uma forma de conhecimento. Conhecimento que é um revelar. O papel social do jornalista e do jornalismo como um dispositivo de mediação é de dessegredação (revelação de segredos) e exposição da verdade. Acrescentamos: a "verdade jornalística". Dentro desse contexto, a preocupação do jornalismo é a interpretação da realidade social. Não é preocupação do jornalista, não deve ser, o que acontece na intimidade das consciências nem na profundidade do inconsciente.

Como observa o professor espanhol Lorenzo Gomis, catedrático da Universidade de Barcelona, a interpretação jornalística contribui, permite, decifrar pela linguagem a realidade das coisas, o que acontece no mundo e se complementa com o esforço de significação, também interpretativo, procurando ajudar homens e mulheres na compreensão do mundo que os cerca. Evidentemente, para desempenhar esta sua missão mais nobre, o jornalismo não pode prescindir de sua dimensão educativa, se constituindo em instrumento para construção de um mundo melhor, para usufruto de uma vida menos ameaçada.

A ética é da essência dos procedimentos jornalísticos

Nessa perspectiva, a desvelação dos fatos – a retirada do véu que envolve as tensões e os conflitos da realidade – proposta por Paulo Freire é de fundamental importância na investigação jornalística. Desvelamento que está intimamente ligado à tomada de consciência. Isso porque, como observa Freire, a conscientização produz desmitologização. O trabalho do jornalista deve ter como centralidade "tirar o véu que encobre a realidade", sem a pretensão de acesso à verdade absoluta e com a humildade da consciência que se sabe falível, pois a onisciência não é uma possibilidade humana. Como enfatiza Freire, o trabalho humanizante não pode ser outro senão o de ampliar o diálogo. Nesse sentido, o olhar da conscientização é o mais crítico possível das facetas do mundo da vida, procurando contribuir para o desvelamento da perversidade do processo de alienação que transforma o ser humano, potencialmente sujeito da sua história, em coisa, mercadoria com valor de troca, cada vez mais aviltado pelo discurso naturalizador das elites dominantes, que continua mantendo a ilusão de uma realidade imutável, inexorável, que não tenha a autoria humana e não possa ser transformada.

Dentro desse contexto, a realidade a que se refere a interpretação jornalística é a realidade social possível no cenário das estruturas de relevâncias existentes e, assim, o jornalismo se constitui num lugar de referência e orientação para que as pessoas participem das coisas que acontecem no mundo, podendo fundamentar racionalmente suas ações mesmo diante da crescente complexidade da sociedade contemporânea.

Por isso, acreditamos que a seriedade e a competência do jornalista no processo de produção da notícia são fundamentais para a qualidade do jornalismo. O jornalista que seja tentado a abrir mão do rigor do método esquece o respeito ao outro. Se há rigor no método de investigação no jornalismo, a notícia se aproxima da universalidade e se faz inteligível e inclusiva para o maior número possível de pessoas, através de uma postura ética diante da diversidade de versões que formam a realidade dos acontecimentos. A ética é da essência dos procedimentos jornalísticos. Por isso, é importante refletirmos sobre a responsabilidade do jornalismo na sociedade atual, em particular na nossa, com seus grandes abismos sociais.

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Jornalistas e professores do Departamento de Comunicação da UFPE

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