ANOS JK

O escriba do presidente

Por Luís Nassif em 26/02/2006 na edição 370

O velho escritor mora em um apartamento em uma rua pequena de Botafogo. Escreve no computador, fuça na Internet, mas não recebe nem manda e-mails. Mantém os mesmos termos e o mesmo sotaque mineiro, que ajudaram a consagrá-lo como grande escritor. E mantém muitas lembranças de Juscelino Kubistcheck, com quem foi trabalhar, ele ainda governador de Minas, por ser escritor e taquígrafo. Autran Dourado não foi o único escritor a cercar um presidente que adorava escritores.

Eleito governador do estado, JK chamou Cristiano Martins (tradutor do Dante e Wilke) e pediu:

– Cristiano, preciso de um taquígrafo que seja ao mesmo tempo um escritor.

– Única pessoa com esse perfil é o Autran Dourado.

O Chefe da Casa Civil era Ciro dos Anjos, tinha também Alphonsus Guimarães Filho. Depois que se tornou presidente, a equipe de JK tinha Álvaro Lins, Chefe da Casa Civil, Cristiano Martins, Secretário Particular, Ciro dos Anjos, Sub-Chefe da Casa Civil, assim como Josué Montello.

Juscelino era culto? E Autran, com a perspicácia típica dos mineiros: "Ele não exagerava". Estudou medicina na França, fez um curso de extensão, por isso falava o francês com facilidade. Quando se tornou presidente passou a estudar inglês, para evitar muito intérprete nas conversas com os visitantes estrangeiros.

Autran confirma que o Plano de Metas começou a ser escrito depois de JK eleito. No curto espaço de tempo entre a eleição e a posse, Roberto Campos e Lucas Lopes mandaram ver. Campos já tinha as idéias da cabeça; Lucas Lopes, a metodologia de projetos que trouxera da Cemig e aperfeiçoara na Consultec. O plano mesmo foi de Roberto Campos, conta Autran. Lucas e JK ficaram com a execução.

A grande eminência parda do governo JK foi o poeta e empresário Augusto Frederico Schmidt. Autran sentia que JK tinha medo do brilho do Schmidt. Os melhores discursos de JK eram preparados por Schmidt, mas passavam pelo crivo de Autran, incumbido de lhes conferir uniformidade e extirpar algum exagero retórico ou algum contrabando não combinado.

Nessa atividade, Autran começou como oficial de gabinete e terminou como Secretário de Imprensa de JK e testemunhou um episódio relevante.

Schmidt era um liberal radical. Assim que JK assumiu, recebeu em visita John Foster Dulles, homem forte de IKE [Dwight D. Eisenhower, presidente dos Estados Unidos], truculento como um pitbull. Na conversa, queria de toda forma convencer JK a fazer uma declaração anti-comunista. Na prática, significaria esfacelar a Operação Panamericana –uma tentativa de criar uma política externa única no continente, criação de Schmidt. Na época, Schmidt constituiu um grupo, à margem do Itamaraty, composto por pessoas como Araújo Castro, Celso Souza e Silva, João Rio Branco, e Autran Dourado.

Com a resistência de JK, Dulles achou melhor que o próprio IKE visitasse o Brasil, para prevenir eventuais crises com os EUA. Na conversa, IKE propôs uma espécie de Plano Marshall para o continente, mas com uma condição: os EUA não emprestariam um tostão para investimento em empresas estatais. A negativa tinha endereço certo: a Petrobrás, ainda em processo de consolidação.

Coube a Schmidt reagir contra a imposição. Logo ele que já havia assinado vários artigos contra a Petrobrás. Quando Autran saiu da sala de reunião, onde se encontravam JK e IKE, e comunicou a Schmidt a imposição norte-americana, a resposta foi fulminante:

– Fala para o Juscelino que se ele assinar esse acordo pego o boné e vou embora.

Autran considerava Schmidt um injustiçado, acusado de se aproveitar das relações do governo para turbinar seus negócios. O poeta-empresário, na verdade, ganhou grande poder de fogo com sua influência sobre a Cexim (a Cacex da época), órgão incumbido de emitir licenças de importação. Graças a esse poder, conseguiu se tornar sócio de uma dezena de empresas, junto com Lulu Aranha, irmão de Oswaldo Aranha – a quem acusavam de estar por trás dos negócios.

Provavelmente não. Coube ao próprio Aranha acabar com o poder da Cexim, ao criar o sistema de leilão de câmbio. De qualquer modo, todo dinheiro acumulado por Lulu e Schmidt tiveram uma grande destinação social: o glorioso Clube de Regatas Botafogo.

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 maria edna arcoverde cals
 Enviado em: 11/09/2009 13:16:11
Caríssimos, srs. ainda menina, meus pais amigos do casal NADYR/CHRISTIANO MARTINS, lembro do baile no ITAMARATY, quando o presidente foi eleito, e, no aptº no FLAMENGO, pude compartilhar desse momento histórico inesqucível!!! Lembro, da casaca do DR.CHRISTIANO, das entrevistas que alí mesmo, êle concedia, da Dna. NADYR, alinhadérrima!!! e, nós alí reunidos, olhando a TV, e, os tempos passaram...meus pais faleceram há mais de 30 anos..e, tudo muito marcante!!! gostaria de saber notícias do casal de amigos. cordialmente, agradeço maria edna arcoverde cals

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