DIREITOS HUMANOS

O jornalismo derrotado

Por Marcos Rolim em 12/01/2010 na edição 572

A julgar pelos noticiários, um fantasma assola o Brasil: o Programa Nacional de Direitos Humanos em sua terceira versão (PNDH-III). Todas as potências da Santa Aliança unem-se contra ele: setores da mídia, políticos conservadores, o agronegócio, os militares e a cúpula da Igreja. Os críticos afirmam que o programa propõe a "revisão da Lei de Anistia", que é autoritário ao propor "controle sobre os meios de comunicação", além de ser "contra o agronegócio". Radicalizando, houve quem – fora dos manicômios – identificasse no texto disposição por uma "ditadura comunista". É hora de denunciar esta farsa onde a desinformação se cruza com o preconceito e a manipulação política.

Auxiliei a redigir o texto final do Programa, juntamente com os professores Paulo Sérgio Pinheiro e Luiz Alberto Gomes de Souza. A parte que me coube foi a da Segurança Pública, mas participei de todos os debates. Assinalo, assim, que a 11ª Conferência Nacional de Direitos Humanos havia proposto uma "Comissão de Verdade e Justiça"; nome que traduzia a vontade de "investigar e punir" os responsáveis pelas violações durante a ditadura. O PNDH-III, entretanto, propôs uma "Comissão da Verdade", porque prevaleceu o entendimento de que o decisivo é a recuperação das informações, ainda sonegadas, sobre as execuções e a tortura.

Prática democrática

O Programa não fala em "revisar a Lei da Anistia"; pelo contrário, afirma que a Comissão deve "colaborar com todas as instâncias do Poder Público para a apuração de violações de Direitos Humanos, observadas as disposições da Lei nº 6.683, de 28 de agosto de 1979". Para quem não sabe, a lei citada é a Lei de Anistia. A notícia, assim, era o afastamento da pretensão punitiva. O caminho escolhido, como se sabe, foi o oposto; o que não assinala informar mal, mas desinformar, simplesmente.

No mais, é interessante que os críticos nunca tenham se manifestado quando, no período do presidente Fernando Henrique Cardoso, propostas muito semelhantes foram apresentadas. Senão vejamos: no que diz respeito aos conflitos agrários, o PNDH-I (1996) já propunha "projeto de lei para tornar obrigatória a presença no local, do juiz ou do Ministério Público, no cumprimento de mandado de manutenção ou reintegração de posse de terras, quando houver pluralidade de réus, para prevenir conflitos violentos no campo, ouvido também o Incra". O PNDH-II, seis anos depois, repetiu a proposta.

Qual a novidade, neste particular, do PNDH-III? Apenas a ideia de mediação dos conflitos; prática que tem sido usual e que seria institucionalizada por lei. A senadora Kátia Abreu, então, pode ficar tranquila. Se o governo apresentar o projeto, ela terá a chance de se posicionar contra a mediação de conflitos e exigir que o tema seja resolvido à bala, como convém a sua particular concepção de democracia.

Reação vexatória

Quanto à reação ao tal ranking de veículos comprometidos com os direitos humanos, o assombro é ainda maior, porque o primeiro PNDH trouxe a ideia de: "Promover o mapeamento dos programas de rádio e TV que estimulem a apologia do crime, da violência, da tortura, das discriminações, do racismo, [...] e da pena de morte, com vistas a [...] adotar as medidas legais pertinentes". A mesma proposta foi repetida no PNDH-II.

Assinale-se que o PNDH-II propôs, além disso: "Apoiar a instalação do Conselho de Comunicação Social, com o objetivo de garantir o controle democrático das concessões de rádio e TV [...] e coibir práticas contrárias aos direitos humanos" e "Garantir a fiscalização da programação das emissoras de rádio e TV, com vistas a assegurar o controle social [...] e a penalizar as empresas [...] que veicularem programação ou publicidade atentatória aos direitos humanos".

Uau! Não são estas as armas dos inimigos da "liberdade de expressão"? Mas, se é assim, por que os críticos não identificaram o "ovo da serpente" na época?

Mais uma vez, ao invés de aprofundar o debate sobre as políticas públicas, a maior parte da mídia se deliciou com a reação vexatória dos militares, com o oportunismo da direita e com o medievalismo da Igreja, e o fez às custas da informação, para não variar.

Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade e a pluralidade de idéias e de pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem a intolerância ou o crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Mensagens que não atendam a essas normas serão deletadas - e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.

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 fagner torres
 Enviado em: 12/01/2010 11:32:27
Ler seu artigo foi uma lufada de ar fresco no claustrofóbico ambiente do pensamento único da grande mídia. Parabéns.
 rodrigo aguiar
 Enviado em: 12/01/2010 13:22:15
Hoje de madrugada (12/01), no último Jornal da Bandeirantes foi apresentada uma ampla matéria sobre o Plano. Dizia o apresentador, terrivelmente sério, que esse poderia ser "o primeiro passo para a instalação de um regime de força no Brasil". Não foi só até aí a loucura: o jurista Ives Gandra Martins (segundo a reportagem, autor de mais de 300!!! livros) comentou todos os pontos que o Rolim tocou no texto, obviamente dizendo que estamos a um passo da Revolução Comunista. Tudo SEM CONTRADITÓRIO (o que o jurista de 300(sic) livros acharia disto em um Tribunal, que foi o que aquele jornal virou?). Bem, penso que, se nos últimos dias nós todos, após o caso Boris Casoy, ficamos chocados com a decadência moral do jornalismo da Bandeirantes, acabamos frente a algo ainda pior. Não que isso vá ter grande repercussão social, apenas que sepulta definitivamente a credibilidade do jornalismo daquela emissora. E outros e outros órgãos vão pelo mesmo caminho. Vejam bem, nenhum problema em se opor ao Plano, em debatê-lo. Mas isso que estão fazendo é avacalhação demais, as pessoas não são tão toscas assim, percebem...
 Kaio Almeida
 Enviado em: 12/01/2010 14:25:55
Enquanto isso, nosso digníssimo Alberto Diniz continua a defender que o diploma de jornalismo irá resolver esses descalabros da grande mídia...
 Herman Fulfaro
 Enviado em: 12/01/2010 15:00:00
Realmente assustadora a reação da imprensa golpista. Mais do que um prenúncio ou trailler do que vai acontecer durante a campanha eleitoral, isso tudo é um teste para o poder decisório e/ou capacidade de comando do presidente, que mais um pouco se vê obrigado a requisitar um horário no rádio e na televisão para que o Vanucchi ou ele próprio (que exatamente por essas, e por outras, prefere falar diretamente com o povo), desmintam a onda de boataria e de autêntico terrorismo que a direita ultra-reacionária está querendo implantar. Tenho para comigo que, no fundo no fundo, conhecendo o temperamento do presidente, de alguém que, apesar da elevada popularidade que tem odeia bater de frente e detesta confrontações, que estão apenas falando alto, mostrando garras e dentes para assusta-lo, para fazer com que o governo fique nas cordas... No entanto, se eles continuam dizendo o que querem, sem dar oportunidade de resposta ao governo, então não há saída. Por mais que o Lula não goste acabará sendo forçado a dar um tapa na mesa para baixar essa bola, sob pena de, não o fazendo, desmoralizar-se perante os 31 ministérios envolvidos na elaboração do PNDH-3 e, o que seria ainda mais desastroso, perante o seu mais fiel eleitorado.
 carlos anselmo
 Enviado em: 12/01/2010 15:44:41
a reação da grande mídia foi tão torpe, desonesta e mentirosa que não resta outro adjetivo pra esse tipo de cobertura: jornalismo canalha. parabéns pelo belo texto de indignação.
 José Lira
 Enviado em: 12/01/2010 20:42:08
Rui Barbosa mandou incinerar todos os documentos relacionados com o período da escravidão no país para "apagar uma página manchada de nossa História". É exatamente isso que a mídia quer fazer com esse outro episódio nefasto da História do Brasil. E a ironia é que as Forças Armadas é que deveriam ser as maiores interessadas em denunciar o pequeno grupo de torturadores e terroristas que abusou do poder e desonrou as suas fileiras, a fim de preservar o seu compromisso com a justiça e o amor à pátria.
 Carlos N Mendes
 Enviado em: 12/01/2010 22:25:09
Acabei de ver o assunto no Jornal Nacional. Foi dito que o Governo poderá até cassar concessões de rádio e TV, mas não explicaram porque motivos isso seria feito, e como se isso já não pudesse ser feito hoje. Mas o terror já foi espalhado aos quatro ventos - "Lula vai destruir a imprensa de oposição!" A Globo pode ficar tranquila - a liberdade de omissão de explicação continua e continuará firme e forte no Brasil.
 Marco Freitas
 Enviado em: 13/01/2010 01:03:48
Rpz, Rolim, esses caras são uns doidos... o negócio é o djuabo do dinheiro e sempre vai ser.
 Angelo Azevedo Queiroz
 Enviado em: 13/01/2010 08:58:49
O articulista sabe muito bem que o PNDH III é criticado não pelo que tem de semelhante aos planos anteriores e sim pelos “avanços” e novidades. Ele sabe também que as reações a esses avanços seriam negativas, tanto que , estrategicamente, o governo que acusa herança malditatudo o que ser refere ao governo anterior, pois “nunca antes nesse pais” , de forma inédita, uma medida de governo Lula foi explicitamente colada ao governo anterior e defendida como mera continuação. Essa foi uma estratégia para fazer a coisa descer melhor. Não deu certo. Parece que Lula vai enterrar o Projeto, porque até para o governo o plano e ruim e vai atrapalhar eleitoralmente.
 antonio carvalho
 Enviado em: 13/01/2010 09:28:35
O malfadado decreto praticamente revoga dispositivos da Constituição Federal e estabelece a obrigação de pensamento único no país. É de estarrecer tanta miopia que não enxerga a diversidade de pensamento dos brasileiros. É um diploma legal marcadamente antidemocrático e, curiosamente, aqueles que dizem querer restaurar a democracia são seus autores.
 Angelo Azevedo Queiroz
 Enviado em: 13/01/2010 09:37:33
Nada demais o articulista defender o plano do qual participou e com o qual concorda ideologicamente. Até aí tudo bem. O problema é acusar de desinformação o trabalho da imprensa e de obscurantismo a reação dos militares, quando na verdade o artigo omite dos leitores uma informação preciosa: os militares não são contra a formação da comissão da verdade. Eles são contra uma comissão que quer investigar apenas um lado da história, até porque a verdade é que houve tortura e assassinato dos dois lados. Portanto, quem quer uma comissão da verdade são os militares. O governo quer uma comissão de meia verdade.Mais: o acordo fechado era investigar os dois lados. O governo quebrou o acordo. Quem tem medo da verdade? Quem tem medo que se investigue a história tal como ela se passou?
 eduardo salina
 Enviado em: 14/01/2010 16:56:52
Já que o sr. Marcos Rolim participou da elaboração desse mostrengo ele poderia nos esclarecer quem outurgou a ele e às outras 14 mil pessoas que participaram de todo o processo de montagem dessa revogação da Constituição, o mandato para substituir o Congresso Nacional na função legislativa?
 José Albino
 Enviado em: 15/01/2010 10:36:19
Caro Marcos Rolim, para ficar em uma palavra apenas: BRILHANTE. Parabéns a todos que elaboraram o texto do plano, incluindo voce. E parabéns a todos os articulistas do OI que se comprometem a trazer a informação de forma séria e responsável.
 Izabel Delmondes
 Enviado em: 15/01/2010 15:34:23
Caso queiram, realmente, colocar fatos e verdades à luz de todos, que todos os crimes cometidos, sejam os cometidos pelos militares e pelos guerrilheiros, sejam averiguados e julgados. Controle democrático das concessões de rádio e TV não se faz necessário caso o governo invista seriamente em educação de base, boa formação desde a escola primária até a universidade. O leitor, telespectador, ouvinte ou internauta vai saber muito bem virar a página, trocar de canal, girar o dial ou clicar o mouse. Quanto ao agronegócio, que as invasões sejam coibidas, afinal, são invasões que significa exatamente o que diz: substantivo feminino ato ou efeito de invadir 1 ato de penetrar (em local, espaço etc.), ocupando-o pela força 6 dir.int.pub entrada, sem prévia autorização, de força direito penal. crime que consiste na entrada, sem autorização, em estabelecimento de trabalho com o objetivo de prejudicar as atividades normais ou danificar o próprio estabelecimento. Que o ato de conciliação aconteça antes da invasão, pois o invasor, diante da lei, é um criminoso.
 Arnaldo Costa
 Enviado em: 15/01/2010 16:25:01
Já me acostumei com o nível de desinformação propagado pelo PIG (Partido da Imprensa Golpista).Se intensificou, coincidentemente,de 7 anos para cá.São omissos,cúmplices e coniventes com seus afetos e criaram uma indústria de boatos e crises para frear aqueles que se opõem aos seus interesses.Até a sequência de notícias do JN,da Rede Bobo,é estudada para desfavorecer o atual Governo Federal. Antes ou após uma desgraça segue-se notícias do nosso grande presidente Lula.Dessa forma,evito essas fontes de informação,já que são totalmente tendenciosas e fazem campanha eleitoral descarada para os [ ] e DEMs(ex-PFL,ex-PDS).O problema é que não conseguem reverter o quadro da opinião mundial,que reconhece os grandes avanços que o país vem passando no atual Governo.O Le Monde soltou mais uma matéria totalmente favorável ao novo PNDH.Têm uma sociedade mais evoluída e conseguem enxergar melhor isso.Trechos da notícia(mais ou menos isso):O caso chama a atenção para a exceção do Brasil, único país pós-ditadura na América do Sul que não prestou nenhuma atenção aos seus ex-opressores.A lei de 1979 tinha acobertado os militares,policiais....A forma como este processo vai se encaminhar...neste ano de eleições é crucial e irá mostrar se o Brasil está disposto a olhar o passado de frente para reforçar ainda mais a sua democracia.O texto,o momento todo,esteve do lado da decisão do Governo.
 José Paulo Badaró
 Enviado em: 15/01/2010 16:57:37
O Rolim deve estar estranhando a extrema direita estar aqui se pronunciando aos borbotões, enquanto os lúcidos em geral e o pessoal da esquerda estão aparentemente calados. Não se impressione, as aparências enganam. Seu artigo é bom, esclarecedor, cristalino, e só mesmo as idéias pré-concebidas, que cegam, tolhem a visão e a inteligência, é que impedem que ele seja entendido, isto é, se é que a direita quer entender alguma coisa. Tudo o que se contém no plano está sujeito a ampla e democrática discussão pelo Congresso, e a regulamentação que resultar será, queiram eles ou não, fruto do nosso sistema representativo, de modo que tentar contradizer alguém neste momento seria tolice, pura perda de tempo. Mas pode estar certo que a esquerda e os que não têm o rabo preso com o passado estão bem atentos e de olhos abertos. É que, no momento, realmente dá preguiça gastar a última flor do làcio, tecendo considerações sobre pontos que nem se sabe se serão transformados em lei ou não. Por enquanto é melhor deixá-los às voltas com os moinhos de vento. Ao menos nos divertimos um pouco.
 Odracir Silva
 Enviado em: 15/01/2010 18:27:00
Os textos q defendem o PNDH III usando como fiador os PNDH I e II sao realmente interessantes. Usam parte dos trechos do PNDH I e II, porem nao mostram COMO o PNDH III foi escrito. Ee uma comparacao falha pois partem da premissa q os textos sao iguais pq discutem o mesmo assunto, e nao querem mostrar os detalhes, ou enfoques, as diferencas entre os PNDH. Se nao haa diferencas, entao para q fazer o PNDH III, quemossabi? Ee claro q haa diferencas, o PNDH III, como estaa escrito, jaa faz um juizo de valor de quem sao os culpados durante a ditadura militar, tenta colocar os cumpanheiros das centrais sindicais p/ questoes ambientais (????!!), tenta colocar o EXECUTIVO como mediador da midia. Dai vem ai e o cara q ajudou a escrever e convencer q os tres PNDH sao a mesma coisa... fala serio quemossabi.
 Kiu Ume
 Enviado em: 15/01/2010 21:48:36
O PNDH III tem o mérito de mostrar o que o governo atual pensa. Isto é muito importante! Só que foi feito por um clubinho fechado. É verdade que também os outros dois PNDH assim foi! Todos estão empatados. Agora cabe a cada (e)leitor tirar conclusões e transmitir aos seus deputados/senadores e objetivamente questionar/aprovar cada uma das diferenças. Deve sugerir também, e coibir qualquer ato arbitrário embutido que torne direito de contestar torne-se crime !

Marcos Rolim