DESABAMENTO NO RIO

O júbilo, o luto e as lições

Por Mauro Malin em 27/01/2012 na edição 678

A hipótese mais forte para explicar o desabamento do Edifício Liberdade, no Centro do Rio de Janeiro, tem relação com obras em andamento em dois andares. Remoção de partes estruturais e acúmulo de entulho teriam provocado o colapso da estrutura, segundo engenheiros e professores ouvidos.

Um operário da obra, Alexandro da Silva Fonseca, salvou-se voltando instintivamente para o elevador, que despencou. A estrutura da caixa do elevador impediu que ele fosse esmagado por escombros.

Alexandro tornou-se o personagem mais conhecido da tragédia. Estava feliz porque acreditava ter nascido outra vez e até pretende comemorar duas datas, a do desabamento e a de seu nascimento biológico, não metafórico, em fevereiro.

A nenhum repórter ocorreu perguntar-lhe se, como disseram duas ou três pessoas ouvidas, de fato houvera remoção de algum elemento de sustentação da estrutura.

No Jornal Nacional, a apresentadora Patrícia Poeta acabara de dizer: “(...) uma obra no nono andar é uma das causas mais prováveis desse desabamento. Um sobrevivente do desastre trabalhava exatamente naquela obra. E a forma surpreendente como ele escapou da morte a gente vai ver agora na reportagem de Mônica Teixeira”.

Alexandro estava feliz. E os telespectadores mentalmente sãos estavam felizes com ele. Mas isso não exime o operário de ter participado, com sua humilde atividade, de uma obra que pode ter causado a morte de muita gente. Possivelmente, mais gente do que no incêndio no Edifício Andorinha, em 1986 (20 mortos), também um prédio antigo, situado na Avenida Almirante Barroso, a pouco mais de trezentos metros do Edifício Liberdade.

Felizardo, mas cidadão

O operário não é menos cidadão do que ninguém. Interessa-lhe, como às demais testemunhas próximas ou remotas, entender o que ocorreu, para tirar lições – não foi por implicância malsã que a mídia internacional repercutiu o desastre.

O desabamento teria deixado centenas de mortos se tivesse acontecido três horas antes, quando ainda não se havia encerrado o horário rotineiro do dia de trabalho. Teria sido o acidente mais mortífero da história do Brasil, superado apenas pelo desastre de chuva e imprevidência da Região Serrana do estado do Rio, um ano atrás, que deixou milhares de mortos, muitos ainda soterrados em lugares que não foram escavados.

O que aconteceu depois da tragédia em Friburgo, Teresópolis e Petrópolis ensina que a vida ainda vale pouco no Brasil, apesar da transição demográfica em curso, da qual resultará uma escassez de braços e cérebros no mundo do trabalho que o país só poderá enfrentar abrindo (muito) mais as portas para imigrantes. Com as consequências que o episódio dos haitianos no Acre deixa entrever.

Isso vai ocorrer nos próximos trinta, quarenta anos, que são nada em perspectiva histórica ou em análise demográfica.

Luto, emoção, reflexão

O noticiário captou também o luto dos parentes e amigos de pessoas mortas. Entre a exibição de lágrimas ou sorrisos, tão própria do infotainement reinante na televisão e alhures, com que ficamos?

Com nem um, nem outro, se pretendemos obter jornalismo.

Jornalismo não exclui emoção, alvo quase exclusivo do infotainement, mas seu foco é descrever, para informar, e analisar, porque toda informação desperta uma reflexão.

A Folha de S. Paulo (27/1) e o Globo (mesma data) cumpriram melhor a missão.

Entenderam que se abre um capítulo na história da engenharia brasileira. Que, por exemplo, as chamadas autoridades não poderão mais fazer vista grossa, por negligência ou suborno, como até agora, à vontade dos proprietários de imóveis ou responsáveis por eles. Que a condenação da opinião pública, se não da Justiça, as levará a pensar duas vezes antes de “dar um jeitinho”.

Não se entenda que negligência ou suborno vão desaparecer, apenas que serão menos rotineiros, talvez, ou, quem sabe, custarão mais caro, nos dois sentidos (punição mais expedita, no primeiro caso, e somas mais elevadas, no segundo).

Principalmente em São Paulo, no Rio e em mais algumas capitais, existem edifícios altos construídos há décadas. Nunca um deles tinha vindo abaixo como o Liberdade. Os incêndios do Andraus (1972, dez anos depois da inauguração) e do Joelma (1974, três anos depois da inauguração), em São Paulo, provocaram mudanças normativas e de rotinas de fiscalização.

Aprender com os erros

A engenharia vive de sucessos e erros. Henry Petroski (To Engineer Is Human, 1984, não publicado em português) escreveu (em tradução livre):

“Acredito que o conceito de falha – mecânica ou estrutural, no caso – é central para entender a engenharia, já que o projeto de engenharia tem como primeiro e mais importante objetivo prevenir a falha. Os desastres colossais que ocorrem são em última instância falhas de projeto. Mas as lições que eles deixam fazem mais para avançar o conhecimento de engenharia do que todas as máquinas e estruturas bem-sucedidas do mundo. Falhas, de fato, parecem ser inevitáveis na esteira do sucesso prolongado, que encoraja margens de segurança menores. Quando ocorrem, levam a aumentos das margens de segurança e, assim, a novos períodos de sucesso. Entender o que é a engenharia e o que fazem os engenheiros é entender como as falhas podem ocorrer e como podem contribuir mais do que o sucesso para fazer avançar a tecnologia.”

Um dos episódios tratados por Petroski no livro é o colapso construtivo que provocou, até aquele momento, a maior perda de vidas na história dos Estados Unidos: a queda de passarelas suspensas por cabos do Hyatt Regency Hotel, de Kansas City. Morreram 114 pessoas e cerca de duzentas ficaram feridas. Calculou-se que metade da população da cidade foi direta ou indiretamente atingida pela morte, invalidez ou sofrimento de parentes e amigos.

Petroski entra em detalhes sobre as investigações que se seguiram (existe um tópico a respeito na Wikipedia). O fato mais notório é que os hotéis Hyatt nunca mais tiveram as passarelas suspensas que eram uma de suas marcas visuais. Nesse plano, o aprendizado pode ter sido radical e exagerado, mas pelo menos evitou a repetição do mesmo erro.

 

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 Ricardo Oliveira
 Enviado em: 27/01/2012 16:07:25
A engenharia brasileira é uma das mais conceituadas do mundo. E isso não é opinião de brasileiro. Já teve seus momentos críticos, como o final dos anos de 1960 e início dos anos de 1970, o que motivou uma canção de Juca Chaves com o nome de Demolição, em uma sátira a canção de Chico Buarque, Construção. O que aconteceu , nada tem a ver com a nossa engenharia, mas sim com governos e fiscalização. De fato os erros são os mesmos, inclusive na mídia, que como diz a canção de Juca Chaves, transforma a desgraça em show de televisão, em uma corrida por míseros índices de audiência. Os erros vem se repetindo, nos governos e na imprensa que sempre está ao lado dos interesses imobiliários, do capital e do jeitinho para que tudo funcione sem fiscais "chatos", regras "ultrapassadas" e " controles excessivos de governos". A imprensa pouco contribui para educar o cidadão nos aspectos que envolvem mais essa tragédia. Não o faz, pois se fizesse estaria contrariando seus interesses e de seus principais parceiros , colaboradores e anunciantes. Não o faz porque não deseja uma presença forte e marcante do estado na garantia dos direitos dos cidadãos. Já temos caso de emissora de TV propor e incentivar obras que alteram caracteírsticas de edificações, colocando em risco condôminos. De fato governos e mídia tiveram uma experiência radical e lições. Esperamos que sirva para o parendizado.
 Dante Caleffi
 Enviado em: 27/01/2012 21:16:30
A imprensa se detêm no viés sensacionalista da matéria.Dificilmente avança. Como perdeu o senso investigativo,seja por comodismo ou desinteresse,especulam com as imagens,que sequer são de profissionais e sim de leitores.Maneira revolucionária de integração mercadológica,autor leitor e custo zero para o dono. O Estadão chegou a cúmulo de manchetear:" Operário admite ter derrubado parede",leia-se , edifício em lugar de parede.Mais pasquim,impossível. Por fim, a responsabilidade,cabe,em primeiro lugar ao síndico,que deve se informar o que ocorre no prédio que administra. Fiscalização e poder público,agem estimulados,não saem batendo de porta em porta perguntando o que acontece dentro das quatro paredes,privadas...
 Gerson Chagas
 Enviado em: 28/01/2012 10:24:21
Mais uma tragédia que evidencia , conforme dito pelo articulista, o valor nulo conferido à vida neste país. Também deixa claro o modus operandi da mídia, em sua logística meramente comercial, a qual simultaneamente repercute, de forma sensacionalista, quanto omite os fatos que seriam imprescindíveis à elucidação do sinistro e, mais importante, fomentar a efetiva fiscalização do poder público, para que este , por sua vez, fiscalize os agentes privados, quebrando (ou ao menos atenuando) a corrente corrupta e negligente que ceifa tantas vidas diariamente neste país. Lembrando que os anônimos e pontuais sinistros oriundos dessa nefasta corrente, normalmente não ocupam as manchetes, não causando uma constrição facial ou vertendo uma lágrima da âncora do telejornal, mas que em essência são tão cruéis e assassinos.
 Luciano Palma
 Enviado em: 28/01/2012 12:58:18
A imprensa parece bastante despreparada no Brasil. Foca em emoções e não em fatos. Além disso, investiga pouco. Não sou repórter, mas no dia da tragédia entrei no Google Street View e notei que havia placas sinalizando obras naquela rua. O trânsito era limitado a carros de serviço. Tal obra (decerto não pequena) pode ter sido concluída, mas ninguém foi buscar informações sobre isso, sobre a empresa responsável por ela, etc. O metrô passa embaixo do prédio. Isso causa vibrações enormes. Pode causar fadiga dos materiais. Exige acompanhamento e manutenção. E novamente, ninguém atentou para esse fato. Este "silêncio" seria falta de competência ou "conveniência"?

Mauro Malin

mmalin@amcham.com.br

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