A PAUTA OCULTA

O livro e a imprensa, um ponto de ruptura

Por Luciano Martins Costa em 15/12/2011 na edição 672

Comentário para o programa radiofônico do OI, 15/12/2011

Esta semana marca um ponto de ruptura da imprensa brasileira tradicional, aquela chamada de circulação nacional. O fato de os principais jornais do país haverem ignorado o tópico mais divulgado na internet – o livro que denuncia atividades criminosas atribuídas a familiares e pessoas próximas do ex-governador José Serra – representa uma declaração pública de que a imprensa tradicional não considera relevante o ambiente midiático representado por blogs, sites independentes de empresas de mídia e grupos de discussões nas redes sociais.

A fidelidade canina das grandes empresas de comunicação ao político Serra é um caso a ser investigado por jornalistas e analisado por cientistas políticos. Na medida em que essa fidelidade chega ao ponto de levar as bravas redações – sempre animadas para publicizar toda espécie de malfeitoria envolvendo protagonistas do poder – a fingir que não tem qualquer relevância o fenômeno editorial intitulado A Privataria Tucana, do jornalista Amaury Ribeiro Jr., cria-se um precedente cujas consequências não se pode ainda avaliar.

Por iniciativa da imprensa tradicional, aprofunda-se o fosso que a separa da mídia alternativa.

Debate aberto

Não que tenha arrefecido o ímpeto dos jornais por dar repercussão a todo tipo de denúncia: estão nas primeiras páginas, nas edições de quinta-feira (15/12), o ministro Fernando Pimentel, o governador do Distrito Federal Agnelo Queiroz e o publicitário Marcos Valério.

Cada um desses personagens tem uma história a explicar para a sociedade, mas a imprensa, ao proceder com tão escancarado desequilíbrio nos critérios de edição, se desqualifica como meio legítimo para mediar a questão com a sociedade.

Não se pode escapar à evidência de que a imprensa realiza um esforço corporativo para apresentar ao seu público um cardápio restrito de escândalos, quando o prato mais apetitoso vende milhares de exemplares de livros, produz um mercado paralelo de cópias piratas e manifesta o desejo do público de saber mais.

O silêncio da imprensa prejudica as chances do ex-governador José Serra de contestar as acusações apresentadas no livro contra sua filha, seu genro, o coordenador de suas campanhas eleitorais e outros personagens ligados ao seu núcleo de ação política.

Paralelamente, amplia o raio de conflitos entre as empresas de comunicação e a categoria profissional dos jornalistas, muitos dos quais são ativos participantes nos debates sobre o livro de Amaury Ribeiro Jr.

Fugindo da boa história

A origem do esquema investigado pelo autor de A Privataria Tucana se confunde com o ponto em que a imprensa tradicional perdeu o interesse pelo caso do Banestado – provavelmente a matriz de todos os crimes financeiros revelados ou semiocultos no Brasil nos últimos quinze anos. Por essa razão, aumenta a curiosidade geral em torno da recusa da imprensa em reabrir esse caso através da janela criada com o livro de Ribeiro Jr.

A partir deste ponto, torna-se legítima qualquer desconfiança sobre o real interesse da chamada grande imprensa em ver desvendadas as denúncias de corrupção que ela própria divulga. Não há mais dúvida razoável de que essas denúncias são publicadas de maneira seletiva.

O mapa aberto pelo livro de Ribeiro Jr., pelo que já se deu a conhecer, complementa reportagens já publicadas sobre crimes financeiros em geral, mas principalmente sobre aqueles que têm como vítima o patrimônio público. Em geral, as reportagens sobre aquilo que agora é chamado de malfeito esmaecem quando o caso se transforma em processo formal na Justiça.

Estranhamente, quando surge a possibilidade de oferecer ao público o acompanhamento das conclusões, a imprensa sai de campo. Observe-se, por exemplo, que o chamado caso “mensalão” está para ser prescrito e há um hiato no noticiário entre a aceitação da denúncia e a prescrição.

No caso Banestado, assim como no livro-reportagem de Amaury Ribeiro Jr., o mais importante é a revelação do esquema de lavagem de dinheiro, com o mapa dos caminhos que o dinheiro sujo realiza por paraísos fiscais e contas suspeitas. Trata-se do mesmo esquema utilizado pelos financiadores ocultos do narcotráfico, pelos corruptos e corruptores e por cidadãos acima de qualquer suspeita.

Se desse curso às pistas levantadas no livro de Ribeiro Jr., a imprensa poderia construir histórias muito interessantes – por exemplo, ao identificar consultores jurídicos especializados em lavagem de dinheiro que costumam frequentar páginas mais nobres dos jornais.

A omissão da imprensa em relação ao fenômeno editorial do ano é também a renúncia ao bom jornalismo.

 

Leia também

O livro invisível – L.M.C.

As relações perigosas da imprensa – L.M.C.

O escândalo do século – L.M.C.

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 Antonio Barros
 Enviado em: 15/12/2011 10:37:00
Excelente artigo. Ainda bem que existem jornalistas como vc Luciano, para denunciar o partidarismo dessa hipócrita chamada 'grande imprensa'. Ainda há pouco, li uma matéria sobre o referido livro em um desses jornalões, mas sempre no sentido de desqualificar o autor. Essa é a nossa maravilhosa imprensa. Ainda bem que hoje existe essa maravilha chamada internet, para que possamos manisfestar nossa indignação. E mais uma vez, parabéns.
 LUIZ DE MORAIS REGO FILHO
 Enviado em: 15/12/2011 10:51:29
ALGUÉM ME AJUDE: Seguem abaixo os escândalos, falcatruas e maracutaias desde Ernesto Geisel, chegando até o Lula. Neste, a relação pára no "Escândalo da Venda da Varig". Gentileza complementar a listagem, incluindo aí os escândalos na vigência da Dilma. Meu objetivo: Com a edição do livro "PRIVATARIA TUCANA", onde foi desvendado os modus operandis e fasciendis dos roubos à que o POVINHO DO BRASIL foi submetido. Portanto, o objetivo é que seja utilizada a mesma metodologia do citado livro em TODOS os escândalos, falcatruas e maracutaias: Governo Ernesto Geisel (74- 79) 1. Caso Wladimir Herzog 2. Caso Manuel File Filho 3. Caso Lutfala 4. Caso Atalla 5. Ângelo Calmon de Sá (ministro acusado de passar um gigantesco cheque Sem fundos) 6. Lei Falcão (1976) 7. Pacote de Abril (1977) 8. Grandes Mordomias dos Ministros Governo João Figueiredo (79- 85) 1. Caso Capemi 2. Caso do Grupo Delfim 3. Escândalo da Mandioca 4. Escândalo da Brasilinvest 5. Escândalo das Polonetas 6. Escândalo do Instituto Nacional de Assistência Médica do INAMPS 7. Caso Morel 8. Crime da Mala 9. Caso Coroa-Brastel 10. Escândalo das Jóias Governo Sarney ( 85- 90) 1. CPI DA Corrupção 2. Escândalo do Ministério das Comunicações (Grande número de concessões de rádios e TVs para políticos aliados ou não Ao Sarney. A concessão é em troca de cargos, votos ou apoio Ao presidente) 3. Caso Chiarelli
 Emília Machado
 Enviado em: 15/12/2011 11:44:51
"A fidelidade canina das grandes empresas de comunicação ao político Serra é um caso a ser investigado por jornalistas e analisado por cientistas políticos." Não precisa ser muito inteligente pra saber o porque dessa fidelidade. Só que vocês jornalistas NÃO investgaram antes por que não quiseram. Vocês também estão perdendo credibilidade perante a oponião pública. Com algumas excessões.
 Gabriel Simões
 Enviado em: 15/12/2011 12:59:41
Olha, a Folha acabou de postar na internet uma reportagem sobre o livro. Evidentemente, a reportagem tomou o caminho da desqualificação do material apresentado por Ribeiro Jr. e do próprio autor. É mto triste isso.
 Luciano Prado
 Enviado em: 15/12/2011 13:11:37
“A fidelidade canina das grandes empresas de comunicação ao político Serra é um caso a ser investigado por jornalistas e analisado por cientistas políticos”. Sugestão aos investigadores e analistas: começar dando uma olhadinha no Diário Oficial de São Paulo. Procurar na seção “dispensa e inexigibilidade de licitação” onde os repassem às empresas midiáticas não despertam qualquer interesse do MP estadual de SP. A intuição sugere que a velha imprensa – com essa postura de proteger Serra e os tucanos – está apenas executando um serviço já pago e documentado no DOSP.
 Luciano Prado
 Enviado em: 15/12/2011 13:53:55
Gabriel Simões – A velha imprensa está apenas esquentando artilharia. Aguarde e verá que ela vai tentar triturar a honra do Amaury. Vão atrás até das relações familiares para tentar desqualificá-lo. O jogo é bruto, de gente sem qualquer escrúpulo para fazer valer um mundo paralelo. Foi assim com o delegado Paulo Lacerda, Protógenes e com o juiz Fausto De Sanctis. Nesse ambiente corre grana pesada. Lamentavelmente Amaury conta apenas com qualificações jornalísticas e consistência nos argumentos. O que é pouco diante desse jogo pesadíssimo. É por isso que a população precisa estar vigilante e bem informada porque os próximos passos da velha imprensa e seus soldadinhos (de forma articulada) vão determinar o grau de brutalidade. Nessa história não é apenas a defesa de Serra que está em jogo, é todo um sistema onde os interesses mais escusos precisam estar bem camuflados.
 Elaine Pinto
 Enviado em: 15/12/2011 14:33:51
E a Folha rompeu o silêncio: http://www1.folha.uol.com.br/poder/1021526-em-livro-jornalista-acusa-tucanos-de-receber-propina.shtml
 Max Suel
 Enviado em: 15/12/2011 16:05:15
Luciano Prado: é tudo o que você falou ... só que justamente ao contrário ..... ao contrário, meu rapaz.
 Flávio Rezende de Carvalho
 Enviado em: 15/12/2011 20:34:37
Eleição, mensalão (agora na versão "O julgamento"), muitos ministros "aloprados"... Haja contrainformação. É curioso observar como todos começam a cantar a mesma canção, como unem esforços. Seria justo, embora a questão da verdade ou não dos fatos deva ser investigada, se os cantores cantassem sua própria canção sem reclamar da canção alheia. Mais que isso, sem pretender ditar-lhe as pautas! Será mesmo necessário que um editor seja um canino aliado de José Serra para adotar uma postura de prudência quanto ao referido livro? E, no limite, se a empresa jornalística achar que o assunto não deve figurar nas suas páginas, devemos adotar um novo marco regulatório e obrigá-la a cantar a "nossa" canção?
 Fabio Martins
 Enviado em: 15/12/2011 22:10:26
Em alta escala, em função dos meus 82 anos, mas em grau máximo em função do objetivo senso de síntese e de análise do autor do presente tema, quero agradece-lo. E vou repassa-lo ao maior número possivel de amigos e de alunos, que ainda me seguem e me ouvem.
 Michael Cruz
 Enviado em: 15/12/2011 23:32:43
Baseando-se no livro-fenômeno do Amaury, o livro OS DEZ DIAS QUE ABALARAM O MUNDO, de John Reed, poderia ser reescrito para " Seis dias que abalaram a imprensa no Brasil”. Por estar seriamente envolvida no enredo, a velha mídia cometeu a maior furada de sua história. E à medida que vai se desenrolando os tramas do livro – que levam aos bilhões usurpados do povo brasileiro – a grande mídia poderá ter suas páginas historicamente manchadas. Mas a imprensa ainda pode mudar o final dessa história e se reabilitar perante a opinião pública: é só dar continuidade às denuncias (não precisa muito), investigando as muitas lavanderias da privataria. Podem ser do mesmo modo que são produzidas as denuncias que envolvem a esfera federal. E que venham com denúncias abalizadas. O Amaury já nos acostumou mal! Entretanto parece que do jeito que as redações estão realmente abaladas, perdidas em encontrar um meio de defender seus empregos, nada disso vai acontecer. As primeiras reações da Folha vai no sentido de desqualificar o autor, em artigos não assinados e em notas oficiais do PSDB. E o mais irônico é que esse tempo todo de silêncio não deu munição aos serristas para ter argumentos contra uma CPI, uma vez que nem argumentos favoráveis eram publicados.
 michael cruz
 Enviado em: 15/12/2011 23:48:54
Flavio Rezende. Serve essa frase do Kotscho aqui mesmo neste observatório: "Para quê e para quem, afinal, serve esta liberdade de imprensa pela qual todos nós lutamos durante os tempos da ditadura, que eles apoiaram, e hoje é propriedade privada de meia dúzia de barões da mídia que decidem o que devemos ou não saber?" E digo; Também quero e tenho direito à informação sobre os desvios do dinheiro público, seja do governo, oposição, empresários ou quem for. E mais: exijo informações sobre investigação, processos, punição e quero o meu dinheiro de volta... na forma de benefícios à população!
 Cesar Cunha
 Enviado em: 16/12/2011 06:07:59
Um absurdo o silêncio da maior parte da mídia.Como se comprometeram a preservar o AI-5, ceifando a verdade editorial e agindo como ARENISTAS. Um fenômeno realmente. Os profissionais internos,como estariam se sentindo? Os patrocinadores dariam crédito a tal tipo de manipulação?
 Vinicius Almeida
 Enviado em: 16/12/2011 12:58:07
É possível dizer que hoje a "grande mídia" é puro negócio (eu publico o que te favorece e vc me favorece com o que publico). Assim o "grande público" segue sabendo do que "eles" querem e tudo isso influencia na mentalidade do povo brasileiro em relação, principalmente, à política.
 Zé da Silva
 Enviado em: 17/12/2011 20:42:12
Caro Luiz de Morais. Uma boa fonte para os escândalos mais antigos (até 1984) são os livros do jornalista José Carlos de Assis, considerado o pai do jornalismo investigativo no Brasil. O primeiro, "A Chave do Tesouro" alcançou quinze edições. O segundo, "Os Mandarins da República" chegou a dez edições. Ambos, portanto, muito bem aceitos pela crítica e público. Entretanto, em 1984, o autor cometeria o "erro" de sua vida. Ao escrever um terceiro livro, "A dupla dace da Corrupção" ele teve a péssima idéia de incluir um posfácio com o título de "Os Escândalos da Imprensa" onde relatava a cumplicidade de setores importantes da imprensa brasileira com os escândalos. A partir daí, nada de resenhas favoráveis, apenas boicote e silêncio total. Nessa época não existia a Internet. A imprensa patronal reinava ditatorialmente. Os livros do autor inconveniente foram lançados no Index Proibitorium.
 Sebastião Marques de Oliveira
 Enviado em: 18/12/2011 01:51:04
Este comportamento seletivo da chamada grande imprensa se repete na maioria dos pequenos jornais do interior das Gerais, onde prefeitos, como no caso de Pirapora, MG, são donos da quase totalidade dos meios de comunicação (TV, Rádios, jornais)

Luciano Martins Costa

luciano@revistaadiante.com.br

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