COBERTURA DOS PROTESTOS

O midiativismo se multiplica

Por Luciano Martins Costa em 21/08/2013 na edição 760

Comentário para o programa radiofônico do Observatório, 21/8/2013

Nas edições de quarta-feira (21/8), a Folha de S. Paulo e o Globo informam que um policial militar do Rio foi afastado do serviço após ter sido identificado lançando gás de pimenta contra jornalistas e advogados que acompanhavam um protesto no bairro do Catete.

Os dois textos oferecem informações detalhadas sobre a ação do agente público, depoimentos e declarações de autoridades, com as costumeiras promessas de “apuração rigorosa”. Mas há uma diferença fundamental entre as duas reportagens: para o Globo, o vídeo que denuncia a atitude do policial apenas “circula nas redes sociais”. Já a Folha esclarece que as imagens foram produzidas e divulgadas “por um grupo identificado como Coletivo Mariachi” (ver aqui).

Só os editores do jornal carioca podem explicar porque omitem de seus leitores a autoria do material jornalístico que permitiu identificar o perpetrador desse ato abusivo. Mas não é difícil relacionar esse “esquecimento” com o esforço que faz a mídia tradicional para relativizar a importância dos midiativistas, que se notabilizaram recentemente a partir do coletivo chamado Mídia Ninja.

Segundo o site especializado em mídia e publicidade Bluebus (ver aqui), o Coletivo Mariachi éum novo fruto do processo de multiplicação do jornalismo “ninja”, que dinamiza e diversifica o ambiente comunicacional.

Formado originalmente por um documentarista mexicano e dois jornalistas brasileiros, esse novo grupo, segundo o Bluebus, acompanha as manifestações na cidade do Rio de Janeiro para a produção de um documentário que deverá se intitular “Primavera Carioca”.

Enquanto intelectuais discutem o formato dessas iniciativas, “o que seria jornalismo, o que seria narrativa”, diz o site, “o mundo novo da mídia avança sobre a polícia e mostra o absoluto despreparo dos soldados que deveriam zelar pela ordem nas ruas”.

Pode-se discutir em que ponto eclode a violência que tem se seguido às manifestações, se policiais despreparados detonam ou contribuem para acirrar o ânimo dos protestadores, mas não se pode fugir ao fato de que, sem a ação dos midiativistas, todos os dedos estariam apontados para os manifestantes.

Ao omitir a autoria do vídeo que denuncia a arbitrariedade policial, o Globo admite implicitamente que não pode ignorar a informação, mas se sente compelido a omitir a fonte.

Esses tais de ninjas

Esse episódio pode ser compreendido de vários ângulos. Um deles mostra como é patética a tentativa de demonizar a Mídia Ninja apartir de sua ligação com o coletivo de produtores culturais chamado Fora do Eixo. Nesse contexto, torna-se explícito também que o midiativismo não é uma contracorrente, em relação à mídia tradicional: ele acontece à revelia da imprensa clássica. Nem é mesmo resultado de um ânimo contracultural: é a manifestação de uma enorme convergência que se expressa à revelia das instituições.

Trata-se do mais genuíno exercício de liberdade de informação e expressão, aquele que é produzido por muitos, por quem quiser, e publicizado no “não-lugar” das redes, o campo aberto cujos limites ainda não são definidos por interesses desta ou daquela empresa de comunicação.

Há um elemento básico a ser considerado nesse debate, e que vem sendo omitido ou sobrepassado por alguns analistas: o fenômeno do midiativismo ocorre num momento da modernidade em que os conflitos entre capital e trabalho são dissimulados ou abrandados pelo consumo de bens e serviços tecnológicos que, em variados níveis, democratizam a posse ou controle dos meios de produção da comunicação.

O jovem que porta um smartphone e com ele capta e distribui imagens do cotidiano não deixa de ser um trabalhador e ou estudante, telespectador e, eventualmente, leitor da imprensa escrita; mas agrega à sua potência individual a possibilidade de ser também mídia. Sua autonomia como indivíduo se amplia exponencialmente, com a apropriação desses bens e serviços tecnológicos.

O propósito de agregar essas expressões, mantendo suas singularidades, é que faz da Mídia Ninja um ponto de ruptura na história da comunicação de massa no Brasil. O conceito que registra a substituição da “mídia de massa” pela “massa de mídias” não poderia ter melhor tradução.

Quem acompanha profissionalmente a evolução das tecnologias digitais de informação e comunicação pode antever o que há logo adiante. A qualquer momento, o fluido que escorre pelas ruas e se expressa nas redes digitais vai acabar se consolidando em nova instituição. Nesse momento, aquilo que costumávamos chamar de imprensa terá encolhido até caber num nicho específico do ecossistema de informações.

Por isso, o Globo precisa reproduzir as imagens da violência policial, mas tenta omitir que os autores são esses tais de “ninjas”.

 

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 Sylvia Debossan Moretzsohn
 Enviado em: 21/08/2013 11:28:23
Sem a ação dos midiativistas todos os dedos estariam apontados para os manifestantes? Sem eles não haveria denúncia de violência policial? Mesmo? Antes da presença dos midiativistas não havia esse tipo de flagrante? O jovem com smartphone é trabalhador e/ou estudante e uma porção de outras coisas, e pode inclusive ser mídia, mas só pode ficar horas a fio acompanhando manifestações e ocupações se tiver quem o sustente. Esta é a questão fundamental para todos quantos desejam se lançar em alternativas: sustentar-se. Não entendo muito bem a insistência na acusação a essa suposta demonização da Mídia Ninja ou do coletivo que, até o momento, a sustenta. Não vejo demonização fora do restrito espaço de articulistas raivosos de direita, por todos conhecidos: vejo reportagens e relatos que trazem a público questões até então ignoradas por quem não participa desse processo. Não vejo motivo algum para a recusa a essa discussão, ou a suspeita sobre os motivos que a estimulam.
 Luciano Costa
 Enviado em: 21/08/2013 11:56:50
A discussão está posta e tem muitos aspectos. O foco exclusivo e intenso de reportagens, relatos e artigos, em irregularidades que estão presentes em muitas iniciativas do gênero, inclusive nas grandes produções culturais e de mídia, por sua desproporcionalidade, compõe um processo de linchamento moral e desqualificação. Com exceção do episódio em que sete jornalistas da Folha foram agredidos pela polícia em São Paulo, quase todos os casos de abuso dos agentes públicos só se tornaram públicos pela ação dos midiativistas. O "jovem que tem quem o sustente" e o jovem que tira de seu tempo para o ativismo nas ruas está fazendo uma escolha consciente. Alguns talvez preferissem que eles continuassem alienados, e que seus smartphones fossem usados apenas para mandar torpedos e jogar videogame.
 EDUARDO RIBEIRO TOLEDO
 Enviado em: 21/08/2013 16:18:41
Prezado Senhor Luciano Costa, Parabéns pelo artigo divulgado em tempo oportuno, na conjuntura atual. Se por um lado, não se poderia conter o mote "primavera carioca" para o fenômeno abordado; por outro, que não se duvide: faz parte da realidade, qualquer que seja a capitulação escolhida. Esses tais ninjas, se me permite, serão objeto de estudo da ciência comunicação social, porque um tal "ponto de ruptura" nunca deixará de ser objeto de estudo científico. Parabéns. Eduardo Ribeiro Toledo
 Sylvia Debossan Moretzsohn
 Enviado em: 21/08/2013 16:42:20
Luciano, o jovem (ou o não-jovem: qualquer um) que se lance voluntariamente, generosamente, altruisticamente a uma atividade, qualquer que seja, precisa ter quem o sustente. Foi o que quis dizer, não sei se ficou claro. É algo evidente: ninguém vive de brisa. Em texto anterior, há cerca de duas semanas, você minimizava as críticas que começavam a aflorar ao Fora do Eixo, a partir da entrevista no Roda Viva: "Duas ou três manifestações de vivências negativas não bastam para se contrapor à experiência de centenas de produtores de arte e cultura", etc. Na ocasião, eu comentei que não se tratava de duas ou três manifestações, e que havia críticas mais antigas, não apenas sobre vivências negativas, mas sobre os fundamentos da proposta. Então as críticas se avolumam e começam a aparecer reportagens, e passamos a falar em linchamento e demonização. Não me parece justo. Quanto ao exagero de espaço que a mídia tem dado a esse tema, é questão de ponto de vista: é evidente que a mídia silencia sobre muitas coisas, inclusive porque patrocina ou se beneficia de patrocínios de inúmeras atividades culturais, mas isso não tira a importância das reportagens que vêm sendo feitas sobre o Fora do Eixo. A mim me surpreendeu muito mais que a bancada do Roda Viva não tivesse as informações que aparecem agora, para que pudesse ter questionado melhor seus entr

Luciano Martins Costa

luciano@revistaadiante.com.br

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