LEITURAS DA FOLHA

Ombudsman critica omissão do jornal

Por Carlos Eduardo Lins da Silva em 18/01/2010 na edição 572

Em 21 de dezembro do ano passado, em cerimônia pública em Brasília, foi lançado o programa de direitos humanos do governo federal, o terceiro da história e o primeiro da administração atual.

No dia seguinte, o evento mereceu na Folha um texto-legenda na capa e duas colunas de alto a baixo em página par interna. O programa só foi citado para explicar por que a reunião havia ocorrido.

Quase todo o espaço foi utilizado para tratar do novo corte de cabelo da ministra Dilma Rousseff. O segundo tema que mereceu atenção foi uma declaração do presidente Lula (os choques sofridos em tortura por quem lutou contra a ditadura "valeram a pena"). O terceiro foi a eleição presidencial, mencionada em comentários do presidente em discurso e entrevistas.

Só na sexta, 8, e especialmente no fim de semana, quando foi manchete de primeira página três dias, o programa apareceu como assunto mais importante do país, só desbancado pelo terremoto no Haiti.

Tramitação demorada

Se o programa é tão relevante, por que o jornal demorou 18 dias para descobrir? Mais grave ainda: por que não acompanhou o processo público de sua elaboração, que levou um ano desde a realização da 11ª Conferência Nacional dos Direitos Humanos, em 2008, cujos debates foram literalmente ignorados pela Folha?

Mais uma vez em seu noticiário político, este jornal age como se a editoria de esportes desconhecesse por completo um campeonato de futebol para anunciar, com atraso, só o resultado da última partida. No sábado, dia 9, quando o programa de direitos humanos foi manchete pela primeira vez, a coluna de "São Paulo" na página A2 teve o bom senso de alertar o leitor: nele "tudo pode porque, no fundo, nada é para valer".

Mas, se é assim, por que tanto barulho, como se ele fosse lei em vigor, e não uma série de recomendações que, para se materializarem, terão de passar por longo processo de tramitação do Legislativo?

Comissão da verdade

O jornal também demorou a mostrar ao seu público que as duas versões anteriores desse programa, de 1996 e 2002, eram muito parecidas com esta, consequência quase natural daquelas. Foi só na coluna de Brasília de segunda e numa ampla reportagem com boa arte na terça que isso ficou claro.

O tema dos direitos humanos é amplo e abrangente como o programa não poderia deixar de ser, conforme explicou artigo publicado na quarta sobre a gênese desse conceito, ainda mais bem discutida no livro abaixo recomendado.

O aspecto mais agudo da controvérsia, a criação de uma comissão da verdade sobre a ditadura, parece ter sido contornado, e o jornal explicou bem em reportagem na quarta como a confusão se criou.

O filme abaixo indicado mostra como foi o processo da primeira dessas comissões, na África do Sul, e vale a pena ser visto para ter uma perspectiva do que pode ocorrer no Brasil.

***

Para ler

A Declaração Universal dos Direitos Humanos -60 Anos Sonhos e Realidades, de Maria Luiza Marcílio (organizadora), Edusp, 2008 (a partir de R$ 43,20)

Para ver

Em Minha Terra, de John Boorman, com Samuel Jackson, 2004 (a partir de R$ 24,90)

Este é um espaço de diálogo e troca de conhecimentos que estimula a diversidade e a pluralidade de idéias e de pontos de vista. Não serão publicados comentários com xingamentos e ofensas ou que incitem a intolerância ou o crime. Os comentários devem ser pertinentes ao tema da matéria e aos debates que naturalmente surgirem. Mensagens que não atendam a essas normas serão deletadas - e os comentaristas que habitualmente as transgredirem poderão ter interrompido seu acesso a este fórum.

ATENÇÃO: Será necessário validar a publicação do seu comentário clicando no link enviado em seguida ao endereço de e-mail que você informou. Só as mensagens autorizadas serão publicadas. Este procedimento será feito apenas uma vez para cada endereço de e-mail utilizado.

Nome

  Sobrenome
 
     
E-mail   Profissão
 
     
Cidade   Estado
 
     
Comentário   Confirme o código da imagem

1400
 
Recarregar imagem
   
   
   

 

 Zemário Santos
 Enviado em: 18/01/2010 11:57:16
E o ombudsman, vai sair ileso dessa? Ele também merece ser criticado, pois, afinal, deixou passar em branco, por 18 dias, o vazio de uma pauta enormemente debatida pelos mais diversos setores da sociedade. Ou a escala de trabalho dele é de 15 dias?
 João Mendes Jr
 Enviado em: 18/01/2010 18:59:17

Conclusão: A direita medrosa, neurótica e doentia quer ser mais realista do que o rei... Só que as críticas reacionárias e antidiluvianas não passaram sequer pelo crivo do censor interno do PIG. Que vexame!!!

Nota do OI: O prezado leitor confunde o papel democrático de um ombudsman com o de um censor. Vexame. (Luiz Egypto)

 Ney José Pereira
 Enviado em: 18/01/2010 19:41:45
Acho que se quis dizer antediluvianas (muita antigas ou velhas) em vez de antidiluvianas (contrárias ao dilúvio). E o tal PIG do B -Partido da Imprensa Governista do Brasil é mesmo um vexame!. Tal qual o próprio PIG!. E a esquerda corajosa e psiquicamente equilibrada e sadia quer ser mais lulática do que o próprio Lula!. Observação: E há muito "reaça" na tal esquerda!. Que é o tal "sectário" (partidário da intolerância)!. PS: Em São Paulo (SP) há o Fórum João Mendes Júnior. Em homenagem ao jurista!.
 Ney José Pereira
 Enviado em: 23/01/2010 20:53:32
Por que a Folha não critica as omissões do seu ombudsman?!.

Carlos Eduardo Lins da Silva

JORNALISMO GONZO

Johnny Depp para poucos

Carlos Eduardo Lins da Silva | Edição nº 691 | 24/04/2012 | 1 comentários

MIKE WALLACE (1918-2012)

Repórter atilado, entrevistador temido

Carlos Eduardo Lins da Silva | Edição nº 689 | 10/04/2012 | 0 comentários

ANTONIO TABUCCHI (1943-2012)

Quem testemunha pela testemunha?

Carlos Eduardo Lins da Silva | Edição nº 687 | 27/03/2012 | 0 comentários

SOBRE A LIBERDADE

Boicote sim, censura não

Carlos Eduardo Lins da Silva | Edição nº 685 | 13/03/2012 | 3 comentários

OBAMA E A IMPRENSA

Em defesa da liberdade. E da conveniência

Carlos Eduardo Lins da Silva | Edição nº 683 | 28/02/2012 | 0 comentários

Ver todos os textos desse autor