MUDANÇAS NO JORNAL NACIONAL
Onde estão as mulheres na TV
Por Norma Couri em 06/12/2011 na edição 671
Diz a regra número 1 de Jornalismo que jornalista não é notícia a não ser quando morre estraçalhado pela mina em que pisou, como o húngaro Robert Capa, em 1954, ou pela metralhadora da favela carioca de Antares, como Gelson Domingos, mês passado.
Diz a regra número 2 que Jornalismo é combate no dia a dia e o resultado é escrito, televisado, difundido em rádio, internet ou celular para o leitor julgar, ele próprio, o que viu, sentiu, registrou.
Diz a regra número 3 que Jornalismo não é e nunca deveria ser conversa de sala de estar entre amigos, muito menos entre marido e mulher – e, pior, na hora do jornal televisivo de maior audiência porque fica encalacrado entre duas novelas, ponto alto do ibope.
O Jornal Nacional de segunda-feira (5/12) feriu as três regras: jornalista virou notícia de um quarto de hora, o que deveria ser o esperado de um profissional passou a ser apresentado como matéria especial, e a conversa entre Patrícia Poeta, Fátima Bernardes e o marido William Bonner não só virou extensão das telenovelas como comeu um precioso tempo para as notícias surpreendentes, aguardadas há muito.
Sonho declarado
Mulheres na TV brasileira sempre intrigam porque os cabelos são impecáveis, as roupas estalam de butique, o botox sempre no lugar, a voz às vezes escorregada ou sensual, mas o assunto – ah!, o assunto – não faz jus à opção feminista dos anos 1960, quando nos propusemos a virar a mesa e mostrar quantos neurônios estavam para ser descobertos.
De repente tudo vira novela na Globo, cada jornalista desfia sua história pessoal e a paixão pela profissão. Mas há muito tempo uma reportagem não estremece um coração ou uma investigação instiga os neurônios do lado de lá da telinha. O Globo Repórter virou caçada, natureza em flor, a beleza do nosso sertão. O zapping dominical nos conduz a pratos típicos e receitas culinárias detalhadas, bobagens de insustentável leveza. Tudo naturalmente voltado para o público feminino porque os homens estão plugados no futebol.
E o que deveria ser a grande reportagem com jornalistas de raça enfiadas de corpo e alma no lamaçal, apresentando histórias de peso mesmo descabeladas, desgrenhadas e com jeito de gente real, virou uma raridade, quase um oásis no tempo dos big brothers onde tudo soa tão natural e quase verdade.
O choque maior são as mulheres na TV, as mulheres da TV, as mulheres que fazem a TV. Por que sempre tão iguais e previsíveis, por que William Bonner tem de mostrar um filminho com as reportagens banais de uma Fátima Bernardes, sua mulher, entrevistando na praia, consolando uma vítima, respondendo a pergunta quase infantil “onde está você?”. Para Fátima soltar a bomba, o furo: depois de suados 24 anos de jornalismo – e 14 de apresentadora do JN – vai ter um programa próprio.
Ainda tivemos de ouvir da nova apresentadora Patrícia Poeta, também apontada como grande repórter, que todo o Brasil adoraria estar ali no lugar dela para dizer à Fátima como o povo anda louco para ver seu novo programa matinal que não sabemos se será tipo Xuxa ou o quê.
Ao mesmo tempo Bonner anda espalhando que tem um sonho. Não, não se trata de coberturas perigosas de repórteres especiais com tempo para apurar as milhares de histórias que carecem de divulgação neste país. O sonho de Bonner é apresentar um programa automobilístico. Sai Sérgio Chapelin entra Bonner. Como ele declarou, “gosto de carro, gosto de vinho, gosto de corrida”.
Dúvida atroz
A explicação de Bonner para a escolha de Patrícia faz as mulheres pensarem realmente que (neurônio, não) sem xampu não chegam lá. “Patrícia tem uma versatilidade enorme. Faz o Oscar, entrevista celebridades, além de ser conhecida no horário nobre.” Quase nos faz esquecer o resto: “Também fez desdobramentos dos ataques do 11 de setembro, eleições americanas, reportagens sobre presídios”. Em tempo, Patrícia morou nos Estados Unidos. E está saindo do previsível Fantástico.
Mas o que realmente contou na decisão foi a possibilidade de cumprir sua meta. Grandes reportagens? Não, Bonner explicou. “Informalidade, falar direto com as pessoas. Nós mudamos o JN no enquadramento da câmera, na linguagem. Que não chega a ser coloquial, mas a informalidade é uma obsessão minha.”
Vai chegar um dia em que veremos na TV uma repórter enrugada, quem sabe de cabelos brancos, apresentando reportagens tão impressionantes que vão dar orgulho da paixão por esta profissão, da virada de mesa nos anos 1960, de ver a mulher no lugar onde deveria estar no vídeo depois de meio século de opção feminista. Quem disse que serão feias? Algumas até surgem na Globonews, aqui e acolá em outra emissora, muitas no noticiário internacional, francês, inglês, americano, espanhol, escandinavo. No Jornal Nacional, terra dos Simpsons e da mulher maravilha, vamos ficar aguardando como a diretora-gerente do FMI Christine Lagarde na coletiva mostrada semana passada na TV, ao perguntar nos bastidores para o mediador William Waack: “Só uma mulher para perguntar? Onde estão as mulheres [deste país]?”
***
[Norma Couri é jornalista]
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| Nelson Pessoa Guimarães |
| Enviado em: 07/12/2011 20:00:16 |
| Fatima Bernardes e Patrícia Poeta fazendo jornalismo na Globo? Continue sonhando! Elas são apresentadoras só e nada mais - servem tão somente como adereço. Imagem, para a Globo, é tudo e nada mais se espera delas. Há quem diga que essa mudança tenha a ver com uma disputa nos bastidores do poder na Vênus Platinada. Será? |
| Martha Yam |
| Enviado em: 08/12/2011 10:43:58 |
| Ainda bem que tenho o Jornal da Cultura todos os dias, que é o único que se salva na TV aberta! E apresentado por uma mulher: Maria Cristina Poli. Essa sim, fala direto com as pessoas. |
| Débora Carvalho |
| Enviado em: 08/12/2011 15:14:16 |
| Uma coisa me incomoda ultimamente: as roupas das apresentadoras, e até mesmo das repórteres de rua, são tão chamativas que a gente não consegue ouvir o que estão falando. Já aconteceu várias vezes comigo de perder o texto por estar olhando a roupa - ou linda demais, ou, até mesmo, esquisita demais, e daí alguma coisa me chama a atenção no texto mas já era, fico boiando porque não consegui pegar o início. Lembro das aulas na faculdade, no início dos anos 2000, que a roupa tinha que ser discreta, nada de joias chamativas, nem vermelho, cor forte, listras e babados, ou pouco pano... para não causar ruído na comunicação. Mas hoje liberaram tudo... rs... |
| Roberto Ribeiro |
| Enviado em: 08/12/2011 16:55:31 |
| Jornalista é megalomaníaco por natureza. No primeiro dia de aula da faculdade de jornalismo está sonhando em entrevistar o Papa, a rainha da Inglaterra ou o imperador do Japão e os tratando de igual para igual. Todo guri que entra numa redação pela primeira vez sonha em ter artigos assinados repercutindo mundo a fora. Qual jornalista não sonha em virar nome de rua, estátua de praça, nome de prédio de universidade? O que todo jornalista quer é ser notícia e ponto final. Aliás, final não, além de famoso, rico, glamuroso, "formador de opinião". Esse negócio de reportagem, de redação, de jornalismo, enfim, é só um detalhe no caminho do Olimpo da glória. |
| Wendel Anastacio |
| Enviado em: 08/12/2011 18:39:08 |
| Tento me conter, mas não resisto! É muita inocencia útil, ou infantilidade juntas! Dizer que ao assitir o grande "jornal da familia brasileira" prsta atenção só nas roupas das reporteres e ao final perde o foco das notícias, é demais para meu pobre cérebro de simpson. Mas, por outro lado, mostra bem de que tipo de telespectador estamos falando. Dar a este publico notícias reais e verdadeiras, e exigir muito de seus cérebros. Podem surtar!!!!!!!!!!!!!!!!!!! |
| Helton de Oliveira Oliveira |
| Enviado em: 08/12/2011 22:25:55 |
| Prezada Jornalista Norma Couri, Gostei muito de sua lucidez e profissionalismo, na crítica que faz ao telejornal da "Vênus Prateada". É uma pena que poucos de nós terá interesse e/ou oportunidade de ler a verdade de seu texto. Ainda sou um "resistente à ditadura da comunicação" mas, te confesso,às vezes me sinto impotente diante de tanta "asneira" e falta de inteligência do povo brasilieiro. Aos vinte anos me chamavam de "revoltado", hoje, aos cinquenta e sete, me chamam de retrógado e "reacionário". Parabéns um abraço, Helton |
| Marcello Benites |
| Enviado em: 09/12/2011 15:40:44 |
| É verdade, Norma. Eu que o diga, depois de ter sido aluno de Ana Arruda Callado, pioneira a liderar uma redação nos anos 1960. De fato, estamos diante de um telejornalismo pasteurizado no qual, com frequência, as jornalistas se prestam a distrair o público masculino, como no caso das que registram a previsão do tempo. Possivelmente, após a fala delas, muitos telespectadores, homens, não vão saber se no dia seguinte vai chover ou fazer sol |
| Marcus Vinicius Richardelle Unzueta |
| Enviado em: 10/12/2011 21:19:54 |
| A Globo parece ser parte de um grande projeto de idiotização e futilização do povo brasileiro, para conduzi-lo bovinamente pelos caminhos ditados pelo capital. Se é esse o caso, cabe sequer falar em jornalismo na rede Globo? |
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