TEORIAS DA CONSPIRAÇÃO

Os objetos de análise mudam, os analistas ficam no mesmo

Por Leandro Colling em 19/09/2006 na edição 399

A maioria dos críticos da cobertura da imprensa nas campanhas eleitorais repete, há décadas, os mesmos argumentos e chega às mesmas conclusões. Quando analisam os telejornais da Rede Globo, por exemplo, os analistas gastam páginas e páginas para comprovar teses conspiratórias e, de um modo geral, apontam: os donos da Globo, em conluio com os dirigentes dos partidos de centro-direita, participam das definições da candidaturas e interferem, depois, no trabalho dos jornalistas para que todos sigam as determinações de prejudicar os opositores e beneficiar o nome escolhido.

Nas duas últimas semanas, Venício Lima (“A candidatura de oposição e a TV Globo”) e Gilson Caroni Filho (“JN e Alckmin: assim é, se lhe parece”), embora com algumas diferenças, acabam se filiando, mais ou menos, ao velho chavão interpretativo.

Lima chamou atenção para o fato de que o livro dos jornalistas Eduardo Scolese e Leonencio Nossa, Viagens com o presidente – Dois repórteres no encalço de Lula do Planalto ao exterior, revela que, em 20 de julho de 2005, os dirigentes do PFL Jorge Bornhausen e José Agripino Maia se encontraram com o principal executivo das Organizações Globo, João Roberto Marinho. Neste encontro, Marinho teria revelado sua preferência pela candidatura de Geraldo Alckmin, em detrimento do nome de José Serra. Com base nisso, Lima aventa a possibilidade de o encontro ter relação direta com o fato de o Observatório Brasileiro de Mídia estar detectando, “a exemplo de eleições anteriores, um flagrante desequilíbrio na cobertura da grande mídia a favor do principal candidato de oposição”.

Bem mais enfático e conclusivo, Caroni Filho usa uma reportagem de Pedro Bial, sobre as péssimas condições da rodovia BR-316, como uma excelente comprovação de que os jornalistas da Rede Globo estão mesmo seguindo as orientações do proprietário da emissora e fazem o possível para beneficiar Alckmin e prejudicar Lula. Caroni Filho nos leva a crer que a reportagem foi mesmo “pura propaganda ideológica em favor da candidatura Alckmin na reta final da campanha”.

“Mapas de significado”

Depois desta longa, mas necessária introdução, pergunto: quando nós, analistas da cobertura de campanhas eleitorais, iremos além das teorias conspiratórias? Quando ofereceremos e produziremos análises menos simplórias? E mais: quando, efetivamente, reconheceremos que o que se apresenta como “conclusão” não passa de hipótese e suposição?

Ora, existe uma longa produção na área do jornalismo que não compactua com as teses da conspiração. Não porque a conspiração não existe, mas para destacar que, para comprová-la, não basta apenas analisar o conteúdo dos telejornais ou coletar declarações dos donos das emissoras.

Para efetivamente termos certeza de que as reportagens foram construídas com determinadas intenções políticas, o analista deveria ter acompanhado o processo de produção do material jornalístico. Sem isso, o máximo que podemos reunir são evidências, formular hipóteses que, algumas vezes, parecem muito plausíveis. Alguns destes momentos foram citados por Venício Lima. No entanto, sempre citamos os momentos extraordinários para, a partir deles, supor que toda e qualquer reportagem segue a mesma orientação e tendência.

Caroni Filho, talvez já imaginando eventuais críticas, diz: “Muito bem, não faltarão objeções ao teor deste pequeno texto. O que o JN produziu foi bom jornalismo, dirão alguns. Cumpriu com excelência o papel de fiscalizar os poderes públicos e não encobrir as mazelas da administração federal.” Minha crítica não pretende usar estes argumentos. Eles seriam tão redutores quanto os originados na teoria da conspiração. Particularmente, tenho anotado uma série de críticas possíveis de serem feitas à Caravana JN. Pretendo fazê-las assim que ela terminar, para não correr o risco de cometer equívocos. No entanto, para não parecer que estou fugindo da questão, adianto que a Caravana JN pode ser criticada por estar trabalhando em “mapas de significado” já conhecidos (gaúchos pilchados no Sul, fiéis de Padre Cícero e jangadeiros no Nordeste). Daí, cabe a pergunta: o JN não está perdendo a oportunidade de mostrar aquilo que o Brasil não conhece? Além disso, era preciso fazer a caravana para revelar “desejos” que todos nós já conhecemos?

Perspectivas ultrapassadas

Voltando à reportagem sobre a situação da BR-316, por que não é possível supor que Pedro Bial decidiu-se pela reportagem simplesmente porque o assunto atendia aos chamados “critérios de noticiabilidade”? Será que ele não foi influenciado pelas pessoas que, como ele, transitavam pela rodovia? Estas possibilidades são absurdas? Não parecem.

Caroni Filho também cita um texto de Victor Gentili, sobre a cobertura do Jornal Nacional nas eleições de 1998. O objetivo é mostrar que, na campanha da reeleição de FHC, o telejornal preferiu destacar temas “ecológicos” e silenciou sobre os problemas brasileiros e sobre a própria eleição. Gentili tem razão. No entanto, depois da cobertura de 1998, tivemos a de 2002. E a cobertura do pleito que levou Lula ao poder é um divisor de águas no JN.

Apesar de todas as evidências, parece que os analistas não viram ou preferem não ver estas significativas mudanças. E elas ocorreram por uma série de fatores, que já apontei em outros momentos. Pelo visto, enquanto os objetos de análise mudam, os analistas continuam adotando as mesmas e ultrapassadas perspectivas. E, assim, produzimos apenas o mais do mesmo. Até quando?

***

Professor universitário e pesquisador do Cult/UFBA

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 josé vieira gomes filho
 Enviado em: 25/09/2006 17:56:30
Caro Leandro, em minha humilde opinião, jornalistas de seu gabarito deveriam pensar, um pouco mais nas milhares de pessoas que sofrem na 316 (digo isso porque ha cerca de dez anos transito por aquela estrada, se é que assim possamos chama-la) antes de se apregoar a devaneios típicos de militantes partidários em que tudo que se passa na TV que não lhes agrade,torna-se motivo de conspiração ao Governo ora no poder. Como se pôde observar, a "caravana" de Pedro Bial tb passou por locais de beleza inestimavel em nosso pais, e será que todas as vezes que for mostrado por esta ou qualquer outra emissora de TVo lado podre da coisa isso deverá ser taxado como ataque pré-direcionado ao Governo Federal. Será que é justo com a quela população que mora às margens da dita estrada e para aqueles com eu que por ali transito e sei o martírio que é percorrer aquele trecho que uma imprensa móvel de repercussão nacional que por alí passou simplesmente feche os olhos para tudo isso apenas para não desagradar jornalistas como vc. Pois vou lhe dizer não sou um simpatizante da Rede Globo, mais tenho muito a agradecer a esta empresa e ao jornalista Pedro Bial por ao passar pelo que muitos viajantes passam, ter se compadecido por nossa região. E lhe faço o convite antes feito por Bial aos presidenciáveis: venha visitar a BR 316. Cordialmente, José Vieira Filho
 George Brito
 Enviado em: 21/09/2006 15:44:42
Caro Leandro, Concordo com sua perspectiva. Acho que a relação da grande imprensa com o campo político requer aspectos muitos mais complexos do os meramente por assim dizer politiqueiros. Enxergar que sempre a mídia é eleitora preponderante dos governos deste país é resquício de um pensamento recalcado na pretensão de um poder além da obrigação de informar. Abraço, George Brito
 Magda Melo
 Enviado em: 19/10/2006 09:35:02
Sr. José Vieira, Concordo plenamente com tuas colocações, até porque sou de Bacabal (que é pertinho de Alto Alegre) e conheço o pior trecho da BR 316. Mas, realmente houve um equívoco na sua interpretação ao trecho de Colling. Ele defende exatamente o que tu defendes. Selecionei dois trechos para que você observe: “Para efetivamente termos certeza de que as reportagens foram construídas com determinadas intenções políticas, o analista deveria ter acompanhado o processo de produção do material jornalístico. Sem isso, o máximo que podemos reunir são evidências, formular hipóteses que, algumas vezes, parecem muito plausíveis” “Voltando à reportagem sobre a situação da BR-316, por que não é possível supor que Pedro Bial decidiu-se pela reportagem simplesmente porque o assunto atendia aos chamados “critérios de noticiabilidade”? Será que ele não foi influenciado pelas pessoas que, como ele, transitavam pela rodovia? Estas possibilidades são absurdas? Não parecem” Abraços conterrâneos,
 valdogenio magalhaes
 Enviado em: 21/09/2006 15:34:21
Sinto-me à vontade para discordar de sua posição quanto às criticas elaboradas utilizando-se de parametros de comparação e a um comportamento já conhecido de uma instituição como a rede globo, mas o importante é de que qualquer matéria jornalistica deveria ter o amparo de uma investigação completa de sua veracidade e importancia para um processo como o processo eleitoral, o que conduziria à responsabilidade na imprensa. Caso possuíssemos uma imprensa responsável, imparcial e corajosa, eu diria que não estariamos no Brasil, onde um homem é preso por roubar um pão mas um "menor" de 17 anos e 11 meses não será preso por matar um ser humano.
 Leandro Silva
 Enviado em: 06/10/2006 23:35:38
Caro José Vieira Gomes Filho, acho que você está criticando o analista errado. Você criticou Leandro Colling, no entanto concorda com as idéias dele. Ele disse exatamente o que você pensa, que o JN pode ter passado a questão da 316 porque seria de interesse do público, e de todos aqueles, que como você, têm que passar por lá com freqüência. Os analistas anteriores, Venício Lima e Gilson Caroni Filho, é que creditavam a exposição do estado da Br-316 a uma manobra política para prejudicar um candidato.
 Luis Alvarez
 Enviado em: 26/09/2006 05:11:56
Caro Valdogenio, Será que a sua análise não se enquadra justamente no que o autor do artigo considera: " (...) os momentos extraordinários para, a partir deles, supor que toda e qualquer reportagem segue a mesma orientação e tendência."? Será que toda a mídia é tendenciosa e irresponsável? Talvez o principal foco da crítica seja justamente o caráter simplista utilizados pelos "analistas da mídia".

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