FORMAÇÃO PROFISSIONAL

Quanto custa ser jornalista

Por Enio Moraes Júnior em 24/04/2006 na edição 378

Sabendo que sou jornalista e professor de Jornalismo, uma amiga que estava interessada em trabalhar na área perguntou se eu sabia quanto custa ser jornalista. Fiquei surpreso com a pergunta, especialmente pela crueza e sinceridade contidas num enunciado aparentemente tão simples. Confesso que não soube responder. Rapidamente passaram pela minha cabeça alguns números, mas algo na formulação daquela questão me incomodava e achava que por mais precisa que pudesse ser a resposta, em cifras, algo estaria faltando.

Disse que pensaria a respeito e depois conversaríamos. Antes disso, fiz alguns cálculos: somando 10 ou 12 mensalidades de uma faculdade na faixa dos R$ 800, o ano sairia por volta dos R$ 8 mil, mas pensando em quatro anos, teríamos R$ 32 mil. Pensei na compra de 10 ou 20 livros por ano, algo em torno de R$ 500, teríamos aí R$ 1.500 a R$ 2.500 durante o curso. Somando transporte e lanches, chutei: de R$ 2 mil a R$ 3 mil. Mais uma ou outra assinatura de jornal ou revista, provedor de internet, um ou outro equipamento (como gravador, máquina fotográfica etc.), um ou outro congresso: mais uns R$ 15 mil.

Como números nunca foram o meu forte, resolvi sintetizar: ser jornalista custa mais ou menos o preço de uma quitinete razoável no centro de São Paulo. Pronto! Mas havia algo na pergunta que ainda me deixava em dúvida. Alguns dias depois, minha amiga me procurou:

– E então, quanto custa ser jornalista? Estou perguntando porque, dependendo do valor, talvez eu faça outro curso...

Disse ainda que talvez cursasse Letras, Moda, Direito ou mais uma ou duas opções que não lembro agora. Fiquei surpreso com o leque de possibilidades e voltei atrás na resposta da quitinete. Observei que em vez de perguntar "quanto custa" ela deveria pensar em "o que custa". E melhor ainda: em "o quanto vale um jornalista".

Construção da cidadania

Jornalista não se faz, apenas, jornalista principalmente se é. O sentimento de ser jornalista não se compra. Claro que a escola, a formação, o contato com as teorias e a prática laboratorial da profissão são fundamentais para o aprendizado, mas na sociedade de consumo o sentimento da "venda" de tudo quanto é coisa conseguiu distorcer e fazer se perder, em nós, a verdadeira essência das coisas.

"Quanto custa" ser jornalista é a parte menos importante de "o que é" ser jornalista. Essa visão é importantíssima para que aqueles que pretendem seguir a carreira entendam o que estão fazendo na faculdade e possam tirar o maior proveito possível do curso, da formação e da profissão.

A primeira coisa que alguém interessado na área ou um aluno deve fazer, nesse sentido, é responder a si mesmo o que é jornalismo. Muita gente não sabe. Apesar de os diversos autores conceituarem o jornalismo de diferentes formas, cada indivíduo vai chegar ao seu próprio conceito levando em conta sua relação com seus conhecimentos de mundo, com o outro, suas experiências etc.

Pessoalmente, associo o jornalismo a um espaço de construção da cidadania em que os direitos e os deveres de cada indivíduo são preservados e defendidos. No meu entendimento, o jornalismo tem um aporte humano e ético indiscutíveis, mesmo que muito do que exista no mercado e se apresente como jornalismo tenha que ser jogado no lixo, abandonado, e pouco do que eu conceba e defenda seja efetivamente praticado.

Vale a pena

Ainda que possa ser fomentada no espaço familiar, nas relações sociais e pelos veículos de comunicação, a cidadania tem na escola um importante campo de discussão. No caso da formação do jornalista, embora contemplada nos currículos universitários, um dos aportes mais importantes da formação cidadã está na relação que os professores estabelecem com os alunos. Foi isto, inclusive, que revelou a pesquisa de mestrado A formação cidadã do jornalista no Brasil, que acabo de concluir na Escola de Comunicações e Artes (ECA/USP). O estudo de caso da formação de estudantes de Jornalismo da ECA indicou que cidadania é mais que um conteúdo a ser ensinado curricularmente: ela é trabalhada principalmente nos referenciais pedagógicos, na didática e, enfim, na relação que o docente estabelece com seus alunos.

Respeitar o aluno como cidadão talvez seja o principal estímulo que o professor possa dar aos estudantes para que eles possam responsabilizar-se por suas vidas, por sua formação e por sua profissão. O papel do professor é fundamental para que o educando conquiste sua cidadania e saiba também o que é respeitar, do ponto de vista dessa mesma cidadania, o público da informação jornalística para o qual ele deve trabalhar e a quem, de fato, ele deve servir. Este aprendizado não pode ser expresso em valores, em cifras, mas em significado. Não há, portanto, como falar em "quanto custa".

Nesse sentido, convenci minha amiga de que ser jornalista, empenhar-se em uma formação na área implica esforço permanente de respeito ao outro e ao mundo em que se vive. Implica algumas noites sem dormir, leituras atentas – e não apenas de livros, mas das pessoas e da vida –, algumas doses de indignação, inquietação e esperança. Muitas vezes tudo isso numa quitinete – nem sempre razoável – no centro de São Paulo. Em todo caso, ser jornalista vale a pena, porque vale o outro e um mundo melhor. Parodiando Fernando Pessoa: vale a pena, "quando a alma não é pequena".

***

Jornalista, professor de Jornalismo em São Paulo, pesquisador das relações entre cidadania, educação e imprensa, mestre em Ciências da Comunicação pela USP e especialista em Jornalismo Político e Econômico

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 Gil Horta Rodrigues Couto
 Enviado em: 30/04/2006 07:04:51
Show de bola Enio. O valor de um profissional não pode ser medido pelo que ele gastou para estudar, se especializar, adquirir mais conhecimento. O valor está no que ele fará com o conhecimento que recebeu, com os quinze, 20 livros que comprou E LEU por cada ano de faculdade. Pelos contatos com outras cabeças pensantes durante os congressos que possa ter ido. O valor de ser íntegro, ético, profissional. Outro dia, discutia o valor em reais de um curso, particular, de medicina em minha cidade. Mais ou menos 2.800 reais por mês, só de mensalidade. Isso durante os cinco, seis anos de curso. Ao final, a mensalidade teria consumido mais de 200 mil reais, sem contar livros, residência etc. "É muito caro" disse um amigo, no que concordei, mas emendei: e quando um médico destes salvar uma vida? E quando um médico destes enveredar pela pesquisa e descobrir uma vacina, um remédio, uma cura e salvar muitas vidas? Quanto custa?
 Cristiane Donizete
 Enviado em: 12/05/2006 22:50:02
Enio, você tem idéia do quanto me surpreende? Me fez rever tantas coisas nesses últimos minutos... Valorizar o meu investimento foi a primeira delas; me dedicar mais, a segunda e a terceira, foi perceber que eu realmente quero ser jornalista. Que citação maravilhosa! Te adoro meu professor querido, pura e simplesmente, sem demagogia: - você é o melhor! Parabéns. Cris
 Osnir E. de Oliveira
 Enviado em: 30/05/2006 16:26:38
Sou estudante de jornalismoe bem sei quanto custa pagar uma universidade. Um preço que só vale a pena pagar se for em nome de um mundo mais democrático. E é isto mesmo no fim das contas que vale sacrificar minha kitinete.
 Mari Júlia Adassa
 Enviado em: 30/05/2006 22:28:45
Tinha ouvido falar desse texto mas só agora pude lê-lo. Ser jornalista não tem preço, ser cidadão muito menos!!! Concordo plenamente. Parabéns, Enio!
 samuel barbosa
 Enviado em: 30/10/2007 22:11:04
pronto!!!! tenho respostas para minhas dúvidas. obrigado
 Paulo H. Marques da Silva
 Enviado em: 07/12/2007 15:10:02
PATÉTICO....não a sua exposição ,mas sim, a alguns comentários. JORNALISMO é muito mais que palavras, pois requer de nós atitudes é desprendimento a qualquer filosofia humana. REALMENTE tudo vale a pena se a alma dos estudantes não for pequena.
 Jacqueline de Brino
 Enviado em: 07/01/2009 16:17:45
Liberdade é a definição quando se sabe aquilo que quer ser, eu quero ser jornalista porque é uma profissão que muitas vezes (dependendo do veículo aonde se trabalha) a sinceridade sempre permanece...não como muitos apenas para fazer parte desse nosso " belo quadro social".
 Maria Gabriela Brito
 Enviado em: 18/03/2009 17:47:17
Andava desiludida com a profissão, por questões financeiras. Estava avaliando se compensava, já que o piso salarial não passa de R$900,00, quase o preço da faculdade, estive perto de desistir e mudar para um desses cursos que todo mundo faz. Mas percebi que nada é mais compensador do que fazer alguma coisa que a gente gosta, e depois de ler o artigo, percebi: compensa e muito ser jornalista. Talvez não pelo dinheiro, mas pelo prazer da profissão. Quem faz o que gosta, faz bem feito, quem sabe daí eu colha bons frutos no futuro.

Enio Moraes Júnior

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