LEITURAS DA FOLHA

Sem pé nem cabeça, irresponsável, delirante

Por Evandro Carvalho em 08/12/2009 na edição 567

Jean Baudrillard, pensador francês falecido em 2007, afirmava categoricamente que a chamada Guerra do Golfo (1991) não existiu. Para ele, o que a TV americana mostrou, em especial a CNN e Peter Arnett, foi um grande vídeo-game. À luz dos fatos, a investida militar dos americanos no Iraque durou menos de um mês. Ela se resumiu a um intenso bombardeio aéreo sobre a cidade de Bagdá, o qual o Pentágono chamou de "Operação Tempestade no Deserto", um bombardeio "cirúrgico" que preservou a patrimônio histórico/cultural da cidade. Depois de alguns dias, a infantaria se encarregou de fazer o resto da "limpeza". Ao todo, apenas 36 soldados americanos morreram no "conflito". Para Baudrillard, a Guerra do Golfo não aconteceu e nunca existiu, pelo menos nos moldes convencionais. Foi uma criação da mídia.

O jornalista Cláudio Abramo, falecido em 1987, fez a cobertura da Guerra Civil espanhola. Relatou uma Barcelona maltrapilha, nos escombros. Descreveu um povo sem esperança, famélico, sem emprego. Informou sobre um país à beira do caos e da desgraça. [Nota da Redação: Cláudio Abramo nasceu em 1923; é improvável que tenha sido correspondente de guerra dos 13 aos 16 anos de idade.] O norte-americano John Reed, em seu relato jornalístico Os 10 dias que abalaram o mundo, descreveu a Moscou czarista e efervescente nos bastidores, pouco antes da Revolução Russa de 1917. Euclides da Cunha, num português neologista quase indecifrável, relatou o homem Antônio Conselheiro na pele de um messias em Canudos e a investida covarde e genocida das tropas brasileiras. Muito mais passional que Abramo, Reed e Euclides fez Edgar Peréa, da Rádio Caracol, da Colômbia, que, num olimpo de histeria e felicidade, chorou o gol do atacante Rincón no último minuto contra a Alemanha. Gol este que classificou a Colômbia para a fase seguinte da Copa 90 de futebol.

Mentiras, notícias e verdades

Cada um à sua maneira ou estilo, esses jornalistas buscaram ser fiéis ao máximo ao que viram e ouviram. Trataram de se "distanciar" daqueles fatos para buscar a tal da isenção e imparcialidade. É claro que Edgar Peréa, se pudesse, pularia da cabine de rádio para abraçar Rincón, mas traduziu no melhor estilo latino a alegria de um povo que experimentava depois de muito tempo as emoções de uma Copa do Mundo. Nenhum dos quatro citados plantou coisas, inventou ou distorceu fatos.

Na sexta-feira (27/11), a Folha de S.Paulo publicou artigo de César Benjamin, ex-assessor do presidente Lula desde os tempos da fundação do PT. Benjamin relatou no artigo que Lula comentou em 1994 que teria violentado um jovem no período em que esteve preso durante a ditadura. A estapafúrdia história depois foi desmentida, nada mais era do que uma das incontáveis brincadeiras de Lula. A Folha, portanto, que sequer se deu ao trabalho de pesquisar o assunto ou levantar e ouvir outras fontes, plantou uma notícia, deu crédito a uma história sem pé nem cabeça, irresponsável, delirante.

Que instituição é essa que deveria traduzir o que de fato está acontecendo hoje, mas que dá crédito a uma mentira de quase 30 anos? Veja e Estadão foram a reboque no embuste. O Globo, felizmente, ignorou a história publicada na Folha. E pensar que estamos ainda em 2009. Ano que vem será um ano dramático para imprensa brasileira: Mentiras transformadas em notícias; notícias transformadas em verdades.

***

Jornalista, Belo Horizonte, MG

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 Alexandre Marino
 Enviado em: 08/12/2009 15:04:18
Parece-me que irresponsável e delirante é, em primeiro lugar, o autor deste artigo. Analisemos apenas o penúltimo parágrafo. Vejam esta frase, que copiei literalmente: "Benjamin relatou no artigo que Lula comentou em 1994 que teria violentado um jovem no período em que esteve preso durante a ditadura." No artigo de Cesar Benjamin, pelo menos no exemplar que li, não é isso que está escrito. Lula teria comentado sua tentativa de violentar o jovem, e é um comentário bastante debochado, embora tenha tocado fundo no autor do artigo, ele próprio vítima em potencial, durante a prisão, dos estupradores. O artigo de César Benjamin é um testemunho, não é uma reportagem. Uma reportagem exige que se ouçam outras fontes. Um testemunho, não. O testemunho é verdadeiro ou não é. A Folha preferiu acreditar que era. Além do mais, a única checagem possível seria perguntar a Lula se ele havia de fato narrado o episódio. É claro que Lula diria que não. Quando um policial declarou na imprensa que Lula não poderia ter vivido essa situação porque as condições da prisão eram outras, ele desmentiu Lula - não desmentiu Benjamin. E é bom lembrar que houve, na imprensa, uma confirmação de que o diálogo existiu, embora tenha sido interpretado como "brincadeira". Ora, há quem ache graça em piadas preconceituosas e racistas sobre negros, judeus, etc. E há quem não ache. Depende da personalidade de cada um.
 Joana Fortes
 Enviado em: 08/12/2009 19:26:22
nem me fale evandro, nem me fale.. eu ja tratei de cencelar minha assinatura da folha há alguns meses e não estou querendo estar nesse país ano que ver. espero estar bem longe, pois sangue de barata tem limite.
 Edivaldo Santos
 Enviado em: 08/12/2009 22:49:58
O jornalista Ricardo Noblat também deu seu respectivo apoio para disseminar a vil denúncia.É um jornalismo extremamente sujo e partidário.
 Rogério Ferraz Alencar
 Enviado em: 09/12/2009 02:07:41
Acho que Alexandre Marino tem razão, em parte. César Benjamim não narrou um estupro, mas a única maneira de checar a veracidade da narrativa não era perguntar a Lula. Poderiam perguntar aos citados por César Benjamim. Sylvio Tendler confirmou a narração, porém, como piada. Mas também disse que não se lembrava da presença de César Benjamim no almoço onde a gozação teria sido feita. Tarso Santos, outro citado, negou a narração, e também disse que não se lembrava de Benjamim no tal almoço. Ou seja: se a Folha checasse antes, poderia não publicar a narrativa, pois a presença de Benjamim no local estaria seriamente posta em dúvida. Como Benjamim não estava no local, quando a narração teria sido feita, e como diz que Lula dirigiu-se diretamente a ele, a narração, nessa parte, é mentirosa. O policial não desmentiu Lula, pois Lula não disse nada. O que o policial disse - que a situação não poderia ter ocorrido - reforça o tom de piada descrito por Sylvio Tendler. Se a Folha tivesse perguntado a Lula, ele negaria, claro. E a negativa dele não valeria?
 Marcelo Ramos
 Enviado em: 09/12/2009 12:59:00
Prezado Alexandre Marino, já que o senhor tenta corrigir o autor, deixe-me apontar pelos menos uma correção ao seu texto. Pessoas com mais credibilidade do que a Folha de São Paulo, as quais o senhor deveria conhecer como jornalista, é que descreveram o assunto. Não foi interpretado como brincadeira, FOI MESMO uma brincadeira. E no almoço em questão, onde estavam presentes o Silvio Tendler e o publicitário Paulo de Tarso Santos, o Cesar Benjamim não esteve presente. Atualmente, a Folha não possui mais credibilidade do que esses personagens, muito menos ainda do que alvo que ela tenta atacar. Então, até prova em contrário, foi mesmo uma brincadeira do candidato Lula. Muitas pessoas que (ainda) assinam a Folha, e que estão com as mentes poluídas por esse veneno diário, crêem que Lula precisa provar algo. Não precisa.
 sergio ribeiro
 Enviado em: 09/12/2009 13:50:54
Sílvio Tendler afirmou peremptoriamente que só um idiota não entenderia que se tratava de piada, ainda que de mau gosto. comuns em encontro somente entre homens. Nenhum envolvido, seja na tal reunião com o publicitário americano ou presente na detenção confirmou tal história e Benjamin, em artigo posterior na própria Folha, fez um cínico pedido de desculpas e sequer citou a tal história. Como ele próprio disse "imolou-se". No popular queimou o próprio filme, pois ganhou gratuitamente a fama de mentiroso. O que ficou de toda a confusão é que podemos esperar de tudo na próxima eleição. A história de Mirian Cordeiro parecerá brincadeira de criança perto do que está por vir.
 Fabiana Tambellini
 Enviado em: 09/12/2009 15:52:58
É evidente que Cesar benjamin deu a entender a tentativa de estupro por parte de Lula, se o artigo fosse apenas sobre uma piada infame não provocaria o tsunami que assistimos.
 Fábio de Oliveira Ribeiro
 Enviado em: 09/12/2009 17:18:36
Hoje me ocorreu que o tal Benjamim da Folha (que obviamente está a anos luz do magnífico Walter Benjamim) confundiu Lula com Nicolo Di Bernardo Dei Machiavelli. Deve ter tomado uns whiskies e cruzou a biografia escrita por Maurizio Viroli sobre o diplomata e escritor florentino com a trajetória do líder sindical e político brasileiro. A mim me parece que a únicas semelhanças entre Lula e Machiavelli são as seguintes: ambos tiveram origens humildes, ambos demonstraram grande habilidade diplomática e ambos foram presos políticos. Ao contrário de Lula, Machiavelli não foi só acusado, ele foi formalmente processado por praticar sexo anal, coisa que na época era um crime grave. Reproduzo aqui o fragmento citado por Viroli que deve ter feito o tal Benjamim da Folha acusar Lula após alguns whiskies "Notifica-se a Vós, Senhores Oito, como Nicolau de Messer Bernanrdo Machiavelli [ ] Lucrécia, dita Riccia, [ ]. Interrogai-a e descobrireis a verdade." Lula foi interrogado antes ou depois de ser acusado do mesmo feito que Machiavelli? Eu penso que não.
 Fabiana Tambellini
 Enviado em: 09/12/2009 19:17:34
Tem um detalhe sobre Benjamin pouco divulgado, ele é funcionário do Requião, está pendurado num cargo da TV Educativa do Paraná, agora a Assembléia paranaense diz que vai caçar o contrato dele. Muito ético esse Benjamin...
 oscar colucci
 Enviado em: 10/12/2009 11:59:24
realmente alguns veiculos de comunicação não tomam cuidado com o que considero importante nas materias publicadas: checar todos os lados antes de publica-los.oleitor, como eu, fica descrente de muita cooisa que lê. há que se tomar mais cuidado e respeitar o leitor, a maior riqueza de um veículo de comunicação.

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