LIVRO DIDÁTICO
Tempestade em copo d’água
Por Rogério Christofoletti em 18/05/2011 na edição 642
Tenho acompanhado de perto o debate em torno do livro adotado pelo MEC e que estaria "ensinando errado" a língua portuguesa, ao reproduzir erros de concordância. E o que se vê nos meios de comunicação é bastante discutível não apenas do ponto de vista linguístico, mas também jornalístico.
De maneira ampla, os meios de comunicação têm engrossado as críticas ao ministério e ao livro, formando uma verdadeira tropa de choque a favor da língua pátria. Jornalistas gesticulam, esbravejam, tecem discursos moralizantes em torno do idioma, como se viu, por exemplo, na edição de terça-feira (17/5) do Bom Dia Brasil, da Rede Globo. O jornalista Alexandre Garcia disparou contra o livro e o MEC, criticando uma certa cultura que fraqueja diante dos insucessos escolares, que flexibiliza demais o ensino e permite o caos que hoje colhemos na educação. Ele lembrou os exemplos da Coreia do Sul e da China, que há décadas investem pesado em seus sistemas educacionais e hoje prosperam, assumem a dianteira de alguns setores. Só esqueceu de dizer que esses países investem nas ciências exatas e duras e não nas humanísticas, no ensino de língua materna etc.
Não satisfeito, o Bom Dia convocou o professor Sérgio Nogueira, guardião da língua nacional e jurado do quadro "Soletrando", do Caldeirão do Huck, este bastião da cultura brasileira. Nogueira também bateu forte, e quase pediu a cabeça do ministro Fernando Haddad, citando casos recentes (e graves) que chacoalharam o MEC. Só não "demitiu" Haddad por falta de tempo em sua intervenção.
Opinião apressada
Mas o caso do Bom Dia Brasil não é único. Alguém aí viu ou ouviu a autora do livro em alguma entrevista? Ela pôde dar sua versão? Alguém aí viu ou ouviu linguistas como Marcos Bagno e Ataliba T. Castilho, que pesquisam e trabalham há décadas em torno da discussão de uma gramática para o português falado e da singularidade idiomática do português brasileiro? Alguém aí viu alguma matéria sobre preconceito linguístico? Pois é, pois é...
Marcos Bagno tem um livro simples sobre o tema do preconceito linguístico, derivado de sua tese de doutorado e de anos de pesquisa. O professor Ataliba escreveu três volumes de uma gramática voltada ao português falado. Isso não é suficiente para se perceber que existem abismos entre o que se escreve e o que se fala? Que a língua falada é mais dinâmica, mais porosa que o padrão culto da língua, a ser aplicado na sua dimensão escrita? Alguém aí já ouviu falar de um genebrino chamado Ferdinand de Saussure, por acaso pai da Linguística, cujo livro póstumo de 1916 já tratava de separar língua (langue) e fala (parole)?
O fato é que sobra opinião apressada e ignorância na cobertura da imprensa sobre o caso. Sobra também prescritivismo, conservadorismo e elitismo no ensino de línguas. E justo nos meios de comunicação, ao mesmo tempo ator e ambiente fundamentais para difundir, disseminar e consolidar gestos de linguagem, fatos da língua.
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| Aquilino Paiva |
| Enviado em: 18/05/2011 09:05:42 |
| Assisti ao referido programa, e concordo com o Rogério Christofoletti. A mídia sempre comete asneiras quando resolve falar de língua e ensino. Distorce os conceitos e as abordagens da linguistica. E´aí chamam o professor de gramática, que, no caso, fez apologia ao bizarro quadro soletrando. O fato é que nenhum linguista brasileiro respeitado, que escreve sobre a relação entre linguistica e ensino, defende que não se ensine a norma padrão nas escolas. Isso fica claro em qualquer leitura de um desse autores (Possenti, Geraldi, Bagno, Antunes e muitos outros). Se algum jornalista se desse ao trabalho de ler qualquer obra deles veria claramente que, para os linguistas: 1-a obrigação da escola é ensinar a norma padrão; 2-a norma padrão e as variantes cultas são bens culturais, conhecimento importante para a vida social e seu aprendizado é direito de todo aluno. |
| Flávio Gordon |
| Enviado em: 18/05/2011 11:08:09 |
| Você só pode estar de brincadeira! Não, ninguém nunca ouviu de Saussure, só você, que é especialista. Então explica aí, em detalhes, como Saussure pode limpar a barra do MEC. E você vem me falar em Marcos "Gabinetto da" Bagno? Ah, faça-me o favor! |
| Haroldo Werneck |
| Enviado em: 18/05/2011 11:09:49 |
| É muito otimismo achar que os "repórteres" e "comentaristas" de plantão leem livros... A grande maioria analisa as notícias lendo resumos na internet e fazendo pesquisas no Google. Triste realidade... |
| Fernando Rosendo Araujo Filho |
| Enviado em: 18/05/2011 11:38:49 |
| Acredito ser relevante observarmos a opinião da ABL (http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2011/05/17/para-presidente-da-abl-obra-valida-erros-grosseiros-380848.asp) |
| Artur Dias |
| Enviado em: 18/05/2011 17:12:00 |
| O ponto de partida para delinqüentes intelectuais da ordem de Bagno ou Ramos é o mesmo de qualquer demagogo: ser "pobre" é uma qualidade a ser exaltada, mesmo que isso signifique comer mal, não ter serviço de saúde decente, morar na favela debaixo da ameaça de traficantes e de deslizamentos etc. Seria ainda uma "qualidade" falar errado, ainda que a falta de domínio da língua impeça o indivíduo de organizar seu pensamento e de se expressar com clareza - o que gera uma enorme frustração e derrube a auto-estima mais do que o tal "preconceito lingüístico" alardeado pelos militantes da "causa dos pobres". Você ainda embarca nessa covardia ao afirmar que na Coréia do Sul e na China a língua nem é assim tão importante para o desenvolvimento desses países. Você nunca encontrará famílias de baixa renda que levem seus filhos à escola para reforçar a fala errada. As pessoas querem sim uma vida melhor, entender melhor as coisas, enxergar mais longe. Sem o domínio do sistema lingüístico, o buraco negro da ignorância teimará em engolir mais e mais crianças e jovens, agora com o carimbo do governo federal. |
| alfredo sternheim |
| Enviado em: 18/05/2011 20:14:48 |
| É paradoxal a TV Globo se indignar com o livro do MEC e com erros de português. Ela deveria começar seu patrulhamento linguístico na emissora O que tem de gente "comendo" silabas é impressionante. Em uma novela, ator que interpreta um jornalista não diz "estou aqui". Diz "to aqui". Ou "Espera ai" vira "Pera ai." E aqueles que começam tratando o antagonista de "senhor Fulano, me candidato ao posto por que você é o chefe". A mistura de tratamentos... Uma vergonha. Reparem. AInda na TV em geral e e no jornalismo, frases como "Vivien Leigh gravou cenas de ...E o Vento Levou em 1939." Em 1939, nenhuma atriz gravava cenasde filme: filmava. Filmava em negativo que depois virava cópia ou cópias de exibção. Mas muitos jornalistas e críticos resvalam nesse erro. Pessoal da TV, da mídia, façam a lição de casa antes de falarem bobagens a respeito do livro adotado pelo MEC. |
| Jairo Tardelli Filho |
| Enviado em: 18/05/2011 23:19:46 |
| Todos sabem que há diferenças entre a língua falada e a escrita, e que são aceitos e tolerados alguns deslizes que cometemos na comunicação oral cotidiana. Todos sabem também que uma pessoa, por conta de uma ou outra habilidade excepcional, pode atingir elevadas posições na escala social, política ou econômica falando e escrevendo mal. Para um "burro normal" não resta alternativa: é o penoso esforço do aprendizado da gramática, da ortografia e de tantas coisas mais. Se não for assim, esse sujeito será sempre ultrapassado em concursos, recusado em entrevistas profissionais, preterido em promoções no trabalho e ridicularizado em várias situações (quanto preconceito linguístico!). Realmente não sei qual seria a "vida melhor" a que se refere o título do tal livro que eu também não li... |
| Warlem Amorim |
| Enviado em: 19/05/2011 09:55:40 |
| É indiscutível que o português que se fala muitas vezes é diferente do que se escreve, até porque, existem os regionalismos, a preguiça e até mesmo a ignorância. Se vc pedir pra um mineiro escrever ele jamais ecreverá "sapassado", ele escreverá "sábado passado", da mesma forma que o Amazonense não escreverá "tu é leso é?". Podemos FALAR com o regionolismo ou a ignorância que quisermos, mas JAMAIS podemos escrever e PRINCIPALMENTE aceitar que em um livro exista a forma burra da língua portuguesa, uma pessoa em formação educacional, quer seja uma criança de 6 anos ou um adulto iletrado, com certeza se confundirá ao aprender as duas formas. Não acho que seja uma tempestade em copo d água, é uma gotinha no oceano, mas que cria uma marola que se propaga por muito tempo. |
| Eric Servus |
| Enviado em: 01/06/2011 09:10:12 |
| Excelente análise, Rogério!! Infelizmente, sobre língua abunda a ignorância neste país. E pior: sem analisar o livro, o condenam à fogueira. Não lembra um pouco a Inquisição?? Será que, em vez de estarmos indo para frente, estamos regredindo à Era das Trevas? Engraçado, por fim, como tem gente que acha que a Academia Brasileira de Letras tem algo a dizer sobre isso. Uma instituição privada, um clube que tem José Sarney e Paulo Coelho como seus luminares. Bem, sem comentários... |
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