CUSTE O QUE CUSTAR

Um programa que faz jus a seu nome

Por Emanuelle Najjar em 14/06/2011 na edição 646

Nos últimos meses, bem que o CQC está evidenciando bastante a razão de seu nome. Isso a ponto de muitos citarem que virou moda falar mal do programa ou de seus apresentadores. É, devo dizer que sim, provavelmente este seja o caso e a verdade é que motivos não faltam: eles não param de gerar novas razões e a mais recente delas é a pior possível.

Estou falando da entrevista de Rafinha Bastos para a revista Rolling Stone de maio deste ano na qual o apresentador e pretenso comediante disparou mais uma de suas pérolas:

Toda mulher que eu vejo na rua reclamando que foi estuprada é feia pra c....” O humorista Rafinha Bastos está no palco de seu clube de comédia, na região central de São Paulo. É sábado e passa um pouco das 20h. Os 300 lugares não estão todos ocupados, mas a casa parece cheia. Ele continua o discurso, finalizando uma apresentação de 15 minutos: “Tá reclamando do quê? Deveria dar graças a Deus. Isso pra você não foi um crime, e sim uma oportunidade.” Até ali, o público já tinha gargalhado e aplaudido trechos que falavam sobre como cumprimentar gente que não tem os braços, o que dizer para uma mulher virgem com câncer, e por que, depois que teve um filho, Rafinha passou a defender o aborto. Mas parece que agora a mágica se desfez. O gaúcho de 34 anos, 2 metros de altura, astro da TV, não está emplacando sua anedota sobre estupro. Os risos começam a sair tímidos e os garçons passam a ser chamados para servir mais bebida. Rafinha aparenta não se dar conta de que algo ruim está acontecendo. Em vez de aliviar, ele continua no tema. “Homem que fez isso [estupro] não merece cadeia, merece um abraço.” Em vez de rir, uma mulher cochicha para alguém ao lado: “Que horror.”

Que ninguém seja pego desprevenido

Eu gostaria de saber desde quando o estupro é uma piada, mas ok. Muitos já falaram sobre isso: a agenda dos assuntos femininos tem sido bastante discutida em função deste programa, portanto é bom esquecer as repetidas alegações sobre a sua maternidade. Aliás, muitos outros temas viraram pauta diante de sua exibição, seja para o bem ou para o mal, sob a formato que se convencionou chamar de “jornalismo justiceiro” ou sob a palavra em forma de piada – ou algo parecido com isso – de seus apresentadores.

Entendo que se queira protestar contra o tal do politicamente correto, como costuma ser a alegação depois de notarem o circo armado, porém aquilo que julgam ser uma tirada sensacional passa muito longe de ser considerado algo que se enquadre nesta categoria, ou em qualquer outra.

Se isso é um jogo para conquistar audiência e fazer render,sinceramente não sei, porém por mais que eu e vários outros não assistamos ao programa, suas palavras e posturas podem e têm de ser discutidas. Sejam coisas faladas no ar, bastidores ou trabalho isolado longe das câmeras da emissora, tudo isso faz parte do CQC: as denúncias de corrupção, o ímpeto justiceiro, as piadas sem graça, as discussões referentes a misoginia e o argumento da liberdade de expressão usado somente quando é conveniente, que o diga a ameaça de processo por parte de Marcelo Táscontra a professora Lola Aronovich, da Universidade Federal do Ceará (UFC). Tudo isso para o bem ou para o mal.

Se falar mal do CQC é moda ou parte da agenda de muita gente, por assuntos gerais ou simplesmente por uma espécie de ativismo hater, não sei dizer, mas seja lá qual for a resposta, que ninguém seja pego desprevenido. Um programa que tem o nome de Custe o que Custar certamente fará sua reputação valer, como uma obrigação ou uma questão de honra.

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