MURDOCH & NEWS OF THE WORLD

Um tranco no barão da direita

Por Alberto Dines em 12/07/2011 na edição 650

Um episódio sem precedentes na história do moderno jornalismo: o fechamento do tablóide marrom News of the World (doravante designado como NOTW) e a prisão de duas figuras-chave, depois soltos sob fiança – sem qualquer passeata ou abaixo-assinado de protesto –, marcam uma espetacular virada nas relações mídia-midiados no mundo ocidental. O leitor-cidadão, afinal, percebeu o entupimento da rede de esgotos; a sujeira acumulada começou a escapar pelo ralo e macula o processo democrático, o sagrado direito de informar e, de roldão, a última profissão romântica.

Para avaliar as dimensões do acontecido convém anotar o seguinte:

** A imprensa não está no banco dos réus. Quem denunciou o escândalo não foi um governo autocrático nem uma polícia bolivariana: foi um jornalão de qualidade, o progressista The Guardian, secundado a sottovoce, meia voz, pelo conservador The Economist.

** Escândalo flagrado e denunciado, ninguém está clamando por mais controles sobre a imprensa. Em uníssono (até agora), todos exigem que a autorregulação saia da esfera do engodo e da fantasia para tornar-se real, efetiva, sobretudo rápida.

** É um equívoco considerar Rupert Murdoch como símile contemporâneo dos magnatas da imprensa do passado: sua linhagem não é a mesma de W. R. Hearst. Está mais para Joseph Goebbels. Murdoch é um caudilho da direita internacional empenhado em destroçar tudo o que o liberalismo político e o welfare state construíram ao longo do último século. O ex-premiê José Maria Aznar não faz parte de um dos Conselhos da News Corp. por seus méritos jornalísticos. Ele está lá por que é um expoente do reacionarismo espanhol até hoje empenhado em santificar Francisco Franco.

Bola de neve

** O fechamento do NOTW e seus inevitáveis desdobramentos não podem ser circunscritos às singularidades britânicas, nem sua associação com policiais eram exclusividade dos legionários de Murdoch. O editorial que introduz o especial do Economist sobre imprensa nesta semana deixa claro que outros tablóides usavam os mesmo métodos, talvez menos ostensivamente. Importa saber que Murdoch tem mais força política nos EUA. É o patrono da metade de um gigantesco país entregue a uma histeria conservadora que alimenta continuamente através do vale-tudo noticioso da Fox News (chamado de foxificação pelo Economist) que vence em audiência e faturamento as rivais CNN e MSNBC juntas.

** Na entrevista que concedeu à Folha de S.Paulo na segunda-feira (11/7), o antípoda de Murdoch, o fundador do El País Juan Luís Cebrian, lembrou que “jornais nasceram no começo do século 19... formam parte das instituições do mundo democrático... jornal é uma concepção de mundo. Da primeira à última página...” (ver “Google e Facebook são os concorrentes dos jornais”). Murdoch detesta os jornais-instituições, sua visão de mundo é diametralmente oposta. O jornal-instituição tende naturalmente para um processo decisório colegiado, minimamente consensual. É o que o déspota Murdoch mais detesta.

** Apostou na internet porque representava o fim da imprensa esclarecedora, iluminista. Preocupou-se mais em enfrentar a pirataria do Google (que se servia do conteúdo alheio para ficar com o total das receitas) do que em explorar vantagens digitais como ferramenta ou plataforma.

Há 20 anos que Rupert Murdoch ganha todas as paradas. Em algum momento o processo deveria ser barrado. Ou drasticamente revertido. Tudo indica que o momento chegou. A bola de neve pegou um dos mais perversos criadores de bolas de neve.

 

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 Zé da Silva
 Enviado em: 12/07/2011 09:58:22
Ainda bem que essas coisas não acontecem no Brasil. Aqui uma imprensa livre, plural, democrática e pautada única e exclusivamente pelo compromisso inquebrantável com a verdade factual nos dá, diariamente, lições edificantes de ética, de compromisso público, de amor à pátria e ao povo brasileiro...
 roberto dias vianna de lima
 Enviado em: 12/07/2011 10:38:03
gostei da piada ,zé da silva.
 Wendel Anastacio
 Enviado em: 12/07/2011 15:56:40
É Dines, então a bola da vez agora é Murdoch? Que ele não é santo, todo mundo sabe, e há muito tempo! Mas porquê só agora, as metralhadoras/baterias estão voltadas contra elê? Me faz lembrar, suas críticas ao velho Sarney, que tb não é santo, e há muito tempo, mas só agora, vc e outros, resolveram detoná-lo! Como já aconteceu com o ex-FMI, DSK, e muitos outros! Antes ficam calados, e de uma hora pra outra, resolvem e/ou recebem ordens para detonar, este ou aquele desafeto! Chega a ser hilário este comportamento! E o pior, conseguem enganar os mais crédulos e até a grande maioria dos acadêmicos, que aliás, tb, são peças importantes na engrenagem! Mas voltando ao principal, fico a imaginar o qto é doloroso vc detonar seu próprio irmão de fé! Murdoch, como representante e detentor de tamanho poder na imprensa ocidental,onde elege e destrona políticos, nas mais variadas camadas, ser execrado deste jeito! Estamos acostumados a ler estes termos que vc usou, qdo se referem aos governos progressistas, mas Murdoch! Estes termos ficam melhor em Chaves, Castro, Ahmadinejad, Kim Jong Hun,Correa, Humala, etc, etc, e etc. Mas..., como diz a expressão: "Há mais mistérios (inclusão minha - nem tanto!) entre o céu e a terra, do que supõe nossa vã filosofia" (Willyan Shakespeare). Assim, meu caro amigo, se é que posso chamá-lo assim, fique tranquilo, pois tb como diz a expressão: "Rei morto, Rei posto"! E viva o Rei!
 Luciano Prado
 Enviado em: 12/07/2011 16:06:38
Por aqui a revista Época violou o prontuário médico da Presidenta Dilma Rousseff e "os perplexos", “os éticos” de plantão se fizeram de surdos e mudos. Assim surge a escola Murdoch.
 wendel Anastacio
 Enviado em: 12/07/2011 16:11:05
"...o antípoda de Murdoch, o fundador do El País Juan Luís Cebrian, lembrou que “jornais nasceram no começo do século 19... formam parte das instituições do mundo democrático... jornal é uma concepção de mundo.” Dines, está embarcando em nova canoa! Agora é Cebrian e o El País, os idolos a serem alçados! Que tal aprofundar as pesquisas deste seu idolo, e os interesses que ele replresenta! Tempos atrás, em comentário meu sobre sua entrevista com ele, na qual sofri até cerceamento, pelo Egypto, disse eu: " ... que ele era membro dos Bildembergs e do Club de Roma, e que isto não era proibido, mas que em toda referência a ele se omitiae estes dados". Como representante do Grupo Prisa e de tantos outros interesses, gostaria que vc aprofundasse seu jornalismo investigativo, para nos dar maiores detalhes sobre quem e o quê merecemos voltar nossa atenção no momento. Até lá, ficaremos aguardando quem será "fritado" e/u será a bola da vez! O grande dia se aproxima, e os acontecimentos estão acelerando! Fique de olhos e ouvidos bem atentos!
 Newton Alberto Chaves da Silveira
 Enviado em: 12/07/2011 22:06:17
Dines, boa noite. E então.... a Rede Globo não seria o Murdoch brasileiro, ou "ela" (a Globo) seria pior?
 Luciano Prado
 Enviado em: 13/07/2011 09:36:32
Comentar e reclamar sobre a "imprensa" de outros países é mole, não é? Quero ver abordar - sem rodeios - os métodos da velha e carcomida imprensa brasileira. Alguém leu ou ouviu críticas sobre a "bolinha de papel" do Serra que a Globo endossou? Só nos blogs progressistas - os ditos blogs sujos - a farsa foi desmascarada. Tem gente que esperançosa de um dia trabalhar para o PIG fica receosa de abrir o jogo e criticar os seus métodos da velha imprensa brasileira. Portanto, essa gente é tão conivente quanto os que participam ativamente dos métodos repugnantes da velha e carcomida imprensa brasileira.
 alvaro marins
 Enviado em: 15/07/2011 16:53:43
Estou há seis meses longe deste ex-observatório, mas com o caso Murdoch, resolvi dar uma passadinha por aqui para ver se o Dines conseguiria dar uma bola dentro. Tempo perdido, o sr. Dines continua na mesma posição de livrar a cara da velha mídia brasileira, que ele patologicamente insiste em chamar de imprensa.
 Marcelo Ramos
 Enviado em: 16/07/2011 11:51:14
Oh, Dines, o "cidadão comum" percebeu as sujeiras da imprensa, mas tenha certeza de que o NOTW só foi fechado porque grampeou figuras muito incomuns, la creme de la creme. Dines, que vc realmente acredita que, se somente cidadãos comuns tivessem sido grampeados, o NOTW seria fechado? WEake up, man.
 Gerson Chagas
 Enviado em: 16/07/2011 13:07:32
As considerações do Sr. Dines são assaz pitorescas, pois parecem ter sido feitas a partir de um país onde os preceitos da Cidadania são respeitados. Ora, quer dizer então que Globo, Abril, Folha SP, Estadão, Bandeirantes e demais empresas que perfazem o abjeto conglomerado midiático que segue à risca os 5 E (entreter, escamotear, espoliar, enganar e excluir) não seguem cartilha parecida ? Sinceramente, um jornalista dos mais experientes e articulados deveria pôr seu cabedal a serviço efetivo da Cidadania e não a ser mais um a atenuar a esbórnia. E não seria um tremendo contrasenso tal prática vinda de um dos fundadores do Labjor ?
 Luciano Prado
 Enviado em: 17/07/2011 15:00:20
Definitivamente a covardia dos próprios jornalistas está levando a categoria a um descrédito retumbante e a imprensa ao suicídio. Os caras se recusam a apontar o câncer que corrói a profissão. Tangenciam, apontam o dedo para os outros, querem que acreditemos que o “News of the World” é uma exceção e que no Brasil não existe Murdoch. Estão tentando encobrir o sol com a peneira. Quando o caos se instalar vão(cinicamente) se dizer surpresos. Como se houvesse algum heroísmo morrer calado. [ ]

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