HUMOR & MÍDIA

Um país de afetados

Por Erick da Silva Cerqueira em 14/06/2011 na edição 646

A profissão mais perigosa no Brasil, nos dias de hoje, é a de humorista. Fazer humor tornou-se um grande problema, pois é necessário encontrar a dose certa entre fazer rir e não sofrer processos. Humorista deveria receber por insalubridade, adicional de periculosidade e auxílio-advocacia. Mas será que não há como se fazer humor sem sofrer tantas sanções?

O caso parece piada, mas é sério. Danilo Gentili perguntou pela internet: “Quem o King-Kong pensa que é, pra entrar na cidade e pegar logo uma loira? Um jogador de futebol?” Resultado: protestos e processo sob acusação de racismo. Rafinha Bastos, também CQC, afirmou: “Mulher feia estuprada deveria agradecer a Deus.” Resultado: protesto de uma organização feminista acusando o comediante do CQC de ter “incentivado o estupro no país”. Piadas de “bichinha”, como ficou imortalizado o gênero pelo grande Costinha, agora sofrem ação do movimento Gay (e nem saiu a PL122...).

Sobre negros, crime inafiançável. Piadas sobre religiões, afro ou euro descendentes, são sempre chamadas de preconceituosas. De português, judeu ou de árabe: xenofóbicas. Até os políticos, alvo de tantas palhaçadas, protestaram e quiseram acabar com piadas sobre a “classe” no período eleitoral.

Personagens que hoje seriam proibidos

As piadas no país, de Mazzaropi pra cá, sempre tiveram dois temas centrais: falar mal dos outros ou o uso do duplo sentido (geralmente com teor sexual). Geograficamente, as piadas limitam-se aos estereótipos: baiano é preguiçoso, sergipano tem cabeça chata, carioca é vagabundo/traficante, paulista é egocêntrico e workaholic, gaúchos são homoafetivos, amazonense é tudo índio... No campo das profissões: enfermeiras, modelos e secretárias são “mulheres fáceis”; todo advogado é mau caráter; cabeleireiros são gays; policiais são corruptos; políticos, então...

O humor vai precisar passar por uma reformulação em nosso país. O Brasil tornou-se um país de “afetados”. Tudo pode melindrar ou soar ofensivo aos olhos dos outros. E o humor precisa mudar ou viveremos das idiotices dos “Caras de Pau”, das repetidas palhaçadas do Didi, das piadas imbecilizadas do Louro José, dos cansados personagens de A Praça é Nossa e das mulheres maravilhosamente semi-nuas e sem-graça do Zorra Total. Mas teremos ainda o auxílio luxuoso e inofensivo do Castelo Ra-Tim-Bum. Nesse ritmo, em menos de uma década, só poderemos fazer piadas sobre os animais e o reino vegetal.

Quanta babaquice! Chico Anysio, o rei do humor no Brasil, imortalizou vários personagens que hoje seriam proibidos, ou como está na moda dizer, “ofensivos”: o baiano, preguiçoso, homossexual e pai-de-santo, Painho; o velho judeu sovina, Popó; o grande político safado, Justo Veríssimo; o jovem idiota e burguês paulistano, Jovem; o alcoólatra que casou com uma mulher horrorosa, Nazareno. O gay não-assumido, Aroldo, o hetero; o Preto Véio malandro, Véio Zuza, dentre tantos outros personagens que fizeram o Brasil rir durante mais de três décadas, usando estereótipos.

Piada cada vez mais sem graça

Meus amigos, perdoem a sinceridade, mas num país em que um advogado afirma que o seu cliente, um assassino confesso e libertado pela justiça, não irá dar o nome do seu comparsa por “ética profissional”, querer levar os humoristas para o banco dos réus é praticamente uma piada de humor negro, melhor dizendo, humor obscuro.

Os estereótipos estão aí, enraizados há décadas nas piadas brasileiras. Querer censurar o riso será um tiro no pé. Um genial comediante disse uma vez: “Tenho a impressão de que os homens estão a perder o dom de rir.” Se ele estivesse no Brasil de hoje, poderia até ser preso, por colocar para trabalhar uma menor em um dos seus filmes. Ou então, por incentivar a homossexualidade, vestindo uma menina com roupas de menino, sendo acusado pela bancada evangélica do Senado. O Brasil é mesmo o país da piada pronta, mas está ficando, cada vez mais, sem graça.

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 Ricardo Pereira
 Enviado em: 14/06/2011 14:05:07
Conta mais, adorei esta piada em forma de defesa do coitadinho do Danilo e do pobrezinho do Rafinha. Sugiro a leitura do texto publicado aqui neste OI, do Tulio Viana, sobre o conceito de eticamente correto. Qdo vc terminar de rir, a gente conversa...
 Erick Cerqueira
 Enviado em: 15/06/2011 10:03:43
Ricardo, em primeiro lugar obrigado pelo comentário. MAs eu não defendo os coitadinhos do CQC. Pelo contrário. Publiquei num site, inclusive, a matéria da FOLHA (Politicamente Fascista) contra o Gentili. Veja o link: http://tiporevista.com.br/politicamente-fascista-marcelo-coelho/ Só acho que brigar contra o humor, sarcástico ou não, é um erro. Temos coisas mais importantes para lutar. Não gostou da piada, muda o canal. E isso é uma opinião de um nordestino, baiano, neto de negra e bisneto de português. Só ue ao invés me sentir "coitadinho e afetado", prefiro não ligar para as piadas e me importar com coisas mais sérias. Só não espere eu parar de rir. Vai demorar. Abração, Erick da Silva Cerqueira
 Irene Machado
 Enviado em: 17/06/2011 12:16:08
Na verdade são programas "humorísticos" demais, egos inflados demais, um "artista" querendo aparecer mais que o outro visando um contrato publicitário melhor que o outro, falando m... demais. Vamos combinar, com piadinhas sem graça, ultrapassadas. A "classe humorística" precisa ser mais educada sim, os tempos mudaram, o povo não merece mais essas piadas chulas, é preciso que se reinventem. Humor de péssimo gosto não dá mais pra aturar.

Erick da Silva Cerqueira

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