DEBATE NA BAND

Uma cobertura cheia de dedos

Por Alberto Dines em 10/08/2010 na edição 602

O primeiro debate entre os presidenciáveis foi chocho, chato, morno – por causa do horário, da extensão, das exigências legais cada vez mais restritivas, dos acertos entre os partidos e da falta de energia da emissora-anfitriã (Rede Bandeirantes) para impor um modelo televisivo mais dinâmico.

A repercussão foi ainda mais lamentável, diletante, desenxabida. Para começar: em seguida ao debate, na madrugada da sexta-feira (6/8), os portais de notícias ofereceram uma cobertura lamentável. Seguiram um confronto político como se fosse uma partida de futebol – lance por lance. Como ainda não dispunham das referências dos jornais diários e não contam com um quadro de comentaristas qualificados para analisar os fatos 24 horas por dia, simplesmente omitiram-se. Se é assim que pretendem esmagar os jornais impressos, podem desistir: vão perder de goleada.

A tentativa do UOL de apurar quem se saiu melhor foi bruscamente abortada. A votação evaporou-se subitamente. Para não desagradar os perdedores.

Assepsia opinativa

Depois da deserção na hora do acontecimento, vieram os maneirismos e os rapapés no dia seguinte. Os comentaristas de rádio, tevê e internet estavam cheios de dedos, constrangidos, sem jeito de expressar o que sentiram para não serem acusados de favorecer candidaturas. Na verdade, não queriam ser patrulhados. Por isso, juntaram-se para elogiar Plínio de Arruda Sampaio, o simpático candidato do PSOL – mais solto porque nada tem a perder – sem se importar com suas desnecessárias grosserias pessoais que distribuiu entre os pares.

No sábado (7), quando os jornalões finalmente começaram a comentar os desempenhos, o debate já era coisa do passado. Prejudicados por este súbito acesso de bom-mocismo foram os eleitores que esperavam dos jornais opiniões aferidoras, técnicas, abalizadas.

Dirão alguns que este tipo de "distanciamento" – ainda que hipócrita – é mais aceitável do que ataques arrasadores. Falso dilema: assumir as responsabilidades críticas não é sinônimo de avacalhação. O público quer da mídia os elementos básicos para formar seus próprios juízos. Muitas vezes na direção oposta.

Opinar não transgride as normas de conduta jornalística, sobretudo quando se trata de colunistas, comentaristas ou analistas cuja obrigação é justamente acionar o veio crítico da sociedade.

O que os leitores abominam é o engajamento, o fanatismo e, principalmente, a falta de diversidade nos veículos e na mídia em geral.

Com os jornalões oferecendo agora esta pletora de opinionistas seria conveniente liberá-los para expressar opiniões de forma civilizada, urbana. A assepsia opinativa que se seguiu ao primeiro debate é enganosa e perigosa. Parece isenção, mas é subtração pois retira dos meios de comunicação sua função maior que é o estímulo à formação de juízos.

Observar sem ferir

A eleição será no dia 3 de outubro, há ainda cinco debates pela frente; registrar agora um reparo desfavorável porém respeitoso ajuda o processo, ajuda o candidato e ajuda o eleitor.

Dois jornalistas, altamente credenciados, mostraram que é possível criticar o desempenho de um candidato num debate sem atacá-lo impiedosamente ou confrontar suas idéias:

** Juan Arias, correspondente no Brasil do espanhol El País, não tem escondido em seus despachos e análises uma empatia com o presidente Lula e, evidentemente, com a candidata escolhida para sucedê-lo. Mas na edição de sábado (7/8), o veterano jornalista foi claro, incisivo, correto – e muito crítico:

"[Dilma Roussef] revelou sua inexperiência e seu nervosismo com titubeios, tropeços de linguagem, repetições e o suor no rosto. Serra, ao contrário, que já disputou dezenas de eleições legislativas e locais, dominou os assuntos, sentindo-se à vontade" (ver "Tibio arranque en Brasil de los debates electorales").

** José Roberto de Toledo, mais jovem do que Arias, porém não menos tarimbado em matéria de cobertura política, está desenvolvendo um excelente trabalho estatístico para o Estado de S.Paulo e na segunda-feira (9/8) ofereceu uma valiosa contribuição para desarmar esta falsa isenção adotada pela mídia:

"Debate não é luta de boxe. A idéia de que um candidato só ganha quando leva o oponente à lona projeta o desejo mórbido de ver um deles deitado em uma poça de sangue. Ninguém vira eleição com um golpe só, nem aprende a debater do dia para a noite. A vitória de um candidato é sempre por votos, nunca por nocaute" (ver "O debate e o nocaute").

Desinibam-se, senhoras e senhores opinionistas! Aprendam a observar sem ferir. A crítica é uma apreciação, parte inalienável do exercício jornalístico. Aprendam a discernir. Este é um hábito contagioso. Não se omitam, mas não exorbitem. [Texto finalizado às 19h25 de 9/8/2010]

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 Pedro pereririria pereiriria
 Enviado em: 10/08/2010 10:22:53
Nao estimule Sr Dines, ou sua candidata vai virar pó.. Pior que a falta de relevancia nos temas, e assim que quer a midia enganjada, é a análise enviezada dos articulistas sobre a competencia e a animalidade politica da Candidata escolhida . Nunca na historia deste pais a elite pensante foi tao complacente com o fato de que estimule o voto num poste simplesmente porque o presidente a escolheu.... é o fim da politica meritoria... Nos tempos dos currais eleitorais a politica era mais disputada...
 Marcio Flizikowski
 Enviado em: 10/08/2010 11:16:53
O que mais senti falta não foram análises subjetivas de especialistas . Senti falta de um contraponto entre os discursos dos candidatos e os fatos. Por exemplo, quando Serra criticou o aparelhamento da União pelo PT, a candidata da situação devolveu a acusação, falando que Serra tinha aparelhado as estatais de São Paulo. E ficou por isso? Quem acusa tem ônus da prova? Depois do debate, alguém perguntou para Serra ou para Dilma quais eram os cabides existentes nos aparelhamentos das máquinas estatais? Ou então, quando se discutiu privatização ou estatização, não se mostrou, pós debate a situação de fato. Senti falta disso na imprensa. Um trabalho de reportagem sobre os normalmente discursos vazios existentes nos debates.
 Boris Dunas
 Enviado em: 10/08/2010 16:40:31
Pois é, Max, vai ver a explicação é até prosaica: como a cada semana batalhões de “observadores” cancelam furiosamente suas assinaturas de Veja e depois adoram vir contar aqui, justamente nesta edição não sobrou leitor nenhum pra contar a história! Falando sério, há tempos eu não ouvia um silêncio tão ensurdecedor! A propósito, a Folha também achou mais prudente não dar um único pio sobre o assunto, sem se dar conta que isso a coloca como forte candidata a ser cinicamente patrulhada com o tal “Leituras da Folha” nessa trágica semana... Vamos ver.
 Herman Fulfaro
 Enviado em: 10/08/2010 19:19:11
Adorei o comentário, Dines. Mas, por falar em omissão e/ou timidez dos colegas de imprensa, qual é mesmo a SUA opinião sobre o desempenho de cada um dos candidatos?!?
 alice franca leite
 Enviado em: 10/08/2010 19:20:51
É como se disse de um certo candidato experiente: "Solto porque não tem NADA a perder --- sem se importar com suas desnecessárias grosserias que distribuiu entre seus pares"!!!
 Cristiana Castro
 Enviado em: 11/08/2010 01:45:22
Não foi,propriamente, um debate. Talvez, por isso, o tal silêncio. O ponto alto foi mesmo o Plínio e, como isso não altera muito o quadro atual, a campanha seguiu, normalmente. Para a Imprensa, acredito que seja mais uma questão de não ficar propagandeando produção dos outros. O fato é que, muito embora a internet e a TV tenham um papel importante nas eleições, a campanha está nas ruas e sobra menos tempo para a rede. A menos que aconteça algo, realmente, relevante, algumas situações vão mesmo passar batidas. Acredito que até dia 17, as pessoas vão ficar entre a rua e a rede. As entrevistas do JN tb não estão repercutindo tanto e é assim mesmo qdo está tudo dentro do esquema, ou seja, sem surpresas. Plínio e Marina além de serem bons oradores, estavam numa situação mais cômoda. Serra,é seguro mas não convence e Dilma não foi bem e isso já era esperado mas, a meu ver, poderia ter falado menos. De qq forma, nenhuma novidade a ser comentada,além do fato de não terem surgido novidades no primeiro debate.
 Fernando Schweitzer
 Enviado em: 11/08/2010 03:33:00
Alguém viu na Band o Boechat dizer: " O formato justamente previlegiou os dois candidatos que são lideres nas pesquisas... É um mérito do formato do debate"... depois se corrigiria: "o que aconteceu foi o embate natural entre os dois candidatos principais que ainda não tinham se enfentada"... É meus caros... a mídia definiu que não temos nenhuma opção a não ser os candidatos siameses, dos partidos opostos mas que fizeram governos iguais.
 Eduardo Lamarck Ligório
 Enviado em: 11/08/2010 14:38:22
Mas, o que se pode esperar de candidatos mal formados, desinformados e que querem unicamente se dar bem, a qualquer custo? - Fora todos. Em prol da ficha limpa vote 000 + tecla verde!
 Fabio Passos
 Enviado em: 11/08/2010 18:44:52
A verdade é que o Plinio de Arruda Sampaio deu uma sova nos três adversários. Foi disparado o melhor. Uma vergonha a mídia-burguesa boicotando o Plinio.
 rafael palomino
 Enviado em: 11/08/2010 22:06:24
Se o Plínio só foi elogiado pela mídia porque ela estava se omitindo, eu não sei. Mas que ele foi o melhor no debate, isso foi. Quanto às "grosserias desnecessárias", pode ter certeza de que vibrei com cada uma delas. Nem eram tão grosseiras nem desnecessárias. Chamar Serra de hipocondríaco desnudou seu artifício eleitoreiro ao vivo. Chamar Marina de ecocapitalista não é ofensa, porque a verdade não ofende. Plínio arejou o debate com uma boa dose de verdade, com menos respostinhas estudadas e mais discussão. Só esperamos que, no próximo debate presidencial, sejam convidados Serra, Dilma e Marina, para que eles participem também.
 Emerson Mathias
 Enviado em: 12/08/2010 14:27:35
Caro Dines, essa "assepsia" que voce apontou na cobertura jornalistica do debate será a mesma que teremos nos materiais didaticos que foram saudados aqui como uma "revolução" por parte das empresas de midia. Segue o trecho do seu artigo com referencia a essa assepsia:"A assepsia opinativa que se seguiu ao primeiro debate é enganosa e perigosa. Parece isenção, mas é subtração pois retira dos meios de comunicação sua função maior que é o estímulo à formação de juízos." FICA a pergunta: é possivel acreditar numa analise critica da midia sobre as eleicoes e nao desconfiar dessa mesma midia na produção de material didatico? O seu ghost writer nos deve explicações sobre aquele artigo panfletario que causou surpresa e estranhamento a todos os leitores do OI que aqui se manifestaram. Ou devemos aceitar que saõ coisas distintas e não se fala mais nisso? (Em tempo, o Plinio mandou bem)
 Ibsen Marques
 Enviado em: 12/08/2010 17:31:43
Se a mídia fizer ou não uma análise crítica e rigorosa dos eventos e debates políticos não vai modificar o estado de apatia do eleitor. Uma vez alijado do processo eleitoral difícil será resgatá-lo. Por mais que se diga aos quatro cantos a importância do eleitor e de ser eleitor, a prática e a concretudo do dia a dia pós eleições escancaram a falácia das afirmações e promessas feitas nas propagandas eleitoreiras. O cidadão, me parece, tem percebido e está mais ou menos consciente de que não importa em que se vote tudo permanecerá no mesmo. Estou convicto que mudanças estruturais não acontecerão. O próprio Lula foi incapaz de realizá-las. Continuamos dependentes, atrelados e escravisados por esse sistema econômico financista em que o homem não passa de estatística. Nada disso vai mudar porque quem exerce o poder está lnge e acima desses políticos medíocres e parece que invisíveis, intangíveis, inalcançáveis. Só para completar, o Dines cita o UOL em seu comentário, mas ele não seria mais do mesmo (FSP, Abril)?
 Fabio Passos
 Enviado em: 12/08/2010 21:37:05
Plinio venceu o debate. Percepção generalizada. Mesmo assim a rede globo continua boicotando a candidatura do Plinio. Hoje ofereceu apenas 3 min de entrevista. Por que será? Leiam o programa do Plinio. Ele assumiu compromisso de democratizar a mídia: "Pela democratização dos meios de comunicação; auditoria de todas as concessões das emissoras de rádio e TV; fim da criminalização das rádios comunitárias; anistia aos comunicadores populares; proibição da propriedade cruzada dos meios de comunicação; banda larga universal operada em regime público; criação do Conselho Nacional de Comunicação como instância deliberativa de definição das políticas de comunicação com participação popular; políticas públicas de incentivo à implementação de softwares públicos e livres, ampliando o acesso e a democratização." http://www.plinio50.com.br/programa-de-governo-psol-plinio-de-arruda-sampaio/90-uma-alternativa-socialista-nossas-tarefas-e-diretrizes.html
 Wallace Lima
 Enviado em: 12/08/2010 22:34:08
Primeiro queria me desculpar por ter dito (ao fazer um comentário para o artigo O Confronto Engessado, também de Alberto Dines, da edição anterior) que haveria no dia 10 na MTV um novo debate com os candidatos à presidência. Ou recebi a informação errada ou foi anunciado esse dia mesmo e depois resolveram adiá-lo. Mas o debate está sendo anunciado ainda e, para as perguntas aos candidatos, estão pedindo a participação dos eleitores mediante inscrição feita na Internet. Em seguida: faço minhas absolutamente todas as palavras do professor Rafael Palomino e do engenheiro Fabio Passos. Conteúdo e forma. Se é verdade que algumas propostas de Plínio podem ser classificadas como "radicais", também é verdade que essa mesma "radicalidade" pode apontar caminhos que nos permitam imaginar um programa de governo que nem entregue o país a essa manada capitalista geral (que me parece ser a tendência principalmente dos dois candidatos que estão liderando as pesquisas), nem acene nostalgicamente para um socialismo ortodoxo, dogmático que na prática tem em alguns países se mostrado frustrante e paradoxalmente contrário aos direitos humanos. O discurso de Plínio nos empolga porque nos faz sonhar com essa terra-de-ninguém habitável, e se ele no debate atacou com tanto senso de humor os outros três candidatos comportadinhos como bichos empalhados é porque não está morto como eles!
 Miro Junior
 Enviado em: 13/08/2010 00:17:55
Vamos falar do tratamento diferenciado do JN aos dois principais candidatos.....O que vocês acharam do Bonner indo para cima da Dilma?...e dos outros candidatos serem confrontados com perguntas que acabavam por usá-los como ponte para criticar o PT?...e a suavidade da entrevista com o Serra..
 Elcio Machado
 Enviado em: 13/08/2010 08:07:52
Miro Junior, você esperava algo diferente da Globo? Herman, você está cansado de saber que deuses não ligam para comentários e pedidos, só monologam.
 Edinho B. Silva
 Enviado em: 16/08/2010 09:33:37
Esse tal José Roberto de Toledo não é aquele que disse que as pesquisas que apontavam crescimento da candidata do PT eram viciadas porque ativavam "redes neurais" dos eleitores ao apresentar o nome dela antes da pergunta sobre o voto? E o Dines ainda vem me elogiar o "excelente trabalho estatístico" desse senhor? Estou sem palavras.. Um artigo cheio de obviedades e truísmos, com a profundidade de um pires, pode de longe parecer um oásis dado o absoluto deserto de idéias e compostura de nossa mídia, mas não é suficiente para recuperar a imagem de um analista que recorrentemente fala estultices sem o menor pudor em seu espaço. Esse sujeito, com o devido respeito, entende tanto de estatística e pesquisa qualitativa quanto eu de microbiologia marinha. Em qualquer outro país com tradição de seriedade de imprensa, o elogio de Dines seria considerado uma peça de ironia fina, embora talvez com certa crueldade, afinal o referido jornalista já estaria procurando outro emprego depois de ofender a inteligência dos leitores de seu periódico com suas teorias neurológicas. Mas, para espanto e tristeza nacional, Dines falou sério quando elogiou Toledo. Talvez algum dia no futuro quando nossos filhos e netos possam reler as notas deste Observatório, eles compreenderão porque esse elogio é o atestado da própria miséria de nosso jornalismo político contemporâneo.

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