DICTA&CONTRADICTA

Uma revista que se acha

Por Gabriel Perissé em 24/06/2008 na edição 491

Acha-se facilmente a revista Dicta&Contradicta no site da Livraria Cultura. Eis a sinopse:

"Dirigida ao público intelectualmente desperto, desejoso de conteúdos mais profundos, com a finalidade de fornecer uma revista semestral de cultura, acadêmica sem academicismo, com excelente apresentação gráfica, a revista discute temas de pensamento, comportamento, filosofia, literatura e arte, além de analisar situações e fatos que mantenham interesse a longo prazo."

Achando eu não estar intelectualmente adormecido, vou ao encontro da dita cuja. Seu primeiro número é deste mês de junho e há também o site oficial. O título é o mesmo de um livro do polemista vienense Karl Kraus, traduzido no Brasil como Ditos e desditos.

São 210 páginas. Patrocinada pelo Instituto Bovespa e pelo Banco Fator, impressiona visualmente. O que terá a nos dizer & desdizer?

"Buzinada" permanente

O texto que abre a revista é assinado pelo editor Henrique Elfes, que começa desdizendo o que o título dizia:

"Ao contrário do que talvez se possa imaginar ao ver o título, não temos a intenção de criar polêmicas, mas de incentivar no Brasil o hábito da discussão de idéias, algo que se pode fazer com toda a nobreza e boa educação."

A proposta parece cheia de boas intenções. Pressupondo-se que no Brasil discutir idéias esteja em baixa e que as discussões existentes não sejam nobres... Mais adiante, o editor avisa:

"Temos consciência de estar apresentando uma realidade nova no panorama editorial brasileiro, algo que rompe as classificações recebidas. [...] Como o leitor, sentimos a carência de instituições que assumam a tarefa de educar nos valores básicos do ser humano e na grande cultura clássica e humanística. Esta é a lacuna que queremos suprir, não dando uma `buzinada´ de um instante, mas de maneira permanente."

Pretensão...

Para não me sentir superficial, quero apreender a novidade da revista, entender o que ela propõe em lugar das polêmicas sem nobreza.

Leio inicialmente a transcrição de uma palestra do poeta Bruno Tolentino, falecido no ano passado. Leio a análise do Eclesiastes realizada pelo professor Luiz Felipe Pondé. Há também artigo elogioso ao jesuíta canadense Bernard Lonergan, de autoria do pensador português Mendo Castro Henriques. Uma apologia da filosofia, do editor Henrique Elfes. Um ensaio sobre Ortega y Gasset, do jornalista Martim Vasques da Cunha. Há um artigo sobre Hamlet, do advogado Renato José de Moraes.

Mas o que existe de comum entre eles e, sobretudo, de imprescindível para nós, leitores? Afinal, os idealizadores da revista prometem uma "enxurrada de cultura", hipérbole empregada pelo mesmo Henrique Elfes nas páginas programáticas de Dicta. O colaborador Júlio Lemos, em seu blog, afirma que se trata de revista high-brow. No Orkut, a comunidade Dicta & Contradicta, criada por outro dos articulistas, Dionísius Amêndola Valença, traz uma auto-descrição profética:

"Pois é, ela agora está viva! O lançamento foi um sucesso e agora o negócio é preparar o próximo número. Bruno Tolentino, Luiz Felipe Pondé, Henrique Elfes, Mendo Castro Henriques, e toda uma nova geração de poetas, intelectuais e pensadores em um só lugar. Prontos para botar este país abaixo!´ Leiam, divulguem, espalhem a boa nova!"

Um jovem presente ao lançamento da revista, na Livraria Cultura, revela suas exaltadas impressões:

"Cheguei há pouco do coquetel de lançamento de Dicta&Contradicta. [...] Olavo de Carvalho já há tempos vem falando da necessidade de formar uma elite intelectual no Brasil para que esta possa disseminar a cultura em círculos concêntricos. O que pude observar lá, com uma pitadinha de inveja, confesso, foi justamente isso! Aquele pessoal já começa a dar os primeiros sinais de que esse conhecimento que permaneceu durante algum tempo num círculo bastante restrito começa a se irradiar. E o que mais me chamou atenção foi a quantidade de jovens que ali se encontrava. Não eram senhorzinhos caquéticos, nostálgicos de tempos passados, mas, sim, gente da minha geração, em cujos olhos pulsava entusiasmo."

... e água benta

Na mencionada comunidade do Orkut, leio esta significativa mensagem:

"Na mídia brasileira, a tendência geral tem sido sacrificar o conteúdo ao apelo popular, e o resultado é a superficialidade e fragilidade intelectual daquilo que se apresenta. Mais do que apresentar e comentar a programação cultural em cartaz a proposta é fornecer leituras interessantes e bases para a formação cultural. Buscamos também, não a rasteira polêmica do dia a dia político do país, mas aprofundar as conquistas culturais universalmente válidas. Para mais informações, por favor acessem http://ife.org.br/"

O Instituto de Formação e Educação (IFE) responsabiliza-se pela publicação de Dicta&Contradicta. Um dos seus mentores, Martim Vasques da Cunha, é também diretor do Instituto Internacional de Ciências Sociais (IICS), no qual vários articulistas da revista dão aulas e palestras. Esse instituto, por sua vez, pertence ao Centro de Extensão Universitária, criado em 1972 por membros brasileiros do Opus Dei.

"Projeto editorial" da Obra

Henrique Elfes é editor. Em que editora? A Editora Quadrante, criada em 1964 por membros do Opus Dei.

O professor Luiz Felipe Pondé tem colaborado com a formação cultural de membros e freqüentadores do Opus Dei, como neste evento.

Mendo Castro Henriques é simpatizante da Obra. Um entre muitos outros indícios: sua contribuição à Revista Arbil, que defende a "regeneração moral e material da Espanha e do mundo". Essa publicação é orientada por membros do Opus Dei.

Bruno Tolentino, no final da vida, reaproximou-se da Igreja católica, com a ajuda do Opus Dei. A revista oficial da Prelazia, em junho de 2006,registra que o intelectual brasileiro ministrou conferência num centro cultural da instituição.

O advogado Renato José de Moraes, desde 2002, integra a direção geral do Opus Dei no Brasil, conforme a mesma revista.

Em suma, e apenas por uma questão de respeito por aqueles que vão ler a publicação (que ora se apresenta com elevadas pretensões de salvar a vida intelectual brasileira), deixemos bem claro que ela é desdobramento de um antigo projeto, louvável para alguns, para outros detestável.

O "projeto editorial" pertence ao fundador do Opus Dei, Josemaría Escrivá de Balaguer, que repetia aos seus seguidores: "Tenemos que envolver el mundo en papel de periódico." E, confirmando a imagem da "enxurrada de cultura", acrescentava: "Hay que ahogar el mal en abundancia de bien."

***

Doutor em Educação pela USP e escritor; www.perisse.com.br

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 Luiz Paulo Ferraz de Araujo
 Enviado em: 24/06/2008 19:09:09
Ora, vejam só! Agora sim pude entender a citação dessa revista feita pelo ilustrado, culto, erudito e, principalmente, equilibrado Reinaldo Azevedo em seu blog. Eles se merecem tanto pela pretensão quanto pelos propósitos.
 pedro oliveira
 Enviado em: 25/06/2008 11:28:12
Não vejo problema algum da revista ter membros do Opus Dei. Vivemos em uma sociedade democrática ou não? Parece que, por esse fato, a revista fica em descrédito. Na verdade, o que acontece é que muitos ainda não sabem o que é ser livre num país livre. Quem são? os profetas do novo mundo que não concordam com o pensamento livre.
 Gregório Banar
 Enviado em: 25/06/2008 16:36:21
Êpa! Olavo de Carvalho & Reinaldo Azevedo são colaboradores? Então, é apenas mais um calhamaço de idéias nazi-fascistas que o Opus Dei quer nos empurrar goela abaixo. Tô fora!
 Leonardo Valverde
 Enviado em: 25/06/2008 20:00:42
Engraçado, por que o autor do artigo tenta deprimir a imagem (com belos conteúdos) da revista só porque seus integrantes são membros da Opus Dei? Pergunto eu: e se fossem membros de um partido de esquerda, comunista, a revista seria deprimida da mesma forma?! A revista tem sim um olhar diferente e um jeito de discutir assuntos relevantes como nenhuma outra revista editada... OBS: não faço parte da Opus Dei, mas qual o problema com ela? Pelo visto, o sr. Perissé adora uma "voz uníssona".
 Caio Haim
 Enviado em: 26/06/2008 10:38:00
Achei a revista excelente e primorosa em todos os aspectos. Pouco me importa quem são os membros da revista! Sou Judeu e não tenho absolutamente nada contra a Opus Dei. Dei uma olhada na quantidade de articulistas da revista e esses que vc cita não chegam a 20% deles... ta longe de uma revista da Opus Dei. Triste essa sua reportagem.
 Marie Tourvel
 Enviado em: 26/06/2008 17:39:23
Qual o problema mesmo por ter membros da Opus Dei? O mesmo problema que nesse observatório só tenha esquerdistas, é isso? Ah, então tá. Então deixa a maravilhosa revista em paz porque a intelequitualidade esquerdista -eu sei que isso não existe, se basta. Deixe eu e o jovem que comentou brilhantemente no blogue do Bruno Garschagen lermos nossa Dicta&Contradicta, tá bom? Aliás, tem um texto ótimo do ótimo Ruy Goiaba por lá. Ah, é que eu sempre esqueço que a esquerda é festiva, mas não gosta de uma boa piada.
 Antonia Calui
 Enviado em: 26/06/2008 19:09:28
Perissé... Suponhamos que a revista se ache. Suponhamos que você a tenha lido. Suponhamos que você seja honesto. Vamos supor... Isso não muda em nada mesmo, ora bolas...
 Eduardo Martins
 Enviado em: 26/06/2008 19:33:36
Nunca tive Gabriel Perissé como "laico"... Até hoje.
 Isabel Fontoura
 Enviado em: 27/06/2008 21:14:57
Parece que o "crítico" esqueceu-se de separar um tempinho para ler a revista - ocupando suas horas com pesquisas de outra ordem que não a de procurar pincelar em sua coluna em branco um pouco do que a publicação de fato oferece. Uma pena como anda o jornalismo cultural brasileiro...
 ariovaldo pitta
 Enviado em: 27/06/2008 23:57:27
Opus Dei, Olavo de Carvalho et caterva. Todos juntos num mesmo lugar, onde devem permanecer, pois representam o que não queremos para o Brasil. No próximo número, o pessoal da ternuma (www.ternuma.com.br) deve começar a contribuir com a revista.
 Rodrigo Oliveira
 Enviado em: 28/06/2008 10:58:30
Gabriel Perissé aparenta ser discípulo de Wilson Martins...
 Jânio Torres
 Enviado em: 28/06/2008 11:05:14
Só pelo fato de ser uma voz diversa, a revista valeu ser lançada. "O que não queremos para o Brasil"... Ariovaldo fala em nome de sua família, da classe universitária...?
 William Campos da Cruz
 Enviado em: 29/06/2008 17:38:15
Escrevi um post sobre este texto em meu blogue. Para quem se interessar: http://esbocoserascunhos.blogspot.com/2008/06/de-como-fui-parar-no-observatrio-da.html
 Eduardo Levy
 Enviado em: 01/07/2008 02:15:10
Nenhuma palavra sobre o conteúdo da revista, todas para a catalogação dos autores. Como de costume. Parece até que o autor seguiu o formulário padrão para a redação de críticas que Olavo de Carvalho colocou em "O Imbecil Coletivo". É que essa gente não consegue mais discutir nem imaginar a hipótese de discutir Ortega y Gasset ou T.S. Eliot. Tudo o que está intelectualmente habilitada a fazer é gritar: "Fogo! Fogo na floresta!" A verdade é que, como disse brilhantemente Pedro Sette Câmara, "a esquerda já acabou culturalmente, seu vocabulário é estéril e ridículo, não tem mais o poder de expressar nada. Eles não enchem teatros, nem cinemas, não fazem nada sem sustento estatal porque não conseguem comunicar nada. Eles já não conseguem entender a nova direita , não entendem o que é liberalismo, acham que liberalismo é capitalismo de Estado. São uns idiotas. Em algumas décadas vão morrer e vão assistir, atônitos, ao fim daquilo que criaram." Amém.
 Cecília Marco
 Enviado em: 06/07/2008 22:21:30
Em que gênero literário um texto deste se encaixa?
 Graça Ribeiro
 Enviado em: 13/07/2008 16:51:38
O que não dá é ficar por isso mesmo: o autor recebendo seu dinheiro como educador e tendo prestígio que um texto como este já desconsidera. O que acontece no Brasil, afinal?
 Octávio Miranda Junqueira
 Enviado em: 05/11/2008 11:28:51
Puxa vida, será que a advertência de que não serão publicados comentários que "incitem intolerância" não se aplica também aos autores dos textos aqui veiculados? Isso porque, ou muito me engano, ou a crítica que acabo de ler está carregada de preconceitos, especialmente de cunho religioso e, ainda que dissimuladamente, tenta desqualificar o periódico simplesmente pelas crenças pessoais de seus colaboradores. Não seria melhor apresentar uma análise inteligente (positiva ou negativa, isso não importa) dos textos que escreveram? Há muito assisto o OI na TV pública e nunca me preocupei se o programa é desdobramento da algum projeto, louvável ou detestável... Será que devo? Por uma questão de respeito aos freqüentadores desse sítio, seria ótimo que a diversidade de idéias fosse verdadeiramente estimulada.
 Lucas Bra
 Enviado em: 21/07/2009 01:46:20
Faltou ao autor dessa materia o entendimento que todos temos o direito à discutir qualquer tipo de idéia; da mesma forma que temos revistas ligadas fortememte a esquerda - posição que simpatizo - como Caros Amigos até a iniciativas como à Dicta e Contradicta. Caso contrario corremos o risco de dogmatizar nossas convicções e fugir ao debate, seja diretamente ou indiretamente. Acho que, para criticar tal revista deveriamos selecionar um trecho mais objetivo da matéria e não simplesmente condena-la por sua ligação com a Opus Dei. Seria uma inversão extremamente incomoda da caça as bruxas.
 Caco Brasil
 Enviado em: 06/11/2009 17:24:20
Ler uma "analise" destas apenas reforca a necessidade de revistas como a Dicta (que, alias, chega a sua quarta edicao). Como pode alguem achar que algo desse genero merece ser publicado?! Como pode alguem ter tao pouca auto-critica?! Como pode alguem ter tantos preconceitos e ainda se supor capaz de ser um "critico cultural"?? Releiam o que vai no artigo. NENHUMA palavra sobre o conteudo. Absolutamente nenhuma. Ataques pessoais e a determinada orientacao religiosa. Mas, ponto essencial, NENHUMA virgula sobre o conteudo. Repito: como pode alguem ter tao pouca auto-critica???
 José Gabriel
 Enviado em: 17/12/2009 16:35:43
Acabei "aportando" nesse artigo sem querer, como acontece quase sempre quando usamos o groogle. E não deveria me dar ao trabalho de comentar um texto desses, que só mostra a incapacidade do suposto "crítico" de ler criticamente a Dicta & Contradicta. Mas aos desavisados de plantão, não se enganem com gente desse tipo! A idéia que eles formam de uma Opus Dei é baseado no que eles vêem nos filmes de Hollywood, ou nos livros do Código Da Vinci. Padres assassinos que se flagelam e que possuem uma conspiração para impedir o progresso do mundo. Só esse tipo de pensamento pueril pode explicar o artigo de Gabriel Perissé. E de crianças não é possivel esperar outra coisa que não todas os comentários que já foram apresentados aqui. O que assusta (ou não, por já estarmos acostumados) é que um veículo de imprensa que se diz sério aceite publicar uma coisa dessas. Portanto, não poderia ser mais louvável todas as qualidades auto-referenciadas da Dicta no ambiente cultural em que vivemos. Vida longa e próspera à revista!
 Rodrigo Fonseca
 Enviado em: 09/05/2011 12:03:29
Parece-me realmente importante ter essa informação acerca da origem dos colaboradores de uma publicação. Por trás de propósitos aparentemente "nobres", escondem-se arapucas fascistas terríveis...
 Naaman Sousa de Figueiredo
 Enviado em: 28/11/2012 14:16:57
Direita saindo do armário!!!!! Muito bom!!!!!! Chega de "reaças" enrustidos!!!!!

Gabriel Perissé

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