EDITORA ABRIL
Veja abre fogo contra jornalista
Por Leonardo Attuch em 20/02/2006 na edição 369
O empresário Roberto Civita, dono da Editora Abril, deve andar sonhando comigo. Nesta semana, na edição nº 1944 (de 22/2/ 2006), Veja reserva um texto de dois parágrafos para me cobrir de impropérios. Eis alguns deles: "negociante de notícias", "quadrilheiro que deve satisfações à polícia", autor de um "panfleto ignominioso", "novelista" e profissional "à venda". Além disso, o texto da Veja – com o título "O mais vendido" (página 112) – é pontuado por expressões como "fraude", "desonesto" e "indecoroso", entre outras tantas palavras nada lisonjeiras.
Aparentemente, o ataque da revista Veja é uma reação tardia ao livro que publiquei no início de janeiro com o título A CPI que abalou o Brasil – os segredos do PT e os bastidores da imprensa (Editora Futura, São Paulo, 2006). Nele, relato detalhes do caixa 2 montado pelo PT em 2002 e também revelo como tem sido o comportamento de alguns órgãos de imprensa na cobertura da crise política atual.
No livro, menciono vários profissionais da Abril, mas de forma objetiva e factual. Não há ofensa. A minha moeda é a verdade jornalística. A deles, a calúnia. Eis alguns personagens citados no livro:
**
Roberto Civita – Revelo como o dono da Abril teve encontros secretos com dois tesoureiros do PT – Delúbio Soares e Ivan Guimarães – em 2004, o ano em que se discutia o chamado Pró-Mídia, um programa de socorro a empresas de comunicação. Como dou detalhes das histórias e aponto as testemunhas, quem quiser comprovar a veracidade do que escrevi que vá lá e apure.**
Márcio Aith – Revelo que o editor-executivo da revista Veja saiu a campo um dia depois da reportagem que fiz com a secretária Fernanda Karina Somaggio na IstoÉ Dinheiro para "desmontar a maracutaia". Aith procurou algumas figuras importantes em São Paulo em busca de histórias que pudessem desqualificar o autor da reportagem. Saiu de mãos abanando.**
Alexandre Oltramari – O repórter de Veja, responsável por um dos furos da crise, aquele que apontou Marcos Valério como avalista do PT, participou de uma negociação com o Banco Rural. Oltramari pretendia ter acesso aos dados bancários de Valério e, como moeda de troca, prometia não publicar um suposto vídeo em que Delúbio Soares estaria achacando José Augusto Dumont, ex-presidente do banco. Os diretores do Rural se reuniram e decidiram não ceder. Julgaram que se tratava de um blefe, uma chantagem feita a partir de um vídeo inexistente.**
Lauro Jardim – O titular da coluna "Radar" é também citado no livro em razão de seu comportamento em 2004. Digo que ele foi leviano ao usar sua coluna para transmitir os recados da Polícia Federal sobre a chamada Operação Gutenberg, da qual eu seria o alvo principal. Tal operação visava apenas constranger os jornalistas que, ao contrário de Lauro Jardim, não estivessem dispostos a publicar o que a PF gostaria de ler na cobertura do caso Brasil Telecom. Os jornalistas insubordinados ao patrulhamento oficial estariam "vendendo reportagens".**
Policarpo Júnior – No livro, também aponto algumas ironias. Veja tentou me colocar sob suspeita perante o nosso meio profissional porque, supostamente, a Kroll poderia ser a fonte de algumas de minhas matérias. Meses depois, a CPI deixou claro que as principais fontes dos escândalos da Veja são os arapongas da Abin. Aliás, foi um deles que filmou o notório diretor dos Correios, Maurício Marinho, recebendo a sua "peteca" de 3 mil reais.O inverso
Se a revista Veja estiver disposta a debater qualquer uma dessas histórias, estou à disposição. Mas já percebi, em outras oportunidades, que um diálogo franco, aberto e transparente não costuma agradá-los. Tudo bem. Cada um escolhe o seu caminho e que arque com as conseqüências.
Mas vejam quanta ironia. Eles é que se reúnem secretamente com o tesoureiro do PT e eu, um mero jornalista, é que estou à venda! Eles é que usam a chantagem como instrumento de barganha de "furos" e eu é que sou o negociante de notícias. Eles é que passam recados da Polícia Federal e eu é que sou ignominioso. Quem deve satisfações ao país não sou eu – é a revista Veja.
Ao que parece, Roberto Civita e seus editores não suportaram a idéia de ver meu livro entre os "mais vendidos" na categoria não-ficção da própria Veja, da revista Época, dos jornais O Globo e Folha de S.Paulo. Por isso, o jornalista Jerônimo Teixeira, que atua na área cultural da revista, decidiu na semana passada procurar a Siciliano, dona do selo Futura, para questionar se meu livro estava mesmo vendendo tanto. Por que será que Veja decidiu auditar as vendas de um único livro? Nem é preciso responder. Se um livro desagrada a Abril, como pode vender tanto?
Pois bem. A Siciliano respondeu que, na semana de 6 de fevereiro a 12 de fevereiro, a loja informou as vendas para os seus clientes e também para outras redes de livrarias. Isso aconteceu porque, em pouco mais de um mês, o estoque da editora Futura se esgotou. Uma edição de 5 mil exemplares, lançada no início de janeiro, está perto do fim. Se Veja acha que isso é pouco, tentarei fazer melhor da próxima vez.
***
O mais vendido
(copyright Veja nº 1944, de 22/2/2006)
"Investigado pela Polícia Federal por atividades ilícitas, o negociante de notícias Leonardo Attuch está envolvido em uma nova fraude. Há três semanas, um volume de ficção de sua autoria, intitulado A CPI que Abalou o Brasil, apareceu nas listas de mais vendidos classificado equivocadamente como não-ficção. Só isso já seria estranho. Mas, como tudo o que circunda o investigado, as zonas de sombra desse caso são mais densas do que parecem. Na semana passada, desconfiados de que o desonesto volume pudesse estar tendo suas vendas fraudulentamente infladas, repórteres de Veja foram investigar a correção dos dados enviados pelas livrarias. Bingo! Descobriu-se que a livraria Siciliano, dona do selo Futura, que publicou o indecoroso panfleto ficcional, fornecera à imprensa dados manipulados, jogando para cima as cifras de venda. Se elas ainda fossem referentes ao autor, vá lá. Mas ao livreco? Bem, o fato é que a vendagem do panfleto ignominioso (452 exemplares em uma semana) divulgada pela Siciliano – superior à de outras quatro grandes redes somadas ao longo de mais de um mês – era tão falsa quanto a produção do quadrilheiro que deve satisfações à polícia.
Veja pediu explicações à Siciliano. A resposta veio na forma de uma nota oficial: ‘Constatamos que houve um erro de informação na lista referente ao período de 6/2 a 12/2. Por um erro de cadastro no sistema, foram computadas, além das vendas internas (nas lojas Siciliano), as vendas para redes de livrarias e distribuidores. Isso ocorreu somente com o título A CPI que Abalou o Brasil’. Foram dados, portanto, como vendidos livros que estão apanhando poeira em estoques. A nota termina assim: ‘Favor considerar, como venda total nas livrarias Siciliano, 84 exemplares’. Com os dados corretos – ou seja, 368 exemplares a menos –, o volume ficcional não teria sido alçado a nenhuma lista de vendagem. Até que a fraude seja completamente esclarecida e a Siciliano, inocentada de cumplicidade com o novelista investigado que ela publica, Veja decidiu não computar os dados daquela livraria na elaboração de suas listas. Leonardo Attuch, porém, continua à venda."
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| Laíce Souza |
| Enviado em: 21/02/2006 23:53:16 |
| É uma pena o que o país vem vivenciando, principalmente quando se trata de jornalistas, já que somos os responsáveis pela formação de opinião. Sou leitora de várias revistas, e nos últimos meses deixei de lado a Veja, justamente porque o país continua tocando o barco para frente, mesmo com as crises políticas, mas para Veja somente Lula vive neste país. E o pior de tudo isso é que a maioria das notícias é manipulada, escrita da forma que interessa ao grupo Abril. É possível verificar isso, sem fazer muito esforço, já que ela sempre tras só um lado dos fatos, negando assim a máxima do jornalismo que é sempre dar a versão dos dois lados. Estou do lado de Leonardo Attuch, as grandes empresas tem que aprender que nem todo mundo concorda ou tem a obrigação de aceitar o que elas colocam como verdade absoluta. Você Leonardo tem o seu lado e Veja o dela, cabe a nós escolher com qual iremos ficar. Agora, é certo que o leitor da revista não merece ler esse tipo de texto. Porque o leitor tem que ser respeitado e a revista infelizmente não está fazendo isso. Pena, porque tinha Veja como fonte e agora raramente tenho a vontade de abrir as suas páginas. |
| Stephan Strojnowski |
| Enviado em: 22/02/2006 23:59:02 |
| É engraçado como a primeira reação de alguém quando é atacada é contra-atacar da pior forma possível. Na minha opinião Civita não pensou antes escrever esse ataque publicado na Veja. É triste ver uma cena assim. |
| geraldo moura da silveira |
| Enviado em: 27/02/2006 03:59:21 |
| Pelo ódio estampado no artigo da revista Veja, deduz-se que tudo o que Leonardo publicou em seu ótimo livro é absolutamente verdadeiro. O que, de resto, não é novidade. Todos sabemos quem é Roberto Civita. Pena que no "sistema" penal brasileiro ele seja considerado inimputável. Juntamente com o restante da quadrilha que comanda a grande mídia brasileira. Parabéns, Leonardo!!! Que sua veia investigativa não se resuma apenas a esse livro. O país precisa de mais jornalistas investigativos para que possamos sepultar esse daninho jornalismo declaratório e pós-investigativo que assola a imprensa nacional. |
| Leonardo Attuch |
| Enviado em: 24/02/2006 17:31:57 |
Prezado Sérgio, o fato de ter sido o centro de mais de uma discussão ético-jornalística não me impede de criticar a Veja. Até porque todas as polêmicas em torno do meu nome decorrem de um mesmo episódio: a cobertura do caso Brasil Telecom. A revista Veja, ao anunciar a Operação Gutemberg, deixou claro que todo profissional que levantasse críticas em relação à tomada de controle na empresa de telefonia seria acusada de "vender reportagens". Tudo decorre disso. Inclusive a polêmica no OI, que foi relativa ao caso Fernanda Karina. Numa tentativa de desqualificar a reportagem, a revista Carta Capital publicou um email comprovadamente falso para dizer que a reportagem teria sido encomendada por um empresário - curiosamente o controlador da Brasil Telecom. Não só tenho o direito de me defender, como tenho a obrigação moral de agir desta forma. Leia o meu livro e encontrará a verdade que procura. |
| Jorge Lima |
| Enviado em: 22/02/2006 00:22:55 |
| Se desagrada à Veja, deve agradar a mim. Qualquer coisa que seja motivo de irritação para o panfleto semanal da Abril, que, na minha opinião, perdeu qualquer credibilidade desde que engoliu a versão de crime passional na morte de PC Farias, deve ser uma leitura interessante. Vou tratar de comprar um exemplar imediatamente. |
| Bruno cesar |
| Enviado em: 24/02/2006 14:50:08 |
| Qualquer matéria,livro ou parargrafo vindo deste jornalista em questão é questionavel pois dentre os tais "Furos" publicados por ele é sabido que o Sr Daniel Dantas é sua maior fonte pois o "coleguinha" tem relações intimas e pessoais com o maior lobista deste pais trabalhando com o Sr QuantoÉ então não é preciso mais comentar é fato que a entrevista da Sra Karina Somaggio foi requentada pois havia sido feita pelo menos uns 4 meses antes ,matéria do Citibank e os fundos de pensões tb é comprada temos ainda a da parmalat. o fato para nós desta profissão é que todas estas empresas e pessoas tem ligação com o sr Daniel Dantas assim tenho vergonha em dizer que sou jornalista pois eticamente apreendi que devemos informação para a opinião e não formação de opinião, Sr Dines que saudades de jornalistas como claudio abramo entre outros !!!!!!! |
| Sérgio Prado |
| Enviado em: 23/02/2006 19:28:03 |
| Longe de querer defender a Veja, só acho muito estranho que a revista seja atacada por um jornalista (Attuch) que já foi centro de mais de uma discussão ético-jornalística anteriormente, aqui no próprio OI. E que seja atacada, por este jornalista, quanto às suas manobras e manobretas junto à administração federal petista, pré e durante o mandato. Justo a Veja, que é tão justa e isenta com todos, e foi mais ainda com o partido da situação. Entre Attuch e Veja, fico com a verdade. Ou seja, continuo procurando... |
| Dandara Assunção |
| Enviado em: 04/03/2006 20:32:15 |
| tenho uma séria dificuldade de desvendar o que é jornalismo do que não é, o que é ética e o que não é, não entendo por que um revista do porte de Veja fez um jogo tão velho e tão desrespeitoso com seus leitores. penso que a obrigação de uma revista é informar e não caluniar, a liberdade de expressão tornou-se liberdade de difamação e proibição de informações válidas, a mídia esta se tornando assassina de si mesma, o jornalismo precisa outra vez se superar. |
| Léo Bueno |
| Enviado em: 21/02/2006 18:15:38 |
| Pô! Legal! Vou comprar este livro, lê-lo e indicá-lo a todos os meus amigos e conhecidos. Obrigado à Veja pela dica. Quanto ao sr. Attuch, cá entre nós, se Veja o está atacando há tantas semanas e ele só responde no verbo, tá marcando! É apenas às ações - de direito de resposta, de danos morais, do escambau - que o sr. Civita consegue dar ouvidos. |
| Haertel Duarte |
| Enviado em: 21/02/2006 21:45:09 |
| Interessante ver a Veja atacando vigorosamente o jornalista que "ousou" divulgar informações sobre a todo-poderosa empresa de mídia Abril. Meu falecido avô costumava dizer: há certas verdades que não devem ser ditas... Talvez seja esse o ditado preferido daqueles que fazem a tal revista. O que nós ex-assinantes podemos dizer é que, como sempre, essa publicação tenta de todas as maneiras desqualificar aqueles que ousam desafiá-la. E faz isso com o tom de quem dá a última palavra sabendo que conta com a total credibilidade dos leitores. Pois bem, copiando a atriz global: isso já não lhe pertence mais revista Veja, pois depois da CPI Que Abalou o Brasil, foram tantas as meias verdades e matérias tendenciosas publicadas que os leitores perceberam nitidamente que não podem confiar tanto nas "informações" publicadas na revista. |
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