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OBSERVATÓRIO NA TV
OBSERVATÓRIO NA TV
TVE e TV Cultura, terças-feiras, 22h30
Você pode participar ao vivo
DDG: (0800) 216-689
Fax: (021) 221-0566
E-mail: obstv@tvebrasil.com.br
Videoconferência: veja instruções em http://200.18.184.210/participa/participe.htm
PARA COMEÇO DE CONVERSA
Editoriais de A.D. na TV
Editorial – programa 62 – 13/07/99
Bem-vindo ao Observatório da Imprensa. A questão que vamos trazer para você hoje tem a ver com esta telinha através da qual você está nos olhando neste momento -- seja ela da TV ou do computador. Tem a ver também com uma questão que há 300 anos apaixona filósofos, juristas, escritores e jornalistas: a liberdade de expressão. Quando essa liberdade se manifesta no papel ou através da ação individual, há consenso. A sociedade como um todo tem o direito de tudo saber desde que respeitados os direitos individuais. A questão se complica a partir dos meios eletrônicos de comunicação de massa que entram nas casas sem controle. O país voltou a discutir o baixo nível da programação de TV diante de novas proezas do Ratinho. A coisa extrapolou da mídia, está sendo discutida nas escolas, nas conversas familiares, na rua. A perplexidade que toma conta do país não diz respeito aos aspectos filosóficos da questão mas à demora em se estabelecer algum tipo de regulamentação que impeça a veiculação de mensagens impróprias para crianças e jovens. A questão foi levantada neste Observatório há mais de meio ano e continua na estaca zero. Por falta de uma definição dos poderes públicos permanecemos numa terra de ninguém entre a licenciosidade e a irresponsabilidade. Tão grave quanto o baixo nível da programação televisiva são os sites do ódio ou de pedofilia disponíveis na internet. Alguns deles produzidos no Brasil e em português. este Observatório começou num site da internet, somos os primeiros a reconhecer os benefícios que a tecnologia trouxe à sociedade através da rede mundial de computadores, mas essa facilidade de acesso exige uma contrapartida: respeito aos princípios éticos. Isso faz a diferença. Essa é a diferença. Convém não esquecer que Hitler chegou ao poder e nele manteve-se durante 12 anos com a ajuda do rádio que inicialmente era livre. Os sites racistas e neonazistas que se espalham pelo mundo e já chegam ao Brasil nos obrigam a lembrar uma dado elementar: sem regras mínimas de respeito aos semelhantes a liberdade de expressão vale muito pouco.
Editorial – programa 61 – 06/07/99
As mudanças são o assunto do dia. Mas a do sistema de discagem não é a única, há outras. Quando se muda alguma coisa o que é que se faz primeiro -- anuncia-se a mudança ou primeiro prepara-se a transformação para depois anunciá-la? A Brahma e Antarctica prepararam em silêncio a sua megafusão e quando a anunciaram na semana passada estava tudo pronto, armado, funcionando. Já no caso da mudança no sistema de discagem para ligações telefônicas de longa distância deu-se justamente o contrário: as operadoras gastaram uma fábula em propaganda na mídia e quando chegou a hora de mudar o sistema, percebeu-se que não haviam investido o suficiente na mudança em si. O país entrou em colapso. Ensaio geral para o bug do milênio. Hoje, terça feira, entrou em funcionamento uma outra mudança, essa protagonizada pelos principais jornais do país. Fizeram regime e estreitaram a largura. A desculpa: tornar o manuseio mais cômodo. Acontece que a mudança anunciada ainda não é para valer, vai demorar: apesar dos enormes anúncios de página inteira marcando o Dia-D para hoje, a maioria dos jornais por enquanto apenas encolheu a mancha impressa, outros mudaram os segundos cadernos ou classificados. O formato ainda é o mesmo até que comece a chegar o novo estoque de papel e as rotativas sejam adaptadas. Então porque não se esperou para discutir o assunto com os leitores? Na verdade, o que se pretende é economizar no custo do papel encarecido com a desvalorização do real. Acontece que os jornais já haviam aumentado o preço logo depois da desvalorização conforme comentamos neste programa. E por que razão a Gazeta Mercantil, o mais importante veículo de economia e negócios do país, não aderiu ao novo formato? Simplesmente porque a Gazeta Mercantil sabe que qualquer redução no tamanho acaba prejudicando a quantidade de informação e no caso, quantidade tem a ver com qualidade. Se é para mudar, mude-se para valer. Um dos melhores jornais do mundo é o Le Monde concebido para um formato menor. Ou mude-se para a formato tablóide, da Zero Hora, o mais importante jornal regional do país. Badalar mudanças implica na obrigação de prepará-las antes com muito cuidado. Jornais deveriam dar o exemplo. E num regime democrático quando se mexe em 60 jornais ao mesmo tempo conviria que o leitor-cidadão também oferecesse a sua opinião.
EMAILS
Mensagens recebidas entre 6/7 e 13/7
CARTAS:
Francisco Frederico Schuett, Araraquara / SP
Assistindo ao programa Observatório da Imprensa pude tirar várias conclusões e formar opinião a respeito da matéria ali tratada. Mas no debate de ontem, 25 de maio, me tornei um personagem com necessidade de expressão, a matéria discutida é da maior importância e não pode ficar apenas nos bastidores da própria esfera jornalística, sendo assunto para debate de amplo espectro.
Sei que está em jogo o próprio futuro da TV educativa no país, senti a pressão que as emissoras comerciais estão fazendo, e já era de se esperar por isso. É notório que as TVs públicas têm incomodado, para quem sabe analisar é fácil concluir. Até mesmo em dia próximo passado, quando eu acabava de ligar a TV, vi um lance que me deixou ofendido: o jornalista Erodoto Barbeiro entrevistava um "figurão", não pude identificar quem era dado a rapidez do lance por eu ter pego a matéria no final, mas pude perceber que o entrevistado se irritou com Erodoto. Ele deu uma resposta malcriada e chamou Erodoto de "repórter", fiquei furioso, acho que aquele personagem era alguma coisa do Governo, pela postura ofensiva, ele deve! Ele não quer que o povo saiba o que o vice-presidente da ABERT, filho de quem é, como disse, defendeu a posição das Tvs comerciais, de onde o seu pai já era integrante. Só que não podemos aceitar regras vindas desta entidade, que tem por meta, unicamente, o dinheiro, admite que a qualidade da programação comercial é infinitamente inferior, mas coloca que isso dá audiência, deixando claro que aquelas redes comerciais pouco se importam com o bem, ou mal que estão fazendo para o povo.
Conheço também a história das rádios comunitárias, sei da pressão que a ABERT faz contra essas rádios. Conheço uma delas aqui de minha cidade que foi vítima de uma repressão absurda, a Rádio Ativa prestava serviços de grande utilidade pública e garantia espaço para o debate, como faz a TV Cultura. Mesmo assim foi fechada com a maior brutalidade e seus colaboradores tratados como se fossem subversivos nos tempos do AI-5.
Os objetivos das Tvs públicas e comerciais são independentes, no entanto propõe que a rede educativa fique sujeita a metas de audiência, audiência não pode ser regra para definir nada em relação à TV pública, estar a disposição daqueles que se interessam em enriquecer seus conhecimentos, sem levar em conta os números destes. É obrigação do Estado manter a rede educativa em condições até superiores à comercial, pelo próprio objetivo de não poder atingir níveis de audiência, e sim oferecer identidade, idoneidade, credibilidade, finalmente, dar oportunidade a quem quer enxergar o outro lado da moeda.
(...)
A ABERT insiste em afirmar que o índice de audiência da TV pública é baixo, mas não vi citar a fonte de onde foi tirada essa informação. Como foi dito, não se faz pesquisa de audiência para as TVs públicas. Sou assíduo telespectador da Tv Cultura mas nunca fui pesquisado, nunca me perguntaram sobre qual programação eu assisto, sei que os índices de audiência não são tão baixos assim. Só no meu quarteirão moram vários telespectadores da TV Cultura, comentamos os debates e juntos formamos opiniões a respeito de muitas coisas.
(...)
Fazer TV educativa é também pensar no futuro, os níveis de audiência pouco importam para quem quer que seus filhos tenham opção de assistir programação séria, onde os valores culturais são primordiais em relação à desinformação e deturpação da moral e dos bons costumes que estão sendo veiculados nas TVs comerciais. A violência a que estamos sendo sujeitos hoje tem tudo a ver com esta campanha desqualificativa que estamos sendo vitimados, através do bombardeio diário televisivo
(...)
É neste momento que a única força que age pelo menos em parte a favor dos fracos e oprimidos é a imprensa, compreendem a minha preocupação? A rede pública tem o mais importante papel nessa luta, por isso era de se esperar que de alguma forma ela fosse atingida, e da maneira mais peculiar, no dinheiro, nas verbas, matam seu povo de fome e os defensores de falta de condições financeiras. As denúncias feitas por quase toda imprensa causam esse medo da verdade, que transmitem esses atos agressivos contra ela.
(...)
Ainda assim vou fazer minha proposta mesmo que ela chegue atrasada, mas chegue. Raciocino assim: as TVs comerciais transmitem o que querem, ainda estão propondo a auto gestão, isto vai liberar geral, como se já não fosse livre. Essa liberdade deve custar alguma coisa, elas é que têm obrigação de patrocinar as TVs públicas, assim sendo, o que falta nas verbas fornecidas pelo Estado para manter e proporcionar a evolução, sem barreiras para a TV pública, deve ser proporcionalmente rateado entre as comerciais, isto previsto em lei e tudo mais o que necessitar, para regulamentar o processo.
Eu gosto de ver a Tv Cultura sem comerciais, sendo a única forma de dar continuidade ao seu trabalho, até pode, mas será difícil manter a qualidade nos patamares onde estão. A TV Cultura deve ser independente e deve ser mantida por aqueles que poluem as ondas hertzianas. Eles devem pagar para que o povo tenha opção, não fique sujeito à essa ditadura do lixo.
Essa causa pode ser a mais importante do mundo, todos viemos ao mundo pela mesma virtude divina, no entanto, alguns se alimentam do lixo que os outros jogam fora, outros ainda trabalham no sentido de mentir, enganar, subestimando nossa capacidade de entendimento, praticam os maiores crimes contra a humanidade e ainda querem fazer crer que meras circunstâncias são capazes de transformar iguais em lumpens e príncipes, sem que nenhuma intenção haja do poder.
Isto há de mudar!
Obrigado, abraço a todos!
E-MAILS:
Wilson Marques, Lorena / SP
Na época da privatização do Sistema Telebrás, a imprensa em geral exaltou a tal ponto os benefícios da privatização que, ao término do leilão, a impressão que tive foi a de que o grande comprador das "teles" foi um só: Mandrake, o velho mágico das histórias em quadrinhos. De fato, predominou na imprensa a visão maniqueista de que à incompetência e ineficiência estatais, a iniciativa privada iria dar respostas tão mágicas quanto imediatas para sanar as dificuldades da telefonia brasileira.
Agora, com toda a confusão causada pela troca do DDD, ficou claro que incompetência e ineficiência não são, por assim dizer, exclusividades de empresas estatais e que afligem qualquer empresa com planejamento açodado ou descuidado das suas atividades. E, com telefones inúteis por todo o país, a imprensa foi pródiga na informação e incisiva nas críticas sobre as causas da "semana muda da telefonia brasileira".
Mas é interessante notar que boa parte do que ocorreu era previsível e, se tivesse havido observadores mais atentos nas redações, as críticas pós caos poderiam ter chegado à população como alertas úteis na semana que antecedeu a mudança desastrada do DDD. No entanto, o que se viu na imprensa nos dias anteriores ainda foi a predominância do "chapabranquismo" do oba-oba à privatização, sem qualquer análise mais apurada dos riscos da mudança.
E, com isto, perdemos todos - a imprensa, por informar mal e a população que, pela informação incompleta, ficou à espera de mais uma ilusão do Mandrake.
Berto Oliveira
"A Aeronáutica está fechando o cerco ao coronel Washington da Silva, dono dos 33 kg de cocaína que seriam despachados para Madri num avião da FAB em abril. Telefonemas interceptados há dias indicam que ele está escondido em Santa Catarina" (O Globo, 12/07/99 - Coluna "Ricardo Boechat").
Sob o título "Alvo móvel", o texto acima foi publicado como notícia de uma mera ação desenvolvida pela Aeronáutica. Ocorre, entretanto, tratar-se de uma informação relevante no contexto de uma importante investigação sobre a utilização de aeronaves militares para fins de transporte de drogas ilícitas.
Pergunta-se:
* Esta é uma notícia de interesse público?
* Quem liberou tal informação para o jornalista?
* Este fato pode influenciar no andamento das investigações?
* A quem interessaria a veiculação de tal informação?
Caberia ao jornalista conjeturar sobre a conveniência ou não da sua publicação?
Mensagens recebidas entre 29/6 e 6/7
CARTAS:
Maria Cecília de Almeida, Méier
Oi, tudo bem com vocês?
O programa do dia 25/05 foi bárbaro! Mas foi frustrante para mim, ficar ligando o número 0800216689 e não conseguir (não tenho fax nem computador). Eu gostaria de ter argumentado que o Flávio estava enganado, a meu ver, e me irritou em duas de suas colocações. Pois, na minha opinião, como na de muitos, o "Povão" precisa e aprecia a educação integral veiculada na TV e já nega, sim, aos poucos, com um discernimento intuitivo, talvez, mesmismo medíocre da informação manipulada e padronizada da maioria das outras emissoras, principalmente da Globo.
E dou bravo à TVE e dou ainda parabéns a este programa providencial que deveria ir ao ar três vezes por semana com este tipo de abordagem questionadora e analítica.
Amei o mestre Fernando Barbosa Lima enfatizar a importância deste tipo de programa e de debates em outras emissoras também. Ele realmente sabe o que diz e sabe o momento e importância de suas sábias colocações.
Mas, já o Flávio, me irritou também, quando referiu-se às três maiores emissoras do Brasil, etc. Nenhuma é melhor em qualidade de programação do que a TVE e digo isso considerando até os últimos 20 anos, sem exagero! Programas sempre de qualidade, educativos, informativos, musicais, ambientalistas, programas de entrevistas, programas infantis. A TVE sempre teve uma programação superior! A maioria das outras emissoras preocupa-se demais em moldar os telespectadores à sua programação (na maioria inútil ou fútil-inútil) acomodando os telespectadores. Com recursos técnicos e repetitivos manipula os telespectadores a corresponderem aos próprios interesses de audiência da emissora.
A Tv Globo, então, exagera, o Jornal Nacional eu não aguento mais nem assistir. Além de todos os recursos existentes eles agora resolveram aumentar o volume da voz dos dois apresentadores, com frases curtas, rápidas e de impacto e jogo de câmera rápido, tipo ping-pong que me irrita. É começar o Jornal Nacional que por acaso onde estou assistindo à Globo, corro de onde estiver para mudar de canal, assistir outro canal com informação mais ampla, integral, com voz menos impactante, menos alta e menos "agressiva". A Globo vai chegar uma hora na qual vai ter que abrir mão de todos esses recursos e voltar ao mais simples já que ela ama e luta tanto pela alta audiência, pois como está não dá para aturar .
Outro é o Fantástico, caiu... caiu...caiu. Agora é uma "salada de doido" que não estimula mais o interesse ou a curiosidade de ver mais. O Sai-de-baixo então nem se fala, logo nos primeiros programas já era péssimo e acho que assim continua. É realmente muito pobre de conteúdo! É uma vergonha!, como diz o Bóris Casoy. E isto, lógico, não deveria ser a função principal da televisão em um país, em uma sociedade que busca e anseia por evolução e progresso.
Acredito sim que o telespectador hoje já percebe aos poucos estas questões e assim tenderá a crescer ainda mais o índice de audiência da TV de qualidade fato (da emissora que tenha um conteúdo de qualidade real).
(...)
Fiquei feliz demais com a notícia que ouvi esta semana da proposta de Pedro Simon sobre a obrigatoriedade de parte da programação das emissoras serem destinadas a programas educativos. Sempre pensei nisso, sempre falei disso! Até para o Dines, acho que escrevi sobre isso em uma primeira carta sobre as questões educação/televisão.
Tomara que este projeto vire lei e que esta seja cumprida. Eu gostaria de participar de alguma forma disso tudo, mas se não, fico de fora torcendo e acompanhando o trabalho conjunto de todos vocês: da TVE, do Observatório da Imprensa, de Pedro Simon, etc
A TVE é muito mais assistida no interior do Rio de Janeiro e nas divisas MG/SP/RJ. Eu amo a TVE desde meus 12/13 anos.
Este programa de vocês, do dia 25/05 deveria se fosse possível (um sonho!) ser veiculado em todas as emissoras de TV, como um tipo de "horário político", obrigatório, sabe? As outras emissoras iam "ter que engolir" ! Seria ótimo, não é mesmo? ("brincadeirinha"). Parabéns às sabias e oportunas palavras do Dines e continuem! Não desistam jamais! Bravo e parabéns ao programa!
Abração sincero
FAX:
Ithamar Canal, SP
Caro Dines,
Sou fã de seu programa. Depois que comecei a frequenta-lo, nunca mais li jornal da mesma forma. E foi por isso que escrevi uma carta ao sr. Boris Casoy, cuja cópia junto, para seu conhecimento. (...)
Tenho estado preocupado com a parcialidade com que a mídia trata os problemas dos sem–terra. A Globo ultimamente tem dado um tratamento um pouco mais profissional ao assunto mas os restantes, exceto a Cultura, são extremamente facciosos. Pensei em escrever também ao O Estado de São Paulo, mas achei inútil, para eles, os sem-terra são simplesmente o inimigo, os golpistas, os que desejam derrubar o governo democrático e assumir a ditadura do país. O Estado é o Estado, V. Sa. sabe, se não existissem, precisariam ser inventados. Penso que um programa sobre o assunto seria muito interessante, os jornalistas poderiam expor suas idéias, suas razões, explicar o porque desse medo atávico de que os miseráveis possam obter meios de viver com dignidade.
Que tal?
Meu abraço, minha admiração
Carta enviada:
Caro Senhor Boris Casoy,
Eu tenho inúmeras divergências de opinião consigo, fato que não afeta meu juízo, de que o jornal ancorado por V. S. seja o único a rivalizar com os da TV Cultura (e, em combatividade, energia, a ultrapassá-los). As notícias nunca são reduzidas a simples relâmpagos, elas são apresenta de forma isenta, comentários são sempre para questionar a razão dos fatos, em um quadro ético consistente, muito próximo ao meu. A apresentação é feita em linguagem correta, em um nível elevado. Parabéns!
Eu ouço suas opiniões sobre diversos assuntos, concordo com muitas delas, respeito todas, não as cotejo com as minhas; penso que a democracia de opiniões seja a única forma de refinamento da sociedade. Existe uma posição de meus comentários que me parece cristalina, com a qual me permito discordar, é sobre as ações do MST. V. S. combate francamente o que considera violência e ilegalidade das ações praticadas pelos integrantes do movimento. Noto que esta é uma constante, em todos os casos de invasão, quer sejam de terras produtivas, improdutivas ou de repartições públicas. Concordo que existam casos de excessos praticados por eles, mas penso, que na grande maioria das vezes, as posições que tomam são bastante moderadas. Devemos cotejar o constrangimento causado pelos participantes do movimento, que são originários de camadas sócio-econômicas e culturais muito baixas, como o das autoridades constituídas, a elite do país.
Os integrantes do MST vêm lutando contra situações de violência externa, praticadas contra eles pela sociedade, estas sim de natureza rancorosa, odienta. Vamos citar apenas algumas:
- Situação de fome, de penúria externa, que se estende por anos, por gerações desses condenados. Ultimamente a situação vem piorando, não há esperanças de melhoria.
- Governo, a mídia trata-os como criminosos, como foras-da-lei, desconhece o direito primitivo que todos têm à sobrevivência e à dignidade.
- O ambiente fora das grandes cidades da nação é de um direitismo estreito. Sou do interior de São Paulo, quando vou para lá, fico chocado com o conservadorismo despudorado que orienta a vida das pessoas, Juízes, delegados de polícia, policiais, promotores públicos pensam, agem dentro do mesmo plano, onde todos cabem muito confortavelmente. Pelo interior do Brasil, a situação é ainda mais primitiva.
- As ações mais agressivas dos sem-terra têm ampla cobertura da mídia, severa punição dos magistrados, policiais. Os massacres dos pobres continuam impunes, não se encontram culpados; até hoje, não há um só desses assassinos na cadeia. Rainha foi condenado a vinte e cinco anos de prisão, por um crime cometido quando ele se encontrava, comprovadamente, a milhares de quilômetros de distância.
- O Presidente da República encontrou um ministro à altura dos desejos dele, para conter esses incômodos pedintes. Seu esnobismo, radicalismo, arrogância, fazem dele o interlocutor ideal para essa horda de esfomeados. Quando o vejo argumentando, encrudescendo contra as violências que os integrantes do MST praticam contra o patrimônio de pobres e desamparados fazendeiros, também fico indignado, se bem que de uma forma um tanto diferente dele. O Ministro, não leva em consideração a violência que o estado pratica contra eles, tolhendo-lhes o direito de sobreviver, e até fazendo vista-grossa a alguma discreta matança desses maus elementos. O ministro mata a cobra e mostra o pau, ensina que eles precisam aprender que assim é a vida, sobrevivem os mais adaptados. O Governador Mário Covas tem uma experiência, bem pequena, é bem verdade, mas ela dá uma idéia da eficiência de uma programa de assentamento bem-cuidado. Mais de oitenta em cada cem assentados sobrevivem do programa, eles conseguem, desde o primeiro ano, mais de três salários mínimos de renda familiar, além da moradia e dos alimentos para a própria sobrevivência. Será que alguém conhece investimentos em alta tecnologia com melhor retorno? (que tal uma longa entrevista com os dirigentes do programa estadual?) Mas, eu compreendo, a prioridade dos esforços do governo não pode ser posta nessa direção, os milhões de desempregados, que poderiam sobreviver com dignidade dentro de um programa semelhante, não tem modernidade, impossível a identificação dos nossos nobres e cultos governantes com essa gente. O governo prefere usar o dinheiro para cobrir o criminoso desfalque do Banco Nacional, que para mitigar a fome de milhões desesperançados, é com o banqueiro que eles se identificam. (...)
- Existem alguns valores que são inerentes à pessoa humana, seu exercício não depende de leis. O direito de não ser escravo, de sobreviver, de ter esperança de vida digna são alguns deles. Mandela, uma das pessoas mais cândidas que já conheci, penou anos na prisão porque desobedecia à lei de segregação racial de seu país. (...)
Considero como uma obrigação ética dos jornalistas, que dos dois lados da moeda sejam sempre mostrados. Penso que cada desmando dos integrantes do MST que for noticiado, ele deve ser seguidos de comentários sobre a impunidade de seus assassinos, da parcialidade dos juízes, promotores e delegados, do sectarismo do Ministro da Reforma Agrária, do direito de toda pessoa à sobrevivência com dignidade, comentários sobre o desvio do dinheiro público para benefício das categorias mais ricas, sobre o corte de recursos destinados à reforma agrária, à saúde, à educação, etc. O profissional de imprensa não pode olvidar de também ver esses aspectos daquela violência. Os comentários devem, equilibradamente, cobrir a violência, a ilegalidade das ocupações de terra, mas devem fazer reflexões sobre a virulência, o rancor com que a sociedade constituída castiga os pobres deste país, sem lhes oferecer leis justas a que eles possam obedecer.
Estou pedindo ao caro jornalista somente para que pense sobre estas ponderações. Se elas alterarem, um pouco que seja, sua maneira de tratar o assunto, eu me darei por muito feliz.
E-MAILS:
Carla
Caros colegas do Observatório,
Me chamo Carla, sétimo semestre de jornalismo. Sou fã assídua do Observatório da Imprensa, se não pela TV, pela Internet. Utilizamos os textos publicados na Internet nas aulas de redação. Há algumas aulas estamos discutindo sobre a ética e o papel da imprensa. Há pouco tempo utilizamos o texto "A melhor profissão do mundo" de Gabriel Garcia Márquez. Acho que deveria se discutir mais este aspecto, porque todo mundo acha que os jornalistas devem ter ética, mas nem sempre as universidades dão a oportunidade aos alunos de conhecer esta questão e discuti-la. Desde já parabenizo a todos pelo belíssimo trabalho que estão realizando.
Lúcia Barros, Editora de Reportagem
Prezados editores,
A revista Marie Claire deste mês de julho traz uma campanha contra a fome no Brasil. A base é uma reportagem que identificou em todo o país projetos que apresentam soluções para esse problema. Seria ótimo se o Observatório da Imprensa pudesse nos ajudar a divulgar essa campanha, um bom exemplo de como o jornalismo pode (entre tantas maneiras) cumprir com sua responsabilidade social. Grata por sua atenção.
Eduardo Hermes da Fonseca, Assoc. Bras. Atiradores de Rifle
Caros Srs.,
Gostaria de sugerir a este programa, como tema, a "cobertura sobre armas de fogo" feita pela grande imprensa. Como atirador esportista, conhecedor e estudioso do assunto há mais de 12 anos, fico indignado pela falta de informação, falta de imparcialidade, e muitas vezes, mentiras, empregadas pela dita grande imprensa. Principalmente por ser este, um assunto de muita importância para a sociedade brasileira.
Obrigado
Ronaldo Castro de Lima Júnior, Recife / PE - Estudante de Filosofia
A Folha Desfolhada
Conheci as idéias e a vida fascinante do grande ensaísta Otto Maria Carpeaux graças a obra monumental de pesquisa do filósofo Olavo de Carvalho, pesquisa que me orgulho de ter humildemente ajudado. Mas essa obra monumental não se reduz apenas a dois anos de busca em arquivos, setecentas notas de rodapé (só no primeiro volume!) e uma introdução de quase cem páginas. Monumental não é aqui uma simples figura retórica, não é a afetação comum de um elogio desmedido. Em quase cem páginas de introdução Olavo de Carvalho faz um resgate espiritual a partir de uma exaustiva análise intelectual, psicológica e histórica de um dos maiores ensaístas de nossa cultura. Monumental portanto em quantidade e qualidade. Todo esse trabalho foi ignorado pelo jornal "Folha de São Paulo" que, no caderno "Mais" publicou cinco páginas sobre os Ensaios Reunidos do Otto Maria Carpeaux, omitindo sumariamente qualquer menção ao seu trabalho de preparador da edição, muito menos sua brilhante introdução. Há uma ridícula citação de "planejador" da obra, tão minúscula que se torna na verdade a grande manchete da matéria: Boicote na Imprensa Brasileira. Talvez a ingenuidade ou o sarcasmo pudesse nos aconselhar que trata-se de uma omissão oportuna, visto não haver na redação do digníssimo jornal nenhum profissional a altura da profundíssima análise do filósofo. E talvez pudessem ainda argumentar que tratava-se tão somente de uma homenagem ao próprio Carpeaux, apenas incitada pela obra "Ensaios Reunidos do Otto Maria Carpeaux". Não é esse o caso. A Folha de São Paulo nunca omite em suas resenhas e notícias a autoria das colaborações, dos prefácios, das análises, e nos mais variados tipos de literatura. Só para dar uma idéia de quanto o esquecimento do trabalho de Olavo de Carvalho foi proposital, veja-se que o próprio Nelson Ascher, autor de uma das matérias, é elogiado na edição 18/05/97 pelo breve prefácio que escreveu a uma antologia de poetas. O jornal faz ainda elogios a Heloísa Buarque de Holanda pelo prefácio a uma outra antologia, na edição de 12/12/98; elogios a Richard Dalby, redescobridor e prefaciador de um romance de Bram Stoker (25/06/99); elogios a Jessé Souza e Berthold Öelze, compiladores de uma antologia de Habermas, bem como a Leopoldo Waizbort, organizador e prefaciador de uma antologia de Norbert Elias (08/05/99); menções a Marina Heck e Rosa Belluzzo, organizadoras e prefaciadoras de uma coletânea de depoimentos sobre gastronomia (01/01/11), a Jairo Saddi e Gustavo Loyola, organizador e prefaciador, respectivamente, de uma coletânea de textos de economia (26/06/99); a Dmitri Nabokov, prefaciador de uma paródia de Lolita (21/06/99); a Sérgio Noronha, prefaciador de um livro sobre futebol (08/05/99); a Paulo Renato Souza, prefaciador de um livro sobre adolescentes (13/03/99); a Art Spiegelman, prefaciador de um livro japonês de histórias em quadrinhos (também 13/03/99). E assim por diante. Como se vê, por mais modesto que seja o assunto, até mesmo curtos prefácios merecem a atenção da Folha. Trata-se de um caso de omissão proposital. Mesmo porque não é a primeira vez. Lembro que o economista Roberto Campos denunciou em 1996 que Antonio Callado buscou vetar a publicação no Jornal do Brasil de artigos de Olavo de Carvalho. A comunidade acadêmica por sua vez o despreza com requintes caninos. Sua obra filosófica impressiona na França e na Romênia, e ilustres pensadores brasileiros como Ângelo Monteiro, Nelson Saldanha, Jorge Amado, Edson Nery da Fonseca, Vamireh Chacon, Josué Montello, Romando Galeffi, Aristóteles Drummond, J. O. de Meira Penna, Herberto Sales, Paulo Francis, Bruno Tollentino, Jacob Klintowitz entre outros, reconhecem a sua genialidade filosófica e profundidade crítica. Eu mesmo, como estudante de filosofia, fico perplexo diante da quase absoluta mudez tacanha da comunidade acadêmica perante suas obras, que são de um inquestionável valor não só para a filosofia no Brasil mas para o mundo. É muitíssimo difícil encontrar autor tão denso e saboroso como ele. Sua lógica faz inveja a própria matemática. Não é só a indignação que me obriga a escrever esse artigo mas a urgência de exigir responsabilidades morais por parte das instituições culturais de nosso país que ignora ou faz vistas grossas aos boicotes e manipulações ideológicos, mais sacanas e eficientes que as imposições militares nos períodos de repressão. Não reclamo aqui apenas uma reconsideração pelos dois anos de uma pesquisa exaustiva. A omissão patrocinada pela guerrilha sutil do patrulhamento ideológico que se esconde por entre as editorias, o meio artístico, cultural e acadêmico em geral, não é apenas produto de uma determinação partidária qualquer. Essa árvore do mal tem outras raízes. É a vilania do espírito moderno que se apoderou das mentes e dos corações. Substituem a verdade por um consenso, cada vez mais medíocre e empobrecedor, sedutor e encantatório. Mas por isso devemos isentar os digníssimos representantes da cultura de suas obrigações? Espero que a "Folha" possa evitar essa tendência "desfolhante", ao menos de seu bosque editorial.
Edo Cerri, Campinas / SP
Ora, com o devido respeito, esta discussão sobre se a redução de coisa de 2,5 cms na vertical prejudica ou não a quantidade/qualidade da informação me parece um tanto desfocada. O que realmente me garantia quantidade/qualidade de informação seria o estabelecimento de uma % X de espaço publicitário em toda a edição.
Um jornal no tamanho "normal", mas ocupado por mais espaço publicitário do que outro com menor espaço vendido para publicidade, me traria, supostamente, maior qualidade/quantidade de informações.
Um dia, perguntado para um dono de jornal, o que ele definiria como "matéria". Disse ele: "Matéria é aquilo que ocupa os espaços em branco entre as publicidades vendidas".
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