03/06/2003 4/5

Envie para um amigo  Imprima esta página  Procure no arquivo

VEJA E O MICO
Criacionismo em novo design

José Colucci Jr. (*)

O que acharia o leitor da qualidade editorial deste Observatório se um dia lesse nele um artigo afirmando que a Terra é chata? Não chata como conversa de político ou editorial do Estadão, mas chata como uma pizza, um CD ou, para os mais antigos, um disco de vitrola. Isso jamais aconteceria, pensa o leitor, pois o Observatório só publica comentários sobre o desempenho da imprensa. Verdade. Mas talvez publicasse, se o artigo usasse como gancho alguma reportagem sobre o assunto, quem sabe sobre a Terra vista do espaço. Desta forma, o defensor da teoria da Terra chata, com a desculpa de criticar a imprensa, veicularia suas idéias entre um público bem maior do que o que consegue reunir nos templos terra-chatistas. Absurdo, diz o leitor, todos sabem que a Terra é redonda. Engano, nos ensina o terra-chatista. As fotos que a mostram como uma esfera azulada flutuando no espaço são forjadas, a sombra da Terra sobre a Lua durante um eclipse lunar é causada pela borda do disco plano da Terra, os navios "afundam" no horizonte devido a uma ilusão de óptica. Além do mais, se a Terra fosse redonda os japoneses despencariam no céu.

Não preciso encompridar a história. O leitor já entendeu e provavelmente se pergunta o porquê de tal introdução. Explico. Absurdo comparável ocorreu na semana passada, quando o Observatório da Imprensa publicou propaganda criacionista disfarçada de crítica da imprensa. E publicou-a sob a rubrica "Ciência". Por Júpiter, ciência! Se criacionismo é ciência, o Olavo de Carvalho milita na ala radical do PT.

O artigo em questão – "DNA, o homem e o chimpanzé" – foi escrito por Enézio E. de Almeida Filho e, fiel aos mandamentos dos novos ativistas da cruzada anti-evolucionista, não menciona a palavra criacionismo uma vez sequer. Entende-se. O criacionismo virou nome feio não apenas no meio científico, mas também na mídia. Sua menção conjura a imagem de sectários fundamentalistas brandindo a Bíblia contra o avanço materialista da ciência.

Após uma longa série de derrotas legais, começando com o Scopes Monkey Trial, de 1925, os criacionistas mudaram de estratégia. Como a tática de insistir na inerrância bíblica desabou sob o peso esmagador dos fatos científicos acumulados a favor da evolução, uma nova estratégia precisava ser concebida, como, de fato, foi.

Alarde desproporcional

O novo criacionismo chama-se, em inglês, intelligent design. Em português seria "projeto inteligente", mas o termo foi traduzido por design inteligente – talvez em homenagem à matriz, já que o movimento começou nos EUA. Um de seus expoentes é Phillip Johnson, professor de Direito da Universidade da Califórnia em Berkeley. Segundo o professor Johnson, o ensino da evolução exerce influência perniciosa sobre a cultura contemporânea, e é responsável por muitos de seus problemas sociais e morais. O objetivo final do design inteligente é substituir as explicações materialistas da ciência pelo entendimento de que a natureza e o homem foram criados por Deus. O que diferencia os adeptos do design inteligente dos religiosos assumidamente criacionistas é a estratégia política e de marketing. Após empacotar o velho produto em embalagem de melhor design, os novos criacionistas tentam fazê-lo passar por novo no mercado das idéias.

Para chegarem a esse estágio, alguns compromissos foram aceitos. O mundo não foi criado em 23 de outubro de 4004 AC, como calculou, com base nas Escrituras, o teólogo James Ussher (1581-1656), ou mesmo há 10 mil anos, como calcularam os criacionistas de ontem – há limites até para a fantasia, quando esta procura afetar um ar de ciência. Os postulantes do design inteligente aceitam a idéia de que a idade da Terra mede-se em bilhões de anos, cerca de 4,5 deles, como acreditam os geólogos modernos. Alguns chegam mesmo a aceitar a chamada microevolução enquanto rejeitam a macroevolução – novamente, há limites para a negação do real.

A estratégia do design inteligente na luta contra o evolucionismo naturalista pode ser resumida pelo que Phillip Johnson chama de wedge (cunha). Segundo ele, é preciso aproveitar qualquer brecha – na imprensa, na argumentação dos evolucionistas, nas discussões sobre educação científica – para introduzir o conceito de design inteligente. É a ponta da cunha que abrirá caminho para o resto. Todo o artigo sobre design inteligente que se preze tem que mencionar "o acúmulo de evidências contrárias à evolução", embora não exista um biólogo de renome no planeta que acredite nisso. Não é para menos. Evolução é o fundamento da biologia moderna. Como disse o pioneiro evolucionista Theodosius Dobzhansky, "nada em biologia faz sentido, exceto à luz da evolução".

Diante da impossibilidade de ver suas idéias em publicações da qualidade da Nature, da Science ou da Evolution, os criacionistas fundam as próprias revistas especializadas; diante do magérrimo suporte conquistado nas universidades de prestígio, encorajam os integrantes de suas fileiras a obter títulos de pós-graduação; diante do desinteresse leigo pelo tema da evolução, fazem alarde na imprensa, desproporcional ao número de seus adeptos. Seus trabalhos são escritos no jargão típico da ciência, com expressões como "complexidade irredutível" (Michael Behe) e "informação complexa especificada" (William Dembski), mas não é difícil para o leitor arguto descobrir que a sua bibliografia essencial constitui-se de um único livro – que jamais é citado.

Um fato, como a gravidade

Na estratégia do design inteligente, a motivação religiosa é maquiada de busca científica. Segundo os seus ditames, não se menciona a Bíblia, não se opõe o Gênese a Darwin ou sequer se toca no nome de Deus. O artigo de Enézio Almeida Filho é mostra disso. Os novos criacionistas apenas sugerem um "designer" por trás da cena da criação, deixando a decisão de quem seria este por conta da fé do leitor.

O problema, para os adeptos do design inteligente, é que a estratégia do wedge não está funcionando. A recente derrota legal sofrida no estado americano de Ohio é um exemplo. Primeiro, os criacionistas tentaram introduzir a "ciência da criação" no currículo escolar e falharam. Uniram-se então aos proponentes do design inteligente para introduzir a ponta da cunha criacionista no currículo de Ciências das escolas públicas de Ohio. Mais uma vez falharam. Tentaram, de novo, introduzir o design inteligente no currículo de Ciências Sociais. Nova derrota legal. Nos EUA, a primeira emenda constitucional estabelece a separação entre igreja e Estado, e é graças a ela que se proíbe a doutrinação religiosa nas escolas financiadas pelo dinheiro do contribuinte. Os tribunais americanos reconheceram no design inteligente o que ele realmente é: religião.

Para boa parte dos leitores brasileiros a questão pode parecer sem importância. Afinal, a discussão evolucionismo x criacionismo só se mantém pelo zelo, digamos, religioso, de grupos americanos. De fato, até há pouco o debate era circunscrito aos EUA, sob o olhar pasmado do resto do mundo. Com a expansão das religiões protestantes fundamentalistas no Brasil, porém, o tema do criacionismo bíblico tornou-se popular também por aqui. É preciso que o público e a mídia conheçam as táticas do chamado design inteligente para que não aceitem inocentemente o retrocesso travestido de ciência.

A estratégia mais recente do design inteligente parece ser exigir tratamento igual para as duas teorias da criação: evolucionismo e design inteligente. Cabe a pergunta: por que apenas duas? Porque não três, quatro ou mesmo 15? Por que não a teoria de que a vida surge da respiração de Vishnu? Ou das pulgas dos cabelos de Phan Ku? Ou dos desejos de Iemanjá, filha de Olokum? A resposta é óbvia: porque não são científicas, isto é, não explicam os fatos observados, não podem ser testadas, não têm poder preditivo. Os proponentes do design inteligente alistam-se para lutar numa batalha que já foi perdida há muito tempo.

A evolução é "apenas uma teoria", como querem os postulantes do design inteligente, da mesma maneira que a gravitação é apenas uma teoria. Inúmeras interpretações do fenômeno da gravitação, de Newton a Einstein, não fizeram as maçãs parar de cair na cabeça de cientistas. Como a gravidade, a evolução é um fato. Os mecanismos exatos da evolução estão sujeitos a revisões, como é da natureza da ciência, mas a sua essência continua intacta há quase 150 anos. Em verdade, a teoria de Darwin-Wallace está entre as teorias científicas mais duradouras da história, e tudo indica que continuará assim por muito tempo.

Um único título

Os proponentes do design inteligente raramente apresentam suas próprias idéias, preferindo explorar as falhas reais ou imaginárias no raciocínio dos evolucionistas. O artigo da Veja criticado por Enézio E. de Almeida Filho está cheio delas, mas não a ponto de justificar as afirmações do autor. Diz Almeida Filho:

"A questão hoje em dia não é se a teoria geral da evolução de Darwin contraria os relatos religiosos da criação, mas se as evidências científicas apóiam ou não as especulações darwinistas. As evidências continuam dizendo não a Darwin et alii. E estão apontando em outra direção: design inteligente. Veja, bem como toda a mídia, continua apresentando a evolução como uma guerra cultural entre fé e razão."

Errado. Os únicos que contestam o fato de a evolução ocorrer por mecanismos naturais ou consideram o darwinismo uma mera especulação são os criacionistas, qualquer que seja o título pelo qual gostariam de ser conhecidos. Umas poucas idéias criacionistas são testáveis pelos métodos da ciência, e já foram, de fato, testadas e refutadas. Como disse Stephen Jay Gould, "seres humanos evoluíram de um ancestral comum com o macaco, seja pelo mecanismo proposto por Darwin, seja por qualquer outro ainda por ser descoberto".

A evolução natural é uma teoria científica e, como tal, nada nos diz sobre a existência ou não de Deus. Religiões majoritárias, como as correntes liberais do protestantismo, o catolicismo e o judaísmo não-ortodoxo não a julgam incompatível com a fé. Em 1996, o papa declarou que o homem é produto da evolução, apenas sua alma foi criada por Deus. Ser ateísta, no entanto, tornou-se mais fácil após Darwin, e essa é a razão do ódio que seu nome desperta entre os fundamentalistas religiosos. Antes de Darwin o argumento teleológico de Paley, que deduz a existência de Deus pela complexidade e perfeição do universo, ainda era levado a sério pelos intelectuais. Darwin puxou-lhes o tapete. Alguns ainda não se levantaram.

Para não terminar em tom negativo, precisamos reconhecer que há vantagens – pequenas, é verdade – na adoção do criacionismo. Não perderíamos tempo procurando explicações racionais, quando sabemos que tudo é fruto de um milagre; não gastaríamos recursos públicos equipando laboratórios de biologia, pois a metafísica não precisa de laboratórios; economizaríamos uma fortuna em livros, pois as bibliotecas teriam nas prateleiras um único título.

(*) José Colucci Jr. é engenheiro e vive em Boston (EUA)



Leia também

DNA, o homem e o chimpanzé – Enézio de Almeida Filho

Crítica nebulosa ao darwinismo – Cláudio Weber Abramo

A cruzada dos criacionistas contra Darwin e o evolucionismo – Orlando Tambosi

Mande-nos seu comentário


Observatório | Índice da edição | Busca
Objetivos | Purposes | Edições anteriores
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe