03/06/2003 5/5

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VEJA E O MICO
Ladainha criacionista

Roberto Takata (*)

No artigo publicado neste Observatório comentando o trabalho sobre a comparação do genoma do chimpanzé e do ser humano, de autoria de Enézio de Almeida Filho, uma frase não pode passar batida: "As evidências continuam dizendo não a Darwin et alii".

O corpo de indícios acumulados continuam dizendo sim à Teoria da Evolução Biológica e diversos casos de evolução por seleção natural podem ser inferidos a partir dos dados observacionais coletados.

As hipóteses darwinianas podem ser expressas em quatro simples proposições:

** Os organismos produzem mais descendentes do que o ambiente pode comportar;

** Há variabilidade entre os organismos pertencentes a uma mesma população;

** Parte dessa variabilidade é herdável;

** A sobrevivência ou sucesso reprodutivo pode ser afetada pela posse ou não de certas características herdáveis.

Uma a uma dessas quatro proposições podem ser testadas e de fato o foram em uma ampla gama de condições: tanto na natureza quanto no laboratório, para um grande grupo de organismos. Essas proposições se mantiveram em pé passando pelo teste de hipótese. E mais, a conseqüência direta da veracidades dessas quatro proposições também pôde ser observada tanto em laboratório quanto na natureza: a evolução das populações ao longo das gerações – seja acompanhando-se características fenotípicas (distribuição de características morfológicas, estruturais, bioquímicas), seja acompanhando-se a variação alélica (genética).

Uma variante da ladainha criacionista, que ante tais fatos não pode negar a evolução em termos populacionais, é admitir a microevolução, mas negar a macroevolução ("Ok, a população varia, mas não gera uma nova espécie"). Novamente há dados observacionais indicando claramente a ocorrência de especiação.

Um dos processos de especiação vislumbrados por Darwin, a vicariância, enquadra-se nos dados biogeográficos (distribuição dos organismos pelo globo): espécies mais parecidas tendem a habitar regiões mais próximas – mesmo que o ambiente seja muito diferente: no alto da montanha nevada ou nos vales úmidos. Ambientes semelhantes, mas sem ligação geográfica muitas vezes são colonizados por espécies sem relação genética maior.

Também com a Bíblia

Neste próprio Observatório já foram publicados artigos de Orlando Tambosi e Cláudio Weber Abramo [ver remissões abaixo] refutando essa bobagem criacionista, incluindo a versão do design supostamente inteligente:

Em relação à crítica do trabalho de Goodman e colaboradores, o valor pode não ser exatamente de 99,4% de semelhança na seqüência se pudéssemos analisar todo o genoma. Mas nem haveria grandes surpresas se fosse algo por aí, a idéia de consenso em torno de 95% a 98,5% de semelhança não serve para contrariar o valor obtido nesse trabalho: esses valores foram obtidos por outras técnicas (comparação citogenética e de certas proteínas, por exemplo). Isso significa que, por exemplo, a semelhança provavelmente não será de 50% como com as bananas. Em relação ao número de genes analisados, 97, ora, isso é meramente uma questão de amostragem. O problema seria se os genes tivessem sido escolhidos a dedo: o gene da histona pode apresentar uma semelhança de mais de 90% entre humanos e bactérias. Assim como uma pesquisa com tamanho amostral de 2.000 pessoas em um universo de mais de 115 milhões de eleitores é indicativa, desde que a amostra não seja viciada, mesmo que represente apenas 0,0017% do total – nesse particular, uma amostra de 0,3% tem uma vantagem ainda maior.

Isso tudo significa que Deus e similares (seja judaico-cristão, muçulmano, o panteão hindu, greco-romano, as forças transcendentais e outros) não existam? Não. Apenas que o processo não deve ter sido uma criação independente. Qual o problema que há se Deus tivesse querido exercer seu ato criador justamente através do processo de evolução? Se assim não foi, por que teria ele (ou ela ou eles ou elas) espalhado tantos indícios da ocorrência da evolução biológica, da ocorrência da seleção natural, da ocorrência da especiação?

Quanto ao fato de a idéia de evolução ter sido utilizado com propósitos racistas: sim, infelizmente foi deturpada por diversas pessoas com esse propósito. Mas também foi assim com as idéias bíblicas.

(*) Mestre em Biologia



Leia também

DNA, o homem e o chimpanzé – Enézio de Almeida Filho

Crítica nebulosa ao darwinismo – Cláudio Weber Abramo

A cruzada dos criacionistas contra Darwin e o evolucionismo – Orlando Tambosi

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