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OFJOR CIΚNCIA

 

MÍDIA & GENOMA
O futuro em pauta

Carlos Vogt

O tema principal da presente edição da revista Comciência [veja abaixo] é o Genoma, em especial o programa que se desenvolveu no Brasil, através de diversos projetos, alguns deles já concluídos ou em fase final de conclusão, no que diz respeito ao seqüenciamento de genes, como é o caso do genoma da Xyllela fastidiosa, bactéria causadora da praga do Amarelinho nos laranjais e o "genoma da cana", cujo seqüenciamento de 50.000 genes está prestes a ser concluído.

O projeto do genoma do câncer, em parceria com o Instituto Ludwig, o projeto do Xanthomonas axonopodis pv citri, as ações futuras da FAPESP em parcerias internacionais com consórcios de instituições de diferentes países no projeto da bactéria Clavibacter, da cana-de-açúcar, ou a sua participação no projeto da Xyllela que afeta as vinhas do sul dos Estados Unidos, tudo isso dá a medida de quanto o Programa Genoma tem contribuído para internacionalizar a nossa ciência e colocar o Brasil no ranking dos países que estão na ponta das pesquisas da Genômica.

No dia 26 de junho a imprensa e a mídia do mundo inteiro ocuparam-se em noticiar, com pompa e circunstância, o seqüenciamento "virtualmente completo" do código genético humano como resultado do Projeto do Genoma Humano, criado há mais de 10 anos, e da concorrência privada da empresa Celera Genomics, que utilizou uma outra metodologia de seqüenciamento para acelerar os trabalhos.

Ao consórcio público de instituições de pesquisas americanas e inglesas, juntou-se, depois de várias tratativas de bastidores, o empreendimento privado, para a divulgação do feito, evento estrelado pelo presidente Bill Clinton e secundado, à distância, na Inglaterra, pelo ministro Tony Blair.

A retórica que o presidente usou para comandar a cerimônia teve seu ponto alto numa tirada de efeito que lembra o triunfalismo confiante que, nos anos 70, quando se tornou realidade a manipulação genética, convivia com a prudência temerosa ou com o temor prudente dos próprios cientistas em relação à Caixa de Pandora que estavam destampando.

"Hoje aprendemos a frase com que Deus escreveu a vida", numa das versões que a nossa mídia divulgou; ou "Estamos aprendendo a linguagem com que Deus criou a vida", na versão divulgada pela imprensa.

Numa ou noutra forma, o fato é que o presidente dos Estados Unidos não hesita, ao anunciar o genoma humano, em propalar o endeusamento do homem. O curioso é que, em 1975, o melhor e mais completo registro, até então, das idas e vindas dos novos Prometeus foi feito pela revista Rolling Stone, publicação radical dos anos 60. Cobrindo a reunião internacional proposta por Paul Berg, bioquímico da Universidade de Stanford que está na origem e no desenvolvimento da Engenharia Genética, Michael Rogers fez um relato da conferência com as discussões sobre os riscos e a necessidade ou não de medidas acauteladoras no andamento das pesquisas – apontando, na conclusão, para a possibilidade da "criação de novos biótipos nunca antes vistos na natureza", monstros, portanto, chamados, mais familiarmente, quimeras ou plasmídeos quiméricos. "Brincando de Deus com o DNA", nome do artigo que Arthur Lubow publica, em 1976, no New Times, colabora para dar uma idéia de quanto a inteligência americana se debatia no conflito ético de expulsar ou não o homem novamente do Éden.

Agulha no palheiro

Os anos se passaram e, do ponto de vista científico, tanto o triunfalismo prometeico como o temor de Frankenstein foram sendo ocupados pela dura e disciplinada tarefa da ciência e das implicações do conhecimento.

Em 1985, o biólogo molecular Robert Sinsheimer, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, organizou, em Santa Cruz, o primeiro grupo de trabalho para tornar exeqüível aquilo que depois viria a se chamar Projeto Genoma.

De lá para cá, os cientistas, mesmo diante da possibilidade real de desvendamento de segredos da vida, tão sagrados quanto todas as mitologias que os cercam (como o da cura definitiva de doenças incuráveis, o da longevidade e mesmo o da imortalidade e o de todos os seus contrários) têm sido prudentes, sem serem timoratos, e ousados, sem serem temerários.

É um grande feito, sem dúvida alguma. Mas como diz Ricardo Brentani, presidente do Hospital do Câncer em São Paulo, o que o anúncio (do Genoma Humano, feito em 26/06/00) significa é "apenas que definimos o tamanho do palheiro no qual precisamos procurar a agulha".

O registro de todo movimento científico, político, cultural e social que resultou no Projeto do Genoma Humano vem sendo feito de maneira brilhante, desde as primeiras pesquisas com o DNA recombinativo, pelo jornalista, biólogo de formação, Nicholas Wade, que, ao longo de 20 anos, publicou na Science artigos cujo papel na divulgação e na discussão de todos os aspectos constitutivos do processo de pesquisa e de seus resultados tem sido fundamental para a compreensão e a participação da sociedade nesse processo inovador e fundador de uma nova era para as ciências da vida. Em 1977, Wade publica o livro A experiência final: evolução feita pelo homem, indispensável para o entendimento do que ocorria com a manipulação genética até então; e continua, hoje, a acompanhar, para outros órgãos da imprensa, os desdobramentos que a Genômica vem conhecendo atualmente.

Questões éticas

O Brasil não teve a oportunidade de brincar de Deus nos anos 70, a não ser no futebol, apesar dos demônios da ditadura militar. Entrou recentemente na área, de maneira sistemática e institucional, e mostrou, em menos de 5 anos, uma capacidade tal de organização e de produção científica que foi imediatamente alçado à condição de parceiro internacional competente para as intrincadas pesquisas da Genômica.

O alcance das pesquisas que hoje são financiadas pela FAPESP e por outras instituições de fomento, em parcerias nacionais e internacionais com o setor público e o setor privado, abre uma nova etapa para a ciência no Brasil. Não só pelos aspectos científicos, propriamente ditos, envolvidos, mas também pelos aspectos institucionais, de política científica e tecnológica – além, é claro, pelas questões éticas e sociais que essas ações de ponta, na fronteira do conhecimento, acarretam.

Revista Comciência e SBPC

O que a revista Comciência pretende, de um modo geral, é poder acompanhar, com a sociedade, as grandes aventuras do conhecimento e, de modo especial, neste primeiro número, a viagem da ciência em busca do Graal da vida, seus cavaleiros, suas lutas, seus sucessos, seus fracassos, seus desafios, suas certezas e fraquezas, enfim, sua humanidade, focando, nesses cenários de mitos, fantasias, expectativas e cruas realidades, o desempenho da ciência brasileira. A revista Comciência inaugura uma nova fase, na qual a parceria com a SBPC virá, sem dúvida, dar-lhe, com a maior ressonância, mais responsabilidade.

Criada por iniciativa do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (LABJOR), da Unicamp, para atender objetivos pedagógicos e de divulgação científica, a Comciência tem funcionado, ao mesmo tempo, como um laboratório dinâmico de experimentação para os alunos do curso e como um meio de comunicação eletrônica que foi transcendendo cada vez mais suas motivações didáticas iniciais.

É esta transcendência que permitiu à equipe responsável pela revista almejar um grau ainda maior de profissionalização, sem, contudo, perder de vista o seu caráter educacional e formador. O ensejo para isso deu-se com o interesse da diretoria da SBPC em criar em sua sede uma revista eletrônica de divulgação científica que viesse se agregar às demais publicações da entidade, sem fazer-lhes concorrência, e com o lançamento pela FAPESP do Programa José Reis de Incentivo ao Jornalismo Científico.

A experiência que vinha sendo desenvolvida pelo LABJOR, aliada aos objetivos de motivação e de mobilização da sociedade em prol da ciência e da tecnologia, mais a oportunidade de apoio através das bolsas que o programa da FAPESP viabiliza, além do apoio do CNPq através do PRONEX para o Núcleo de Excelência em Jornalismo Científico, de que faz parte o LABJOR, tudo isso permitiu a parceria que se inicia com a revista Comciência, nessa nova fase.

 

Algum exagero, muitos
acertos e uma dúvida

Roberto Mitsuo Takata
(*)

Em minha opinião houve, sim, exagero na cobertura do anúncio da proximidade da conclusão do seqüenciamento do genoma humano. Porém, creio que os acertos – grata surpresa – compensaram em boa medida os deslizes.

Antes, no entanto, vejamos algumas manchetes:

"Anunciado o mapa do ser humano" – O Estado de S. Paulo, 27/6/00 <www.estado.com.br/jornal/00/06/27/news163.html>.

"DNA humano é decifrado e abre nova fronteira na ciência" – O Globo (edição online, 27/6/00)

O futuro se abre para a humanidade – Jornal do Brasil, 27/6/00 <www.jb.com.br/pesqjb/junho/27/08960410.html>

O programa Fantástico, da Rede Globo, seguia o mesmo tom na sua edição do dia 25, véspera do anúncio oficial do feito – a chamada era algo como "o anúncio da descoberta do segredo da vida".

Mas qual foi afinal esse feito?

Sem prestar atenção imaginaríamos que os cientistas conheceriam tudo acerca do Universo (ou os aspectos realmente mais importantes sobre seu funcionamento), de modo que uma era de paz e prosperidade estaria aberta para toda a população mundial – ou uma porção significativa dela – (segundo a manchete do JB), ou que todo o DNA humano nos seus mais mínimos detalhes de estrutura e funcionamento, isto é, qual seria a "cara" do material genético do ser humano e como ela funcionaria (o que se depreenderia da manchete de O Globo) ou um pouco mais modestamente (na manchete do Estadão) que conheceríamos a localização de todos os nossos genes nos cromossomos – é o que um mapa genêmico completo representa (se se tratasse de um mapa parcial não caberia o artigo "o" antes de "mapa do ser humano").

O fato é realmente uma grande realização, mas a Ciência ainda não está com essa bola toda – o que foi anunciado é que 97% da seqüência do genoma humano já era conhecida (o valor varia de acordo com a fonte: alguns veículos falam em 90%), conforme descobririam os menos impacientes que acompanhassem as inserções no decorrer do programa ou lessem as matérias.

Afinal, 90% ou 97% parece ser uma proporção bastante grande, e é. Só não resulta num mapa completo.

Mas estou sendo, sim, rigoroso em demasia – um chato. Consideremos, porém, que mesmo com o complemento do seqüenciamento, ainda nos restará descobrir a função de cada gene – na verdade existe uma etapa anterior que é descobrir se um dado trecho pertence ou não a um gene funcional, mas não compliquemos muito – o seqüenciamento em si não decifra o DNA humano, é só uma parte – parte até importante, mas não a fundamental. Os prognósticos para a duração dessa fase de estudos das funções de porções do DNA variam de alguns anos até décadas.

A descoberta da função de cada gene, no entanto, não nos dá por si só um quadro para o entendimento dos processos da vida – de desvendar o seu segredo. Para isso, seria preciso entender totalmente (ou em boa medida) as relações dos genes entre si e com o ambiente – e não apenas em um organismo, porém em todos, e não apenas em nível de organismos individuais, porém das relações deles entre si e assim por diante. Eventualmente seria necessário entender como se originaram os sistemas vivos. A biologia ainda está bastante longe disso.

Celera, uma incógnita

"O" futuro é essencialmente desconhecido – especialmente se falarmos em longo prazo – a despeito do conjunto de conhecimentos de toda a ciência. O futuro da humanidade vai depender das escolhas que fizermos diante dos desafios que se nos apresentam e dos que virão. O eventual conhecimento completo do funcionamento e da interação de nossos genes pode nos auxiliar em alguns aspectos dessa tarefa, mas nem de longe será capaz de nos fornecer as chaves para a maior parte desses desafios. A despeito dos chavões "brincando de Deus", "linguagem de Deus" e correlatos, o feito é – em comparação a isso – muito, mas muito mais limitado em alcance: imediato e em um futuro discenível.

A euforia é uma reação natural quando se alcança a realização de um feito notável como é o seqüenciamento de nosso próprio genoma. Mas (parece sempre haver um "mas") é preciso não se desprender do chão – é preciso ter em mente que embora uma etapa tenha chegado ao fim (ou próximo disso), há agora outra – esta sim mais diretamente ligada às maravilhas potenciais vislumbradas. Falando um português mais claro, houve sensacionalismo – e isso foi ruim, até porque acabou desviando a atenção dos acertos dos meios de comunicação nessa história.

Falemos, pois, dos acertos (ou, antes, do que eu considero como acertado).

À parte os exageros nas chamadas e manchetes, houve uma adequação de foco no corpo do texto – as informações básicas pertinentes ao feito em si estavam presentes. Algumas considerações sobre as potencialidades de benefícios e prejuízos do conhecimento também foram bem apresentadas – fomentando a inevitável discussão sobre o uso dos conhecimentos que deverão se originar a partir daí. Se de um lado faltaram ainda as informações nas quais se basearam os eventuais juízos feitos sobre o tema, pelo menos os tópicos (alguns deles) foram postos: patentes sobre os genes e produtos advindos de seu conhecimento, direito à privacidade genética, a tentação da eugenia, entre outros.

Mas tenho ainda uma pequena dúvida: foi apenas um "surto" de generosidade da Celera, a organização privada concorrente do Projeto Genoma Humano no seqüenciamento, que permitiu o acordo da reunião final de esforços para a divulgação conjunta da proximidade da finalização da empreitada, ou há algum termo que não foi divulgado de interesse da empresa? Bem, seria uma acusação gratuita se tivesse a intenção de lançar dúvidas sobre a idoneidade de qualquer uma das entidades envolvidas – na verdade, é apenas uma curiosidade pessoal, já que aparentemente o anúncio foi prejudicial financeiramente à Celera – cujas ações desvalorizaram após a divulgação.

(*) Mestrando em Biologia no Instituto de Biociências da USP

 

Aplausos para quê?

Beatriz Singer

Após o anúncio do primeiro rascunho do seqüenciamento do genoma humano, pulularam na mídia imagens e interpretações que variavam do rigor científico ao senso comum, passando pelas mais estapafúrdias mistificações. Não houve veículo que não tenha mencionado a importância do feito científico, comparando-o à chegada do homem à Lua.

Quando o homem chegou à Lua, em 1969, não era preciso explicação da importância do evento. Todos acompanharam ao vivo os passos de Neil Armstrong em solo lunar. A TV, à época já não tão nova, nunca foi tão necessária. Assistir ao vivo ao primeiro passo do homem no nosso satélite foi sorte de poucos. Apenas as classes alta e média tinham aparelho de TV em casa. Muitas bocas se abriram, muitos queixos caíram e, no dia seguinte, noticiários e jornais não precisaram traçar paralelos. O feito era grande e todos sabiam.

Hoje, a situação mudou em praticamente todos os aspectos. A TV já é um bem de consumo "indispensável" em todas as classes e qualquer grande acontecimento pode ser acompanhado de casa. É natural, portanto, que se esperasse uma bestificação geral ao ser anunciado o seqüenciamento completo dos genes humanos. Mas não foi que ocorreu. Capas de todos os jornais gritaram a vitória. Noticiários entrecortados por sorrisos incontidos dos âncoras basearam suas chamadas no importante anúncio. E todos seguiram, inabaláveis, com suas respectivas rotinas, sem entender exatamente o que celebrar.

O jornalismo deparou-se com imensa dificuldade de divulgar a decodificação do genoma. Não tanto por tratar-se de um assunto menos compreensível que a chegada do homem à Lua, mas por desprezar a necessidade de acompanhar e divulgar cada passo de um evento que, todos sabiam, se revelaria como um dos grandes feitos humanos. O resultado não poderia ser outro: o mesmo povo que, sem TV, acompanhou a chegada do homem à Lua, agora, com TV, não faz idéia do porquê de tanta festa por algo sobre o que nada entende.

As justificativas para a ignorância são muitas. Em primeiro lugar, estamos entupidos de informações. A carga que nos chega todos os dias é tão pesada que se tornou mérito de poucos discernir a notícia importante da supérflua. Segundo, trata-se de um assunto "abstrato", cujos resultados ainda não podem ser visíveis e cuja compreensão requer prévio conhecimento de genética. Em terceiro lugar, mas não menos importante, observou-se a insistência da mídia em divulgar notícias sobre o projeto na amuada seção que lhe cabe, "Ciência" – sempre modelada e recortada de acordo com o espaço destinado à publicidade...

Aliás, comparativamente, poucas vezes um assunto científico foi capa nos jornais. É claro que todos se assustariam com um complô de manchetes e matérias repentinamente alardeando "Fique feliz! Os genes humanos foram decodificados!", sem entender o bem que a descoberta trará a longo prazo.

Vale lembrar que, no dia seguinte à estrondosa publicação, jornais respeitáveis e com pretensões nacionais pareceram ter pulado o dia anterior. Gisele Bünchen apareceu mais bela que nunca na capa dos dois grandes jornais paulistas. Nem uma chamadinha para a suíte do assunto principal do dia anterior. O leitor esperto que correu para o caderno de ciência a fim de obter novas informações sobre o genoma, aliviado, encontrou. Naquele formato indescritível, labiríntico e desenhado pelos anúncios, mas encontrou. A obrigação dos jornais, no entanto, não é basear-se no leitor esperto, mas no de memória fraca. La Bünchen é realmente bela, mas não curará doença alguma.

A Veja que saiu no dia 1/7 também não facilitou. A reportagem de capa trata da cassação e da prisão de Luis Estevão. Assunto importante, claro. No entanto, abre-se a revista no índice e está lá, reluzindo na seção "Ciência", a manchete "Os benefícios ainda demoram". Uma ligeira banalização, quem sabe? Ou a equipe de Veja não está entre os leitores privilegiados que sabem discernir informações importantes de supérfluas? Talvez, ainda, seja o "complexo de semanário", o medo de perder as últimas notícias e de atribuir valor demasiado às que, aparentemente, serão ultrapassadas em poucos dias. Pelo jeito, foi o caso do Projeto Genoma.

A hipótese não se aplica à Época. Sem complexos, exibiu, na mesma data, uma capa provocante aos cientistas. Insolente, fez questão de chamar atenção a um aspecto da ciência não em tão berrante evidência – a acupuntura –, deixando apenas uma chamada na capa ao anúncio do rascunho do seqüenciamento do DNA humano.

O americano residente em São Paulo Neal Greenberg, programador de computadores, confessa que a comoção de ver o homem pisando na Lua não se compara com a atual festa da genética. "O 'primeiro passo' foi claramente compreensível a todos, mas não entendo bem no que será útil decifrar o código genético do homem", afirma. De sua parte, Lígia Regina da Silva, empregada doméstica de um apartamento em bairro nobre de São Paulo, não sabe o que é genoma. "Por que isso é tão importante?", perguntou. Ela diz não ter podido ler jornal nem assistir ao noticiário nos últimos dias e, portanto, não tem conhecimento de "nada que diga respeito a…Como chama mesmo? Genômico?"

A falha deve-se à franzina cobertura jornalística de fenômenos e descobertas científicos. Em cerca de 10 anos, quando doenças como o câncer poderão não mais assustar médicos, o trabalho que foi primeira página nos jornais na quinta-feira, 27 de junho, mal será lembrado. As pessoas se esquecerão de que, para aplaudir os avanços na medicina, seria preciso, primeiro, comemorar o seqüenciamento do genoma, base para qualquer evolução no combate a doenças genéticas.

 

ASPAS
Alberto Dines

"Mistérios: DNA, Fátima e Phillip Morris", copyright Jornal do Brasil, 1Ί/7/00

"Entramos na Era Genômica. E o anúncio da façanha, logo comparado às revelações de Galileu, foi feito dentro dos padrões mediáticos do século 21. Bill Clinton e Tony Blair, filhos diletos dos novos tempos, esmeraram-se na retórica: 'Estamos aprendendo a linguagem com que Deus criou a vida', disse o presidente americano, anfitrião do evento mundial.

Ao ouvir isso, Deus sorriu e desligou sua TV.

O primeiro dia da Era Genômica começou dentro dos padrões da Era Mediática (ou da Informação), que mapeamos há pelo menos uma década. Marca desta nova trepidação é a insistência na sensação de História Imediata. Sob a égide do Nescafé – paradigma da instantaneidade – cada dia converte-se em marco sensacional, recorde na interminável competição em busca de coisa nenhuma, olimpíada do desperdício e malversação.

A periodização, que antes começava retrospectivamente, hoje é prospectiva: 'vamos entrar no Ano I da era tal e tal'. Isso tanto vale para o anúncio da Banda C como do novo viés dos juros. Entramos e saímos desses portais de confete, engendrados por uma compulsão marqueteira que algum Mefistófeles enfiou em nossas mentes, com a mesma solenidade com que entramos e saímos dos outros, virtuais, da rede mundial de computadores. Na verdade somos modelos de uma fabulosa campanha de anúncios que proclamam o início da Eterna Felicidade.

Quando Colombo arribou nestas bandas pensava que chegara à Índia. Estava tão envolvido com tabelas de declinação solar, motins e miúdos sonhos de riqueza que não percebeu a dimensão do que fizera. O tamanho exato do seu feito foi aquilatado, mais de uma década depois, por Américo Vespúcio. O esperto florentino possuía conhecimentos rudimentares de navegação e astronomia mas era dotado de um extraordinário faro para dimensionar e promover. O seu Mundo Novo seria a primeira percepção sintetizada e engalanada de um novo momento da humanidade. Claro, depois do autor do Livro do Gênesis que numa simbólica e frenética semana mapeou (o verbo é formidável) o processo de evolução cósmica e vital que levou bilhões de anos para consumar-se.

Quem melhor situou o feito genômico ou genético anunciado no grande Pátio dos Milagres da Informação Científica foi o presidente do Hospital do Câncer de São Paulo, Ricardo Brentani: 'Isso significa que definimos o tamanho do palheiro, falta achar a agulha'. Andrew Simpson, diretor do Projeto Genoma brasileiro, completou: 'Para identificar todos os genes contidos nesse material levaremos pelo menos cinco anos. E mais um século para conhecer as funções de cada gene e a estrutura codificada de cada proteína.' A imortalidade imediata fica adiada para o século 22. Antes assim: esta não é ainda a humanidade que mereça ser eternizada.

Por mero acaso, talvez numa jogada planejada para contrapor-se ao cientificismo materialista ou ainda por artes da mesma compulsão promocional, o Vaticano anunciou no mesmo dia a íntegra do terceiro segredo de Fátima. O cardeal Joseph Ratzinger, pela origem germânica ou por ser mais escaldado em matéria de milagres, foi mais discreto do que os estadistas-âncoras do espetáculo científico. Amparado na experiência de 2 mil anos de certezas e infalibilidade, o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé advertiu aqueles que esperavam revelações apocalípticas e exaltantes sobre o fim do mundo ou da história – ficarão decepcionados. A íntegra do texto escrito em 1944 pela freira Lúcia dos Santos, a única sobrevivente dos três pastores portugueses, em matéria de profecias é vaga, imprecisa e contraditória (se comparada com o acontecido). Mas é uma ingênua e intensa manifestação de crença, convicção na espiritualidade.

Enquanto o presidente Clinton descia do Sinai com um discurso bíblico e apoteótico, o cardeal Ratzinger descia os degraus do templo para pronunciar-se de forma humilde e precisa: as aparições de Fátima 'não são um filme sobre o futuro incapaz de ser alterado pelo homem'. Ao contrário, provam que tudo é possível, desde que haja fé. As três visões completam um quadro de mudança e esperança.

O site do Vaticano ficou congestionado, tantos foram os acessos na romaria espiritual para conhecer o último mistério de Fátima. Nossos jornais não chegaram a esgotar apesar de manchetes taxativas sobre o DNA e a cura do câncer. Dia seguinte, a inexorável gangorra das novidades despachou os genomas e os segredos da vida para o anonimato graças à votação em torno da cassação do mandato do senador Luís Estevão.

Mistérios esclarecidos, não mereceu santificação de primeira página a outra parcela da tríade noticiosa da Segunda-Feira do Conhecimento Total: a Phillip Morris, uma das maiores tabaqueiras do mundo, ao comprar a Nabisco, de alimentos, foi considerada a empresa mais rentável do mercado mundial.

Johann Sebastian Bach faria outra magnífica cantata com estes dois temas em contraponto: o homem racional tenta equiparar-se ao Senhor - mas não conseguiu largar completamente o vício do cigarro.

Deo Gratias."

 

Alcino Leite Neto

"Jeremy Rifkin teme 'guerra' pelo DNA", copyright Folha de S.Paulo, 2/7/00

"Depois do mapeamento do genoma humano, o homem está numa encruzilhada histórica, na opinião do economista norte-americano Jeremy Rifkin. Ele é autor de 'O Século da Biotecnologia' (Makron Books), uma das obras mais controversas sobre as pesquisas genéticas.

O dilema, segundo ele, é saber se vamos dirigir nossas forças para a construção de uma Renascença biotecnológica, baseada na democratização e universalização da genética, ou se vamos entrar numa guerra pelos genes, provocada pelo hipercapitalismo na sua ânsia de privatização bioindustrial do material genético.

Rifkin, 51, é um pesquisador conhecido por seus cenários apocalípticos. Em 'O Fim dos Empregos' (1996), calcula que a informatização gerará desemprego em massa em menos de 50 anos. É também renomado por seu visionarismo. Na entrevista a seguir, feita por telefone, ele sugere que o genoma humano seja administrado como a Antártida -por um conjunto de nações.

No seu livro 'O Século da Biotecnologia', o sr. diz que estamos assistindo ao surgimento de uma nova eugenia. Ela viria não na forma de uma conspiração sinistra, mas sim como se fosse um benefício. O que fez a humanidade mudar de idéia tão rapidamente, menos de 60 anos depois de Hitler?

Jeremy Rifkin – A eugenia tradicional era social. Quando pensamos nela, imaginamos nazistas e o assassinato de milhões de judeus e minorias. A nova eugenia é comercial. É dirigida ao mercado e é amigável. Vem de pessoas que dizem para os pais de família: 'Vocês não querem ter um bebê saudável?'. Mas as suas consequências podem ser tão ou mais nefastas que as das eugenias sociais do anos 30, ainda que as intenções não sejam as mesmas.

O mapeamento do genoma humano nos deixa mais próximos dessa eugenia amigável?

Rifkin – Sim. Agora que têm o mapa, companhias e cientistas vão tentar localizar cada gene. Depois, vão reivindicar patentes de invenções sobre eles. Isso levará, em poucos anos, à seguinte situação: um punhado de corporações globais terá a posse de todo o esquema genético da raça humana, com um poder comercial sem precedentes. Isolados os genes, estaremos aptos a traçar perfis genéticos de cada pessoa. A longo prazo, será uma atitude mais perigosa do que as discriminações por gênero, raça ou religião, porque empresas, companhias de seguros, agências governamentais e escolas vão cada vez mais adquirir o hábito de consultar o perfil genético para seus propósitos. Uma empresa pode querer saber se você tem predisposição para o câncer ou o alcoolismo antes de lhe contratar. Por fim, quando os pais começarem a se tornar arquitetos de seus filhos, e estes virarem produtos de engenharia, o mais provável é que nos tornemos menos tolerantes com crianças que por razões financeiras ou de principíos não tenham sido redesenhadas e apresentem problemas.

O sr. acha que as patentes de genes deveriam ser proibidas?

Rifkin – Sugiro que todos os genes humanos e das demais criaturas sejam mantidos como bem comum da humanidade e sejam administrados conjuntamente por todas as nações, em benefício das gerações futuras. O modo como administramos a Antártida é um bom modelo. Não vejo problema na patente de processos e técnicas para isolar genes. E apenas com esse tipo de patentes as empresas já conseguirão ganhar dinheiro e ser competitivas. Mas um gene não deve pertencer a uma empresa, ou ao Brasil, à Argentina ou aos Estados Unidos -mas à Terra. O gene não é uma invenção, é uma descoberta da natureza. Este é um grande e delicado momento da humanidade. Nossa geração será responsável por ele. Se ela disser: nós vamos nos responsabilizar coletivamente pelos genes, em nome das futuras gerações de homens, plantas e animais, ela estará fundando uma Renascença biológica.

E se ocorrer o oposto, o sr. acredita que teremos uma guerra pela conquista dos genes?

Rifkin – Com certeza. O gene será uma riqueza do século 21, como os metais foram no século 17 e o petróleo no século 20. Nós vamos lutar pelos genes se eles se tornarem propriedade política dos governos ou privada das empresas. Eu sei que esse é um assunto bastante delicado no Brasil, que tem a maior diversidade genética do mundo. Mas seu país se tornaria um líder mundial na questão, se ele decidisse dizer às nações: nós queremos dividir esse legado."

 

Moacyr Scliar

"A nova face da genética", copyright Folha de S.Paulo, 2/7/00

"Através da hereditariedade, seres vivos transmitem a seus descendentes característicos como a forma do corpo, a cor do pêlo, a habilidade de subir em árvores. Os seres humanos vão além; os característicos que transmitem podem significar poder e fortuna, ou, ao contrário, marginalidade e desgraça, como os negros comprovaram. Nessa conjuntura, o estudo da genética sempre foi marcado por conotações e injunções. Saber como se transmitiam os caracteres era um aspecto do problema; saber o que significava tal transmissão, por que ocorria e quais as suas consequências era outro, e não menos importante, aspecto.

Exemplo disso eram as idéias de Malthus, resumidas na expressão famosa: abandonada a si própria (e às suas paixões), a população crescerá em proporção geométrica, enquanto os meios de subsistência aumentarão em proporção apenas aritmética. O que sugere a existência de um componente irracional, quando não francamente perverso, embutido na condição humana, componente este que só pode ser corrigido por déspotas esclarecidos. A essa concepção, Darwin acrescentou a idéia da evolução: os seres competem entre si pelo alimento e os mais aptos transmitirão à progênie os seus característicos.

Aceita a teoria evolucionista (não por todos: até hoje não pode ser ensinada em muitas escolas dos Estados Unidos) há, dentro dela, uma outra e importante controvérsia. Qual a influência do ambiente sobre os caracteres transmitidos? Podem as transformações adquiridas passar de uma geração a outra, como sustentava Lamarck no começo do século 19? A girafa tem o pescoço comprido porque foi espichando-o para alcançar as folhas das árvores -ou uma girafa nascida casualmente com pescoço comprido revelou-se mais apta na coleta do alimento, sobreviveu e gerou descendentes com o mesmo característico? O que predomina, 'nature' (a constituição natural) ou 'nurture' (nutrição, isto é, aquilo fornecido pelo meio -natural, econômico, social)? A biologia é ou não destino?

Com o triunfo da Revolução Russa, mas, sobretudo, com o stalinismo, essa polêmica tornou-se ideológica. Se os caracteres adquiridos se transmitem, então a 'humildade' dos obreiros pode ser transformada em 'superioridade' revolucionária. O regime logo arranjou um cientista encarregado de demonstrar essa tese: o maquiavélico Trofim Lysenko, um mestre na arte da sobrevivência, mas não muito bom em biologia: logo a agricultura soviética estava pagando um pesado preço por seus erros.

A direita não ficou atrás, pelo contrário. Apoiando-se no conceito de eugenia -definida por seu fundador, Francis Galton (1822-1911), como o estudo dos fatores 'capazes de melhorar ou prejudicar as características raciais, físicas ou mentais de futuras gerações'), preconizava uma intervenção social destinada a selecionar espécimes humanas superiores. Os resultados ficaram evidentes nos campos de concentração da Alemanha nazista, mas antes disso tais idéias se difundiram amplamente; no Brasil, eram apregoadas pela Liga Brasileira de Higiene Mental, fundada em 1923 por Gustavo Riedel.

Com isto, a genética adquiriu má reputação. Mas era ciência, sim, e ciência o foi desde o tempo em que Mendel realizava suas experiências com ervilhas. A descoberta do DNA foi um passo gigantesco, e logo a manipulação genética passou a tornar-se uma possibilidade muito real. O sequenciamento do genoma humano era uma etapa fundamental neste processo; agora foi atingida. Ao mesmo tempo, contudo, aspectos intrigantes -quando não francamente inquietantes- começam a surgir neste novo e enigmático cenário. Estão personificados em Craig Venter, presidente da Celera Genomics e figura importante no processo do sequenciamento. Venter, que evidentemente se considera uma espécie de herói enfrentando o estabelecimento burocrático da ciência, tem idéias bem definidas acerca do que deve ser feito com o genoma. Genes, diz ele, devem ser patenteados. Isto é o primeiro passo para 'personalizar' a medicina. E dá um exemplo: 'A maioria dos medicamentos faz efeito em apenas parte da população; muitas drogas podem ter consequências graves. O código genético permite prever se o medicamento vai curar ou matar'. Venter está disposto a vender esta informação.

'Personalizar', ao fim e ao cabo, significa cobrar mais caro. A nova face da genética, portanto, não sorri para todos. Pode não ser uma cara feia, como aquela da época do stalinismo ou do nazismo, mas é, pelo menos, uma cara muito pouco simpática. [Moacyr Scliar é médico de saúde pública e escritor, autor de 'A Paixão Transformada: História da Medicina na Literatura' (Companhia das Letras)]."

 

ENERGIA ELÉTRICA
A crise omitida

Roberto Belisário
(*)

Com todo o seu potencial hidrelétrico, o Brasil terá que racionar energia elétrica no ano que vem, e já importa eletricidade da Argentina desde 1Ί de junho, sob contrato de 20 anos. A situação é grave. Provavelmente nunca houve, em nossa história registrada, menção a perigo de racionamento semelhante em nível nacional (já houve de forma localizada); e tampouco chegamos em qualquer época a importar energia durante tanto tempo. Várias matérias sobre o assunto apareceram nos grandes jornais brasileiros na primeira semana de junho, catalisadas pela notícia do início da importação de eletricidade argentina. Na maior parte dos depoimentos de autoridades, observa-se um viés de "desinformação cautelosa", que não foi corrigido satisfatoriamente pelos textos da imprensa, mesmo depois que documentos das instituições envolvidas tornaram transparente a gravidade da crise. A Folha de S.Paulo, faça-se justiça, foi a grande exceção, pois percebeu e informou sobre a real situação a tempo, apesar de alguns exageros.

Uma dessas instituições, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), publicou em abril seu "Planejamento Anual da Operação Energética para o ano 2000", que contém previsões para o desempenho do setor elétrico nacional entre 2000 e 2004. O ONS é uma entidade privada responsável pela coordenação dos sistemas elétricos brasileiros. O relatório de planejamento pode ser obtido no site da instituição <www.ons.org.br>. Na pág. 22 há previsões sobre riscos de déficit no fornecimento de energia elétrica, isto é, a probabilidade de a oferta de energia ser menor do que a necessidade de consumo. Um déficit menor do que 5% é considerado administrável, não implicando necessariamente racionamento. Mas a chance de ocorrer um déficit maior do que esse pode ser considerada igual à chance de haver racionamento.

Essas probabilidades foram calculadas por extrapolações feitas a partir de dados estatísticos referentes ao período 1931-1996. Segundo esse estudo, para o ano 2001 a chance de ocorrer um déficit maior do que 5% na Região Sudeste/Centro-Oeste é de 17,9%. Para a Região Nordeste, é de 14,6%. A Região Sul está um pouco melhor, com risco de 7,7%, e a Região Norte, com seus 4%, está no limiar da garantia de suprimento.

Hora marcada

Uma probabilidade de racionamento de 17,9% pode dar a ilusão de que temos 82,1% de chance de escaparmos ilesos. Mas seu significado é que, por exemplo, de cada 100 vezes que formos ligar o chuveiro, teoricamente não poderíamos fazê-lo em cerca de 18, por falta de energia. Na verdade, isso é uma forma grosseira de argumentar, pois as coisas podem ser administradas de forma a redistribuir o consumo de energia ao longo do dia e entre as diversas aplicações; de modo que, se tudo der certo, teremos que tomar banhos um pouco menores e em horários determinados, sem correr tanto risco de ficar um dia inteiro imundos. Nem tampouco implica necessariamente cortes totais periódicos de energia, e sim a existência de períodos de baixa potência no fornecimento (o que, entretanto, pode inviabilizar o uso de alguns aparelhos nesses períodos).

O racionamento cai preferencialmente sobre os setores residencial e comercial, já que o setor industrial é o grande responsável pelo crescimento do PIB do país.

Esse racionamento é diferente das medidas de redução do consumo anunciadas pelo governo federal para outubro, noticiadas pela Folha de S.Paulo (7/6/00), ou das noticiadas na primeira página do mesmo jornal em 31/6 (onde se lê: "Grandes indústrias passaram a racionar energia elétrica, atendendo a pedido da ONS"). Essas medidas pretendem reduzir o consumo nos chamados "horários de pico" (entre 18h e 18h15), desencorajando a sociedade a consumir eletricidade nesses horários. Ao contrário do que afirmou a Folha, não se trata de um racionamento propriamente dito, porque não implica necessariamente a diminuição do consumo diário total de eletricidade, e sim a melhor distribuição do consumo ao longo do dia. O horário de pico é aquele no qual a maior parte das pessoas resolve ligar seus chuveiros e outros aparelhos eletrodomésticos. Bastaria tomar banho ou passar roupa em outro horário que não logo após as 18h.

Já a ameaça para o ano que vem é de redução real no consumo, implicando diminuição da atividade industrial (com todas as conseqüências para a economia nacional), aumento das taxas de energia elétrica (a escassez moverá as engrenagens da lei da oferta e da procura) e alteração substancial da vida dos brasileiros. Trata-se, portanto, de situação muito grave.

O jornal O Estado de S.Paulo (2/6/00) citou, como causas da falta de energia, o período de escassez de chuvas no Sudeste brasileiro e o crescimento industrial do país, que aumenta a demanda de energia. Já o depoimento do professor Luiz Pinguelli Rosa, vice-diretor do Programa de Planejamento Energético da Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia (Coppe), afirmou ao Jornal do Brasil (1/6/00) que "o programa de privatização é o principal responsável pela situação que o país está vivendo neste setor".

Disfarce compactuado

Mas as causas do racionamento são mais profundas. O próprio relatório de planejamento da ONS (pág. 6) diz que o desequilíbrio é "função de sucessivos atrasos de obras [,] decorrentes de restrições financeiras do setor público para aporte de recursos ao setor elétrico para obras de expansão". A seca veio apenas precipitar um problema que se manifestaria mais cedo ou mais tarde, caso esses "sucessivos atrasos" se mantivessem. Além disso, a iniciativa privada só investe naquilo que dá lucro garantido, e a situação do sistema elétrico nacional não é nada atrativa para as empresas.

Com exceção do professor Pinguelli, que afirmou que "o racionamento será inevitável" (Jornal do Brasil, 1/6/00), o conjunto de todos os outros depoimentos colhidos pelas matérias sobre o assunto dos dias 1Ί e 2 de junho, no Estado de S.Paulo e no Jornal do Brasil, parece revelar uma estratégia de disfarce por parte das autoridades. O ministro das Minas e Energia, Rodolpho Tourinho, "tem descartado a hipótese de racionamento" (O Estado de S.Paulo, 2/6/00); ao Jornal do Brasil (1/6/00) disse que "tomamos todas as providências para que em 2000, 2001 e 2002 não tenhamos motivos de problemas"; o secretário de Energia do ministério, Benedito Carraro, disse que "estaremos preparados para o pleno fornecimento de energia elétrica" (Jornal do Brasil).

O presidente do ONS, Mário Santos, citou estatísticas sobre as chuvas, e previu que os reservatórios das usinas hidrelétricas "poderão entrar na seca de 2001 com 80% ou mais de sua capacidade". Já a Folha (7/6/00) informa que, se não chover em novembro, o nível médio dos reservatórios poderá ficar na faixa dos 15% da capacidade. Os dois números são provavelmente reais, mas referem-se a situações e hipóteses distintas, e foram usados com duas intenções implícitas bem diferentes. Enquanto isso, o Jornal do Brasil informou que "algumas fontes do governo" admitem a redução do fornecimento de energia elétrica nos próximos meses – mas essas fontes evitam fazer declarações públicas.

Somente a Folha de S.Paulo informou melhor sobre a gravidade da situação, em reportagens de 31/5, 1/6, 2/6 e 7/6, com as ressalvas mencionadas acima. Os depoimentos evasivos das autoridades não eximem os jornais da responsabilidade pela omissão, posto que, no relatório de planejamento da ONS, a crise iminente torna-se evidente.

O jornal O Estado deS. Paulo escreveu sobre um estudo da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), que cobriu o mesmo período 2000-2004, e chegou também a conclusões desanimadoras. Mas trata-se de uma das poucas referências à real gravidade, entre a miríade de depoimentos disfarçados.

(*) Físico

 

ACERVOS LINGÜÍSTICOS
Para compreender as línguas indígenas

Ceci Maria Aparecida Honório (*)

Desde as primeiras publicações sobre o tupinambá ou tupi antigo, entre as quais destacamos a Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil – obra do Padre Anchieta datada de 1595 –, outros estudos descritivos foram sendo produzidos, sustentando sobretudo os trabalhos de tradução da literatura religiosa nesta e em outras línguas indígenas. Os relatos de missionários e viajantes da época passam a constituir, por outro lado, material de base para a elaboração de dicionários bilingües (português/línguas indígenas) e para a construção de uma historiografia brasileira. Destes estudos decorrem outros subseqüentes, compondo um vasto conjunto de documentação sobre as línguas do Brasil, hoje diluído em alguns arquivos públicos ou incorporado a acervos, na forma de "coleções".

Vamos nos centrar aqui no modo de organização de dois arquivos que, ao lado de outros não menos importantes, estão representados como centros de referência para pesquisas em línguas indígenas. Trata-se do antigo acervo de Plínio Ayrosa, atualmente incorporado ao acervo do MAE (Museu de Arqueologia e Etnologia da USP), e da Coleção Línguas Indígenas do Brasil, que hoje integra o Cedae (Centro de Documentação Cultural Alexandre Eulálio), no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp.

Queremos mostrar que o arquivo tem uma direção: o gesto de organização de arquivo, ao incorporar um documento, rejeitar outros, exerce um determinado controle da memória social, projeta leitores possíveis nos acontecimentos de linguagem. Assim, tais arquivos tornam ou não visíveis certos saberes acerca, neste caso, das línguas do Brasil. O acesso a este tipo de conhecimento não se dá, pois, pelo mero fato de o arquivo ter uma existência real. E sim pelo processo histórico de sua constituição, modo de constituição de saberes. Deste ponto de vista, o arquivo é, ao mesmo tempo, lugar de constituição e de institucionalização destes saberes. Lugar de regulação do conhecimento, que, portanto, não é neutro.

Plínio Ayrosa: pesquisa e divulgação

Em 1934, introduzindo a cadeira de Etnografia e Línguas Tupi-Guarani na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, Plínio Ayrosa passou a se dedicar aos estudos do tupi, vindo a fundar o Museu de Etnografia que levou seu nome. Neste arquivo estão organizadas documentações coordenadas, prefaciadas, comentadas ou traduzidas por Ayrosa, referentes aos trabalhos lingüísticos de missionários e viajantes: relatos, vocabulários, dicionários bilingües (português-tupi), literatura religiosa (orações, catecismos, diálogos, poemas etc). De sua autoria são também os estudos dos designativos de origem tupi-guarani empregados na língua portuguesa do Brasil, encontrados nos relatos de missionários, viajantes, na literatura alencariana, na perspectiva geográfica (toponímias) e etimológica.

Ao organizar um certo saber sobre o tupi, o arquivo cria condições para uma maior visibilidade dessa língua no país, pela veiculação deste conhecimento na imprensa. Grande parte desta produção foi publicada, principalmente no Arquivo Municipal de São Paulo e no jornal O Estado de S.Paulo. Já em 1933 o autor havia publicado suas "Primeiras noções de tupi" no Diário Oficial do Estado de São Paulo.

Este modo de circulação de saberes, que apresenta a língua tupi como "a língua indígena", produz um certo controle da memória social acerca das outras línguas faladas no Brasil Colonial, ao mesmo tempo em que contribui na construção de um imaginário de língua indígena. É importante lembrar que a língua representada neste arquivo corresponde ao tupi gramatizado, ou seja, aquele que resultou da sistematização das línguas da família tupi. Desse trabalho de gramatização feito pelos jesuítas, resulta também outras obras escritas em Tupi: poesias, teatro, compondo a literatura religiosa. A formação deste corpo lingüístico assim organizado produz um estatuto diferenciado a esta língua relativamente as outras línguas indígenas faladas no país: o tupi antigo passa a funcionar como língua de transição entre culturas. Torna-se, ao lado do latim, língua de catequese, lugar de possibilidade da expansão da doutrina católica e do projeto colonialista.

Coleção de línguas

Passemos agora ao arquivo organizado pelo professor Aryon Dall'Igna Rodrigues, em um trabalho mais recente. O arquivo, que compõe a intitulada "Coleção Línguas Indígenas do Brasil", foi criado em 1973, no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, por iniciativa do professor. Nele constam, quase que exclusivamente, documentos produzidos por missionários do SIL (Summer Institute of Linguistic). Tendo iniciado seus trabalhos no país na década de 50, auge da lingüística sincrônica, o Summer produziu um volumoso material descritivo sobre as línguas indígenas, relativamente a outros estudos de lingüistas brasileiros. A serviço das Novas Tribos do Brasil (igrejas fundamentalistas americanas), no que concerne à tradução do novo testamento em línguas indígenas, para evangelização dos povos que as falam, divulgou seu Arquivo Lingüístico, com sede própria em Porto Velho (RO), com algumas instituições (científicas ou não), sendo acolhido também em centros de documentação, tais como o da Funai e o do Museu Nacional, duas grandes referências sobre o assunto, só para se ter uma idéia.

Os documentos pertencentes a esse arquivo se dividem em estudos sincrônicos, vocabulários, dicionários bilingües, textos indígenas, vocabulário padrão para estudos comparativos nas línguas indígenas brasileiras. Há também os textos indígenas que incluem temas do cotidiano, lendas, sendo muitos destes textos com tradução bilingüe não só na língua indígena/português como também em língua indígena/inglês. Levando-se em consideração a presença de muitos missionários-lingüistas em área indígena já há mais de 40 anos, chama-nos a atenção o fato de que grande parte do material lingüístico que compõe o arquivo se apresenta em versões incompletas e rascunhadas. É relevante ainda notar que o trabalho de tradução do Novo Testamento, embora bastante representativo em termos quantitativos, não consta da Coleção do Cedae – à exceção da documentação referente à língua catalogada como Mawé (Sateré), em que se encontram os textos Questions on God e Sateré biblie terms, em inglês e sem data. Segundo dados da Associação das Missões Transculturais Brasileiras (AMTB, 1999), já foram traduzidas ou estão em processo de tradução para as línguas indígenas cerca de cinqüenta bíblias, o que significa que mais de um quarto das populações indígenas brasileiras já têm o Novo Testamento na sua língua.

O procedimento que exclui este tipo de texto religioso por aporte do SIL, ao mesmo tempo em que controla a cientificidade do arquivo, restringe o acesso aos processos históricos que determinaram sua constituição. Esse procedimento se faz tanto explicitamente, negando-se ao texto a sua inclusão no acervo, quanto implicitamente, pelo modo de categorização deste arquivo – intitulado Línguas Indígenas do Brasil – que não refere o SIL no processo de sua nomeação. Este gesto de leitura acoberta o discurso religioso pela transparência do discurso científico. Além disso, a incorporação de alguns poucos textos/artigos relativos a estudos de pesquisadores brasileiros, dos quais destacamos o do próprio professor Aryon Rodrigues, e de um missionário salesiano, o padre Casimiro Beksta, parece favorecer a legitimação deste arquivo como um outro, que não corresponde ao arquivo do SIL. Rejeitar alguns, incorporar outros. Gesto de leitura que implica responsabilidade.

Institucionalização de saberes

Como vimos, a visibilidade de um certo tipo de produção lingüística como trabalho científico se constrói pela própria instituição que acolhe este arquivo. Constata-se a utilização de dados do arquivo do SIL fundamentando trabalhos acadêmicos concernidos ao estudo das línguas indígenas. O livro de Aryon Rodrigues, Línguas Brasileiras – para o conhecimento das línguas indígenas, referência bastante significativa nos cursos de Lingüística Indígena e/ou Lingüística Antropológica, como são chamados, apresenta também ampla divulgação do material produzido pelo SIL, tendo em vista a escassez de trabalhos científicos concernidos por lingüistas brasileiros especializados na área até a década de 70.

Outro aspecto relevante a ser considerado no processo de constituição do arquivo é que no próprio momento em que ele se organiza para exercer também um papel na divulgação de seu material, ele projeta alguns leitores possíveis: "As equipes do SIL estão preparando para arquivamento e possível futura publicação, coleções de textos indígenas em formato interlinear com análise morfêmica e tradução livre. Este material será de grande interesse para etnólogos (o conteúdo dos textos) e lingüistas (a gramática dos textos.)". Sem nos esquecer da projeção de um outro leitor: aquele que domina a língua inglesa. Muitos desses estudos estão escritos nesta língua.

Este gesto de organização produz um efeito de regulação do trabalho de leitura de arquivo: quem deve ler o quê? A memória desses saberes fica assim reservada a certos especialistas.

Um outro lugar de divulgação deste tipo de produção científica, não caracterizado como instituição acadêmica, tem sido as OGNs que desenvolvem projetos com as comunidades indígenas. Através da mídia eletrônica, particularmente a internet, o Instituto Socioambiental (ISA), por exemplo, apresenta em seu site o item "Quadro dos Povos", uma classificação atualizada (setembro/1997) das línguas indígenas baseada na revisão do livro Línguas Brasileiras – para o conhecimento das línguas indígenas, do Prof. Rodrigues, já referido. Quando consultamos ainda o Arquivo da Funai, em seu site, encontramos somente a indicação de pesquisa: "Consultar o livro de Rodrigues acima citado". É interessante notar que justamente o hipertexto, que simula "abrir" muitos arquivos, funciona de modo a dirigir o movimento do leitor sempre para o mesmo arquivo. O movimento entre "o dado" e (aquilo que aparece como) "o novo", ao mesmo tempo em que amplia as possibilidades de acesso aos saberes, pela sua introdução em outros suportes de divulgação, produz os mecanismos de seu controle, re-apresentando o que já se encontra autorizado.

Cientificidade e controle da memória

Mais do que uma divisão de trabalho de arquivo, organizada por critérios acadêmicos de divisão dos campos do saber, a filologia, de um lado, e os estudos sincrônicos, de outro, a constituição dos arquivos apresentados deixa antever a determinação do discurso religioso sobre o discurso científico. Neste modo de circulação do saber, observamos um movimento que transforma/dissimula o trabalho missionário de evangelização em trabalho científico, garantindo-se um espaço de idoneidade e neutralidade política.

Neste processo, lembramos ainda que o trabalho de classificação das línguas, e, conseqüentemente, classificação dos povos, foi e continua sendo instrumento útil no controle da diversidade lingüístico-cultural no país, tanto por agentes internos quanto externos. Podemos referir aqui o levantamento realizado pela já citada AMTB, denominado A situação das tribos brasileiras, que mapeia o "número de tribos, situação quanto à distribuição da população" e categoriza os povos em três tipos: "Povo A – Grupo etnolingüístico não evangelizado", "Povo B – Grupo etnolingüístico evangelizado, porém não-cristão", e "Povo C – Grupo etnolingüístco cristão", classificação que servirá para a planificação das ações evangelizadoras.

Diante das reflexões apresentadas, perguntamos: que saberes podem ou não ser disponibilizados, ou seja, de que perspectiva se organiza esse arquivo? Podemos dizer que o trabalho de classificação, de categorização, enfim, a prática metodológica, ao organizar formalmente um campo da documentação, produz uma certa assepsia no processo de construção do conhecimento, selecionando e reorganizando um campo de memória, a partir de uma certa conjuntura histórica.

Do nosso ponto de vista, é preciso que a organização dos "dados" lingüísticos funcione não como um depósito de informações materializadas nos documentos, mas como um espaço de saber organizado pela relação entre diferentes memórias que compõe o social. Relação que, ao movimentar o arquivo, produz sua significação histórica no acontecimento de linguagem.

Línguas e a história no Brasil

Acompanhar uma parte do processo histórico de construção destes arquivos nos leva a dizer, sobre estes arquivos, os quais constituem um campo de saber, que, ao distribuir a palavra, numa certa medida, ora para um Deus católico, que legitima o tupi como língua que saiu da barbárie, ora para um Deus evangélico, que proclama a salvação de todos os homens pela tradução do "testamento", legitima estes discursos em nome da ciência. Neste espaço de constituição de saberes, a imagem de um arquivo, significado como depositário de um conhecimento científico sobre as línguas indígenas, naturaliza e neutraliza as próprias línguas e seus falantes, pelo apagamento do processo de sua constituição.

Queremos chamar a atenção para o fato de que esses arquivos têm uma histórica, que tem a ver com a história da constituição das ciências e a história das sociedades. Do nosso ponto de vista, a ciência deve se colocar como um espaço democrático de circulação de conhecimento, espaço que se configura não só de alianças mas também de confrontos.

Da perspectiva dos estudos lingüísticos, consideramos que o entendimento do "espetáculo" dos 500 anos de Brasil se faz pela memória histórica dos povos que o geraram. E não de sua exclusão.

(*) Lingüista, pesquisadora associada na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)

 

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