|
OFJOR CIÊNCIA
OfJor Ciência 2000 – Oficina OnLine de Jornalismo Científico é uma iniciativa do Observatório da Imprensa, Labjor e Uniemp.
SÍMBOLOS
Por trás da linguagem do
conhecimento científico
Carlos Vogt
O que há de comum, além de serem ternários, entre sistemas de valores tão distintos na vida social, quanto os que se verificam nos conjuntos abaixo?
| Verde |
Amarelo |
Vermelho |
| Obrigatório |
Indiferente |
Proibido |
| Moral |
Amoral |
Imoral |
| Bom |
Indiferente |
Mau |
| Aceitação |
Indecisão |
Recusa |
| Amor |
Apatia |
Temor |
| Ousado |
Equilibrado |
Covarde |
| Pródigo |
Equilibrado |
Avarento |
| Excitação |
Equilíbrio |
Depressão |
| Bom |
Inócuo |
Nocivo |
Por que em todas as culturas o sistema simbólico dos sinais de trânsito é o mesmo e é entendido da mesma maneira pelos cidadãos de países e línguas tão diversas?
A resposta aparentemente mais acertada a esta pergunta é que se tratam de convenções adotadas internacionalmente que passam a funcionar como paradigmas ou modelos de comportamento sociais que são, pelo hábito do uso, universalizados.
Como, então, explicar que, embora diversas, enquanto sistemas diferentes de valores a que pertencem, as tríades acima apresentadas têm algo em comum que lhes é constitutivo, e que é definidor de um modelo de organização universal? E que este modelo não decorre de nenhuma convenção, mas antes é o seu motivador e a própria razão de sua possibilidade lógica e intelectual?
Tomemos o caso dos sinais de trânsito e perguntemos o que cada uma das três cores que o compõem significa.
Sabemos que o verde = siga, o vermelho = pare (não siga) e o amarelo = nem siga, nem pare (traduzido por Atenção!).
A estrutura lógica, intelectual ou cognitiva que sustenta essas oposições é a mesma que subjaz às outras seqüências ternárias que listamos. Sua origem é muito antiga, podendo ser remetida ao filósofo grego Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.), em particular ao seu tratado sobre as Categorias e, bem mais tarde, ao famoso quadrado lógico de Apuleio, que explicita com clareza a teoria das oposições desses conceitos. Mais recentemente, já no século 20, sua fonte encontra-se nos estudos do lógico francês Robert Blanché.
Um triângulo com a base invertida é a figura que representa as relações contrárias dos três termos de cada uma de nossas tríades de conceitos e que, tomando as cores dos sinais de trânsito, teria a seguinte configuração:
| Verde |
Vermelho |
| (Siga) |
(Não siga) |
Amarelo |
| (Nem pare, nem siga) |
Se aplicarmos ao vértice inferior do triângulo o termo médio de cada uma de nossas seqüências ternárias e aos vértices superiores, em ordem, cada um dos outros dois termos, a configuração das oposições será sempre a mesma e universal e, conseqüentemente, da mesma forma a organização dos conceitos e dos sistemas de conhecimento que eles possibilitam.
Num país como o Brasil, que busca a duras penas constituir-se como uma democracia sólida e permanente, não é demais pensar que o nosso triângulo de oposições tem também a sua função para ajudar a compreender melhor o extremo em que se trava o debate de nossas aspirações cidadãs, sociais e políticas:
| Autoritário |
Permissivo |
Democrático |
O que é democrático é o que não é nem autoritário nem permissivo, embora contenha elementos necessários de autoridade e de condescendência, num equilíbrio dinâmico entre as tensões dos direitos e das obrigações.
Os exemplos são inúmeros.
O importante é entender que a ciência moderna, cujas origens mais imediatas estão no século 17 é, antes de tudo, um conjunto de símbolos consistentes, isto é, uma linguagem com regras de combinação e de significação e que é essa linguagem que permite chegar à formulação de proposições, de frases e de conceitos que têm poder explicativo sobre os fenômenos humanos e naturais.
A ciência trabalha com símbolos e categorias que pretendem ter valor universal, e essa universalidade se baseia em estruturas intelectuais e conceituais, de que nosso triângulo de oposições é um, entre outros exemplos.
Os fatos culturais – aqueles que resultam da ação dos homens entre si e sobre a natureza – como os sistemas de sinais de trânsito ou as oposições, no domínio da moral, entre bem, mal e indiferente ou entre moral, imoral e amoral, têm eles próprios relações profundas de organização com essas estruturas intelectuais subjacentes à liguagem do conhecimento científico, em particular, e à linguagem humana, de um modo geral.
PROJETO PIERRE AUGER
Imprensa e a ciência básica
Roberto Belisário (*)
O Brasil está, desde 1995, participando de um importante projeto internacional que pretende resolver um dos maiores problemas teóricos da Astrofísica atual, a origem dos raios cósmicos ultra-energéticos [veja remissão abaixo]. O Projeto Pierre Auger envolve 19 países e montará, até 2003, um enorme observatório destinado ao estudo dos raios cósmicos de energia extremamente alta.
A participação brasileira, orçada em 3,5 milhões de dólares, foi oficializada numa cerimônia ocorrida no último dia 19, no Instituto de Física da Unicamp, durante o XI Simpósio Internacional de Interações de Raios Cósmicos (17-21 de julho), um encontro internacional que reuniu 80 físicos de todo o mundo. O projeto total está orçado em 80 milhões de dólares.
Até agora, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) entrou com 1 milhão de dólares e o Programa de Núcleos de Excelência (Pronex), do Ministério da Ciência e Tecnologia, com 340 mil dólares. Trata-se da conquista de mais um nicho na pesquisa básica de ponta, onde temos tido tanto sucesso em áreas como a engenharia genética. O leitor não-especializado, porém, não teve condições suficientes de compreender a importância da contribuição nacional a partir da divulgação na imprensa. Nem tampouco de compreender plenamente o significado da pesquisa para a ciência e para o Brasil.
Algumas falhas envolvendo cifras devem ser apontadas. O jornal O Estado de S.Paulo (20/7/00), por exemplo, misturou dólares com reais na hora de apresentar os orçamentos (o orçamento total brasileiro é 3,5 milhões de dólares e não de reais). A avaliação do Jornal do Brasil (19/07/00) sobre a energia dos raios cósmicos ultra-energéticos é completamente irreal. O texto diz que as partículas mais energéticas têm energia semelhante à energia cinética de uma bola de tênis deslocando-se a 200 km/h. A energia das partículas é de fato assustadora, mas não a esse extremo: a partícula mais energética já encontrada foi detectada em 1991, no observatório de Fly’s Eye, no Estado norte-americano de Utah, e tinha energia cinética próxima à de um corpo de 200 gramas após uma queda de um metro.
Para esclarecer sobre o Projeto Pierre Auger e a participação do Brasil, o Observatório da Imprensa entrevistou separadamente o idealizador do projeto, o norte-americano James W. Cronin, da Universidade de Chicago, prêmio Nobel de Física em 1980, e o coordenador da participação brasileira no empreendimento, o professor de Física da Unicamp Carlos Ourives Escobar.
Cronin contou que o propósito do observatório Pierre Auger é resolver de uma vez por todas um paradoxo até agora inexplicado: a existência, nos raios cósmicos que atingem a Terra vindos do espaço, de partículas contendo energia maior do que o limite imposto pelas teorias existentes, chamadas genericamente zévatrons [ver abaixo]. Essa informação, crucial para se compreender o significado do projeto para a ciência, faltou na divulgação pela imprensa. Os zévatrons são extremamente raros e o observatório pretende contornar essa dificuldade dispondo detectores de raios cósmicos sobre uma área total de 3 mil quilômetros quadrados.
Tópico que faltou
A imprensa quase não comentou sobre a importância para o Brasil de participar do empreendimento. Trata-se da mais pura pesquisa básica e estamos investindo alguns milhões nisso. Que retorno recebe o país com uma participação em observações de raios cósmicos?
Uma das respostas está em uma cláusula do projeto, introduzida pelo próprio Carlos Escobar, que obriga que 80% da contribuição de um país reverta no beneficiamento do próprio país. Assim, a indústria brasileira fabricará 800 tanques de detectores Cerenkov, por intermédio da empresa paulista Alpina Termoplásticos. No caso desses tanques, "a demanda na industria não é de alta tecnologia, mas de alta qualidade", diz Escobar. O Brasil ainda vai contribuir com componentes dos detectores de fluorescência, que ainda estão sendo concebidos "no papel".
Além disso, a infra-estrutura e os dados coletados pelo observatório estarão disponíveis a outros cientistas para possíveis aplicações em outras áreas. Cronin cita como exemplos as áreas da micro-sismologia, da meteorologia e observações astronômicas. Participando do projeto, o Brasil já terá conhecimento sobre os resultados e know-how sobre alguns aparelhos, o que facilitará um possível usufruto. "Estamos planejando fazer um workshop sobre aplicações em outros campos da Física", contou o norte-americano.
Cronin considera fundamental que os países invistam em pesquisa básica. Escobar, por sua vez, lembra que "nenhum país se deu mal por ter conhecimento; pelo contrário, conhecemos países que se deram mal por não conhecer". E continua: "foi-nos apresentado um dilema cruel e falso, qual seja, de que nós, países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, somos obrigados a optar ou por ciência ou por tecnologia. Isso é um erro, esse dilema não existe. As duas coisas sempre avançaram juntas."
Cronin considera que houve uma boa divulgação do Projeto Pierre Auger nos últimos anos, com a publicação de dois grossos livros, jornais e artigos de revistas norte-americanas, alemãs etc., incluindo a Ciência Hoje, revista brasileira. A conseqüência natural da participação brasileira poderá levar a um saudável e merecido aumento da presença de nossos cientistas nas publicações de divulgação científica internacionais.
Segundo o relato de Escobar, a participação do Brasil no Projeto Pierre Auger surgiu a partir de uma reunião na Associação de Física da Argentina, em Bariloche, em setembro de 1995. Participaram Carlos Escobar e os físicos Armando Turtelli (Unicamp) e Ronaldo Shellard (UFRJ), bem como o próprio James Cronin. A entrada do Brasil no projeto deu-se em uma reunião na Unesco, em novembro do mesmo ano, onde foi proposta uma contribuição de 10 milhões de dólares, depois bancado pela Finep. A crise financeira brasileira dos fins dos anos 90 tirou a Finep da jogada e reduziu a contribuição nacional a 3,5 milhões de dólares.
(*) Físico; e-mail: rbdiniz@terra.com.br
ENERGIA NUCLEAR
Problemas ignorados
Roberto Belisário (*)
A desinformação em torno da usina nuclear de Angra II continua. Após inúmeros atrasos absolutamente inexplicados (Angra II deveria ter começado a funcionar em fevereiro de 2000), no dia 21 de julho a usina finalmente recebeu da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) a autorização para a produção de energia para consumo, ainda com apenas 20% de sua potência total. No dia 21, foi conectada à rede elétrica nacional. Faltam mais duas autorizações da CNEN para que ela possa atingir 100% da potência, segundo nota no site da Eletronuclear, empresa responsável pela construção da usina.
Inexplicável também é a omissão dos grandes jornais brasileiros em abordar esses atrasos. Desde fevereiro, a Eletronuclear informou, em diversas ocasiões, o início do funcionamento da usina. Não só as datas anunciadas não foram respeitadas, como esses episódios passaram em branco na imprensa. A Eletronuclear argumentava que esperava autorização da CNEN, e, enquanto isso, continuavam os testes com a usina. A fachada de normalidade ruiu no último dia 17, quando o presidente da Eletronuclear, o engenheiro Ronaldo Fabrício, foi afastado do cargo. Assumiu interinamente o diretor de construção da Eletronuclear, Evaldo Césari de Oliveira. No dia 31, após o fechamento deste texto, o presidente da Eletrobrás, Firmino Sampaio, deverá ter sido nomeado o novo presidente da Eletronuclear.
Jornais como a Folha de S.Paulo (17/7/00) e O Estado de S.Paulo (21/7/00) vincularam a queda de Fabrício ao desgaste sofrido com os atrasos no início do funcionamento de Angra II. O diretor de materiais do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), José Roberto Rogero, em entrevista a este Observatório e à revista ComCiência, afirmou que "a razão é que houve uma pressão do ministro das Minas e Energia para que o funcionamento de Angra começasse antes, pois Furnas está tendo prejuízo e tendo que comprar energia de outro lugar".
De fato, a empresa estatal de eletricidade Furnas acertou vender a energia de Angra II às empresas distribuidoras de eletricidade. Com o atraso de Angra II, para manter a demanda prometida, Furnas teve que comprar energia no mercado atacadista, que é muito mais caro: já chegou a quase oito vezes o preço normal da energia. O prejuízo acumulado por Furnas nesse ínterim foi de R$ 430 milhões, segundo reportagem do Estado de S. Paulo (14/7/00).
Essa reportagem do Estado foi uma das poucas exceções à falta de cobertura das implicações dos atrasos de Angra II antes do afastamento de Fabrício. Soma-se a isto a falta de cobrança por explicações aos atrasos em Angra II e a incipiência da cobertura da imprensa aos fatos envolvendo o problema dos rejeitos radioativos da usina, já abordada duas vezes neste espaço ["Hora de cobrar", Ofjor Ciência de 5/5/2000, e "Assunto sério", Ofjor Ciência de 5/6/2000 – veja remissões abaixo]. Lembremos que Angra I está funcionando há 15 anos e até hoje o país não tem um depósito definitivo para os rejeitos, que incluem substâncias altamente tóxicas. A emenda que o define tramita há nove anos no Congresso Nacional.
É notória a diferença em relação à importância dada pela sociedade em geral a outras questões menos imediatas e mais polêmicas envolvendo energia nuclear, como as intermináveis discussões sobre a relação custo ambiental/benefício social. E é flagrante o contraste com a farta cobertura das polêmicas sobre o patenteamento de genes, os alimentos transgênicos e os remédios genéricos. É necessário que haja uma cobrança bem mais forte sobre as instituições envolvidas, por parte da imprensa e da sociedade, com relação aos atrasos inexplicáveis e aos depósitos de rejeitos nucleares. E não nos esqueçamos da estrada Rio-Santos, principal via de acesso a Angra e em péssimo estado.
(*) Físico. E-mail: rbdiniz@terra.com.br
Sites relacionados
CNEN
Eletronuclear
Ipen
Revista Com Ciência
Leia também
Hora de cobrar –Roberto Belisário
Assunto sério – Roberto Belisário
|
|