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OfJor Ciência 2001 – Oficina OnLine de Jornalismo Científico é uma iniciativa do Observatório da Imprensa, Labjor e Uniemp.
ANGÚSTIAS CONTEMPORÂNEAS
Informação em excesso,
interpretação nenhuma
Ulisses Capozoli (*)
Uma matéria de cinco páginas, sem chamada de capa, publicada na última edição de Veja (nº 1716), mapeia o que se poderia chamar de olho do furacão e deveria ser leitura e reflexão obrigatória para todos os jornalistas. O texto, assinado pela repórter Cristiana Baptista, não é exatamente uma novidade, mas tem o mérito de despertar a atenção para um fenômeno ainda não devidamente identificado: a angústia produzida pelo excesso de informação.
Uma visão não-histórica da própria história costuma apresentar problemas desse tipo como se fossem inéditos. Não é nada disso. Quem investigar o século 16 descobrirá, talvez com alguma surpresa, que essa é a época da história moderna mais parecida com a contemporânea. Na verdade, o século 16 é a base dos tempos modernos e as razões para isso são várias.
A primeira delas é que o que estamos chamando de "globalização", um termo controvertido e de significado restrito para a maioria das pessoas, começou no século 16, quando os portugueses fizeram o costeamento da África, corrigiram o conhecimento clássico (especialmente Aristóteles e Ptolomeu) e estabeleceram uma conexão global, inédita na história da civilização. Em 1543, os portugueses desembarcaram no Japão, introduziram armas de fogo, alteraram o poder político, mudaram a capital para Kioto e abriram, com pólvora e astúcia, o comércio japonês para Portugal. Mais de um historiador considera que, desta forma, Portugal teria preparado o Japão para o que este país é hoje.
A globalização iniciada em Portugal deu base observacional para o que chamamos de "revolução científica" do século 17 – as bases teóricas construídas por Francis Bacon, na Inglaterra, e René Descartes, na França.
D. João de Castro, uma das grandes autoridades científicas em Portugal do século 16 (outro foi Pedro Nunes, um ilustre desconhecido no Brasil), ainda com suporte em Aristóteles (a tendência de as coisas pesadas caírem para o centro do mundo) antecipou-se a Newton na defesa dos antípodas, populações vivendo em hemisférios opostos da Terra, como brasileiros e japoneses.
Até D. João de Castro, reinava a interpretação de Lactâncio, pensador cristão de uma mediocridade espantosa, mesmo para os padrões da Idade Média, quando a descrição do mundo ficou a cargo dos relatos extraordinários – nome um tanto pomposo para a pura fantasia. Além de Pedro Nunes, cosmógrafo maior e responsável pelo desenvolvimento da navegação estelar em Portugal, o país produziu um Garcia de Orta, experimentador inédito que viajou com Camões para a Índia, onde morreu.
Função da imprensa
Mais que qualquer outro, Garcia de Orta demonstra que as navegações portuguesas, além da conexão física do mundo, estabeleceram uma rede de interação cultural de profunda dimensão antropológica. Pouca gente se pergunta sobre o significado de os portugueses andarem atrás de especiarias no século 16: noz moscada, pimenta, cravo e canela, entre outros, produtos hoje praticamente sem valor comercial.
A questão por trás disso é que o século 16 foi um período revolucionário. Os padrões alimentares estavam em transformação, daí a demanda por temperos e conservantes. Os costumes mudavam rapidamente, por razões que foram da difusão do vidro (e dos óculos para leitura) à posse doméstica da Bíblia (que estimulou o cisma ocidental da igreja cristã), passando pelo destronamento da Terra do centro do sistema solar, obra de Nicolau Copérnico.
Há uma fascinante relação entre as épocas históricas e os modelos cosmológicos, tema que entre nós está para ser devidamente tratado, sobretudo pela mídia. E é preciso dizer que a posse da Bíblia resultou da difusão, no Ocidente, dos tipos móveis de Gutenberg (tipos móveis de madeira já existiam na China e na Coréia) e esta é a base tecnológica mais sólida para a imprensa.
Também no século 16 as pessoas estavam desorientadas. Se a Terra não era mais o centro do sistema solar, nem o centro do universo, como demonstrou em seguida Galileu, e, além disso, tinha movimento (eppur se muove, teria dito Galileu frente aos inquisidores), o que continuava sendo verdade?
Críticos apressados podem argumentar que pouca gente sabia disso, o que é verdade. A questão, no entanto, longe de ser quantitativa, é de impacto histórico, de alteração profunda de valores. Quando o primeiro ornitorrinco (um mamífero que põe ovos) chegou à Europa, a primeira interpretação foi de uma farsa, uma montagem para enganar ingênuos.
O ornitorrinco é mais que uma metáfora. É a conexão com os ancestrais remotos que se conservou num continente isolado como a Austrália. Só na segunda metade do século 19, depois de esperar, angustiadamente, por um quarto de século, Darwin publicou seu trabalho, a Origem das Espécies. Seu medo, documentado nas cartas que trocou com sua mulher, era explodir os valores de sua época. A Bíblia estava inteiramente equivocada. O mundo não nasceu pronto, mas resulta de uma transformação incessante.
Já no século 16, o mundo se revelava no interior de uma nova interpretação. Na astronomia, particularmente, o universo cresceria e envelheceria cada vez mais. No século seguinte, os cometas seriam decodificados e as estrelas explodidas (supernovas), brilhando mesmo durante o dia, chamavam a atenção de homens como Tycho Brahe e Johannes Kepler.
Mas isso não era tudo. Ao menos entre os ricos os talheres se difundiam, da mesma forma que a escova de dentes, inicialmente feita de pêlo de rabo de porco (daí o nome cerda, que se conservou). A peste ainda dizimava populações, como aconteceu em Londres, em 1666. As redes de esgoto eram praticamente desconhecidas e os restos fecais e água de beber se misturavam perigosamente. Eram ecos de um passado em rápida transformação.
A idéia reducionista, estabelecida na ciência, de que as grandes revoluções já ocorreram, equívoco de que foi vítima mesmo uma inteligência brilhante como Lorde Kelvin, no século passado, dificulta não só a compreensão do impacto dos trabalhos de Copérnico e Galileu, como dos acontecimentos atuais. Posto de forma mais objetiva: é a dificuldade de interpretação que gera um certo caos, uma sensação de insegurança e de angústia, como a traduzida pelo texto em questão, publicado em Veja.
O significado claro disso tudo é que a imprensa tem pela frente um enorme desafio: o de fazer jornalismo interpretativo, ou seja, de contextualização histórica dos acontecimentos como esforço para oferecer uma inteligibilidade possível ao mundo. Essa deve ser a alternativa, ao menos para a imprensa escrita, de enfrentar o caos informativo trazido pela internet. Essa é a nova função da imprensa, resultado do impacto não só da tecnologia (como se a tecnologia não fosse produzida pela sociedade humana e viesse de outro mundo), mas do que se poderia chamar, novamente, de "novos tempos".
Fontes e fatos
Há poucas semanas, num debate na Unicamp, em Campinas, um velho jornalista queixava-se de não entender nada disso. Defendia, como muitos críticos de Copérnico, uma desorganização da tradição. Em sua opinião, repórteres devem reportar, fotógrafos fotografar e o editor, editar. Assim foi no passado e, de certa maneira, ainda continua sendo no presente. O que não significa que, no futuro, continuará assim. O texto da repórter Cristiana Baptista é só mais uma evidência de que tudo mais uma vez está em mudança rápida. Se houvesse como travar a roda da história, a Igreja Católica já o teria feito.
Que velhos jornalistas possam rejeitar os novos tempos é compreensível, embora não seja igualmente aceitável. Os jovens jornalistas, no entanto, devem preparar-se para o novo. O velho jornalista, em Campinas, não consegue compreender que interpretação, no sentido de contextualização histórica de acontecimentos, não tem qualquer relação com opinião. Não é a opinião do jornalista, mas sua formação, mais ampla e sólida, que deve orientá-lo tanto na busca de fontes quanto de fatos, para tecer uma descrição capaz de oferecer a inteligibilidade possível do mundo. A história é resultado deste esforço, e não só a história. A ciência também funciona assim.
Opiniões enxertadas
Uma teoria científica, para ser aceita, deve poder ser refutada, no sentido de permitir uma interpretação diferente, até mesmo oposta às suas previsões. O que significa isso? Significa que uma teoria deve ter inteligibilidade, um caminho teórico que permita alternativas compreensíveis para se chegar ao mesmo ponto – a elaboração de uma explicação temporariamente aceitável para um fenômeno do mundo.
Como já se discutiu anteriormente neste espaço, o jornalismo interpretativo exige tanto um novo tipo de jornalista, com formação mais sólida e ampla, quanto uma nova relação de poder no interior das redações. Muitos velhos caciques, sequiosos de seu poder tradicional, (e também muitos jovens caciques), talvez não estejam dispostos a pensar assim. Mas jornalistas experientes com boa e sólida formação que existem no Brasil, fora da grande imprensa, certamente podem e devem contribuir para que essa mudança venha a acontecer. Na verdade, a questão, aqui, não é cronológica, relacionada apenas a anos vividos, mas a capacidade de interpretar o novo, que os anos vividos demonstraram ser um fato inevitável.
Nas sociedades ágrafas, a autoridade é a dos velhos. Eles são a memória da transformação do mundo que testemunharam ao longo de suas vidas cheias de acontecimentos. Na sociedade ocidental, com síndrome de Peter Pan, ninguém quer envelhecer, como se pudessem contrariar uma tendência de todo o Universo.
A juventude tem o vigor da busca do novo e é a própria expressão do novo. Os mais velhos devem orientá-la e também aí não há nada de novo – embora, paradoxalmente, tudo seja novo. A mitologia, a primeira sistematização do mundo, trata dessa relação ao referir-se a heróis e mentores. Os heróis recebem o "chamado à aventura", nas palavras de Joseph Campbell. Foi o que ocorreu com Ulisses quando chamado para participar da libertação de Helena. Nessa tarefa, o herói é amparado pelo mentor, um herói já experimentado.
O problema da cultura de massas, de que os veículos de comunicação social são a expressão, está, como numa parte da ciência, atado ao reducionismo. Neste caso, a mitologia, por exemplo, tende a ser vista como uma explicação para o mundo quando os homens eram ingênuos, para não dizer tolos. Ortega y Gasset, no seu discurso algo próximo da velocidade do jornalismo, mas nem por isso com a mesma superficialidade, chama esta concepção de "plenitude dos tempos" – no sentido de que, hoje, somos mais sábios e espertos que nunca. O filósofo espanhol rebate esta idéia sustentando que se trata de um mero equívoco de interpretação.
Há uma evidente crise de qualidade na imprensa atual. A dificuldade maior, certamente, é a de interpretar, confundida com a facilidade de opinar. Daí os disparates que se pode ler, inclusive em Veja, onde os repórteres costumam surpreender-se com seus próprios textos, quando saem publicados.
Editores enxertam aí suas próprias opiniões – "a visão da revista", como se costuma justificar. É, evidentemente, uma situação insustentável, mas nem por isso sob crítica, no sentido de se buscar alternativas mais aceitáveis.
(*) Jornalista especializado em divulgação de ciência, historiador da ciência e presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC)

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