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OfJor Ciência 2001 – Oficina OnLine de Jornalismo Científico é uma iniciativa do Observatório da Imprensa, Labjor e Uniemp.


CLONAGEM
Catástrofe jornalística

Beatriz Singer

É nisso que dá a pretensão jornalística: a habilidade com palavras acaba estimulando o profissional a escrever sobre qualquer assunto em tom de especialista na área, mas sem entender exatamente sobre o assunto de sua pauta. Pior ainda quando não se trata de uma reportagem, e sim de um artigo de opinião.

Na Época de 27 de agosto (edição 171), o jornalista considerou-se apto a escrever na última página e preencher a seção "Minha Vez" com um artigo sobre clonagem. O assunto – que deveria estar em pauta há muito tempo, mas só despertou interesse da imprensa quando um certo médico italiano que lembra Hitler mostrou intenções de clonar seres humanos e deu o tom apocalíptico ao dilema –, o assunto, dizia, é um prato cheio para catastrofistas e paranóicos. E tais espécimes são em boa medida representados por jornalistas, ainda mais quando o assunto em questão entra em um grau de profundidade raras vezes alcançado por esses profissionais.

"E se resolverem clonar só criaturas humanas perfeitas?", escreve o autor em sua frase inicial. Sua preocupação é compreensível, mas é uma divagação tão sagaz quanto o questionamento do fim do mundo. E na mesma frase de abertura reside um dos pecados do jornalismo: o nada factual "e se..."

Falar de ciência já em algo difícil no meio jornalístico. Criticá-la, então, é para bem poucos. É uma raridade ver algum jornalista manter-se firme em argumentação coerente da primeira à última linha. Geralmente se lhe escapam pérolas de senso comum, expressões deslocadas, conceituação e contextualização erradas. E é aí que a ciência, rígida em seu método científico banhado em razão, dá um baile no pomposo e pretensioso dono das palavras que tenta, labirinticamente, seduzir o leitor.

"Agora mesmo dois grandes embriologistas (...) querem desafiar toda a reação imperante e passar imediatamente a clonar os seres humanos", diz, informativo ma non troppo, o autor do artigo. No parágrafo seguinte, trai qualquer repúdio ao lugar-comum e demonstra-se um generalista, qualidade inadmissível para os padrões de discussão da ciência: "O que me apavora – e, ao contrário, encanta os cientistas italianos – é que eles possam chegar ao sublime esmero de só clonar criaturas humanas perfeitas".

Em primeiro lugar não há criaturas humanas perfeitas. Em segundo, não são todos os cientistas italianos que estão encantados com a idéia de se clonar seres humanos. O médico italiano Severino Antinori é quem lidera o projeto e é a ele e sua equipe que se devem dirigir críticas e elogios. Poderia ser um brasileiro, e aí não seria assim tão fácil dizer que "médicos brasileiros" se encantam com clonagem humana. Se a Itália não esboçasse também uma reação ao projeto, o médico não teria divagado sobre a possibilidade de realizar a experiência em águas internacionais.

Não se deve incorrer no erro de palpitar sobre um assunto sério e complexo, que envolve ciência, filosofia e religião em uma questão ética, como se estivesse em uma mesa de boteco. Não, pelo menos, em um semanário dito sério e noticioso, como Época. E o autor não se intimida: "Imaginem que se criem somente clones iguais ou aproximados a Albert Einstein e Gisele Bündchen! Que mundo chato seria este se os homens fossem só clones de Einstein e as mulheres de Bündchen". Outro pecado argumentativo. Em primeiro lugar, o erro do "se" tornou-se de fato recorrente no discurso articulado pelo jornalista.

Outra palavra que, utilizada nesse contexto, alimenta pensamentos apocalípticos sem embasamento é "imaginem". Imaginar não é jornalismo porque não há fatos acontecendo. Em um artigo de opinião, até pode haver suposições que levem o leitor a uma lógica capaz de entender um fato que o autor tenta expor. Mas não é o caso, aqui: os argumentos não fundam em fatos.

Além da questão semântica, há outro problema de ordem filosófica no texto do jornalista. Por mais que se crie uma segunda Gisele Bündchen ou um segundo Einstein, não é o fato de serem fisicamente idênticos que determinará uma identidade em outros planos do ser humano. Se assim fosse, gêmeos univitelinos (o que nada mais são do que clones naturais) seriam idênticos não apenas fisicamente, mas em todo o resto – profissão, gosto, escolhas em geral.

O que determina a trajetória da vida de uma pessoa não é sua composição genética, mas a influência do ambiente sobre ela. Assim, ao contrário do que afirma Época, se houvesse dois Einstein, enquanto um seria de fato físico o outro poderia ser músico, pipoqueiro, guia de turismo ou mesmo jornalista. Mas pensando de uma forma simplista, influenciado por ficções científicas americanas, o autor dá dramaticidade a seu catastrofismo apelando a divagações emocionais e desestruturadas em detrimento da razão: "O perigo de criar não milhões de clones de Einstein, como podem precipitar esses piratas da embriologia, mas dois Einstein apenas (ou Oppenheimer) é que, para oferecer como exemplo o passado, os dois inventem e fabriquem ao mesmo tempo a bomba atômica e um esteja do lado da Alemanha e o outro do lado dos aliados. A humanidade será destruída em apenas um minuto."

Vazio notável

Não se trata de defender a clonagem, mas de contestar visões deformadas e mal estruturadas que estão sendo criadas na mídia. A condição de formadora de opinião não deve ser ignorada pela imprensa, ainda mais quando o assunto envolve questões éticas que penetram por diversos campos do conhecimento e da sociedade.

Por fim, o artigo de Época descamba da abordagem de um assunto sério para a total esculhambação: "É evidente que quem se apaixona por uma gêmea está automaticamente apaixonado pela outra gêmea. Eu, se fosse uma gêmea, morreria de ciúme de meu marido com minha irmã. Porque só um batráquio pode gostar de uma gêmea sem ficar caído pela outra". Novamente – e dessa vez com ironia – o articulista mostra a superficialidade de sua argumentação, como se a identidade física fomentasse uma identidade em outros campos e motivasse, portanto, um sentimento igual por dois seres apenas geneticamente idênticos.

Em suas últimas linhas, o autor se despede da máscara de "jornalista especializado em tudo" e se confunde na grande massa amorfa – a mesma pela qual a imprensa deveria se preocupar. Machista e despreocupado com sua função social, escreve: "A lei deveria ser sábia e permitir um único tipo de bigamia: a de um homem que casa com duas gêmeas. Ou, melhor, a lei deveria impor ao homem que queira se casar com uma gêmea que se case também com a outra, com a finalidade de evitar problemas futuros de adultério".

Falta informação para informar, falta informação para opinar. No jornalismo científico, então, há um vazio notável de especialistas na imprensa. Já é pouco o espaço para matérias sobre ciência, saúde e tecnologia. Se o pouco que lhes cabe é usado para alimentar divertidamente o senso comum, o jornalismo científico fica fadado a morrer de desgosto.



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