|
OFJOR CIÊNCIA 99
OfJor Ciência 99 Oficina OnLine de Jornalismo Científico é uma iniciativa do Observatório da Imprensa, Labjor e Uniemp.
ESTADO DO KANSAS
Mídia desperdiçou
a chance do debate
Roberto Takata (*)
Batalha braba lá na terra de Bill Clinton. Em 11 de agosto, o Conselho de Educação de Kansas, EUA, decidiu eliminar o ensino da evolução do currículo embora não o tenha proibido, não mais se poderá incluir questões sobre o tema nos testes escolares. A imprensa americana reagiu prontamente contra o disparate foi ouvir biólogos do porte de Stephen J. Gould, atual presidente da Sociedade Americana para o Progresso da Ciência , de Richard Dawkins e outros, além de cientistas de outras áreas e, principalmente, educadores. Para acompanhar com detalhes um bom local é: <http://fullcoverage.yahoo.com/fc/US/Education_Curriculum_and_Policy/>.
A pergunta que se poderia fazer é: e daí? O que a decisão tomada lá no interior dos EUA tem a ver com o Brasil?
Certamente mais do que as fofocas envolvendo astros pop americanos e a transmissão de eventos esportivos como hóquei e beisebol do lado de lá do equador. A imprensa brasileira demorou uma semana, mas finalmente resolveu prestar mais atenção aos desdobramentos da história, pelo menos no caderno Mais! (Folha de S.Paulo, 20/8/99) e na IstoÉ (25/8/99) muito provavelmente em vista do destaque dado ao assunto pelo The New York Times e outras publicações de expressão nos EUA.
Recebi uma série de e-mails de um senhor acusando (em termos mais brandos) a imprensa brasileira de macaquear o que foi lá divulgado por uma mídia "neodarwinista radical". Bem, não acho que os criacionistas não devam ser ouvidos, mas o caso é que claramente um dos lados está com a razão nominalmente, os defensores da manutenção do ensino da Teoria da Evolução no currículo escolar de Kansas.
Seria uma boa deixa para a imprensa colaborar com a cultura científica, pois várias questões poderiam ser levantadas: o que é a Teoria da Evolução? Qual o papel dessa teoria na Biologia e na Ciência? O que é o Criacionismo e por que ele está errado? O que é uma teoria científica? E um fato?
Se temos cadernos culturais e revistas eletrônicas para nos mostrar o que um artista faz em suas horas de lazer, como se faz um pato fricassé com molho bechamel e o que é in e out no mundo das indumentárias tribais urbanas, não vejo por que não aproveitar o gancho e expor algumas noções básicas em Ciência; aproveita-se e se desmistifica a idéia da verdade científica como irrefutável, perene e imutável. Idéia tão comum quanto a oposta e também falsa: a Ciência como coisa do diabo, que afasta as pessoas da espiritualidade etc.
Temos divulgadores científicos muito bons, como o veterano José Reis, e um pouquinho mais de espaço de vez em quando seria muito bem-vindo, uma prestação de serviço ao leitor e ao telespectador, auxiliando-os a se defenderem de promessas de cura milagrosa para o câncer, a celulite e a gordura localizada, entre outros engodos. Ajudaria o público a analisar criticamente os prós e os contras das novas tecnologias, que afetam diretamente a vida dos cidadãos: por exemplo, os organismos transgênicos e a terapia genética.
| COPYRIGHT SPACCA |  |
Sobre evolução, recente edição de Veja (25/8/99) deu um belo destaque a uma descoberta brasileira o mais antigo esqueleto humano em território americano , matéria de capa, oito páginas ricamente ilustradas. É um assunto instigante, que levanta uma controvérsia real: uma evidência forte que contraria um modelo científico aceito atualmente, o da ocupação das Américas por uma única onda migratória. É uma reportagem bem feita, sem sensacionalismos, elogiada também pelo pesquisador entrevistado, o bioantropólogo Walter Neves. Este é um dado importante, uma vez que raras vezes o cientista consultado não acha que houve algum tipo de distorção.
O porém fica para um deslize recorrente a apresentação das linhagens evolutivas mais próximas aos humanos numa linha do tempo; o que remete, ainda que não intencionalmente, à "escala da vida", noção há muito contraditada pelas evidências e, assim, abandonada pela Ciência.
Com risco de algum exagero, as duas primeiras semanas de agosto foram "trágicas" para a Ciência e o jornalismo, jornalismo científico incluso. O episódio do fim do mundo superou todas as expectativas. A matéria de Veja garantiu saldo positivo na quinzena.
(*) Mestrando em Biologia no Instituto de Biociências da USP. E-mail: rmtakata@altavista.net
ONGs & MÍDIA
Da responsabilidade de ser fonte
Teresa Citeli (*) e Carla Rodrigues (**)
Nas últimas semanas, dois seminários ("Saúde Reprodutiva na Esfera Pública e Política na América Latina", Campinas, e "Mulher e mídia", Rio de Janeiro) discutiram o relacionamento entre as ONGs ligadas a direito reprodutivo e mídia. Como acontece com grande freqüência nestas mesas de debate, levantou-se a questão da responsabilidade da imprensa com a informação, com aquilo que ouve, apura e noticia. O novo surge, no entanto, quando estas ONGs começam a procurar entender a responsabilidade de ser também fonte de informação para a imprensa.
A década de 90 foi pródiga em trazer à tona e dar voz às ONGs: desde a Eco-92 e seu fórum paralelo no Aterro do Flamengo, passando por toda a série de conferências internacionais promovidas pela ONU, nas quais as ONGs brasileiras estiveram presentes, ativas e atuantes. De uma maneira geral e, em especial, àquelas ligadas ao movimento de mulheres, que ganhou visibilidade para a sociedade e para a mídia brasileira.
São organizações envolvidas em monitorar e propor políticas públicas, em pesquisar e analisar dados nacionais e regionais sobre saúde reprodutiva, em produzir informações, estatísticas, acumular argumentação política e experiências, comparar dados internacionais com a realidade brasileira. Dispõem, portanto, de um conjunto de informações valiosas. Deveriam ser, naturalmente, do interesse da imprensa. Teríamos, aí, um ambiente para que as duas partes demonstrassem interesse uma pela outra. E, no entanto, não é isso que se constata. Por quê?
O que se vê na prática ainda é uma enorme dificuldade de aproximação e relacionamento, embora a mesma década de 90 tenha registrado muitos avanços: os preconceitos de parte a parte começam a ser diluídos e há um esforço, também feito pelos dois lados, de compreender o que já se convencionou chamar de "a lógica da mídia" e a "lógica do movimento".
As duas expressões significam que estudiosos, pesquisadores e ativistas começam a descobrir como se dá o complexo (e ao mesmo tempo precário) processo de produção, edição e veiculação de notícia. Complexo porque rápido, veloz e de imensa responsabilidade. Muito já se avançou, mas o caminho é longo e ainda exigirá, de cada lado, compreensão e adequação. Por seu lado, a imprensa também compreende que existem as "razões políticas" do movimento.
Da mídia, já se sabe muito bem o que cobrar: isenção, credibilidade, retidão, exatidão, precisão na publicação das informações. Também se quer uma imprensa pautada pelos interesses públicos, atenta às transformações da sociedade, pluralista e democrática.
Qual é a responsabilidade da fonte neste relacionamento de confiança e interesse? Para além das divergências sobre as "lógicas", existem também responsabilidades em ser fonte. A título de exercício, vamos pensar nessas responsabilidades? Alguns exemplos:
- Uma relação de confiança supõe, claro, que não haja interesse em "usar" a mídia. O movimento de mulheres compreende perfeitamente o valor da luta no campo da linguagem e por isso mesmo deve banir definitivamente estas palavras ao se referir à imprensa;
- Compreender a lógica não significa subordinar-se a ela, mas ganhar noção global, saber identificar o que é, de fato, notícia porque trata do interesse público e o que é apenas importante para aquele grupo envolvido no assunto;
- Ter transparência nas informações. Não, não quer dizer falar tudo que pensa ou sabe, abrir todas as informações que ainda são confidenciais da instituição. Quer dizer ser sincero. "Não, não posso te dar este retorno hoje" é infinitamente melhor do que "vou pesquisar e te ligo em meia hora", já sabendo, de antemão, que não vai dar tempo ou que não vai ligar;
- Ter material para oferecer: preparar-se para o encontro com um jornalista e negar-se a atendê-lo quando não se sentir seguro inclui estar com um material pré-produzido sobre o tema que será abordado. Sem improvisos fica melhor e tem mais chance de dar certo;
- Saber que, do mesmo jeito que a fonte desconfia da qualidade daquele jornalista que está ali na sua frente fazendo perguntas aparentemente tão óbvias, ele também desconfia de você. Na verdade, o bom jornalismo é aquele que desconfia, desconfia e desconfia.
É bom que se registre que nunca o papel da imprensa esteve em tão permanente revisão: há congressos internacionais debatendo o tema, profissionais dedicados a pensar, diariamente, qual é a melhor forma de aproximar os jornais dos seus leitores, do interesse público e de valores éticos e sociais, um esforço nesta direção, mesmo que seja movido por razões de mercado. E que dos jornalistas, todos os dias, cada um de nós deve cobrar a responsabilidade de isenção, imparcialidade, busca de diversas fontes para a cobertura de um assunto, capacidade de observar novos ângulos de um determinado tema e senso crítico aguçado.
Todas estas qualidades estão em questão diariamente na imprensa. É um bom momento, portanto, para abastecer a mídia de reflexões. O Olhar sobre a Mídia é uma iniciativa positiva de media watch que pode contribuir neste debate. Levantamento feito pela Comissão de Cidadania e Reprodução, analisando mais de 7.000 matérias publicadas nos quatro principais jornais brasileiros, nos últimos três anos, sobre saúde reprodutiva e sexualidade, indica que ONGs e movimentos foram fontes de apenas 3% das matérias. Já as publicações científicas foram fonte de 945 matérias, ou 13% do total. O mesmo levantamento permite observar que nessas 945 matérias, 87,5% das fontes são da área das ciências biomédicas, enquanto apenas 4,7% das humanidades. Se ativistas de ONGs e cientistas sociais querem se tornar fontes de notícia, devem começar assumindo a responsabilidade decorrente desse interesse. A viabilidade dessa proposta dependerá da capacidade dos profissionais da imprensa, de um lado, e dos cientistas sociais e ativistas, do outro, de equacionar suas diferentes lógicas e atender tanto aos interesses imediatos dos leitores quanto às necessidades da sociedade em que vivemos.
(*) Secretária-executiva da Comissão de Cidadania e Reprodução
(**) Jornalista
CRIME E TRANSPLANTE
Conseqüências da doação
presumida ou compulsória
Celso Coimbra (*)
Na notícia abaixo, além do que está muito claro há pontos que poderiam ser esclarecidos, pois a matéria não explica o suficiente.
" Suposto tráfico de órgãos é investigado
A Secretária Municipal de Saúde e a Polícia do Rio começaram ontem a investigar a suspeita de tráfico de órgãos no Hospital Municipal Salgado Filho, onde trabalhava o auxiliar de enfermagem Edson Izidoro, 41 anos, casado, acusado de matar 131 pacientes na unidade aplicando injeções letais para receber propinas de funerárias.
O número excessivo de doações no hospital chamou a atenção da polícia: em 1998, foram 104, número 20 vezes maior que o do Hospital Souza Aguiar, que registra um número de óbito maior. Desde a prisão de Izidoro, há quatro meses, a polícia recebe denúncias do suposto tráfico e já ouviu pelo menos 600 parentes de vítimas que tiveram seus órgãos, principalmente córneas, retirados ilegalmente.
O fato levou uma equipe detetives da Divisão de Homicídios da Polícia Civil a pesquisar as fichas de doações do Salgado Filho. Nesta semana, mais um caso foi denunciado à polícia: o do servente Arlindo Nunes Neto. De acordo com a família, Neto foi internado após ser atropelado, morrendo dois dias depois. No velório, parentes teriam observado que as córneas do servente haviam sido retiradas ilegalmente. A denúncia foi anexada aos depoimentos de outros familiares, que relataram casos semelhantes.
A direção do Salgado Filho informou que abriu sindicância para apurar a denúncia. Uma comissão de procuradores do município também analisa as fichas de doações e as mortes ocorridas nos últimos dois anos. Existe a suspeita de que Izidoro estaria envolvido na venda de órgãos na unidade. O auxiliar de enfermagem está preso e aguarda julgamento.
Nos seguidos depoimentos prestados à polícia e à Justiça, Izidoro negou participação no esquema do pagamento de propinas a funerárias e a existência de tráfico de órgãos. Edson Izidoro é acusado de homicídio duplamente qualificado pelas mortes de três pacientes, flagradas pela polícia à época de sua prisão, no início de maio." [Zero Hora, 13/8/99]
Vejam o que significa, na prática que não é bonita, como pretendem ser as teorizações sobre a propriedade da imposição legal de "doação" presumida, em vigor neste país desde 1Ί de janeiro de 1998 , uma das conseqüências de se considerar doador de órgãos, compulsório ou presumido, todo brasileiro que não declarar em sua carteira de identidade civil ou carteira de motorista que não quer ser doador de órgãos.
Muitos evidentemente não farão essa declaração por causa do sabido transtorno que significa ter que trocar seus documentos e ainda pagar por isso. Mais ainda os que não o farão por absoluta desinformação. E deixarão de fazer não por que queiram ser doadores, mas simplesmente por causa desses transtornos e óbices.
Automaticamente aumenta o número de supostos "doadores" e, então, é suficiente aumentar o número de "acidentes" fatais, dentro e fora de hospitais, para que aumente a "oferta" de órgãos, com incentivos de remuneração a terceiros pelo ato de transferência.
Essa lei, para não mencionar aspectos piores, desde que entrou em vigor passou a representar um estímulo ao tráfico de órgãos, pois o facilitou muito.
Observem que a notícia diz que aumentou o número de doações (o número excessivo de doações chamou a atenção da polícia) no Hospital Municipal Salgado Filho em 20 vezes, comparado com o Hospital Souza Aguiar, que tem o maior número de óbitos do Rio de Janeiro.
No hospital do auxiliar de enfermagem citado, em 1998 houve 104 doações. Quantos transplantes foram feitos com os órgãos dessas vítimas naquele hospital? Pergunta tão ridícula quanto óbvia: as pessoas mortas pelo funcionário, antes de serem assassinadas, concordaram em doar seus órgãos?
Elas já eram doadoras forçadas pela lei em vigor... Quantas delas seriam presumidas? Isso não foi, então, fator decisivo para o que aconteceu com elas e dentro de um hospital? E não se deve esquecer que foram 131 casos (conhecidos) num hospital brasileiro, numa das duas mais populosas cidades brasileiras.
Não aconteceu em um campo de concentração político da China, onde é sabido que prisioneiros recebem tiros na nuca antes de parar numa UTI de transplantes, com seus órgãos já vendidos para o mundo inteiro. Não foi na Índia, onde o comércio de órgãos está aceito oficialmente. E observe-se que a notícia oculta o que não é visível. As córneas foram retiradas e notadas ausentes porque não são órgãos internos. E órgãos internos não foram também retirados? Não é muito mais difícil reparar nos velórios a ausência de órgãos internos?
A atividade econômica alternativa do auxiliar de enfermagem Edson Izidoro vitimou 131 pessoas em 1998, até o momento de sua prisão. Isto é, desde o período em que a nova lei de transplantes entrara em vigor. E num hospital.
As investigações da polícia estão retroagindo a um período de dois anos, em que a lei iniciara sua existência, transformando todos os brasileiros em doadores compulsórios ou presumidos. Edson Izidoro certamente apenas captava órgãos, com a alternatividade criminosa que a nova lei dos transplantes proporcionou a essa iniciativa privada. Quanto a quem fazia os transplantes, estão sendo investigados também?
E os receptores, estão sendo investigados? Quem hoje colocar em sua carteira que é doador de órgãos pode-se dizer que se transformou em suicida potencial de carteira assinada. Os que deixarem de declarar que não são doadores enquadram-se no grupo de risco em que foram vitimados os 131 internados em um hospital... dos que se sabe.
A versão das propinas de funerárias não merece crédito.
(*) Advogado
|
|