OFJOR CIÊNCIA

OfJor Ciência 2000 – Oficina OnLine de Jornalismo Científico é uma iniciativa do Observatório da Imprensa, Labjor e Uniemp.


CONFERÊNCIA DE HAIA
Cobertura ordinária e sem rumo

Ulisses Capozoli (*)

A cobertura pífia que a imprensa fez da Conferência de Haia, na Holanda, sobre mudança climática, talvez seja a evidência mais clara de uma atual perda de rumo do jornalismo no Brasil. Pequenas matérias, o suficiente para justificar que se publicou alguma coisa, relegaram o que pode ser o maior desastre ambiental da civilização a um assunto menor, nos quatro grandes jornais do País.

Essa é uma situação preocupante e por isso mesmo deveria merecer a atenção de muita gente. Pesquisadores científicos, das áreas ambientais às ciências do comportamento, nas universidades, poderiam chegar a conclusões interessantes se dispusessem a investigar as razões dessa passividade. Leitores diários deveriam meditar sobre como a imagem, que a cada dia recebem do mundo, pode estar distante de acontecimentos relevantes. Neste caso, a sobrevivência da espécie.

Mais que todos os outros, no entanto, os próprios jornalistas certamente devem refletir, neste mundo de valores mutantes do neoliberalismo, sobre o sentido do trabalho que fazem a cada dia. O jornalismo pode ser uma profissão fascinante. Mas também é perigosamente alienante. A satisfação do lide (as respostas ao "que, quando, como, onde, por que e como" que tradicionalmente devem orientar a abertura de um texto) só é possível no jornalismo. Em nenhuma outra área do conhecimento.

A cobertura malfeita das preocupantes discussões em Haia talvez se explique pelo que se pode chamar de ausência quase completa de jornalismo interpretativo na imprensa nacional.

Jornalismo interpretativo é o caminho natural da imprensa escrita para absorção do impacto da internet. A razão disso é relativamente simples. A internet oferece a seus usuários uma cachoeira de informação. E a dificuldade das pessoas é extrair daí dados capazes de compor um sentido para o mundo.

Jornalismo científico é fundamentalmente jornalismo interpretativo. No jornalismo científico, uma nova descoberta deve ser contextualizada historicamente para mostrar se muda alguma coisa. Se muda, por que muda, de que maneira e com que intensidade isso acontece. Por ser interpretativo, o jornalismo científico pode trazer uma importante contribuição ao jornalismo como um todo.

Por isso é interessante observar que os grandes jornais brasileiros têm suplementos de turismo, informática, televisão, agrícola e adolescente, mas nenhum de ciência. Essa é evidência de um problema crescente, mas nem por isso também debatido: o do analfabetismo científico.

Hipótese de trabalho

Jornalismo interpretativo exige duas condições básicas: um novo tipo de jornalista e uma nova relação de poder no interior das redações. Jornalismo interpretativo, é preciso dizer, não tem relação alguma com jornalismo opinativo, embora muita gente possa confundir-se quanto a isso.

O novo profissional exigido pelo jornalismo interpretativo deve ter uma cultura mais ampla. Deve ser capaz de se dar conta dos grandes desafios de seu tempo e poder localizá-lo historicamente, tanto no passado quanto no futuro. Basicamente, um bom jornalista deve conhecer os clássicos produzidos em cada uma das áreas do conhecimento. De Freud a Darwin, passando Aristóteles, Proust, Dante, Galileu e Isaac Newton.

A nova relação profissional exigida pelo jornalismo interpretativo é de maior autonomia individual. O todo-poderoso chefe de reportagem, da mesma forma que os editores no jornalismo interpretativo, tendem a ser figuras superadas do passado.

Um bom repórter deve ter seu trabalho avaliado pela qualidade de suas informações e a maneira como as utiliza para formar uma visão de mundo, junto aos seus leitores. Algo parecido a uma hipótese de trabalho, numa investigação científica, ainda que ciência e jornalismo estejam muito longe de significarem a mesma coisa.

Nada exótico

Por que a conferência de Haia foi desprezada pela imprensa diária e como os assuntos que foram discutidos nesse encontro afetam o Brasil e o mundo?

O desprezo, de alguma maneira, está ligado à desinformação. O que alimenta a mídia neste momento é basicamente o exotismo inconseqüente. Qualquer jornal, mesmo os maçudos exemplares dominicais, podem ser lidos em meia hora. Raramente trazem assuntos de interesse.

Além disso, enviar repórteres para cobrir encontros desse tipo custa alguma coisa, sem dizer que o exotismo se orienta por soluções fáceis. A mudança ambiental em curso, na interpretação majoritária dos climatologistas, não tem nada de exotismo, ainda que há bem pouco tempo pudesse parecer ficção.

Na verdade, em 1896, o físico-químico e Prêmio Nobel sueco Svante Arrherenius escreveu um artigo especulando sobre o aquecimento da Terra provocado por uma crescente liberação de gás carbônico na atmosfera. Antes disso, em 1863, o físico inglês John Tyndall também examinou a questão num artigo na Philosophical Magazine.

Tyndall, que como Arrhenius interessou-se pelas origens da vida, analisou o vapor d’água como agente do efeito-estufa. Mas foi só em meados dos ano 70 que o efeito-estufa atraiu a atenção da comunidade internacional de climatologistas. Enquanto a participação do gás carbônico (em partes por milhão, ppm) subia, nas amostras coletadas em todo o mundo, ficavam claros os indícios de um aquecimento artificial, rápido e perigoso da Terra.

Na abertura do Copa do Mundo de futebol, em 1970, o desabamento do gelo do topo de um nevado soterrou pelo menos 30 mil pessoas na cidade de Yungai, no Peru.

O espetáculo do futebol obscureceu a catástrofe, até porque ela ocorreu num país do Terceiro Mundo. Nos anos 90, o acidente de Yungai já estava interpretado como conseqüência do efeito-estufa. Nevados andinos e todos os cumes montanhosos do mundo estão se dissolvendo como conseqüência do aquecimento da atmosfera. Um sismo eventual pode trazer uma avalanche destruidora de gelo devastando tudo à sua passagem.

Pessoas não habituadas a temas científicos talvez tenham certa dificuldade para compreender o significado do efeito-estufa. Um jeito simples de compreender como ele funciona é permanecer por algum tempo no interior de um automóvel fechado e exposto a um dia de sol abrasador. Em pouco tempo, o interior do veículo fica irrespirável e se o observador insistir no experimento, pode perder os sentidos e morrer.

Isto é o que pode acontecer com a Terra se as emissões de gás carbônico, o elemento que captura o calor solar reemitido pela superfície da Terra, não forem contidas.

Mais informação

Em 1995, quando foi feito o primeiro encontro sobre mudança climática, em Berlim, na antiga Alemanha Ooriental, os cenários desenhados pelos climatologistas europeus, norte-americanos e japoneses era assustador. De lá para cá, as previsões só pioraram.

Em resumo, os modelos prevêem que todos os países do mundo serão afetados pelo efeito-estufa. Mas não haverá um aquecimento global do mundo. Como resultado de mudança nos regimes de ventos e correntes marítimas, determinadas regiões podem esfriar.

Alguns países podem até ser beneficiado pela mudança climática. Certos modelos prevêem que as terras geladas da Sibéria, por exemplo, poderiam transformar-se em promissores campos de milho. Em compensação, áreas que hoje alimentam o mundo, como o Meio-Oeste dos Estados Unidos, poderiam perder toda sua produtividade.

O castigo maior, sugerem os modelos climatológicos desde 1995, deverá desabar sobre os países do Terceiro Mundo, devido à ausência de infra-estrutura mínima, uma delas a falta de informação.

Chuvas torrenciais, e por isso mesmo destruidoras, estão entre as ocorrências previstas por esses modelos. Se for considerado que boa parte da população brasileira, ao menos nos grandes centros urbanos, vive em áreas de risco é praticamente certo que as mudanças climáticas trarão muitas mortes nessas regiões.

Mas haverá perdas maiores se a temperatura subir 6 graus Celsius até o final do próximo século. Esta variação pode parecer pequena, mesmo ao longo de um único dia. Como variação global média, no entanto, será uma catástrofe capaz de fazer subir o nível dos oceanos em até 75 centímetros – e isso num processo aparentemente irreversível que inclui o derretimento das calotas polares.

Os modelos precisariam ser bem mais avançados para poderem prever toda a destruição com que acena o aquecimento global. Incêndio de florestas, mortes de seus habitantes e perda definitiva de biodiversidade é uma outra delas.

A alternativa disponível atualmente para reduzir o gás carbônico atmosférico, além de diminuir as emissões, é aumentar a área florestada do planeta. O plantio de árvores em áreas degradadas pode não só seqüestrar o gás carbônico atmosférico como devolver a vida a ambientes que hoje parecem estéreis.

Para que a sociedade se dê conta dessas possibilidades, no entanto, é preciso informação. É preciso que as pessoas saibam que há apenas 12 mil anos, quando foi fundada a agricultura, terminava última glaciação e o gelo, arranhando a terra com suas garras afiadas, recuava lentamente para os pólos.

(*) Jornalista especializado em divulgação científica; mestre e doutorando em ciências pela Universidade de São Paulo



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