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DENGUE
Informação contra a epidemia
Aurea M. da Rocha Pitta (*) e Valdir Castro de Oliveira (**)
Estratégias de comunicação frente ao desafio do Aedes aegypti no Brasil
O grave e crescente aumento no país das taxas de incidência da dengue clássica e hemorrágica e os crescentes riscos de reintrodução da febre amarela urbana no país vem desafiando os governos membros da Organização Panamericana de Saúde, o Conselho Nacional de Saúde e o Ministério da Saúde do Brasil, à implementação de um plano nacional de erradicação do Aedes aegypti [Ministério da Saúde, Plano e Erradicação do Aedes aegypti no Brasil, 1996].
Parte de um panorama mais amplo que se desenha na América Latina e Caribe onde grandes epidemias têm sido notificadas em 12 países, a dengue tem sua disseminação assegurada pela grande dispersão e densidade da população do mosquito Aedes em quase todos os países do continente americano [segundo o press release W.H.O.\72 de 28\9\95, de janeiro a setembro de 1995 mais de 140.000 casos de dengue e mais de 3.600 casos de sua forma hemorrágica foram notificados à OPAS, com 36 mortes].
No Brasil, o vetor pode ser identificado em 25 estados e em 1.522 dos quase 5.000 municípios, nos quais 19 estados já apresentaram epidemia de dengue clássico e 2 da forma hemorrágica da dengue [Ministério da Saúde, Plano de Erradicação do Aedes aegypti no Brasil, 1996]. Discriminados por Unidades da Federação no período 1994-1995, estes dados mostram por exemplo que, na Bahia que registrou 1892 casos em 1994 este número cresceu assustadoramente: 34.507 casos em novembro de 1995. No Rio de Janeiro, de 337 casos em 1994 ocorreram 26.413 em 1995. Do total de casos notificados desde 1982, o Rio de Janeiro apresenta um total de 222.976 (47% do total nacional de casos) enquanto o Ceará totaliza 102.585 (21%) e a Bahia, 37.022 (7,8%).
Sendo das doenças transmitidas por vetores a que apresenta maior potencial de crescimento, a dengue tem sua disseminação diretamente relacionada com a existência de criadouros de mosquitos em espaços intra e peri-domiciliares e o seu controle condicionado pela eficácia das ações de Vigilância Entomológica, Epidemiológica, de combate a focos do Aedes, bem como por investimentos públicos em saneamento básico e infra-estrutura urbana. Concorrem ainda para uma menor ou maior velocidade de disseminação do vetor e conseqüentemente da doença, a intensidade dos grandes fluxos sociais entre áreas geográficas com diferenciais de dispersão do vetor e do vírus.
Desnecessário lembrar que este quadro se desenha num panorama epidemiológico preocupante, onde outras doenças interpretadas como banidas ou sob controle como a tuberculose, a hanseníase e a cólera retornam ao cenário nacional (ver tabela). Ao lado da AIDS, estas doenças têm provocado efeitos devastadores na vida cotidiana do cidadão brasileiro, em especial da população de baixa renda e nos cofres públicos já pressionados por necessidades de aumento dos investimentos no campo da atenção às doenças crônico-degenerativas e agravos por causas externas.
Coeficientes de incidência de algumas doenças endêmicas
Brasil, grandes regiões, 1980\1981 e 1990\1991
Coeficientes por 1.000 habitantes
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Endemias
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Período
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Norte
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Nordeste
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Sudeste
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Sul
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C.Oeste
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Malária
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1980\1981
1990\1991
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2.300,4
3.636,6
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64,9
70,8
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3,3
3,9
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8,0
13,8
|
244,8
1.585,8
|
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Meningites
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1980\1981
1990\1991
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5,9
7,2
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6,3
10,5
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13,7
14,1
|
16,3
17,0
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11,5
4,0
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Tuberculose
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1980\1981
1990\1991
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96,1
62,3
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70,4
52,3
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41,8
37,7
|
45,4
29,2
|
45,5
35,5
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Hanseníase
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1980\1981
1990\1991
|
50,4
51,9
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6,2
19,4
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12,7
14,2
|
8,4
7,8
|
30,8
42,8
|
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Leish. Tegumentar
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1980\1981
1990\1991
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39,5
66,6
|
4,3
26,0
|
0,9
3,4
|
0,9
0,4
|
2,7
28,2
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Calazar
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1980\1980
1990\1991
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-
0,4
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0,7
3,0
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-
0,3
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-
-
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0,1
0,1
|
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Cólera
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1980\1981
1990\1991
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-
31,6
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-
34,5
|
-
0,0
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-
-
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-
0,0
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Dengue
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1980\1981
1990\1991
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-
11,0
|
-
25,5
|
-
85,0
|
-
-
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-
32,6
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Fonte: CENEPI/MS. Informe Epidemiológico do SUS, ano
1,n.1, 1992 e Ano 2,n.3, 1993.
Mas talvez a dimensão mais complexa a ser debatida no caso das doenças e agravos preveníveis, sejam os modos como indivíduos ou grupos interpretam atribuem sentidos à doença, às situações de risco vivenciadas e às possíveis soluções cotidianas com vistas à prevenção das mesmas. Diferentemente dos problemas mais estruturados para os quais são indicadas ações operacionais de intervenção mais precisas e com resultados mais previsíveis, os infinitamente variados processos de atribuição de sentidos ao que seja estar inserido em uma dada situação de risco e a (também infinitamente variada) gama de microdecisões cotidianas com vistas a solução destas situações por parte de indivíduos ou grupos são, por sua natureza não estruturada e imprevisível, um permanente desafio às tradicionais técnicas comunicacionais e educativas de intervenção das instituições de saúde. [A terminologia "problemas estruturados" e "problemas não estruturados" é utilizada aqui numa alusão à obra de Carlos Matus. Para o autor de Politica y Plan e de La Planificación de Situaciones, entre outras obras mais recentes, problemas estruturados seriam aqueles cujas determinações e variáveis são bem conhecidas e facilmente identificáveis pelos atores que planejam; como, por exemplo, a extensão da rede de distribuição de água; os problemas não estruturados ou quasiestruturados seriam, ao contrário, problemas mais complexos, de fronteiras difusas, atravessados por permanente incerteza e instabilidade, como os processos comunicacionias aqui tratados.]
No caso da dengue e da febre amarela urbana, são formas cotidianas, corriqueiras, ritualísticas de lidar com possíveis criadouros de um transmissor praticamente invisível o Aedes talvez o mais complexo problema a ser enfrentado no controle do vetor e assim no combate a doença.
Dada à expectativa que permanentemente se deposita nas estratégias de comunicação como estratégias de intervenção social no combate às doenças e agravos chamados preveníveis, pretende-se neste texto desenvolver algumas reflexões sobre estratégias de comunicação no combate à dengue e à reintrodução da febre amarela urbana: de um lado, analisar a natureza, as necessidades e os limites da utilização dos meios de comunicação de massa uma das mais importantes instâncias de construção de sentidos e significados sociais nas sociedades modernas; de outro, analisar a complexidade e incertezas permanentes que são inerentes à comunicação como prática social.
Enfim, uma discussão preliminar que esperamos poder contribuir para os processos, em curso, de planejamento e desenho de estratégias de comunicação pelas instituições governamentais e não governamentais, entidades, movimentos e indivíduos empenhados na erradicação da dengue e na prevenção ao risco de reintrodução no país da febre amarela urbana no Brasil.
Meios de comunicação e estratégias institucionais
A crescente complexificação dos processos de interação entre pessoas, grupos e sociedades na contemporaneidade provocou, principalmente durante e após as duas grandes guerras mundiais, a constituição de uma nova especialização das ciências: um campo de estudos estruturado que passou a se ocupar de explicações acerca do comportamento humano no sentido de tecer previsões e intervir sobre este comportamento.
Embora o desenvolvimento desses estudos tenha ocorrido em vários países, foi nos Estados Unidos que eles se tornaram mais conhecidos e aglutinadores do esforço de vários cientistas sociais, como Daniel Lerner, Wilbur Schramm, Bernad Berelson e Paul Lazarsfeld, entre outros. Buscaram eles compreender a função, a influência e o alcance dos meios de comunicação de massa que não só se tornavam mais sofisticados tecnologicamente a cada dia, mais tornavam um crescente número de pessoas expostas às suas mensagens.
Inicialmente a preocupação foi entender a lógica do impacto das estratégias de propaganda dos países envolvidos nos conflitos bélicos ou na luta pela hegemonia ideológica (propaganda comunista, fascista, de grupos terroristas e movimentos nacionalistas, por exemplo). Mais tarde, as preocupações se voltavam para a análise dos conteúdos das mensagens dos meios de comunicação analysis contents , que buscavam entender o significado, latente ou manifesto, das mensagens veiculadas e o seu possível grau de influência no comportamento das pessoas.
Durante a Guerra Fria, os esforços de estudar os media se exacerbam e passam a ser acompanhados de projetos estratégicos de comunicação desenvolvidos pelas partes deste conflito não formalmente declarado: quando os soviéticos colocam em órbita da terra o primeiro satélite artificial o Sputnik transformam este acontecimento em uma massiva propaganda sobre a superioridade de seu sistema político, social e científico, o que será redobrado quando da colocação do primeiro homem no espaço Iuri Gagarin.
A mobilização para esta "guerra dos sentidos" será dada quando os Estados Unidos levam o primeiro homem à Lua em 1969: todo o aparato e tecnologia de comunicação disponíveis serão destinados à cobertura do acontecimento. Mas será a TV, a estrela do novo universo mediático. A simultaneidade do feito, agora transmitido não apenas em som, mas em imagens, levou a humanidade a dividir com os astronautas a emoção de pisar na Lua: agora tempo e espaço se comprimiam pela simultaneidade entre o fato e sua extensão para o mundo.
Mas a chamada guerra dos sentidos não privilegiou apenas os estados modernos. Grupos terroristas passam a se dar conta de que suas ações se tornariam inócuas se não desaguassem na esfera pública única forma de marcarem sua existência e tornar suas causas conhecidas. As brigadas vermelhas que atuaram na Itália na década de 70, por exemplo, tinham uma clara noção desse potencial dos meios de comunicação de massa. A cada ação desenvolviam um cenário espetacular, infalivelmente transmitido pelos media do mundo inteiro.
Convidado pelas autoridades italianas para emitir um parecer sobre a estratégia terrorista, Marshall McLuhan afirmou ser necessário "cortar o cordão umbilical" que estimulava os atos terroristas: não deixar que tivessem acesso aos meios de comunicação através da censura se fosse o caso. Embora tenha oferecido uma solução eticamente questionável, McLuhan acabou tocando no cerne do novo problema: nestes exemplos como em tantos outros, o que está em jogo é a visibilidade de idéias e ideologias, no âmbito da esfera pública.
Com a complexidade das sociedades contemporâneas e o infinito número de discursos e mensagens que nelas circulam, qualquer instituição, partido político, empresa, personalidade ou movimento social que pretenda dar visibilidade na esfera pública a conceitos, posições, opiniões, recomendações, informações, alertas à população, deve se valer de estratégias de comunicação com a sociedade de forma a garantir que seu discurso se destaque efetivamente dos outros. Sem estratégias de comunicação junto aos meios de comunicação de massa pública, dificilmente as instituições públicas poderão transformar questões de interesse social em temas que assumam significado na agenda pública. Tampouco poderão se defender de críticas, dar visibilidade sobre sua atuação ou ainda transmitir informações sobre os produtos ou serviços por elas oferecidos.
No caso das campanhas públicas, dificilmente obterão apoio, adesão ou legitimidade junto à população para suas ações: por mais justas que estas sejam, só passam a adquirir existência pública quando se destacam na exuberante floresta de signos que caracteriza a sociedade contemporânea.
Na grande maioria das vezes este jogo de visibilidades depende da relação entre instituições públicas e o campo dos media, já que nenhuma organização pode depender exclusivamente da iniciativa dos meios de comunicação de massa para fazer circular mensagens e discursos de seu interesse ou de interesse do público a que presta serviços. Em conseqüência a tendência atual dos setores sociais (instituições públicas, privadas, movimentos sociais) é a criação de espaços institucionais especializados capazes de acionar uma diferente gama de recursos estratégicos entre os quais aqueles capazes de interferir na agenda dos meios de comunicação. Tanto o envio de notícias releases , como a criação e promoção de fatos e eventos capazes de se transformar em notícia, ou ainda a produção, veiculação, distribuição e avaliação permanente do impacto de diferentes estratégias institucionais de comunicação, passam a depender da competência e dos recursos técnicos, financeiros e de poder colocados à disposição destes setores especializados. Sem isto, os objetivos de uma organização quaisquer que sejam eles e qualquer que seja a natureza da instituição (serviço de saúde, igreja, sindicato, instituição pública, universidade, escola, partido político, grupos de interesse diversos, candidatos) se tornarão inócuos diante da avalanche discursiva dos outros setores e campos sociais, fazendo com que sua imagem, existência pública, bem como os próprios produtos, serviços, programas e/ou ações de que se vale para fazer frente aos problemas sociais em que se propõe intervir tornem-se desconhecidos, dificultando o próprio processo de legitimação da instituição junto à sociedade.
Estas considerações são especialmente fundamentais para instituições de saúde. Se tomarmos como exemplos o caso da AIDS a "campanha do Bráulio" veiculada em 95, e a campanha do SUS Sistema Único de Saúde veiculada em janeiro\fevereiro de 96, pode-se constatar que estas estratégias terminaram por esbarrar em discursos e contra-discursos de outros atores sociais: aqueles insatisfeitos com a propaganda ou, para os quais, as peças publicitárias assumiram outros sentidos: nos casos citados, os cidadãos chamados "Bráulio" no país e a Associação Médica do Rio Grande do Sul/Conselho Nacional de Autoregulamentação Publicitária (Conar) respectivamente, com interpretações não previstas pelos planejadores das campanhas. Estes casos recentes nos alertam para o fato de que qualquer estratégia de comunicação destinada ao chamado grande público deve levar em consideração uma grande gama de variáveis que vão interferir não apenas no campo da circulação dos discursos e mensagens que constituem a polifonia social e os múltiplos interesses aí presentes, mas também nos próprios processos de apropriação destes discursos e mensagens.
Pode-se observar, no entanto, que algumas campanhas governamentais são consideradas eficazes. As campanhas de vacinação, por exemplo, conseguem obter extensos espaços nos veículos de massa e noticiários nacionais, regionais, municipais e locais, contribuindo para melhorar o universo informacional e as condições de saúde da população. No entanto, ao contrário das campanhas "do Bráulio" e "do SUS", estas campanhas trabalham com noções consensualmente presentes no horizonte cultural da população, criando possibilidades concretas de construção de vínculos sociais entre a informação e a procura pela população da infra-estrutura municipal ou inter-municipal montada para dar concretude à ação "vacinar". As metas institucionais de erradicação assumem assim maior eficácia já que são sustentadas, ao menos em tese, por uma rede de distribuição de vacinas de qualidade, pessoal qualificado para a aplicação da vacina, identificação dos postos de saúde ou de vacinação no espaço urbano através da divulgação dos locais de vacinação por meio de faixas, folhetos, cartazes, jornais, rádios , exigência dos cartões de vacinação pelas escolas públicas e privadas como pré-condição de matrícula, entre outras estratégias.
No entanto, é fundamental destacar que as ações ou práticas de prevenção bem sucedidas, para além dos necessários consensos e infra-estrutura urbana de serviços que possam lhe dar concretude, estão intimamente relacionadas com processos sociais mais complexos de atribuição de sentidos e realização de práticas sociais que pertencem a uma dimensão da realidade "dispersa e silenciosa", como diria Michel de Certau e de permanente (re)invenção do cotidiano, onde estão presentes as sutilezas, táticas, resistências "através das quais o homem comum altera permanentemente seus objetos, códigos e espaços" como forma de construir o cotidiano (Certeau, 1994).
No caso da vacinação, estes "modos de fazer" são engendrados ao interior de redes de relações, responsabilidades, solidariedades em torno da criança: mães, pais, responsáveis, amigos, professores, escolas, tias, tios, avós, vizinhos, igrejas, instituições de apoio à infância, através das quais o sentido da importância da vacina é permanentemente negociado e reconstruído culturalmente ao longo do tempo como um inquestionável bem público. Neste caso, há uma baixa probabilidade da ação "vacinar" se tornar uma questão polêmica, questionável, a merecer resistências por parte da maioria da população.
Diferentemente, no caso da campanha do SUS, a constatação e/ou a memória de acontecimentos divulgados pela grande imprensa sobre a existência de filas, mortes por demora do atendimento, negligência, corrupção, falta de verbas públicas objetos preferenciais da cobertura dos media acabam por construir consensos negativos em torno dos serviços prestados pelo sistema público. A polêmica ideológica nestes espaços em torno da sua plena implantação é cotidianamente associada mesmo com os avanços conquistados em alguns municípios à uma concreta falta de adequação dos serviços públicos existentes às necessidades de saúde concretas da população.
Independentemente do mérito de cada questão, o que se quer aqui em primeiro lugar, é ressaltar a necessidade de que, no planejamento e desenho de estratégias de comunicação, os núcleos institucionais emissores não só tornem visíveis seus discursos e mensagens no espaço polifônico da chamada esfera pública mas que esta visibilidade corresponda à uma concretude das ofertas de serviços e produtos. Em segundo lugar, que o sentido atribuído a estas visibilidades possam engendrar ou fortalecer "formas de fazer", inventividades cotidianas compatíveis com aquilo que seria desejável no campo da prevenção: um "desejável" que não pode ser prescrito, mas consensualmente construído, no interior de redes ou circuitos interativos nos quais se expressam modos peculiares de vida construídos historicamente e ritualisticamente ao longo de processos também peculiares de organização rural e de ocupação dos espaços das cidades. Espaços assim, "carregados de sentidos" e de embates de diferentes ordens: microeconômicos, afetivos, de poder, de sonhos, desejos, intimidades, silêncios, microconflitos, acordos, disposições e indisposições, crenças e descrenças. Redes ou circuitos comunicação que resultam de formas específicas de construção da sociabilidade. Expressões de lugares que são sociais, singulares e dotados de tensões permanentes entre processos de significação.
Como propõe Minayo, a dimensão cultural a ser necessariamente introduzida no conceito de Saúde demarca e amplia as possibilidades de articulações da realidade social, já que não é lugar de um subjetivismo, mas abrange uma objetividade com a espessura que tem a vida e por onde passam o econômico, o político, o religioso, o simbólico e o imaginário: um lugar dos conflitos, das tradições e onde tudo ganha sentido (Minayo, 1992). Assim, a compreensão cada vez mais profunda do papel dos meios de comunicação de massa na sociedade brasileira contemporânea não permite, como propõe Paiva, defini-los como os únicos circuitos comunicativos dos quais se serve uma população (Paiva, 1995).
Apesar da necessidade de observação destas questões de fundo que devem servir de ponto de partida para a compreensão dos processos de comunicação, é fundamental ainda destacar que cada problema de saúde apresenta especificidades epidemiológicas, redes de atores sociais e de mediações específicas, disponibilidades tecnológicas de intervenção concretas e inúmeras outras variáveis que se desenham a partir dos contextos nos quais estes problemas acontecem e os planos de intervenção são construídos. Assim, cada problema de saúde, deve ser tratado em sua totalidade e especificidades, dimensões que demandam uma permanente análise de suas complexidades e singularidades, a serem coletivamente consideradas em momentos anteriores aos do desenho de estratégias de comunicação mais adequadas a determinados contextos e situações de intervenção.
Acrescenta-se a isto o fato de que, em se tratando de problemas de saúde, para os quais a dimensão cultural assume cada vez mais relevância, as dimensões não estruturadas destes problemas ou suas "imprecisões" guardam sempre surpresas: nem sempre aí as práticas sociais ou os comportamentos como querem alguns se organizam nos moldes pretendidos por estrategistas "de gabinete". Isto se deve à natureza mesma de não previsibilidade, de incerteza, ou de um estado de permanente tensão entre sentidos, discursos e práticas sociais. Uma dimensão comunicacional não instrumental e constitutiva dos processos saúde-doença e das práticas sociais e assim inerente à uma heterogênea e multifacetada gama de microdecisões cotidianas que dão concretude à ações sociais e microsoluções com vistas, por exemplo, à eliminação de potenciais criadouros ou focos de mosquitos.
Ao propor uma aproximação a um novo paradigma para a epidemiologia que possa lidar com objetos "insubordinados", Almeida Filho chama a atenção para a necessidade de construção de uma "etnoepidemiologia" como prática de natureza interdisciplinar que parte do pressuposto de que os fenômenos saúde-doença devem ser concebidos como processos sociais: "...históricos, complexos, fragmentados, conflitivos, dependentes, ambíguos, incertos" (Almeida Filho, 1992).
Longe de se propor uma imobilização diante destas dimensões de indeterminação ou incerteza, o fundamental, dada a importância social dos investimentos em controle das doenças preveníveis é, ao invés de expurgar este "incômodo" como na perspectiva determinista, trazê-lo como dimensão a ser considerada no planejamento e desenho de estratégias de comunicação.
Lidar com a complexidade e com a incerteza talvez seja o novo e grande aprendizado do profissional de comunicação que se dedica à questões de ordem social como a saúde.
Esfera pública, atores sociais e consensos
Se no caso da Saúde dadas as especificidades epidemiológicas, políticas, culturais, sociais o processo de definição de estratégias de comunicação depende de uma permanente análise ou explicação do problema de saúde a ser enfrentado à luz de suas incertezas, especificidades e de um determinado contexto específico (nunca estático, mas em permanente movimento e transformação no tempo), uma segunda necessidade dentro deste processo dinâmico que é planejar seria a identificação das diferentes redes de mediações sociais às quais estarão referidos o "plano" e as estratégias de comunicação a serem permanentemente redesenhadas a partir das dinâmicas sociais, descobertas e inventividades de diferentes segmentos sociais em relação ao problema.
Se no caso da erradicação do Aedes aegypti as estratégias junto aos meios de massa nacionais, regionais ou locais são fundamentais para dar visibilidade aos discursos institucionais e às informações de interesse público, estas estratégias devem, no entanto, ser entendidas como uma forma de apoio a ações concretas que ocorrerão no âmbito do município, e que devem estar nucleadas a partir desta rede de mediações.
Assim, no que diz respeito ao plano e às estratégias municipais de comunicação para a erradicação do Aedes, não basta que estes sejam formulados por especialistas, de forma centralizada. A cultura institucional de formulação centralizada de planos e estratégias de comunicação social tem, no caso do combate ao Aedes, um excelente pretexto para ser rompida. Desta forma, uma primeira questão a ser discutida seria o protocolo ou modelo em comunicação a ser instituído entre governo e população: compreender o munícipe não como "instrumento" a ser utilizado para o cumprimento do plano e suas normas, mas como sujeito dos processos de tomada de decisão e dos desenhos operacionais das ações de erradicação de criadouros do vetor a serem implementadas em âmbito municipal, distrital ou local. Se operacionalizar este processo não é simples, por outro lado nenhuma estratégia comunicacional de larga escala e longo prazo poderá ser implementada sem que esteja sustentada por uma rede de mediações, inventividades e solidariedades desse tipo.
Não se trata portanto de, num primeiro momento, "produzir materiais educativos em linguagens criativas, adaptadas à realidade local" com vistas a transferir conhecimento sobre o problema, mas de inverter esta lógica: traçar planos locais de comunicação que, já na sua elaboração, contemplem aquilo que à população local, através de seus sistemas de representação, atribuição de sentidos e inventividades, pertence: o conhecimento de como se constituem, nos diferentes espaços de circulação das cidades, bairros, espaços de trabalho e moradias, os focos do vetor, suas relações com os mesmos, e possíveis e mais permanentes soluções para eliminá-los.
Na construção desta rede de mediações e inventividades é fundamental destacar o papel dos Conselhos de Saúde Conselhos de Unidades de Saúde, Conselhos Distritais, Conselhos Municipais. Por incorporar representantes de movimentos e entidades já nucleados em torno da saúde são a nosso ver o espaço a ser privilegiado como ponto de partida para a elaboração de planos, estratégias e desenho do que poderá se tornar uma rede social de comunicação, vigilância e controle do Aedes.
É necessário ainda ressaltar que, quando se fala em comunicação, por mais que possa ser fundamental a criatividade das campanhas massivas de construção de "consensos mínimos" em torno das necessidades de combate à doença, esta criatividade e esses consensos não podem tudo. Apenas através de um planejamento descentralizado no sentido de considerar outros atores também criativos no processo, que considere os diferentes ângulos e formas de lidar com o problema "Aedes", de um protocolo não utilitarista de comunicação junto a diferentes segmentos sociais e do entendimento que os processos sociais criativos não se encontram "aprisionados" nas estratégias de publicidade utilizadas por organizações governamentais e não governamentais de Saúde, se poderá aumentar o alcance social e perenidade de uma "rede nacional de soluções" para o problema e a eficácia de um plano nacional de erradicação do vetor.
No caso da dengue e da febre amarela urbana, acreditamos que um "dia D" de combate ao dengue não basta. É necessário implementar estratégias de caráter mais permanente e que partam do mundo das "invenções" do "outro". No caso da comunicação de massa, ao ator social "editor de jornais de grande circulação e telejornais", por exemplo, possam talvez corresponder estratégias de acesso permanente a múltiplas "fontes" de informação, bases de dados e mapeamentos sócio-espaciais da doença, dos serviços existentes para fazer frente à ela, da dispersão e densidade de seus vetores, além dos tradicionais releases que servem a questões mais pontuais. Isso permitiria maior rapidez, autonomia e criatividade nos processos de trabalho nesses meios. A organização de uma rede de "unidades sentinela" como uma rede nacional e articulada de comunicação que possa dar visibilidade mais imediata a eventos epidemiológicos poderia talvez possibilitar uma análise permanente pela população, governo e meios de comunicação, dos resultados dos esforços de erradicação. A organização de uma rede permanente e articulada de unidades de saúde e de ensino que permita ao professor e ao aluno de primeiro, segundo e terceiro graus acesso permanente a redes de informações locais sobre a epidemia pode viabilizar uma forma mais autônoma, inventiva e propositiva de desenvolver atividades educacionais e de iniciação à pesquisa nas instituições formadoras. Da mesma forma, a identificação de novas formas mais populares, corriqueiras, criativas de lidar com o combate ao vetor podem viabilizar políticas de comunicação para a promoção da saúde mais coerentes com o que se passa na vida da população.
É necessário, finalmente, compreender os movimentos sociais hoje representados no SUS através dos Conselhos de Saúde como uma importante e articulada rede de comunicação e de exercício da cidadania, fundamental ao processo de institucionalização democrática no país e assim capaz de formular, junto às áreas técnicas da saúde, possibilidades concretas de ação em âmbito municipal, distrital e local. Formulações possivelmente mais lentas, porém capazes de provocar impactos mais efetivos e perenes no modelo de atenção à saúde e, como no caso aqui tratado, no combate ao Aedes: não se trata de produzir "doutores" em dengue, mas sim agentes sujeitos dos processos de combate ao vetor.
Para tanto, caberia às Secretarias Estaduais e ao Ministério da Saúde não o planejamento e execução de estratégias sobre os municípios, mas o aporte de infra-estrutura, recursos, assessorias e formação para o planejamento e desenho de estratégias de comunicação em âmbito municipal e local, bem como uma Coordenação estadual e nacional com vistas a um permanente intercâmbio de experiências, publicações, informações e formação.
Isto significaria não pensar as estratégias de comunicação apenas do ponto de vista dos meios de comunicação de massa e das técnicas laboratoriais de linguagens, mas sim, pensá-la como um processo de toda a sociedade: mais amplo, criativo. De uma relação permanente entre sujeitos sociais de onde emergem investimentos práticos e simbólicos nos espaços-sociais onde circulam dialeticamente seus interesses e desejos. Desta forma queremos dizer que os novos atores da saúde não podem mais ser pensados de forma abstrata ou a partir de boas ou más intenções das autoridades governamentais: estão concreta e institucionalmente representados nos milhares de conselhos municipais de saúde do país. Nenhum plano ou campanha de saúde pode mais negligenciar esta realidade que está a modificar a tessitura das arenas políticas no campo da saúde. É este o terreno propício para se cultivar, dialeticamente, o binômio saúde e cidadania e dar significado concreto à retórica do SUS.
Finalmente, é necessário insistir, que qualquer das ações, por mais que sejam definidas a partir de redes sociais representativas em cada espaço de um dado município, não garantem transformações lineares no mundo das práticas ou fazeres cotidianos ditos "não estruturados". Se é neste âmbito que se dá a efetivação de uma menor ou maior permanência de práticas já ritualizadas pela população, é a construção de novos rituais cotidianos ou a visibilidade de alguns já instituídos pela população mais do que ações pontuais em momentos de campanhas e mobilizações nacionais o grande desafio a ser enfrentado, pois necessitam contar com "o que não tem controle nem nunca terá": a dimensão "não pensada" das práticas sociais. Um mundo onde se efetivam concretamente as decisões e soluções cotidianas do problema e que processa o novo a partir de velocidades e certezas diferentes daquelas de quem tem a pressa necessária, mas muitas vezes (lamentavelmente) cega que caracteriza o espaço de formulação de planos e projetos de intervenção voltados para as áreas sociais e da saúde. Certezas e velocidades que encontram por toda parte, como propõe Michel de Certeau, uma espécie de elemento móvel: uma dimensão onde o cálculo entra mas se perde. Um cálculo que encontra em nossos mapas, como propõe o autor, aquilo que se chama cultura: "...fluxo e refluxo de murmúrios nas regiões avançadas da planificação."
(*) Pesquisadora do Departamento de Comunicação e Saúde do Centro de Informação Científica e Tecnológica da Fundação Oswaldo Cruz. E-mail: <pitta@dcc001.cict.fiocruz.br>
(**) Professor titular do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais, membros do GT Saúde e Comunicação da ABRASCO
Referências
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Certeau, Michel A Cultura no Plural, Campinas, SP: Papirus, 1995.
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Ficher, TÂnia e Carvalho, Juvenilda Poder local, redes sociais e gestão pública em Salvador-Bahia" IN: Ficher, Tânia (org.) Poder Local, Governo e Cidadania. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas,1993.
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