OFJOR CIÊNCIA
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RUPPERT SHELDRAKE
Mistificador bem-intencionado
Roberto Mitsuo Takata (*)
Acompanho com interesse os textos de Ulisses Capozoli publicados no O.I., mas um trecho de seu artigo desta semana [ver remissão abaixo] me causou um certo espanto: "Pouca gente lê autores como Ruppert Sheldrake, filósofo e bioquímico inglês que, com apoio em Aristóteles, há muito demonstrou que os genes não podem ser o que se dizia que eram."
Sheldrake filósofo?
Ruppert Sheldrake é um mistificador (talvez bem-intencionado, mas um mistificador) que atualmente prega que cães e papagaios têm habilidades paranormais.
Com apoio em Aristóteles mandou-se muita gente à fogueira por desafiar o modelo heliocêntrico e outros dogmas. Aristóteles é um filosofo muito importante e influente, não um ser de perfeição divina. Com apoio em Aristóteles, Sheldrake diz que as pessoas podem perceber sem ver que outras pessoas a observam – falando que o ato de ver não é passivo, mas envolve a emanação de algo de volta do objeto.
Há muito tempo, bem antes do próprio Sheldrake, a genética demonstrou que os genes não são o que os jornais (hoje) dizem que são. Só uma interpretação muito ingênua dos genes poderia levar alguém a dizer que os resultados do Projeto Genoma Humano e da Celera Genomics "abalam" os conceitos dos genes.
Desde a década de 1960 não se pensa em um gene/uma característica. Fenômenos como splicing alternativo do ARNm já são conhecidos dos geneticistas há algum tempo – processo que leva à produção de enzimas ligeiramente diferentes a partir de um mesmo gene. A interação gênica e epistasia, então, nasceram praticamente com a genética – reconhecendo que os produtos dos genes interagem entre si na produção de uma dada característica, e que o mesmo produto pode participar de vias metabólicas diferentes. E que o ambiente exerce papel fundamental nesse processo.
Não sei se a culpa seria dos próprios cientistas envolvidos mais diretamente com o projeto – que para venderem seu peixe teriam puxado a brasa para a sardinha dos genes.
Pouca gente lê Sheldrake? Daria graças a Deus se pessoas demais não o lessem, e também a seus congêneres (deixando claro que não se trata de qualquer apologia à censura, apenas desejaria que as pessoas tivessem acesso a informações mais confiáveis).
(*) Mestrando do Instituto de Biologia da USP <rmtakata@altavista.net>
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