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LIVRO VERDE
Tudo bem, tudo mal
Ulisses Capozoli
A Folha, com seus deslizes e alguns exageros, é mais transparente, ao menos do ponto de vista editorial, que seu concorrente direto, o Estado de S.Paulo. O Estadão é hoje o melhor exemplo do coronelismo que derrotou José Bonifácio e o levou ao exílio. Além de vergonhosamente submisso ao presidente da República, procurando a todo custo justificar o injustificável, diminuindo ou exagerando o destaque das notícias de modo a melhor agradar ao presidente, o jornal peca também por deficiência operacional. A Folha noticiou, por exemplo, no domingo (29/8, pág. A8) que "FHC desiste de transpor o rio São Francisco". O Estadão só deu a mesma notícia quatro dias depois. Talvez tenham enviado um funcionário ao presidente para saber se era isso mesmo.
A transposição do São Francisco, pretensa justificativa para minimizar a seca no Nordeste, foi mais uma das promessas de campanha não cumpridas por FHC. Antonio Callado, um dos grandes jornalistas brasileiros, entre outros intelectuais íntegros, escreveu à exaustão que a seca no Nordeste não se limita à oferta de água. O Nordeste, neste começo de século 21, ainda é o curral dos coronéis. Lá é que morrem partidos políticos efêmeros mas nem por isso menos arcaicos como a Arena – e, se a história fizer sentido, deve ser a cova do PSDB.
Mesmo com seus pontos positivos, o problema de estudos como o "Livro Verde", do MCT, é de falta de contextualização. E o ministério, que é parte da estrutura de Estado, não vai questionar suas fundações. Ainda que o estudo fale da necessidade de alfabetização, a clássica alfabetização de saber ler e escrever o próprio nome; da necessidade de as empresas privadas investirem em ciência e tecnologia; e de referir-se ao aporte contínuo de recursos, o documento não questiona a política que o próprio governo adota.
O governo acabou de cortar 100 milhões de reais da área científica, mas o próprio ministro Sardenberg, incensado pela maioria da comunidade científica, se apressou em dizer que está tudo bem. Sardenberg é visto como "ético" e "competente", entre outros adjetivos, o que felizmente é verdade. Mas não deveria ser tão elogiado por isso. É pago para trabalhar e deve trabalhar bem.
Eunice Durham, intelectual respeitada, pediu demissão recentemente do conselho de educação por discordar do que chamou "processo acelerado de privatização do ensino". Os países centrais do capitalismo, especialmente os Estados Unidos, não descuidam da educação pública porque sabem que assim perdem espaço político no sentido amplo deste termo controvertido.
O programa de sensibilização das empresas privadas para investir em pesquisa é outra balela a que muitos se referem por pura conveniência. Os empresários brasileiros são imediatistas, o que significa que querem resultados no curto prazo. E não se pode criticá-los sem reconhecer uma dose de razão. Os governos, especialmente o que está no poder, vive improvisando com o objetivo único de conseguir aplausos, manter pontuação no ibope.

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