|
OfJor Ciência 2001 – Oficina OnLine de Jornalismo Científico é uma iniciativa do Observatório da Imprensa, Labjor e Uniemp.
GORDURA E COLESTEROL
Fantástico, desinformação e descaso
Simone Pallone de Figueiredo (*)
Escrever sobre ciência não é tarefa fácil para os jornalistas. Menos ainda para aqueles que não trabalham especificamente na cobertura de fatos ligados à área. Mas por que não buscar informações corretas, não confirmar com os especialistas se o teor da reportagem está correto? Por que insistir em criar sensasionalismo sobre temas importantes que deveriam ser analisados com seriedade e não como uma manchete de grande apelo?
No mês de julho, o Fantástico, da Rede Globo apresentou em três programas seguidos o "teste da gordura" [veja remissão abaixo], com o objetivo de informar aos telespectadores a quantidade de colesterol e gordura saturada de carnes de diversas espécies, entre elas a bovina, a suína, a de aves e a de peixes.
As análises foram feitas no Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), em Campinas (SP), entretanto os resultados não foram apresentados como constavam no laudo fornecido pelo Ital ao Inmetro – que juntamente com o Hospital de Cardiologia de Laranjeiras, do Rio de jeneiro, encomendaram a pesquisa.
Especialistas da área, entre eles o diretor do Centro de Tecnologia de Alimentos Nelson José Beraquet, o professor adjunto da Faculdade de Tecnologia de Alimentos da Unicamp Pedro Eduardo de Felício, o professor de zootecnia da Esalq e da Faculdade de Zootecnia da Universidade de São Paulo (USP) Albino Luchiari Filho, o professor da Esalq Celso Boin, além de entidades ligadas ao setor pecuário, a exemplo da Associação Brasileira de Criadores de Zebu (ABCZ), enviaram mensagens ao Inmetro e à produção do programa, solicitando um esclarecimento. Em vão, pois a produção do programa não assumiu no ar a falha e tampouco disse aos telespectadores que haviam utilizado resultados de amostras secas (com os níveis de colesterol e gordura concentrados) ao invés de amostras úmidas (como a carne é consumida) no primeiro programa apresentado.
O resultado disso foi que, para quem assistiu ao primeiro programa da série, que dizia que 100 gramas de contra-filé frito sem gordura tem 268 mg de colesterol, e assistiu ao último, no qual o repórter diz que 100 gramas de frango frito sem pele tem 117 mg de colesterol, ficou a idéia de que a carne bovina tem mais colesterol que a de frango – quando, na verdade, 100 gramas de carne bovina não contêm mais do que 90 gramas de colesterol, bem como a carne suína e a ovina. A variação é de 70 a 90 gramas, como mostra a tabela do Departamento de Saúde Animal dos Estados Unidos, o USDA, e trabalhos brasileiros, inclusive os realizados pelo próprio Ital [remissão abaixo].
A atitude da equipe do programa da Rede Globo mostra um descaso com o telespectador, com os especialistas que realizam estudos para oferecer informações precisas para que a população possa fazer a melhor escolha de acordo com os seus hábitos de vida e suas necessidades alimentares, e com uma indústria que gera milhões de empregos e divisas para o país. Sem dizer que o programa em si, por mostrar apenas a quantidade de colesterol e gordura saturada sem informar as propriedades nutritivas da carne e a necessidade da inclusão de proteína de origem animal para o crescimento humano, para o fornecimento de ferro e de vitaminas do complexo B, já poderia ser considerado tendencioso e pouco instrutivo, diferente do que pretende, ou diz que pretende ser.
Outro lado
Segundo o engenheiro Dino Lameira, do Inmetro, a intenção do Instituto e do Hospital de Cardiologia de Laranjeiras, que encomendaram a pesquisa, era o de apresentar ao consumidor os níveis de colesterol e gordura saturada presentes nas carnes preparadas de diferentes maneiras, a fim de auxiliá-los em sua escolha, de forma mais consciente e fundamentada. Com o laudo apresentado pelo Ital, o Inmetro preparou um relatório [remissão abaixo] utilizando apenas os resultados das amostras secas – desidratadas para efeito de testes – usadas nas análises do Ital e não os resultados das amostras úmidas. Isso para mostrar a diferença dos níveis de colesterol e gordura saturada nos diferentes tipos de preparo da carne.
O objetivo do Inmetro era claro, e no relatório o autor especificava que "os valores definidos no gráfico [que trazia os resultados da análise das amostras secas] são concentrados, já que as amostras das carnes passaram por um pré-tratamento para retirada da água presente antes da determinação de gordura saturada e colesterol. Por isso eles não devem ser utilizados pelos consumidores como regra para uma dieta e sim para comparar os melhores tipos de carne e de preparo". Isso passou despercebido pelo repórter e pela produção do programa.
O que poderia parecer um mero detalhe, acabou se transformando em um ultraje para os que estudam, pesquisam, produzem e comercializam carne bovina e suína. Vale lembrar que há anos essas carnes sofrem com o preconceito que se criou sobre elas, e levam a fama de vilãs da boa saúde. Segundo Nelson José Beraquet, coordenador do Centro de Tecnologia de Carnes do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), que teve o laboratório usado para a preparação das amostras, os valores apresentados pelo programa eram três vezes superiores ao real.
Sobre a gordura saturada, a reportagem afirmou que o consumo diário não poderia ultrapassar 22 gramas, mas apresentou o valor obtido no teste em miligramas. Para quem escuta, em um programa de televisão, rápido, com imagens, o alimento que está levando à mesa têm 2.245 miligramas, quando o permitido no dia seriam apenas 22 gramas. Quantos telespectadores teriam feito a conversão?
Pressionada pelo Ital, pelo Inmetro, associações ligadas ao setor pecuário e por pesquisadores em carnes, a equipe do programa assumiu que cometera um engano e que iria procurar um meio de esclarecer o que acontecera. Mas, na semana seguinte, apenas colocou em um quadro os valores da semana anterior, informando que eram de amostras em base úmida, "que é como a carne vai à mesa do consumidor" e apresentou os resultados seguintes, das demais carnes, já com valores corretos em base úmida, o que na opinião dos estudiosos em carnes não resolveu a questão.
"O Fantástico e a Rede Globo não dão a mínima importância para o esclarecimento dos telespectadores e dos técnicos brasileiros que trabalham com colesterol e gorduras nas carnes bovina, suína e frangos, e respeito por um dos setores mais importantes da agricultura brasileira que é a pecuária de corte e a suinocultura", afirma Albino Luchiari Filho, da Esalq e Faculdade de Zootecnia da USP. "Apresentam resultados incorretos, como se fossem os donos da verdade… Não foi por falta de alerta pois inúmeros e-mails foram mandados ao Fantástico cobrando resultados consistentes com relação à quantidade de colesterol nessas carnes. Apenas uma promessa de correção, o que nunca aconteceu.".
(*) Repórter da revista TeC Carnes <http://www.comciencia.br/teccarnes>
Leia também
Fantástico – O teste da gordura – 08/07/01
Fantástico – O teste da gordura – 15/07/01
Fantástico – O teste da gordura – 22/07/01
Tabelas de colesterol
Relatório do Inmetro sobre teores de gordura
Programa apresenta níveis de colesterol superiores aos reais
Cadeia da carne bovina precisa de novas lideranças
Abordagem lamentável sobre carne bovina – Celso Boin
Carne bovina vs. bom colesterol
Gordura vegetal faz mal à saúde?
Colesterol: fato ou paranóia?

|