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OFJOR CIÊNCIA GORDURA E COLESTEROL Simone Pallone de Figueiredo (*)Escrever sobre ciência não é tarefa fácil para os jornalistas. Menos ainda para aqueles que não trabalham especificamente na cobertura de fatos ligados à área. Mas por que não buscar informações corretas, não confirmar com os especialistas se o teor da reportagem está correto? Por que insistir em criar sensasionalismo sobre temas importantes que deveriam ser analisados com seriedade e não como uma manchete de grande apelo? No mês de julho, o Fantástico, da Rede Globo apresentou em três programas seguidos o "teste da gordura" [veja remissão abaixo], com o objetivo de informar aos telespectadores a quantidade de colesterol e gordura saturada de carnes de diversas espécies, entre elas a bovina, a suína, a de aves e a de peixes. As análises foram feitas no Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), em Campinas (SP), entretanto os resultados não foram apresentados como constavam no laudo fornecido pelo Ital ao Inmetro – que juntamente com o Hospital de Cardiologia de Laranjeiras, do Rio de jeneiro, encomendaram a pesquisa. Especialistas da área, entre eles o diretor do Centro de Tecnologia de Alimentos Nelson José Beraquet, o professor adjunto da Faculdade de Tecnologia de Alimentos da Unicamp Pedro Eduardo de Felício, o professor de zootecnia da Esalq e da Faculdade de Zootecnia da Universidade de São Paulo (USP) Albino Luchiari Filho, o professor da Esalq Celso Boin, além de entidades ligadas ao setor pecuário, a exemplo da Associação Brasileira de Criadores de Zebu (ABCZ), enviaram mensagens ao Inmetro e à produção do programa, solicitando um esclarecimento. Em vão, pois a produção do programa não assumiu no ar a falha e tampouco disse aos telespectadores que haviam utilizado resultados de amostras secas (com os níveis de colesterol e gordura concentrados) ao invés de amostras úmidas (como a carne é consumida) no primeiro programa apresentado. O resultado disso foi que, para quem assistiu ao primeiro programa da série, que dizia que 100 gramas de contra-filé frito sem gordura tem 268 mg de colesterol, e assistiu ao último, no qual o repórter diz que 100 gramas de frango frito sem pele tem 117 mg de colesterol, ficou a idéia de que a carne bovina tem mais colesterol que a de frango – quando, na verdade, 100 gramas de carne bovina não contêm mais do que 90 gramas de colesterol, bem como a carne suína e a ovina. A variação é de 70 a 90 gramas, como mostra a tabela do Departamento de Saúde Animal dos Estados Unidos, o USDA, e trabalhos brasileiros, inclusive os realizados pelo próprio Ital [remissão abaixo]. A atitude da equipe do programa da Rede Globo mostra um descaso com o telespectador, com os especialistas que realizam estudos para oferecer informações precisas para que a população possa fazer a melhor escolha de acordo com os seus hábitos de vida e suas necessidades alimentares, e com uma indústria que gera milhões de empregos e divisas para o país. Sem dizer que o programa em si, por mostrar apenas a quantidade de colesterol e gordura saturada sem informar as propriedades nutritivas da carne e a necessidade da inclusão de proteína de origem animal para o crescimento humano, para o fornecimento de ferro e de vitaminas do complexo B, já poderia ser considerado tendencioso e pouco instrutivo, diferente do que pretende, ou diz que pretende ser. Outro lado Segundo o engenheiro Dino Lameira, do Inmetro, a intenção do Instituto e do Hospital de Cardiologia de Laranjeiras, que encomendaram a pesquisa, era o de apresentar ao consumidor os níveis de colesterol e gordura saturada presentes nas carnes preparadas de diferentes maneiras, a fim de auxiliá-los em sua escolha, de forma mais consciente e fundamentada. Com o laudo apresentado pelo Ital, o Inmetro preparou um relatório [remissão abaixo] utilizando apenas os resultados das amostras secas – desidratadas para efeito de testes – usadas nas análises do Ital e não os resultados das amostras úmidas. Isso para mostrar a diferença dos níveis de colesterol e gordura saturada nos diferentes tipos de preparo da carne. O objetivo do Inmetro era claro, e no relatório o autor especificava que "os valores definidos no gráfico [que trazia os resultados da análise das amostras secas] são concentrados, já que as amostras das carnes passaram por um pré-tratamento para retirada da água presente antes da determinação de gordura saturada e colesterol. Por isso eles não devem ser utilizados pelos consumidores como regra para uma dieta e sim para comparar os melhores tipos de carne e de preparo". Isso passou despercebido pelo repórter e pela produção do programa. O que poderia parecer um mero detalhe, acabou se transformando em um ultraje para os que estudam, pesquisam, produzem e comercializam carne bovina e suína. Vale lembrar que há anos essas carnes sofrem com o preconceito que se criou sobre elas, e levam a fama de vilãs da boa saúde. Segundo Nelson José Beraquet, coordenador do Centro de Tecnologia de Carnes do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), que teve o laboratório usado para a preparação das amostras, os valores apresentados pelo programa eram três vezes superiores ao real. Sobre a gordura saturada, a reportagem afirmou que o consumo diário não poderia ultrapassar 22 gramas, mas apresentou o valor obtido no teste em miligramas. Para quem escuta, em um programa de televisão, rápido, com imagens, o alimento que está levando à mesa têm 2.245 miligramas, quando o permitido no dia seriam apenas 22 gramas. Quantos telespectadores teriam feito a conversão? Pressionada pelo Ital, pelo Inmetro, associações ligadas ao setor pecuário e por pesquisadores em carnes, a equipe do programa assumiu que cometera um engano e que iria procurar um meio de esclarecer o que acontecera. Mas, na semana seguinte, apenas colocou em um quadro os valores da semana anterior, informando que eram de amostras em base úmida, "que é como a carne vai à mesa do consumidor" e apresentou os resultados seguintes, das demais carnes, já com valores corretos em base úmida, o que na opinião dos estudiosos em carnes não resolveu a questão. "O Fantástico e a Rede Globo não dão a mínima importância para o esclarecimento dos telespectadores e dos técnicos brasileiros que trabalham com colesterol e gorduras nas carnes bovina, suína e frangos, e respeito por um dos setores mais importantes da agricultura brasileira que é a pecuária de corte e a suinocultura", afirma Albino Luchiari Filho, da Esalq e Faculdade de Zootecnia da USP. "Apresentam resultados incorretos, como se fossem os donos da verdade… Não foi por falta de alerta pois inúmeros e-mails foram mandados ao Fantástico cobrando resultados consistentes com relação à quantidade de colesterol nessas carnes. Apenas uma promessa de correção, o que nunca aconteceu.". (*) Repórter da revista TeC Carnes <http://www.comciencia.br/teccarnes> | ||