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OFJOR CIÊNCIA
OfJor Ciência 2001 – Oficina OnLine de Jornalismo Científico é uma iniciativa do Observatório da Imprensa, Labjor e Uniemp.
JORNALISMO AMBIENTAL
Para despertar a consciência da mídia
Ulisses Capozoli (*)
A última edição de Veja (nº 1.699, 9/5/01) traz entrevista com Lester Brown em suas páginas amarelas. Brown é o fundador do Worldwatch Institute, uma das instituições internacionais mais respeitadas no estudo de atividades produtivas e preocupações ambientais. O "gancho" para a conversa foi a criação, por ele, na semana anterior, do Instituto Earth Police, um centro de elaboração e distribuição de informações para a mídia utilizando a internet. A última resposta à entrevista que Brown concedeu à repórter Bia Barbosa resume as preocupações que tem demonstrado ao longo de pelo menos 30 anos com o desenvolvimento sustentável, a exploração não predatória de recursos naturais.
A propósito do seu "Polícia da Terra", Brown considera que "se não conseguirmos reverter esta tendência [de deterioração ambiental] e continuarmos a destruir gradualmente o futuro de nosso ambiente, teremos sérios problemas. E para mostrar as mudanças necessárias e os caminhos disponíveis há a necessidade de muita informação, as pessoas precisam entender por que precisamos fazer essas mudanças. A única instituição capaz de disseminar informações na escala necessária e no tempo disponível são jornais e revistas". Brown diz ainda que "não foram os editores e repórteres que pediram essa responsabilidade, mas não há alternativa".
Fazer com que as pessoas entendam as mudanças necessárias é parte de um trabalho que se pode chamar, neste momento, de alfabetização científica. E esta tem sido uma recusa sistemática da imprensa brasileira. A resistência, em parte, veio de faculdades de jornalismo, além das redações. Uma interpretação antiga sempre se opôs às especializações, resultado de uma visão ingênua dos novos desafios. E isso é válido especialmente para o jornalismo científico.
Tarifas proibitivas
A referência contra a especialização certamente foi o jornalismo econômico, ideologizado, na maioria das vezes envolvendo negócios/conjuntura em lugar de abordagens críticas/estruturais. O que ocorreu com o jornalismo econômico foi algo mais complexo, que não é o caso de se abordar neste momento.Mas não poderia nem deveria justificar restrições à especialização. Até porque, especialização, aqui, deve ser vista como uma preparação mais específica para se trabalhar com a ciência, permitindo que princípios e tendências sejam percebidos por toda a sociedade.
E o que estaria ocorrendo em conseqüência dessa situação?
Na busca de respostas pode-se recorrer a alguns exemplos dos últimos dias: um tornado que arrasou cidades do interior de São Paulo, a crise de energia/falta d’água, um encontro especial que a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) fez, entre os dias 25 a 27 de abril, para discutir a Amazônia e o fim do Simba Safári.
O que esses fatos, aparentemente desencontrados, teriam em comum? Certamente eles apontam para a necessidade de se "compreender as mudanças necessárias e os caminhos disponíveis", a que se refere Brown.
O tornado que produziu uma morte e provocou destruição em Sumaré, Campinas e outras cidades do interior de São Paulo não foi o primeiro registrado, apesar de ser um fenômeno comparativamente raro no Brasil.
A preocupação por trás disso é que os modelos físico-matemáticos de mudança global – produzido pelo efeito-estufa, o aquecimento da atmosfera da Terra por atividades humanas – invariavelmente prevêem aumento de tempestades e ventos destrutivos. Climatologistas e meteorologistas não têm, rigorosamente, como negar ou afirmar que um tornado como esse esteja intimamente relacionado ao aquecimento global. A climatologia é uma área de alta complexidade e as modelagens disponíveis estão longe de refletir satisfatoriamente a realidade.
De qualquer maneira, o tornado que castigou as cidades paulistas é um exemplo de fenômenos que podem tornar-se mais freqüentes – resultado do efeito-estufa. Uma abordagem sistemática de perspectivas como essa, em suplementos específicos de ciência, com a preocupação de ajudar as pessoas a entender a natureza dos fenômenos, de maneira a contribuírem para que seja evitado/minimizado, é uma necessidade que não pode mais ser adiada. A destruição de florestas, alterações ambientais e mesmo o aumento do consumismo estão entre esses temas.
E isto nos leva à crise de energia que o governo, como acontece tradicionalmente no Brasil, atira sobre os ombros de São Pedro.
Especialistas, entre eles o físico Luiz Pinguelli Rosa, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), têm argumentado que a escassez de águas em lagos de hidrelétricas como Furnas, em Minas Gerais, está mais relacionada a problemas políticos do que à falta de chuvas.
A decisão de privatizar Furnas inibiu investimentos em novas turbinas que poderiam elevar a produtividade do sistema. O governo não assume que essa é a situação real e, neste caso, tem suporte e cobertura acrítica de parte da mídia. O jornal O Estado de S.Paulo, neste momento, é quase um boletim oficial do Palácio do Planalto. Mesmo emissoras públicas, como a TV Cultura, submetidas a interesses que não são os do conjunto da sociedade, não se envolvem nesses temas como deveriam.
Na ausência de um posicionamento crítico, a única conseqüência que se podem esperar, no caso de energia, além do racionamento, é uma violenta elevação das tarifas. Como as tarifas telefônicas, também a energia elétrica, num país com a quantidade de rios do Brasil, tende a ficar proibitiva. Energia é uma preocupação estratégica e seu debate deve superar o político/econômico para incluir o ambiental – e, neste sentido, o científico-tecnológico.
211 línguas
Por que a imprensa não se envolve em campanhas como a demonstração de outras alternativas para a produção de energia doméstica no Brasil, especialmente por conversores solares? A imprensa, certamente, não tem como atribuir essa responsabilidade exclusivamente ao governo. Esse deveria ser seu novo papel, de prestação efetiva de serviços em áreas estratégicas.
A imprensa não faz esse trabalho por certo despreparo técnico, desinteresse por problemas que vão além do monótono discurso de economia/política e preocupação, ao menos em parte dela, de corroborar as versões oficiais. Algumas redações querem distância de repórteres investigativos, com preocupações críticas, certamente o melhor caminho para encontrar respostas desejáveis. Como diz Brown, "os editores e repórteres não pediram essa responsabilidade, mas não há alternativa".
O encontro da SBPC, em Manaus, atraiu minimamente o interesse da imprensa. Sintomaticamente, alguns repórteres da região, que noticiaram alguma coisa sobre a reunião, sequer sabiam o que é a SBPC. Na Amazônia se concentra a maior biodiversidade brasileira – de grupos indígenas ainda não contatados a perspectivas econômicas com fruticultura exótica, passando pela existência de 120 línguas, a metade delas sob risco de desaparecimento no curto prazo por terem menos de 200 falantes.
Ainda que crianças continuem aprendendo na escola que o Brasil fala uma única língua, a verdade é que temos 210 outras línguas além do português, a língua hegemônica. Este é só mais um exemplo do subdimensionamento do Brasil por uma imprensa apática.
Poeira de estrelas
A Amazônia costuma provocar reações emocionadas de patriotismo, especialmente quando se fala da possível perda de soberania na região. A maneira como os ingleses se apoderaram da Índia e da China sugere que a preocupação com a soberania amazônica não é infundada. Mas não pode a questão transformar-se numa discussão equivocada, fornecendo pretextos a interesses voltados para áreas indígenas Até porque, áreas indígenas são territórios de propriedade dupla: dos povos indígenas e da União.
Como permitir a formação de uma consciência menos nebulosa da Amazônia se, quando uma entidade, do porte da SBPC, realiza um encontro específico para debater a região, a cobertura da imprensa não vai além de um profundo desinteresse?
E o que isso tem a ver com o fim do Simba Safári, parque na cidade de São Paulo no qual leões e tigres, entre outros animais, viviam soltos e, agora, podem ficar confinados?
Os zoológicos, onde muitos animais vivem enjaulados/confinados, são um mal necessário, mas devem sobreviver até quando? Um mal necessário porque, nesses espaços, os tristes moradores das grandes cidades, inteiramente separados da natureza, podem observar, em muitos casos pela primeira vez, um animal que no Brasil deveria ser comum nos campos – caso da capivara e da siriema. O contato com essas criaturas da floresta, com quem partilhamos espaço no passado distante, é uma necessidade instintiva, ainda que discussões desse tipo estejam inteiramente fora da imprensa.
As florestas, seus animais e o fogo são necessidades arquetípicas e as abordagens desses temas, por parte da mídia, certamente enriqueceriam a compreensão de problemas capazes de evitar dificuldades como o cerceamento dos animais do Simba Safari.
Há a perspectiva de o Simba reabrir em área próxima a São Paulo (O Estado de S.Paulo, 26/4, pág. C9). Mas os problemas que o parque tem enfrentado, se apresentados de maneira mais didática pela imprensa, estimulariam alternativas mais criativas. Isso pode e deve ser feito, mas precisa ser precedido de uma revisão de mentalidades nas redações.
A melhor prova de que deve ser assim é o exemplo de Lester Brown, que lança o seu Polícia da Terra exatamente com o propósito de abastecer os jornalistas com bons dados.
Entre as publicações do Worldwatch Institute está o relatório anual State of the World. A edição para este ano de 2001 é um bom exemplo de que um pensamento estratégico pode prevenir (ao menos o agravamento) de situações complexas como as águas subterrâneas, transportes, controle de emissão de gás carbônico na produção de energia ou a prevenção de desastres naturais, como o tornado de Sumaré. Para isso é necessário desenvolver uma nova responsabilidade social, uma reinterpretação de processos que até agora pareciam convencionais e, talvez acima de tudo, uma reafirmação da solidariedade.
O homem não está só na natureza. É parte de sua trama e depende de muitos fios para se manter vivo. Há 50 anos os astrofísicos mostraram que tudo o que constrói o mundo, inclusive a matéria de nossos corpos, é poeira de estrelas. E, para reafirmar a vida e o bem-estar social, é preciso conhecer, ao menos em parte, esta longa história contada pela ciência.
(*) Jornalista especializado em divulgação científica, é historiador da ciência e presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC).
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