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CIΚNCIA
TRANSGÊNICOS Nivaldo T. Manzano (*) Entre as questões suscitadas junto à opinião pública pelo advento dos organismos geneticamente modificados está a do estatuto da verdade científica. Nisso o debate atual sobre a produção dos cientistas, que de tempos em tempos retorna às manchetes, parece diferir, por exemplo, da discussão sobre o uso da energia nuclear, logo após a Segunda Guerra Mundial. Enquanto no passado a ênfase recaiu sobre o papel social da ciência, questiona-se agora o que antes parecia indubitável: a ciência produz certezas ou se deve admitir que os resultados a que ela chega não estão isentos de risco? A questão transborda os limites da discussão sobre os transgênicos e tem suas raízes na interpretação da natureza e dos resultados da produção científica. Durante algum tempo, os cientistas, a começar por Galileu e Newton, conceberam a ciência como uma versão laicizada da sabença divina. Ao cientista competia produzir certezas, descobrir "leis naturais", supostamente inscritas na realidade das coisas por um Criador que não se equivoca. É assim pensando que Galileu identificou na matemática a linguagem com que Deus as teria escrito. Como decorrência da fé na identidade entre lei divina e lei natural, o procedimento dedutivo, por ser racional e logicamente incontestável, passou a ser reconhecido pela comunidade dos cientistas como o único método adequado para fazer a natureza falar por sua boca. O tipo de certeza a que os cientistas chegaram uma certeza determinista capaz de afugentar as incertezas e o risco respondia não apenas a uma exigência interna da ciência, mas também a desafios de natureza política gerados no contexto religioso e ideológico da transição da Idade Média para a Idade Moderna. Em um período marcado por acirrada disputa entre os vários pretendentes ao controle da realidade, a oferta de certezas capazes de conquistar a audiência tornava-se uma questão crucial. É por isso que os primeiros cientistas modernos não deixaram por menos: no mercado das crenças, o poder de convencimento de suas demonstrações, agora racionais, devia sobrepor-se às garantias tradicionais de previsibilidade oferecidas pelos adivinhos, com suas bolas de cristal, e pelas bruxas, com suas poções. Como sabemos, venceram os cientistas, em parte graças ao apoio involuntário da Inquisição, que limpou o terreno queimando bruxas e adivinhos, e em parte graças ao apoio voluntário do rei e das forças políticas comprometidas com os interesses da Revolução Industrial, puxada pelo capital. E assim a figura do cientista adentrou a Idade Moderna como uma espécie de aranha, capaz de retirar certezas preestabelecidas das entranhas de seu bestunto, onde o Criador as teria alojado. Tratava-se de um método confortável, especialmente para quem, por questão de prestígio, status e poder, tinha de repartir seu tempo entre inferências lógicas e matemáticas, de um lado, e salamaleques na corte, de outro. Pois o método dedutivo dispensava o cientista de abrir a janela de seu quarto para ver o que havia de novo na rua: se pudesse existir algo de novo, a novidade já estaria contida nas suas premissas. Por isso, o conde de Laplace, grande matemático e astrônomo, não enrubesceu ao afirmar que, sendo a sua ciência determinista e dedutiva, seria possível predizer matematicamente a trajetória dos corpos no espaço, tanto em direção ao futuro quanto em direção ao passado. Ou seja, para um cozinheiro laplaciano seria tão simples quanto fácil conhecer antecipadamente a trajetória que percorrerá o ovo para dentro da frigideira e, no caminho de volta, já na forma de omelete, da frigideira para dentro da casca do ovo. Eis aí a reversibilidade das trajetórias, no jargão da Mecânica. Posteriormente, ao abrir a janela e se lançar pela primeira vez em experiências sobre o efeito da ação do calor sobre o ovo na frigideira, cientistas concluíram pelo inverso, ou seja, pela irreversibilidade das trajetórias e assim surgiu uma nova maneira de se fazer ciência, logo incorporada ao cânone da antiga, a golpes de matemática: a busca da previsibilidade mediante a probabilidade estatística. A mudança, que no início parecera radical, acabou domesticada pelos próprios cientistas, e mais adiante o leitor saberá por quê. Deixava-se de lado, por ser inatingível, a certeza absoluta, mas se continuava a acreditar em que era possível prever de alguma forma o futuro com base no comportamento do passado. Se agora, com a probabilidade estatística, tornava-se impossível predizer a trajetória da omelete para dentro da casca do ovo, pelo menos continuava possível prever que o ovo em seu caminho de ida atingiria algum ponto localizado na superfície da frigideira uma probabilidade estocástica. Da mesma forma, numa expedição de caça seria possível atingir algum órgão vital do leão, em repouso atrás da moita, desde que a fera se dispusesse a esperar imóvel até o disparo do último projétil, tempo necessário para o caçador poder calcular a média entre erros e acertos e concluir que atingiu o alvo. Pode observar-se, na escolha do novo tipo de certeza, que a disputa política entre cientistas, de um lado, e adivinhos e bruxas, de outro, continuava e eis aí a explicação, prometida ao leitor, para o aceno recorrente à garantia da certeza. O desafio, comum e geral, permanecia o mesmo: afugentar as incertezas e o risco. Impacto na saúde A nova mágica do caçador, porém, não convenceu a platéia, que não arreda pé do senso comum, certa que está de que "um dia é da caça, outro do caçador". É por isso que continua aberta a questão de se saber se somos nós, mediante a ciência, que controlamos a realidade ou se é a realidade que nos controla. É do interior da questão de se saber quem controla quem que emerge a discussão em torno da interpretação do chamado princípio da precaução, a propósito dos transgênicos. O princípio contempla a necessidade de se adotar cuidados prévios em relação à aprovação legal de substâncias potencialmente degradadoras ou poluidoras que representem risco para a saúde humana e para o meio ambiente. Poder-se-ia esperar que a adoção do princípio da precaução contribuiria para remover de uma vez as razões do qüiproquó secular. Mas, não: a exigência de certeza continua presente. Para contorná-la, na pressa em sair à frente no mercado, empresas de biotecnologia dos EUA passaram a apoiar seus argumentos, em defesa da ausência de risco, não no princípio de precaução, de interpretação controvertida, mas no chamado princípio de igualdade substancial. Segundo esse princípio, podem considerar-se idênticos, do ponto de vista genético e morfológico, organismos naturais e organismos geneticamente modificados, quando estes resultam da inserção na suas células de um único gene, retirado de outro organismo. Sendo idênticos, não haveria por que aplicar o princípio de precaução: bastava o princípio de igualdade substancial. Na eventualidade de se inserir mais de um gene, a pertinência da aplicação deste princípio poderia ser discutida. Mas esse não era o caso. Ocorre que a aplicação do princípio de igualdade substancial, admitido pela autoridade sanitária dos EUA, não encontrou respaldo na comunidade científica nem nos entendimentos internacionais que regulam a matéria. Argumenta-se que do ponto de vista científico não se pode demonstrar a pressuposta igualdade. O qüiproquó ganha relevância ainda maior quando se atenta para os desdobramentos da adoção desse princípio, tais como a isenção de rotulagem, a dispensa de análise de risco ambiental e de estudos sobre seu impacto na saúde humana. Da pressuposta igualdade substancial no plano técnico, os norte-americanos insistem, praticamente sozinhos, em saltar para a igualdade substancial em termos jurídicos no mercado internacional. Concurso combinado O Brasil não reconhece o princípio de igualdade substancial e sua posição de segundo maior produtor e primeiro exportador de soja reserva-lhe um lugar privilegiado nesse debate. Essa posição assenta em parecer da comunidade científica nacional e está consubstanciada na legislação brasileira sobre biossegurança. Esse é também o entendimento que prevalece entre cientistas de todo o mundo. É forçoso, pois, retornar ao princípio de precaução. No cerne do problema está a questão do risco. Seria possível remover o coeficiente de risco que acompanha os resultados da produção científica e tecnológica? Ou é necessário conformar-se com o caráter limitado e provisório da verdade científica? É em relação a tais questões que as interpretações do princípio de precaução tomam caminhos divergentes. De um lado, alinham-se os que atribuem à atividade científica a responsabilidade de remover todos os riscos. De outro, os que afirmam que não cabe à ciência produzir certezas, e sim afastar tanto quanto possível as incertezas, de modo a se poder escolher o risco menor. Eliminar o risco é impossível, uma vez que, por força do próprio avanço científico, novas incertezas são geradas de modo recorrente: para cada resposta que se encontra, surgem dois novos problemas. Por mais que decepcionem, isto é tudo o que os cientistas podem oferecer: buscar reconhecer todos os riscos, para se poder escolher o menor. Não há avanço científico e tecnológico sem risco. Assim ocorreu tanto no caso do primeiro golpe de machado quanto da criação da penicilina. Lembre-se do entusiasmo com que Marx, na última nota de rodapé do primeiro volume do Capital, saudou os "serviços imortais" de Liebig, o cientista que no século 19 sistematizou a aplicação da química na agricultura. Exaltou-o com a confiança absoluta que depositava na "ciência natural". Ora, sabemos hoje, os mesmos serviços imortais que tanto fizeram crescer a produção e a produtividade das lavouras desde então contribuem para ampliar a lista dos fatores considerados responsáveis pela agressão ambiental. Como se vê, nem a dialética de Marx associada à fé na "ciência natural" conseguiu substituir a eficácia da bola de cristal na predição do futuro. Aos que exigem da aplicação do princípio de precaução a produção de resultados isentos de risco, lembra-se que a existência da espécie humana deve-se a um erro no curso da evolução. Entre as habilidades do lógico, que vive de certezas, e as habilidades do trapezista, que vive de incertezas, não há por que escolher: a ciência avança graças ao concurso combinado de ambos e isso é tudo. Viver é perigoso. (*) Jornalista Leia também Transgênicos e responsabilidade social Ulisses Capozzoli A imprensa e os transgênicos Luiz Egypto Transgênicos, convencionais e orgânicos Carlos Vogt Transgênicos, um assunto maltratado Rafael Evangelista Mico transgênico Aurélio Veiga Rios Quem decide sobre os transgênicos? Carlos Alberto de Salles Nós e os outros na guerra bacteriológica U.C. Complexidade dos transgênicos turva debate que nasceu confuso Marcelo Leite [Entre Aspas copyright Folha de S. 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