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OfJor Ciência 2001 – Oficina OnLine de Jornalismo Científico é uma iniciativa do Observatório da Imprensa, Labjor e Uniemp.
ENTREVISTA / CAROLINE VAN DER BRUL
Jornalismo científico em ascensão
Gabriela Mafort(*) e Julian Wing (**)
Num momento em que assuntos como uma guerra biológica, ou o bioterrorismo, voltam a pautar os veículos de comunicação com força total, a mídia tem um papel importantíssimo: explicar exatamente o que está acontecendo, o que é conhecido sobre o tema, o que poderia acontecer no curto prazo, quais os passos que os governos estão dando em termos de prevenção.
"Mas o papel da mídia, ao contrário do que muitos podem pensar, não é exatamente o de prover as respostas – nós não podemos providenciar respostas definitivas, que sejam capazes de deixar as pessoas seguras. Nossa função é a de apresentar diferentes pontos de vista, e encaminhar a demanda de perguntas para quem está apto a respondê-las. Mas, muitas vezes, as respostas sequer vêm imediatamente".
A análise é de Caroline van der Brul, editora executiva da área de Ciência da rede britânica BBC, que esteve no Brasil na primeira semana de outubro para a mostra Ver Ciência, no Rio de Janeiro. A mostra abriu de 19/9 e a 10/10, no Centro Cultural Banco do Brasil, com previsão de seguir até 15/10, em outros espaços culturais do Rio. Ver Ciência é o mais importante evento de produções de TV na área de Ciência e Tecnologia.
Para comprovar a avaliação, ela lembra a época em que a Europa, e com maior intensidade a Inglaterra, foi assolada pela doença da vaca louca, que matou milhares de cabeças de gado. Caroline coordenou um documentário didático sobre a doença, que mostrava em detalhes o que era o mal da vaca louca, as formas de transmissão, quem estava trabalhando em que tipo de pesquisas, quais as precauções que deveriam ser tomadas. "Mesmo assim, com tanta informação de boa qualidade, o clima de incerteza continuava grande", recorda.
Para ela, a função do jornalista é bem clara: ter certeza de que o que está dizendo é o mais acurado possível, uma representação fiel do que está acontecendo, a partir de fontes variadas e confiáveis. Já as conseqüências deste trabalho não cabe ao jornalista controlar.
Quando questionada sobre a utilidade de matérias a respeito de testes com drogas para a cura de doenças, Caroline avalia que é impossível deixar de noticiar. "O mais importante é deixar claro que a matéria se refere a um tratamento ainda não disponível. Mas se o jornalista é interpretado de forma errada, ou se as pessoas que estão doentes passam a procurar o tratamento, não é culpa da reportagem", diz.
A editora da BBC, graduada em Química, milita no jornalismo científico há 25 anos e durante esse tempo acompanhou muitas mudanças. A principal delas é a da postura do próprio jornalista. "Quando começei a cobrir ciência, os pesquisadores eram tidos como deuses, suas pesquisas eram vistas como coisas extraordinárias, os cientistas eram tratados como pessoas especiais", conta. Em sua avaliação, hoje em dia o jornalista está mais crítico, questionando as pesquisas, e isso porque as fontes de informação se multiplicaram, assim como os programas e produções sobre a área. Sem contar que os próprios cientistas também evoluíram, estão mais abertos. "Com a grande quantidade de pesquisas existentes atualmente, os cientistas precisam da publicidade como nunca precisaram em nenhuma outra época. Eles sabem que não conseguirão financiamento para seus estudos se as pessoas não virem a utilidade de suas pesquisas." Na opinião de Caroline é exatamente isso que cabe à mídia mostrar, isto é, no que a ciência pode ser útil para as pessoas.
Escolha criteriosa
A forma do jornalismo científico também mudou – de meros relatos sobre os estudos para mergulhos profundos na rotina dos cientistas. Ela cita o exemplo de seu último trabalho, uma série de documentários batizada de Sangue dos Vikings. A BBC está acompanhando os passos de uma pesquisa que tem como principal objetivo descobrir se os genes dos vikings, população da Escandinávia que migrou para a Inglaterra, ainda estão presentes na população do país. A idéia é mostrar a rotina da pesquisa, os avanços, a maneira como os cientistas trabalham.
"Isso é completamente novo no jornalismo científico. A partir de um trabalho como este, o público pode ver que os pesquisadores não são deuses, com resposta para tudo, mas profissionais como qualquer outros, que testam materiais, com o propósito de encontrar respostas para algumas perguntas", explica.
Caroline rebate as críticas da comunidade científica à falta de preparo dos jornalistas com um forte argumento. "O problema dos assuntos científicos é que os pesquisadores esperam que o público pense como eles e não existe nenhuma razão para que façam isso. Nosso trabalho é encontrar uma forma interessante de contar as histórias", diz. Ela cita uma pesquisa que mostrou o seguinte: uma reportagem escrita por um jornalista sobre determinado assunto científico recebeu notas baixas dos pesquisadores que conheciam bem o tema, e notas altas dos cientistas que não conheciam. Isso mostra que as pessoas que conhecem o assunto tendem a ser mais críticas, o que é natural. Mas o que se deve ter em mente é que o jornalista escreve para o público geral.
Para o futuro, ela desenha um cenário em que o jornalista será mais atuante, terá mais responsabilidade sobre as fontes de notícias, já que estas estão se multiplicando a taxas exponenciais. Fará um trabalho melhor quem for capaz de escolher as informações de forma criteriosa e apresentá-las num contexto, traçando paralelos históricos.
(*) Jornalista (**) Professor

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