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OFJOR CIÊNCIA

OfJor Ciência 2001 – Oficina OnLine de Jornalismo Científico é uma iniciativa do Observatório da Imprensa, Labjor e Uniemp.



JORNALISMO CIENTÍFICO
A esperteza dos falsificadores

Ulisses Capozoli

A idéia da ciência como uma instituição supra-humana, a que certamente a maioria das pessoas foi levada a acreditar, com freqüência sofre reveses que chegam ao cômico. Foi o que aconteceu nos últimos dias, com a descoberta de que um fóssil que seria o elo perdido entre dinossauros e aves não passa de uma fraude que rendeu um bom lucro aos seus espertos autores.

Quem leu a edição de 5/4 (pág. A 14) da Folha de S.Paulo pôde acompanhar o assunto num sóbrio texto do repórter Claudio Angelo. Na edição desta semana, a revista Veja retomou o assunto sob o título "Os falsários que enganam a ciência".

O título já indica o tratamento que a revista deu ao caso, especialmente porque o Archaeoraptor, o pretenso elo perdido, foi capa de uma edição de final de 1999 da revista National Geographic. Uma versão, em português, da National Geographic Society é publicada pela Editora Abril, a mesma que edita Veja.

A idéia da ciência como instituição supra-humana tem, em princípio, ao menos duas explicações: 1) pesquisadores científicos com uma idéia bastante precária de qual é a verdadeira natureza do conhecimento, e por isso mesmo da ciência; e, 2) um discurso despótico sobre uma pretensa superioridade de cientistas sobre não-cientistas.

Em sua linguagem pasteurizada, Veja registra que "a fraude do Archaeoraptor é exemplo de como cientistas sérios e publicações responsáveis podem ser enganados por espertalhões no competitivo universo da paleontologia". Besteira. O universo da ciência, e não só o da paleontologia, é cada vez mais um campo minado na corrida para o prestígio. O que se convencionou chamar de big science, a ciência feita à base de equipes numerosas e pesados investimentos financeiros, não deixa nada a dever às histórias que vão da espionagem ao submundo do futebol.

Claro que existem cientistas geniais, profundamente comprometidos com seus trabalhos e os efeitos que podem produzir na sociedade. Mas considerar que são todos inteiramente abnegados, com salários baixos e incompreendidos pelo restante da sociedade, como freqüentemente se sugere, é uma criação inteiramente estúpida da mídia.

Gato por lebre

Para início de conversa, o termo "cientista" é utilizado pela mídia sem critério algum. A maioria dos "cientistas" são, na verdade, pesquisadores científicos. A diferença, neste caso, é algo como um jurista e um advogado. O jurista codifica as leis adequando-as a um determinado desenvolvimento social, enquanto os advogados trabalham com a aplicação dessas leis.

Claro que advogados podem e devem ser criativos na intepretação de leis. Mas eles se valem de "fórmulas" tornadas disponíveis pelo jurista no seu cotidiano profissional. Um bom advogado pode acalentar projetos de um dia vir a ser um jurista, como um pesquisador científico pode um dia transformar-se num cientista. Para isso é necessário ir mais longe que aplicar fórmulas disponíveis. É preciso criar e dar-se conta que a ciência é um renovado convívio com o grande desconhecido, onde o sentido de uma resposta, como num jogo de Alice, é o de formular novas perguntas.

Os critérios adotados para mensurar a produtividade acadêmica em muitas universidades brasileiras, entre eles especialmente publicações em revistas estrangeiras, é uma forma comum de se vender gato por lebre. Textos reescritos, maquiados e devidamente tratados falsificam a realidade tão bem quanto índices, como a renda per capita em sociedades com enormes desníveis sociais.

Satisfação pública

Quanto à pretensa superioridade de cientistas em relação a não cientistas, o filósofo e historiador da ciência John D. Bernal diz que os cientistas modernos ocuparam o lugar dos sacerdotes. Nessa substituição, não deixaram de lado práticas que, num primeiro momento, condenaram. Além disso, se sustentamos que a ciência é uma criação humana certamente devemos aceitar que ela tem as marcas da imperfeição humana.

A comparação entre o elo perdido dinossauro/aves modernas com o homem de Piltdown é inevitável e, de fato, Veja faz a conexão. Em 1912, uma montagem grosseira (mistura de restos humanos e mandíbulas de um orangotango) foi apresentada pelo arqueólogo amador Charles Dawson como se fosse um ancestral humano. No início dos anos 50 a farsa foi desmascarada.

Qual a base em que se apoiou esse embuste? Richard Leakey escreveu em The Making of Mankind que a base era o desejo de se comprovar que o homem primitivo, longe de ter tido origem na África, "era visivelmente inteligente" e "acima de tudo inglês". Ou seja, o engodo do homem de Piltdown encaixou-se como uma luva num preconceito existente, inclusive na comunidade científica, de uma pretensa superioridade branca na origem da humanidade.

Ainda a respeito do elo perdido dinossauro/aves, todo pesquisador científico – como todo jornalista – deve checar exaustivamente o trabalho antes que ele venha a ser publicado. A corrida para a fama pode cobrar um tributo elevado de corredores mais negligentes. Claro que todo cuidado ainda não elimina inteiramente os erros. Há poucos anos, um radioastrônomo anunciou a descoberta de um planeta em torno de um pulsar e, posteriormente, descobriu que a variação de sinais de rádio que indicariam a presença do referido planeta devia-se, na realidade, à órbita da própria Terra em torno do Sol. Ele fez a correção em público, durante reunião da Sociedade Astronômica norte-americana, e foi longamente aplaudido, em pé, por seus colegas.

Problema estrutural

A mesma edição de Veja traz outro assunto que também foi tratado pelos jornais ao longo da semana: um artigo jornalístico que saiu na revista científica norte-americana Science (ultimamente numa disputada guerra de prestígio contra a britânica e tradicionalíssima Nature, prova da belicosidade do meio científico) sobre a gordura não fazer mal algum à saúde. Os gulosos/glutões certamente se refestelaram com a novidade.

A pergunta que qualquer um faz é óbvia. O que aconteceu para, repentinamente, tudo mudar? Por que nos privamos de tanto prazer por nada?

Existem muitas respostas para um caso assim. Uma delas, sinal dos tempos, é que a indústria do emagrecimento e a do culto narcisista do corpo (que não têm relação necessária com o cuidado responsável do corpo), tal como as receitas para resolver calvície, são uma mina quase inesgotável de ouro. Qualquer estudo nessa área recebe a atenção imediata da mídia e o resultado combinado de pesquisadores oportunistas e jornalistas imediatistas é uma realidade esquizofrênica.

Jornalistas, sempre que pressionados, justificam que têm como obrigação duvidar dos fatos, checar e buscar o que parece ser a verdade. Mas, de fato, um número cada vez menor faz isso como mandaria a necessidade.

Jornalistas correm sempre contra o relógio e parecem cada vez mais impotentes para relatar aos seus leitores o que levantaram em seus trabalhos de campo. Interesses editoriais, hoje, interferem poderosamente no conteúdo do que se publica. Prova disso foram as manchetes que a Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo publicaram, na semana passada, sobre levantamentos do IBGE. Postas lado a lado, as manchetes pareciam referir-se a trabalhos inteiramente distintos.

A Folha foi direta ao assunto e mostrou que a distribuição da renda não se alterou ao longo da década passada. Esse é um problema estrutural numa sociedade com o perfil da brasileira. O Estadão desconversou e saiu com a notícia otimista/oficialista de sempre. O problema é que as pessoas, especialmente os leitores de jornais, não são cegas para o que está ocorrendo no dia-a-dia. Esse é um dos casos em que se aplica a referência de Leonardo da Vinci, de quando a memória substitui a inteligência.

(*) Jornalista especializado em divulgação de ciência, historiador da ciência e presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC).



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