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OFJOR CIÊNCIA
OfJor Ciência 2001 – Oficina OnLine de Jornalismo Científico é uma iniciativa do Observatório da Imprensa, Labjor e Uniemp.
SUPERINTERESSANTE
Gotinhas de insanidade
Nilson Lage
Em dezembro de 2000, a revista Superinteressante, da Editora Abril, publicou matéria de capa pondo em dúvida a adequação do tratamento da Aids. Na "carta do editor" do número de fevereiro, o diretor de redação, Adriano Silva, rejubilava-se:
Entramos o ano com uma ótima notícia. A capa de dezembro, "Aids: o HIV é inocente?" vendeu 106.000 exemplares em banca. É a primeira vez na história da revista que essa venda rompe a barreira dos seis dígitos. O que permite à Superinteressante ingressar num clube bastante seleto, do qual fazem parte apenas uma dúzia de publicações no Brasil.
É possível que Adriano, entusiasmado com os efeitos comerciais da reportagem, não tenha pensado naqueles doentes de Aids cuja esperança está depositada nos coquetéis anti-HIV, que o governo do Brasil muito corretamente distribui e fabrica no país, enfrentando o imperial lobby das patentes. O quanto deve ter custado em sofrimento a essa gente ver contestado, num magazine considerado sério, um tratamento penoso, porém estatisticamente reconhecido como eficaz e que, afinal, é o único disponível, fora da macumbice e da pajelança?
O número de janeiro da revista estava mais próximo da realidade. "O fim do câncer?" questiona uma possibilidade, que, embora não imediata, se amplia com os estudos em curso sobre genética, particularmente a pesquisa relacionada ao genoma humano. Na "carta do editor" de fevereiro, Adriano falava de "números preliminares" que apontavam também "para uma venda superior a 100.000 exemplares".
No entanto, nesse mesmo número de fevereiro – pautado, naturalmente, sob o impacto do êxito mercadológico de dezembro – , a matéria de capa voltava ao território do sensacional-sinistro, proclamando: "Vacinas: a cura ou a doença?" E um imenso subtítulo: "A vacinação, ferramenta básica de saúde pública, enfrenta no mundo inteiro uma onda crescente de críticas e desconfianças. A questão: será que as vacinas fazem mais mal do que bem?"
Atingido, aí, foi um público bem mais amplo do que os doentes de Aids e portadores de HIV. Os efeitos se espalharam, via formadores de opinião (os leitores de revistas, no Brasil), e se prolongaram no tempo, via estudantes de nível médio (os leitores preferenciais de Superinteressante). Chegaram, estão chegando ou chegarão, de alguma forma, a parcela incalculável do povo brasileiro.
Essa é uma conseqüência grave, porque os programas de imunização dependem da adesão espontânea do público: devem alcançar alta porcentagem da população em risco de contrair a doença. Isso explica o êxito que se tem alcançado neste campo no Brasil, onde as mães levam confiantes os filhos aos postos de vacinação e a tradição de vacinar descende das campanhas lideradas por Osvaldo Cruz, há 100 anos.
Fatos, não; argumentos
A matéria, assinada por Jomar Morais, é frágil. Próxima da argumentação de um advogado ou do discurso de um pregador religioso, passa distante da ciência e deixa evidente a origem fundamentalista de sua tese. Em suma: é uma peça de retórica.
O principal argumento proposto – o único que faz sentido e é apoiado em fontes que merecem credibilidade – é que o mecanismo de funcionamento das vacinas é pouco conhecido. No entanto, pouco conhecidos são também os mecanismos da maioria das doenças e de uma série enorme de procedimentos clínicos eficazes, desde a aspirina aos antibióticos. Em todos esses casos, a solução está em avançar as pesquisas, não em aguardar que surja do acaso a providencial certeza.
O resto é fantasia, fundada em picaretas estrangeiros ("terapeutas", "centros de medicina empírica" etc.). Há frases e citações que lembram o velho positivismo de Augusto Comte (cujos adeptos republicanos estimularam, no começo do século 20, a "revolta da vacina", no Rio de Janeiro), ou o discurso de fanáticos europeus que condenam as vacinas porque, permitindo a sobrevivência de grandes populações pobres, "interferem nas leis de Deus". Esse último argumento, em palavras mais sinceras, expressa o medo dos habitantes de guetos de prosperidade no Primeiro Mundo diante da proliferação da miséria na África, na Ásia, na Europa Oriental e na América Latina.
Desfraldada a bandeira, pouco importa a verdade. Todos sabem que os Estados Unidos, com sua vocação para guerras sujas, utilizaram contra o Iraque munição com urânio empobrecido; é conhecido o hábito americano de fazer experiências secretas com seus próprios soldados. Vários dos veteranos da Guerra do Golfo adoeceram. E de quem a culpa? Das vacinas, claro. Não de alguma vacina específica, mas das vacinas em geral.
A experiência brasileira
No campo das vacinas, o Brasil tem muitas histórias a contar.
Foram elas que extinguiram as epidemias que no começo do século 20 dizimavam populações urbanas e rurais – doenças tropicais e pestes européias.
Meus pais contavam que, em algumas dessas epidemias, como a da gripe espanhola, carroças e caminhões percorriam as ruas recolhendo cadáveres para as valas comuns.
Na minha infância, há meio século ou pouco mais, era comum ver nas ruas pessoas com as marcas da varíola. Tive todas as "doenças infantis", desde o sarampo à rubéola e à catapora, e outras menos infantis, como difteria e hepatite. Na minha juventude, quando estudava Medicina, vi pessoas morrerem de tétano, engaioladas no isolamento hospitalar; havia sempre hóspedes nas gaiolas. Isso no Rio de Janeiro, capital da República.
Pelo menos uma em 10 crianças contraía paralisia infantil nas épocas de surto, e muitas guardavam aleijões para a vida toda. A vacina Sabin – inventada pelo cientista israelense e que provou não ter os inconvenientes da pioneira vacina Salk (ao contrário do que sustenta Superinteresssante) – foi um capítulo a mais numa série de avanços extraordinários: o professor Jaques Lambert, o maior demógrafo do século 20, constatou, em Os dois brasis, que a vacina é o único tipo de fármaco que alterou substancialmente as curvas de crescimento das populações.
Ainda hoje, quando uma série de fatores – entre eles o ecoturismo – faz ressurgir doenças como a febre amarela (transmitida do macaco ao homem pelo mosquito), é a vacina a melhor solução. Aplicada ao gado, ela eliminou no Brasil a febre aftosa, com muito menor sacrifício de rebanhos do que nos países europeus, onde a doença agora se espalha.
Ética e compromisso social
Nos últimos tempos, a ética jornalística tem sido apresentada exclusivamente como responsabilidade diante de pessoas. Nos casos citados, há sempre alguém que o noticiário tornou execrável, condenou sem direito à defesa etc.
Esse é o conceito de ética perceptível para o pragmatismo do direito americano. Na história das idéias do século 20, ele esteve em conflito com outro conceito, o de responsabilidade social. E é este principalmente o caso.
Jornalistas têm o direito de veicular as idéias de seu tempo – e nem sempre as melhores. O conflito e a polêmica são fatores de interesse jornalístico, como prova a curva de venda em banca de Superinteressante. Mas nada disso justifica a publicação destacada – manchetada, ilustrada com a aplicação da gotinha de vacina a uma criança – de uma reportagem sem apoio na realidade, pondo em dúvida procedimento relevante para a saúde pública. Colocar uma revista de divulgação científica a serviço da anticiência, prejudicando políticas altamente benéficas e que tiveram imenso custo histórico – isso não se pode fazer.
A indignação de leitores manifestou-se em cartas que devem ter chegado em bom número; só eu conheço duas pessoas que escreveram protestando. Aí entrou em cena a segunda violação ética, esta de uma banalidade irritante: a seleção de cartas favoráveis, a sonegação de argumentos relevantes na correspondência, a arrogância de impor a própria palavra, usando como se fosse seu um espaço que é público, por um lado e, por outro, pertence à empresa, não a seu funcionário executivo.
Mas a Editora Abril também tem culpa no cartório. Afinal, é ela que historicamente tem estimulado seus editores de revistas especializadas a serem antes de tudo marqueteiros, o que acaba gerando absurdos como esse.
(*) Jornalista, chefe do Departamento de Jornalismo da UFC
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