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ASPAS

DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA
Cristina R. Durán

"Ciência em revista", copyright Valor Econômico, 6/09/01

"No final da década de 40, o físico curitibano Cesar Lattes, então com 21 anos, era um dos integrantes do grupo da Universidade de Bristol, na Inglaterra, que descobriu a ‘Méson Pi’, uma partícula através da qual se poderia explicar o comportamento das forças nucleares. Rapidamente, a notícia ganhou grande espaço na mídia internacional. No Brasil, a descoberta foi destaque diversas vezes das revistas ‘Manchete’ e ‘O Cruzeiro’, as principais publicações semanais da época. Para os brasileiros, Lattes (aposentado, hoje ele vive em Campinas, onde gosta de ler, caminhar e ouvir música) tornou-se motivo de orgulho nacional, uma espécie de Guga nos dias atuais. Seu sucesso, que se repetiria um ano depois na Universidade da Califórnia, em Berkeley, abriu caminho para a divulgação da ciência nesses magazines de entretenimento e de assuntos diversos.

‘ O fato foi muito usado politicamente, os cientistas brasileiros se aproveitaram desse sucesso para fazer alianças com militares, políticos e alguns industriais com a finalidade de construir uma nova rede científica no país. Trocava-se conhecimento por poder’, observa a pesquisadora Ana Maria Ribeiro de Andrade, autora de ‘Físicos, Mésons e Política - A Dinâmica da Ciência na Sociedade’ (Hucitec, 1999) e orientadora do grupo de História da Ciência do Museu de Astronomia e Ciências Afins. Com José Leandro Rocha Cardoso, também pesquisador deste museu, ela assina o estudo ‘Aconteceu, Virou Manchete’, recentemente publicado na ‘Revista Brasileira de História’.

‘A motivação desse trabalho, na verdade, foi descobrir ou identificar e localizar porque é tão difícil a interação entre ciência e sociedade no Brasil’, explica Ana Maria. Em sua opinião, isso poderia explicar, por exemplo, a ausência de apoio da iniciativa privada a projetos de desenvolvimento tecnológico no país, ao contrário do que ocorre no exterior.

Ana Maria e Cardoso analisaram e compararam minuciosamente ‘O Cruzeiro’ e ‘Manchete’. Só desta última, eles consultaram mais de 500 edições, entre 1952 e 1962, na biblioteca da Associação Brasileira de Imprensa. De ambas as revistas, os pesquisadores selecionaram reportagens, títulos e notas alusivas às áreas tradicionais da história da ciência. Os pesquisadores também buscaram informações sobre os leitores da época, tiragens, linha editorial e a história das revistas.

Ao divulgar a atividade como algo grandioso e inacessível ao leitor, essas revistas criaram o mito do cientista solitário

Eles comprovaram que, apesar das diferenças na abordagem do assunto entre ‘Manchete’ e ‘O Cruzeiro’, as duas publicações contribuíram para fazer chegar aos leitores as últimas novidades da área, sobretudo por meio de fotorreportagens - nas quais grandes fotografias dominavam as páginas, como a ‘Life’ e a ‘Paris Match’ já faziam. Segundo Ana Maria e Cardoso, mais do que a sua concorrente, a ‘Manchete’ pode ter estimulado o desenvolvimento do pensamento científico e filosófico no Brasil naqueles anos.

‘Porém, ao divulgar tal atividade como algo grandioso, abstrato e inacessível ao cidadão comum, essas revistas criaram o mito do cientista isolado e solitário em complexos laboratórios’, concluem os pesquisadores. Seria algo como a criação da imagem do cientista maluco.

‘Isso não contribuiu para que brasileiros fizessem ciência’, escrevem os autores do texto. ‘Ao erigir uma muralha entre o cientista e o leitor, ao mitificar ou banalizar sua atividade, as revistas estabeleceram falsas premissas de como ela é construída’, diz Ana Maria.

No Brasil daqueles anos 50, o rádio era o principal meio de comunicação de massas, a televisão apenas começava a ser transmitida nas grandes capitais e os grandes jornais chegavam ao interior com atraso de muitos dias, transportados por velhas locomotivas a vapor. Os eletrodomésticos e automóveis eram símbolos de status das classes privilegiadas e do modo de vida cosmopolita. A atividade científica estava restrita a poucas instituições do Rio de Janeiro e de São Paulo e não havia, como hoje, revistas especializadas em sua divulgação. ‘O Brasil não estava integrado no mundo da ciência e não havia um veículo de comunicação para divulgar o que se fazia’, explica a pesquisadora.

Na ‘Manchete’ não havia uma editoria dedicada à ciência e à tecnologia. Tais assuntos eram temas de fotorreportagens exclusivas ou apareciam em pequenas notas e nas seções consagradas como ‘O Brasil em Manchete’, ‘O Leitor em Manchete’, ‘Manchetinhas’ ou ‘Posto de Escuta’. Nessas notas, as notícias do setor se misturavam com as novidades sobre concursos e viagens de misses, catástrofes, política e economia, astros e estrelas do cinema e do teatro. ‘Todos eles fizeram parte do retrato construído pelo imaginário coletivo da sociedade urbana brasileira, a partir das fotografias publicadas naquelas revistas’, observam os autores do estudo.

Essas notícias referiam-se, porém, mais a descobertas e avanços feitos no exterior (58%) do que à produção nacional (42%). A utilização da energia nuclear - devido às discussões sobre o seu uso pacífico, a bomba atômica e a exploração das reservas nacionais de minerais radioativos - e os programas espaciais soviéticos e americanos repercutiam fortemente entre os leitores.

O lançamento do Sputnik, em outubro de 1957, agitou o imaginário popular pela possibilidade de vida extraterrestre, discos-voadores, heróis do espaço. O russo Yuri Gagarin, o primeiro cosmonauta, foi tema de várias edições da ‘Manchete’, sobretudo quando ele passou pelo Brasil. A divulgação foi tanta que despertou a indignação de alguns leitores. Um deles escreveu uma carta publicada na seção ‘O Leitor em Manchete’, reclamando da cobertura jornalística:

‘Algo está destoando na sua revista: o modo com vêm sendo divulgadas as façanhas científicas da URSS e o total desprezo pelos feitos dos EUA, nossos aliados naturais. Enquanto os americanos lançam 28 satélites de comprovado valor científico, cujos resultados são postos à disposição do mundo, a ‘Manchete’ tem cuidado de publicar, exclusivamente, os pensamentos de cachorros ou ratos ou as palavras de um futuro astronauta russo.’ É bom recordar que aquele era o tempo da Guerra Fria, quando a ciência e a tecnologia eram baluartes da disputa entre Estados Unidos e União Soviética, evidenciada pela corrida espacial.

Em seu estudo, Ana Maria e Cardoso salientam, ainda, que nos países industrializados da Europa e da América do Norte a tecnologia desenvolvida para fins bélicos - energia nuclear, radares, mísseis - tanto fortalecia o poder político e militar como era usada para acelerar o ritmo da economia. No Brasil, a produção de conhecimentos científicos e de energia nuclear eram tidos como as soluções para superar o atraso crônico da nação e para ostentar a grandeza cultural e o poder político-militar.

‘Aqui, como lá, o Exército e a Marinha foram os primeiros a estreitar os vínculos com os produtores da ciência. Associavam a industrialização e os recursos naturais com política, emancipação econômica e soberania’, escrevem os autores do estudo. ‘A aliança com os militares foi a principal responsável pelo aumento da produção científica’, prosseguem.

A marca do sensacionalismo com que o tema era tratado naquelas revistas pode ser traduzida pelo título de uma das edições de ‘Manchete’: ‘Na ciência, nos esportes e na música surgiram caras novas. Mas Pelé continua Pelé.’ O estudo observa, ainda, que as publicações mesclavam o discurso de especialistas com o de jornalistas. Estes apropriavam-se de palavras do campo científico e as incluíam na linguagem cotidiana dos brasileiros: ‘Um conto de fadas na idade atômica’, ‘Trens atômicos no metrô carioca’ ou ‘Rita (Gilda) Hayworth veio de longe para explodir no carnaval carioca’, eram alguns dos títulos.

Mas que ninguém pense que essa postura mudou muito nos dias de hoje. Para os dois pesquisadores, a despeito dos esforços individuais, ‘o sensacionalismo é a principal característica da divulgação da ciência no Brasil.’ A figura do cientista maluco continua."



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