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ANALFABETISMO FUNCIONAL
Das dificuldades de compreender o mundo

Ulisses Capozoli (*)

O editorial do jornal O Estado de S. Paulo "Analfabetismo tecnológico" (29/11, pág. A3) é um samba do crioulo doido que mais confunde do que esclarece e é, na verdade, indício de analfabetismo científico.

A idéia exposta pelo jornal é que, sem suporte nas ciências exatas, especialmente em matemática, o futuro tecnológico do país está ameaçado. O problema de textos como este é que, de início, não se considera que a tecnologia depende de pesquisa científica. Em muitos casos, de pesquisa básica, investigação que, de imediato, pode não ter aplicação prática. E mais: as dificuldades não estão restritas à matemática ou ao grupo das exatas, mas ao desafio de uma formação ampla, capaz de permitir uma integração do conhecimento e por isso mesmo uma visão crítica da realidade.

O editorial queixa-se de que as áreas de matemática e física perdem profissionais mais qualificados para o mercado financeiro e a informática, enquanto professores de Química, Biologia e Geografia migram para ONGs de proteção ambiental.

Essas dificuldades, argumenta o editorial para isentar o governo de responsabilidades, "não são exclusividade brasileira e apenas em parte podem ser atribuídas às atuais condições de ensino".

Dois fatos recentes sugerem que a situação é diferente. O primeiro deles foi a observação do presidente Fernando Henrique Cardoso sobre cientistas incompetentes ocuparem o lugar de professores, o que justificaria os baixos salários pagos à maioria deles.

O segundo está relacionado à última colocação brasileira no Programa Internacional de Avaliação de Alunos promovido pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Certamente que as dificuldades não são "exclusividade brasileira", como quer o Estado, mas como justificar a posição brasileira de 32º lugar num grupo de 32 países analisados (29 membros mais três convidados, Brasil, Letônia e Rússia)? E as dificuldades não envolvem apenas matemática ou ciências exatas, mas, entre outros requisitos, interpretação de texto, o que significa assimilação, ou não, do que se lê.

O presidente e seu porta-voz

Entre o que saiu no Estado e o que o historiador José Murilo de Carvalho publicou na página de opinião do Jornal do Brasil (9/12, página 13) há uma distância cósmica. Em "Defensores da Universidade", Murilo de Carvalho mostra que até a última greve, ainda não superada inteiramente, o vencimento básico de um professor titular nas universidades federais era de R$ 1.218,99, sem reajuste há sete anos. O resto são gratificações que elevam um salário em até R$ 5 mil, dependendo do tempo de trabalho.

O historiador estende sua crítica aos sindicatos e assembléias, além do governo, o que faz sentido. O Estado prefere uma visão tópica ao concluir que "a falta de professores competentes em ciências exatas no ensino médio é preocupante porque gera grave distorção: diplomados que são analfabetos tecnológicos".

Mais preocupante é um jornal do porte do Estado não compreender que é pré-condição para analfabetismo tecnológico o analfabetismo científico. Isto porque, como já se considerou, a produção de tecnologia depende de ciência. Assim, os diplomados são analfabetos científicos e não tecnológicos, o que é uma situação inteiramente distinta.

O Estado refere-se à Coréia do Sul (7º colocado na avaliação internacional) e Estados Unidos (16º) como países que têm, respectivamente, cinco e 15 vezes mais cientistas que o Brasil. A diferença é que, nesses países, o analfabetismo absoluto, do ler e escrever com inteligibilidade, é incomparável ao do Brasil, o que significa que a cidadania e o bem-estar social estão da base da ciência e são uma condição indispensável ao desenvolvimento do conhecimento. Com os salários pagos aos professores e a percepção que o presidente da República tem deles certamente a distância continuará cósmica.

Também a Folha de S. Paulo (6/9, página A2) tratou do assunto em editorial, mostrando que os resultados do Enen (Exame Nacional de Ensino Médio), numa escala de zero a 100, caiu de 51,85 no ano passado para 40,6 este ano. Lembrou que no caso da avaliação internacional, o ministro da Educação e presidenciável, Paulo Renato de Souza, esperava resultados ainda piores. O que pode ser pior que o último lugar? A pergunta é de Clóvis Rossi em "O Provão dos Provões" (Folha, 6/09, página A3).

Adepto da teoria da conspiração, desde o trabalho que o tornou conhecido academicamente, a teoria da dependência, o presidente da República diz e o Estado reproduz (OESP, 30/11, página A12) que "grupos manipulam os professores".

Cuidado com as boas notícias

Levantamento publicado pela Folha (páginas C1 a C3, 02/12) mostra que "conglomerados dominam ensino superior". Em resumo, as universidades privadas, que tradicionalmente não investem em pesquisa, ou ao menos não o fizeram até agora, já dominam o ensino superior em número de alunos matriculados. Assim, ao contrário do que sustenta o Estado, os riscos para o futuro, ao que tudo indica, são de outra natureza e vêm de outra direção. O que impede o Estado de fazer uma análise mais lúcida, entre outros pontos, é sua submissão às versões oficiais, o que caracteriza o antijornalismo.

Se o Brasil passou de 26º a 16º produtor mundial de ciência nas últimas duas décadas é porque amadureceu todo um sistema de apoio à ciência de meio século e que inclui, entre outras medidas, a fundação de instituições como CNPq, Capes e Finep, além da adoção da pós-graduação, em meados dos anos 60.

Esses são fatos históricos que um jornal como o Estado deveria considerar para tirar conclusões menos apressadas. É preciso dizer ainda que o Brasil forma, atualmente, perto de 5.500 doutores e não há emprego para a grande maioria deles, apesar do déficit de pesquisadores-professores nas universidades

É a falta de argumentos bem considerados, em benefício de uma perspectiva para o país, que explica fatos como o anúncio de página inteira que saiu em O Globo (9/12, página 7) "Cultura do Analfabetismo", texto precário de uma universidade particular com "preços ao alcance de todas as camadas sociais".

Ainda que existam "ossos do ofício", como em qualquer outra atividade, escrever sobre ciência é uma possibilidade de dar boas notícias aos leitores. E existem muitas para serem publicadas sem nenhuma necessidade de manipulação.

(*) Jornalista especializado em divulgação de ciência é mestre e doutorando em Ciências pela USP e presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC)


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