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IN VITRO
A propriedade do conhecimento

Ulisses Capozoli

Em tempos mais difíceis como o atual, mesmo as boas notícias devem ser consideradas com cuidado. É o caso do anúncio feito pela Organização Mundial da Saúde (OMS) (O Estado de S.Paulo, 1/12/, pág. A14) de que uma vacina contra a Aids estará disponível em outubro do próximo ano. Mesmo antes de confirmar os resultados, as indústrias já se preparam para enfrentar uma possível quebra de patente pelo Brasil e África do Sul.

No início do ano, as indústrias farmacêuticas levaram a África do Sul aos tribunais contra a quebra de patente. A África, no seu todo, tem 25 milhões de infectados, metade dos portadores de HIV de todo o mundo. Se a imprensa, no Brasil e no mundo, não destacar a necessidade de se avaliar vidas em benefício do lucro, a situação, neste caso, pode ficar ainda mais difícil. A Aids avança rapidamente pela China e Índia, as duas maiores populações do mundo, somando mais da metade dos 6 bilhões de pessoas do planeta.

Não se trata de altruísmo, mas de responsabilidade social e civilizatória. Algo como a reunião, na semana passada, dos 150 agraciados com o Prêmio Nobel para defender a necessidade de se preservar a paz no mundo (Estado, 7/12, página A13). Mas a paz não se sustenta sobre a miséria, como diz o texto preparado para o encontro, onde se previne para que "não se espere a bondade dos ricos".

Entre os agraciados com o Nobel estão o professor Hans Bethe (Física, em 1967), que descobriu a usina de força do Sol – a fusão nuclear–, e Francis Crick (Medicina, 62), um dos descobridores do DNA, base de toda investigação atual em genética e ciências da vida.

O argumento para se defender o uso do conhecimento científico para o bem-estar social, na realidade, mais que altruísmo, está ligado à propriedade do conhecimento. A ciência é um patrimônio de toda a humanidade, no caso do Ocidente, uma dívida profunda com os gregos que produziram seus fundamentos clássicos e os árabes que o guardaram durante a longa noite da Idade Média ocidental.



Lixo e desinformação

O jornalismo brasileiro, neste momento numa séria crise de qualidade, exige uma reciclagem profunda envolvendo conceitos, alguns deles básicos, como a distinção entre ciência e tecnologia. Só assim será possível prevenir situações indesejáveis e proteger patrimônios nacionais como a propriedade de conhecimentos tradicionais, reivindicação de pajés de quinze nações indígenas que será levada a Genebra ainda esta semana (Folha, 6/12, página A20). Pelo menos oito princípios ativos de recursos naturais das florestas brasileiras já foram patenteados no exterior, sem que o país e as comunidades indígenas se beneficiem disso, informa a repórter Cláudia Dianni.

O problema é que desde Cabral e, mais acentuadamente, desde a chegada da família real, em 1808, tudo no Brasil é motivo para se cobrar impostos. É o que vai ocorrer com a água, que também terá seu uso cobrado pela Agência Nacional de Águas (ANA). A agência cobrará de todos os que captam ou lançam efluentes em rios. O Paraíba do Sul e seus afluentes serão os primeiros a passar por esta experiência, incluindo 180 cidades de São Paulo, Rio e Minas Gerais, somando 8 mil indústrias (Estado, 8/12, página C2). Dados da agência indicam que a bacia do Paraíba do Sul recebe, a cada dia, 1 bilhão de litros de esgoto não-tratado.

Evidente que isso não pode continuar, mas o caso de uso de águas, particularmente envolvendo poluição, tem sido tratado com certa negligência pela imprensa. Na mesma página em que publica o material sobre a cobrança pelo uso das águas do Paraíba do Sul, o Estado noticia que a "despoluição do Pinheiros começa em janeiro".

A novela da despoluição do Tietê-Pinheiros arrasta-se há anos, pelos diferentes governos, sem que as águas se tornem menos turvas e perigosas. Na verdade, os rios onde se praticava canoagem há meio século são um espelho da cidade e das suas precárias condições de vida. Pneus, colchões e montanhas de garrafas plásticas entre outras fontes de poluição são retirados periodicamente do leito desses dois rios, sugerindo que não passa de jogo de palavras considerar que um rio pode correr límpido, por uma cidade suja. E aí retorna-se à necessidade de um enfoque mais objetivo, com análise das conseqüências, para não falar da viabilidade, de inúmeros projetos necessários aos interesses de toda a sociedade.

É também o caso do lixo. O Brasil é campeão mundial na reciclagem de materiais coletados por catadores de lixo, um exército de miseráveis cuja atuação, além de diminuir a poluição das águas, tem impacto significativo na economia. Por que a imprensa, registrando o trabalho dessa gente, não pode contribuir para que tenham acesso a benefícios sociais mínimo à dignidade humana? Pode ser porque a imprensa venha perdendo sua sensibilidade social. Catadores de lixo não são consumidores, no sentido convencional. E a imprensa, como a TV mundo-cão, precisa de ibope para valorizar suas páginas comerciais.

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