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JORNALISMO CIENTÍFICO
A história, os clones e os humanos
Ulisses Capozzoli (*)
Três semanas após a notícia publicada pela imprensa internacional envolvendo a suposta primeira clonagem de um ser humano pela empresa Clonaid, do Movimento Raeliano, o que pode ser um dos acontecimentos científicos deste século permanece controvertido, por falta de evidências materiais.
Na sexta-feira (3/1/03), o ex-jornalista francês Claude Vorilhon ("Raël"), líder do movimento, recomendou à diretora da Clonaid, Brigitte Boisselier, a não realização de testes da DNA na menina que teria sido batizada com o nome de Eva – o primeiro clone humano e, supostamente, o início de uma nova era.
Talvez a questão fique um pouco mais clara a partir do próximo dia 22 de janeiro, quando Raël e Boisselier deverão comparecer a um tribunal na Flórida, estado onde a clonagem teria sido realizada, com o nascimento do bebê, por cesariana, em 26 de dezembro.
Se o anúncio é apenas uma enorme farsa e não passa de mera publicidade do grupo, o impacto que desejavam, em boa parte, foi um sucesso.
No dia seguinte ao anúncio do suposto clone, a mídia trouxe artigos, entrevistas e opiniões de cientistas das várias áreas do conhecimento para avaliar a história sob diferentes pontos de vista.
Uma leitura nas entrelinhas mostra que nem todos condenam a suposta clonagem, apesar das variáveis envolvidas, entre elas a dimensão ética de um experimento como esse.
Talvez a ficção científica possa ajudar em alguma reflexão.
Perguntas sem sentido
Em seu Asimov on Science Fiction, uma espécie de manual de campo para leitores e candidatos a escritores de ficção científica, Isaac Asimov, um dos mais prolíficos autores do século passado, argumenta com o estilo ousado que caracterizou seus trabalhos e atitudes "como é fácil prever o futuro". Para ele, se olhássemos de relance os milhares de anos da história de nossa espécie poderíamos fazer algumas generalizações como:
" 1) A maneira de viver dos seres humanos modificou-se continuamente.
2 ) Essas modificações geralmente resultaram de algum avanço tecnológico: uma nova ferramenta, uma nova técnica, uma nova fonte de energia.
3 ) Como a cada avanço ampliaram-se as bases da capacidade tecnológica dos homens, outros avanços tornaram-se mais freqüentes e foram feitos em maior número de direções, de forma que a velocidade das mudanças, no decurso da história, aumentou incessantemente."
Se as mudanças foram relativamente lentas no passado mais distante, há pouco mais de 200 anos, com a eclosão a Revolução Industrial, adquiriram velocidade cada vez maior e surpreendente.
Nessa perspectiva, acontecimentos como a clonagem de humanos não apenas seriam aceitáveis como ocorrências possíveis, independente de questionamentos éticos, mas quase inevitáveis como resultado de avanços do conhecimento.
Por isso mesmo, boa parte das observações publicadas recentemente pode não passar de resistência religiosa justificada com outros argumentos, entre eles a ética – embora deva-se enfatizar sempre a complexidade da questão.
Se dependesse apenas da ficção científica, a clonagem seria uma realidade, mas também aí as controvérsias não estariam ausentes.
Em seu clássico Brave New World (Admirável Mundo Novo), Aldous Huxley numa incursão de 600 anos no futuro relata os valores de uma sociedade automatizada onde o sexo foi abandonado e a reprodução assegurada por incubadoras.
Mas foi Philip K. Dick, o autor de Do Androids Dream of Eletric Sheep? quem foi ainda mais longe nessa investigação. Seu romance deu origem ao filme Blade Runner – o Caçador de Andróides, de Ridley Scott, de 1982.
Numa espécie de anúncio explícito do futuro, quando a própria Dolly, a ovelha clonada ainda era uma personagem de pura ficção, Dick explorou, em detalhes, o drama profundamente humano de seus replicantes, entre eles a própria humanidade dos clones.
Alguns dos cientistas ouvidos recentemente questionaram as razões para uma possível clonagem e muitos religiosos e jornalistas repetem a questão: por que clonar um ser humano?
Talvez uma pergunta como esta seja equivalente a querer saber por que o Universo existe. Perguntas dessa natureza simplesmente não fazem sentido.
Questões complexas
De um outro ponto de vista, fora do universo da ficção científica e resultado também da Revolução Industrial, uma metafórica clonagem humana já é coisa do passado.
A questão, neste caso, envolve os autômatos, criaturas movidas a mecanismos de relojoaria e que culminaram no século 18.
Philippe Breton, historiador da informática francês, mostra que no século de ouro dos autômatos, artesãos como Jacques de Vaucanson (1709-1782), na França, além dos irmãos Hacques-Droz Pierre (1721-1790) e Henri-Louis (1752-1791), na Suíça, fizeram verdadeiros prodígios.
O Tocador de Flautas, de Vaucanson, executava doze diferentes trechos musicais e seu famoso Pato, criatura artificial tinha, em apenas uma das asas, mais de 400 peças articuladas imitando o movimento de uma ave natural.
O autômato falante de Joseph Faber (1800-1850) fazia perguntas e dava respostas, numa experiência semelhante às nada ingênuas bonecas falantes do inventor norte-americano Thomas Edison (1847-1931), conhecido especialmente pela lâmpada incandescente ainda em uso. O "Homem a vapor" de George Moore (1893), caminhando a uma velocidade de 14 quilômetros/hora surpreenderia ainda hoje.
Observadores mais objetivos podem argumentar que, neste caso, trata-se de meras formas mecânicas enquanto o que se faz hoje, no suposto caso do clone, envolve a vida.
Talvez também aí as diferenças sejam pouco significativas. O fato é que com os recursos de cada época os homens sempre, de maneira surpreendente, forjaram cópias de si como uma maneira metafórica de escapar do que Loren Eiseley chama de "orfandade cósmica" – o sentimento de desamparo entre as estrelas por desconhecimento de sua própria origem e destino.
A pretensa clonagem de Eva tem sido tratada por parte de cientistas e jornalistas como um fato quase isolado, restrito ao universo da ciência. Mas recuos da história permitem localizar criaturas que remetem a essa dimensão em épocas remotas, desde a Antiguidade grega.
Homero em A Ilíada já se refere a "criadas de ouro" que ajudavam Hefaisto, o deus aleijado, a caminhar, numa metáfora carregada de sentidos. Hefaisto cria, com a ajuda de Atena, deusa da tecelagem, da guerra e das armas, autômatos dotados de vida. Talos, o gigante que protegia a ilha de Creta contornando-a em intervalos regulares de tempo é um deles.
Quanto à abolição do sexo como forma de reprodução, tema de Huxley em Admirável Mundo Novo, a questão aparece já nos homúnculos de Paracelso (1493-1541), uma tentativa de se criar réplicas humanas sem recorrer ao útero feminino, segundo a tradição espermista, ligada a Aristóteles e Plínio. Essa concepção considera que toda espécie humana teria sido preformada nos rins do primeiro homem ou nos ovários da primeira mulher.
A idéia de que projetos como a tentativa de clonagem humana sejam algo recente, conseqüência da síntese de conhecimento dos últimos tempos, talvez seja uma das grandes dificuldades para se discutir, com pouco mais de consistência, a complexidade dessas questões.
O argumento mais recente envolve a ética, além de uma dúvida em torno da humanidade do clone, investigação que Philip Dick levou a fundo em sua obra.
Como Hamlet
Em termos éticos e humanos, apenas como recurso de comparação, talvez seja interessante refletir sobre a determinação das indústrias farmacêuticas em recorrer aos tribunais, contra a África do Sul, há menos de três anos, quando esse país se decidiu pela quebra de patentes para produção de medicamentos contra a Aids.
Seriam os mais de 25 milhões de soropositivos da África, metade da população mundial afetada pelo vírus HIV, menos humanos que outros povos para merecer tamanha recusa por parte dos benefícios da ciência e usufruir do direito à vida?
Se o status de humanos não for reconhecido a diferentes povos da África, por que tanta dúvida em torno da possível não humanidade dos clones humanos?
É possível que parte da questão se explique pelo fato de a seita por trás da empresa Clonaid sustentar versões algo exóticas sobre a origem humana, na concepção de seus adeptos, atribuída a alienígenas. Mas também aí, abolindo o exotismo e a lógica fácil, nos aproximamos de outras questões de fronteira, mais especificamente a idéia de que a vida teria, de fato vindo de fora da Terra. Não pelas mãos de alienígenas, como pretendem os raelianos, mas pelo que o físico e Prêmio Nobel sueco Svante Arrhenius (1859-1927) chamou de panspermia.
A panspermia, que teve no recém-falecido cosmólogo e astrofísico inglês Fred Hoyle seu defensor contemporâneo mais entusiasta, propõe que a vida pulsa em todo o Universo e não é privilégio de um ponto quase insignificante em torno de uma estrela mediana num dos braços espiralado de uma galáxia, apenas uma das bilhões de outras galáxias visíveis no Universo.
Até meados da década de 1950, quando a radioastronomia consolidava seu desenvolvimento beneficiada especialmente pelo radar, concebido durante a guerra, acreditava-se que a baixa densidade de matéria dos ambientes interestelares não viabilizaria a presença de moléculas, especialmente estruturas mais complexas.
Meio século após esses tempos de ceticismo, mais de 200 moléculas já foram reconhecidas no espaço interestelar e a presença abundante de água, especialmente em nebulosas onde nascem novas estrelas, já não surpreende mais.
Como se vê, a complexidade do Universo, da vida e da natureza humana não cabem em meia dúzia de palavras definitivas, independente de quem sejam seus autores. Em ciência, ao menos, autoridade significa pouca coisa. Às vezes, apenas um retrocesso ou inibição do novo, ainda que nem sempre sejam apenas isso.
Como disse Hamlet a respeito da ciência, quando esse nome ainda não havia sido forjado para designar uma busca metódica de conhecimento, "há muito mais mistério entre o céu e a Terra que sonha nossa vã filosofia".
(*) Jornalista, presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC) e editor de Scientific American Brasil
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