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FOLHA E "REVOLUÇÃO VERDE"
Pequenos grandes erros

Thea Tavares (*)

A edição da Folha de S.Paulo de sábado (11/1/2003), na seção Ciência, página A-12 – Panorâmica –, traz matéria da France Presse. Até aí, sem problemas. O deslize aconteceu no único momento que exigiu mais do que o esforço de "copiar e colar" (Ctrl C + Ctrl V): o título – "Ambiente: World Watch muda tom e aponta ‘revolução’ verde em relatório anual de 2003".

O equívoco está em associar o assunto tratado ao termo "revolução verde". A intenção parece que foi a de causar um bom impacto na apresentação da matéria, mas o tiro saiu pela culatra. O gancho do texto foi o otimismo inédito no relatório de uma ONG ambientalista sobre a conscientização, as políticas e as práticas que têm se mostrado eficientes na defesa da vida na Terra.

A pauta da agência internacional merece o mesmo espaço e possibilidades de se ampliar essa discussão, tanto por causa da luz no fim desse túnel quanto pela fuga ao pessimismo real com que as instituições radicalizam o verbo, no melhor estilo "chato, mas ecologicamente correto". Na União Européia, especialmente, o destaque ganha maiores conotações: a ecologia é bandeira de grandes organizações; a preservação ambiental é a principal plataforma de um partido político forte e presente em vários países; a conscientização ecológica interfere diretamente nas leis de mercado, no consumo ou no boicote a determinados produtos, nas políticas públicas, na popularidade dos governantes, como deveria também acontecer no país que tem a maior biodiversidade do planeta. O relatório do World Watch Institute é notícia e isso é ponto pacífico! Inclusive, continuou gerando comentários, excelentes comentários, no dia seguinte, na matéria do editor de Ciências, Marcelo Leite ("Malditas estatísticas, benditas estatísticas", página 15 do caderno Mais!).

O pecado cometido na edição do título pela Folha foi vincular a notícia ao termo "revolução verde" – se usasse, por exemplo, "revolução ambiental" não teria suscitado problema algum –, pelo que parece, preterido até pelo próprio relatório em questão, que utilizou "revolução do ambiente", conforme está escrito na matéria original da France Presse.

O termo "revolução verde" se refere a um período determinado (meados da década de 70), quando houve uma opção clara na agropecuária — o caso do Brasil foi de aplicação da regra sem tirar nem pôr – e nos governos, induzida pelos Estados Unidos, de valorização da mecanização nos campos e nas lavouras, de uso indiscriminado de agrotóxicos, entre outras práticas, que legaram um estrago brutal à saúde de quem planta e consome alimentos, impulsionaram o êxodo rural e agravaram a dependência externa dos países periféricos, importadores do modelo americano (de capital, de tecnologia e pesquisas, de maquinário, de sementes, de produtos veterinários... Enfim, das multinacionais e do dólar, para sintetizar).

Zelo com a informação

Como resposta aos impactos negativos desse modelo, intensificaram-se os apelos ecologistas, ambientalistas – e até o capital, que "revolucionou" a agropecuária, se aperfeiçoou em inverter o prejuízo (leia-se, prejuízo público, distribuído entre a população dos países pobres sob a forma de miséria, fome, arrocho salarial, recessão econômica, entre outros efeitos, pois gerou lucros astronômicos lá fora). Os investimentos das multinacionais se direcionaram para a busca da mesma lucratividade, só que, desta vez, norteados por princípios mais aceitos: controle biológico, redução de agroquímicos nas lavouras, preocupação com o destino final das embalagens de veneno, biotecnologia e a polêmica transgenia.

Na contramão dos interesses externos, a agricultura familiar brasileira veio sobrevivendo, por conta própria e por força de sua organização, com a construção de caminhos alternativos de desenvolvimento sustentável, sem qualquer simpatia ou atenção por parte dos governantes. E essa relação serviu para outra contradição: a fome de quem planta o alimento. Mas isso já é outro assunto.

A "revolução verde" merece argumentos e conceitos melhores que os desta análise simplista, mas, estes, já cumprem seu papel de mostrar o quanto foi contraditória a associação do termo "revolução verde" no título da matéria da Folha Ciência de sábado. Reforçando: se o jornal usasse "ambiental", em vez de "verde", até que a revolução passaria! Para o leitor um pouco mais informado, restou a impressão de que o erro fora motivado pela desinformação do editor.

A crítica não deve ser interpretada como uma apologia ao perfeccionismo no texto de jornal diário. Até porque o erro é um risco inerente a qualquer atividade, e na imprensa ele é cotidiano. Só não está sujeito a errar aquele que nada faz ou nada escreve. Quando o deslize diz respeito à gramática, há sempre a possibilidade de uma revisão que a ressuscite. Mas a crítica se faz válida, sim e sempre, pelo zelo com a informação.

(*) Jornalista, Chapecó, SC

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