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IMPRENSA E CIÊNCIA
O princípio de Frankenstein
Luiz Weis (*)
Bjorn Lomborg é um jovem dinamarquês sorridente (pelo menos na foto que saiu na Economist), que deixou de ser, como ele mesmo diz, um simpatizante de esquerda do Greenpeace, para se transformar em um "ambientalista cético", nome de seu livro a sair em setembro.
Talvez por afinidade com as suas idéias, a Economist publicou na edição de 2 de agosto um artigo do autor, de 3 páginas, intitulado, sem a mais remota sombra de prudência ou ceticismo, "A verdade sobre o ambiente".
A folhas tantas, Lomborg, que é estatístico de formação, dá uma de sociólogo e especula sobre os motivos pelos quais muita gente acredita equivocadamente, assegura que os padrões ambientais estão decaindo. Um dos motivos dessa suposta "disjuntiva entre percepção e realidade" seria a atitude da imprensa.
"As pessoas são claramente mais curiosas em relação às más notícias do que às boas. Jornais e emissoras estão aí para proporcionar o que o público quer", escreve Lomborg, ecoando, sem saber, o princípio segundo o qual "cachorro que morde homem não é notícia, mas homem que morde cachorro, sim" a versão quem sabe mais cínica do falado "apelo jornalístico".
Ora, raciocina o dinamarquês, as organizações ambientalistas sabem que precisam ser notadas pela imprensa, e, por isso, às vezes carregam nas tintas de suas denúncias.
Mesmo que ele esteja errado de cabo a rabo em seus ataques aos ecologistas, não é despropositada a sua referência ao comportamento da imprensa diante de questões como a do ambiente que envolvem ciência, dinheiro, valores culturais, aspirações conflitantes e forte carga emocional.
Três desses assuntos estão no ar e interessam ao menos àquela parcela da humanidade que faz três refeições por dia e têm cabeça para se ocupar de algo além do vasto repertório de trivialidades que transborda do cotidiano.
Os assuntos são o efeito estufa, os transgênicos e a clonagem. Não é de hoje que se trata de saber se as populações expostas ao respectivo noticiário da imprensa recebem os dados e as interpretações discordantes de que dependem para formar opinião esclarecida em cada caso.
Essa dúvida é importante em razão do princípio de que, nas sociedades democráticas, o consumidor de informações que afetam a sua vida tem o direito de receber a melhor mercadoria disponível entendida como serviço público e não como commodity.
E essa importância fica tanto maior quanto mais numerosas vão se tornando as situações que envolvem escolhas que, para serem racionais, exigem um mínimo de conhecimento fundamentado sobre a presença ou ausência de base científica em cada uma das possíveis alternativas.
Um exemplo banal desses dilemas que já é realidade em outros países e, mais dia, menos dia, acabará sendo realidade também no Brasil é consumir ou não alimentos que contenham componentes geneticamente modificados.
Outra modalidade de decisão é de natureza política. Nos países mais prósperos, onde as disputas eleitorais já não giram exclusivamente em torno da apropriação do bolo econômico, mas abrem crescente espaço à chamada "agenda pós-materialista", a tendência é o povo ser chamado cada vez mais a decidir em plebiscitos ou pleitos regulares sobre matérias relacionadas com o ambiente e com os usos das descobertas revolucionárias que se sucedem no campo nas ciências da vida.
É o caso de perguntar quantos serão os países e o Brasil obviamente não é um deles em que uma parcela expressiva dos cidadãos, para não falar na maioria,
1) sabem de verdade o que é aquecimento global, alimentos transgênicos e clonagem (reprodutiva ou terapêutica);
2) conhecem os termos gerais do debate em curso sobre essas questões; e
3) têm opinião informada a respeito.
E é o caso de perguntar se o modo como a imprensa trata desses assuntos educa ou deseduca o grande público.
226 palavras
Postas ambas as perguntas nesses termos tão gerais, é claro que não se obterão respostas suficientemente consistentes para chegar a uma conclusão que faça sentido. Mas há bons indícios, baseados em pesquisas, de que a imprensa do primeiro mundo não tem servido de contrapeso ao grau surpreendentemente alto de scientific illiteracy naquelas sociedades. Isso quando não ajuda a aprofundar a ignorância amplamente difundida.
No caso do efeito estufa, o antiecologista Bjorn Lomborg tem mais do que uma ponta de razão ao se queixar, como fez na Economist, de que a convergência de interesses entre as organizações de defesa do ambiente e a imprensa pode levar os leigos a ter uma visão talvez exagerada do alcance das mudanças climáticas provocadas pela queima de combustíveis fósseis, carvão, gás e petróleo.
Para azar dele, não existe entidade científica digna de respeito que negue a ameaça, real e presente, dos gases estufa ao clima da Terra. A extensão dessa ameaça, porém, é discutível e é provável que a grande imprensa internacional esteja dando mais ênfase ao problema em si do que à controvérsia sobre o tamanho de suas conseqüências.
No último verão (do Hemisfério Norte), por exemplo, uma reportagem do New York Times informou, com base no depoimento de um passageiro de um quebra-gelo russo, que o aquecimento global tinha feito derreter uma área de 1,5 km quadrado da calota que cobre o Pólo Norte. Pouco depois, uma checagem cuidadosa obrigou o jornal a desmentir a notícia.
No caso dos transgênicos, os tablóides sensacionalistas ingleses de longe, os melhores do mundo nesse gênero infame criaram o pânico em relação a tais alimentos, ao batizá-los de "Frankenfoods". Numa Grã-Bretanha traumatizada pela doença da vaca louca, foi o que bastou para abafar as vozes das mais acatadas instituições científicas do Reino Unido, como a Royal Society e o Royal College of Medicine, segundo as quais não havia como não há até hoje prova de que os transgênicos façam mal à saúde ou ao ambiente.
No caso da clonagem, enfim, a imprensa mundial vem dando mais peso às bravatas de dois médicos que dizem estar quase prontos a clonar pessoas capa da Veja e da IstoÉ desta semana do que às pesquisas, sérias e promissoras, com clones de células recém-fertilizadas que poderão curar desde lesões cervicais a doenças como diabetes, Parkinson e Alzheimer.
Não fosse o anúncio do presidente Bush, na quinta-feira passada, autorizando verbas federais para tais pesquisas, em escala ultra-restrita, esse avanço científico, que interessa de perto a incontáveis milhões de pessoas, nem estaria em pauta na mídia de massa.
Como Bush falou, a clonagem terapêutica já não pôde ser ignorada. Mas entrou daquele jeito: para citar um exemplo característico, ocupou apenas 226 das 2.293 palavras do texto principal da reportagem da Veja.
(*) Jornalista

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