OFJOR CIÊNCIA

FANTÁSTICO
Tem boi (e muita gordura) na linha...

Carlos Peixoto (*)

Não conhecia a revista Tec Carnes até a publicação do texto da repórter Simone Pallone de Figueiredo n’Observatório da Imprensa, com o título "Fantástico, desinformação e descaso". Sei agora que a Tec Carnes é a revista oficial de divulgação das atividades da Associação Brasileira de Ciência de Carnes, ABCC. Produtores de carnes, profissionais da indústria e a comunidade acadêmica ligada a essa atividade econômica formam o público-alvo da Tec Carnes.

Uma relação tão explícita com os interesses dos produtores e da indústria do setor não desqualifica as críticas da repórter da Tec Carnes. O que invalida são alguns erros e muitos excessos. Gostaria, portanto, de contra-argumentar:

** O Fantástico não é sensacionalista, não está empenhado em desinformar e nem trata os assuntos com descaso; ao contrário, está no ar há 28 anos e é líder de audiência no seu horário; deve, portanto, ter seus méritos e ser reconhecido pelo público como um programa que atende aos interesses dele; assim como a Tec Carnes procura ser lida pelo pessoal que produz as carnes, inclusive o pescado;

** A jornalista Simone entrou em contato com a Assessoria de Imprensa da Rede Globo e recebeu a informação de que, depois de divulgar os resultados da base seca no teste do colesterol, o Fantástico divulgaria, na semana seguinte, resultados com a base úmida. Foi o que aconteceu e a matéria da revista Tec Carnes confirma que, depois de dar resultados da base seca, o programa divulgou os resultados com a base úmida (vide parágrafo 11 do texto da repórter da Tec Carnes);

** A jornalista da Tec Carnes comete uma imprecisão. No parágrafo citado, o texto dela diz "Já com valores corretos". Não é verdade: os resultados da base seca nunca estiveram errados.Não é "já", e sim, aí então, com outros resultados. Podem não agradá-la, mas os primeiros resultados estavam tão corretos tanto quanto os divulgados na semana posterior. Informam o teor de gordura saturada e colesterol das carnes de porco e vaca;

** Não se corrigiu a matéria porque não havia o que corrigir;

** De fato, não respondemos às críticas de alguns criadores de zebus, bem como não o fizemos com os produtores de rã, coelho, avestruz e cabras. Há única razão: o teste não incluiu essas carnes. E a maioria dos e-mails e faxes pedia a inclusão de amostras dessas carnes no teste. Um produtor de carne suína, dirigente de uma associação de classe, reclamou e foi ouvido pela EPTV, afiliada da Rede Globo em Campinas. A entrevista dele foi ao ar. O presidente da associação dos criadores de zebus enviou um das dezenas de faxes para a redação. Ele é tão importante para nós, do Fantástico, quanto um criador de cabras do interior do Ceará que insistiu muito para entrar no teste (ele não conseguiu);

** Quanto à comunidade acadêmica, procuramos dois representantes: a professora Neura Bragagnolo e o professor Pedro Eduardo de Felício, ambos da Faculdade de Tecnologia de Alimentos da Unicamp. Dei, pessoalmente, explicações à doutora Neura e deixei recado na secretária eletrônica do professor Felício, com o telefone da redação, convidando-o a fazer os reparos que julgasse necessários. Constato que o professor Felício alou com a repórter da Tec Carnes, mas – especulo – não recuperou a mensagem na secretária eletrônica;

** O Fantástico não tirou conclusão dos testes que não estivesse amparada em informações repassadas pelo Ital, pelo Inmetro, pelo diretor do Instituto Nacional de Cardiologia (ex-Hospital de Cardiologia de Laranjeiras), cardiologista Carlos Scherr, ou pelo nutricionista da instituição, Marcelo Barros;

** Imagino que o público que freqüenta este site – e aí me incluo – é formado, na maioria, por jornalistas e estudantes da área de Comunicação. Parece até bobagem acrescentar que o tratamento dado pelo Fantástico ao teste do colesterol e da gordura saturada é diferente do que a revista TeC Carnes deve dar ao mesmo assunto para atender ao seu público-alvo;

** A proposta do médico Carlos Scherr ao elaborar o teste foi fazer uma prestação de serviços; doenças do coração são um problema para a rede de saúde pública do país, sendo os custos para o tratamento compartilhados por todos nós, contribuintes; quanto à parceria Fantástico-Inmetro, ele é pública e vem permitindo a divulgação de trabalhos que têm o objetivo de ajudar o consumidor. Com transparência. As pressões de grupos da sociedade fazem parte do nosso trabalho, não importa que venham de fabricantes de papel higiênico, de importadores de palmito ou de criadores de avestruz, de rã, de zebu, de cabra, de porco ou de gado bovino.

Eu me recuso a ver a repórter da Tec Carnes como autora de críticas levianas; prefiro considerá-las inadequadas para analisar dois veículos tão diferentes.

(*) Editor do Fantástico

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Fantástico, desinformação e descaso – Simone Pallone de Figueiredo

 

Simone Pallone de Figueiredo responde

Não gostaria de prolongar essa questão da apresentação do teste da gordura em carnes, apresentado no Fantástico. Fico satisfeita em saber que o editor do programa tenha feito algumas considerações sobre o artigo que publiquei no Observatório da Imprensa. Continuo questionando a forma com que foram levados ao ar, no segundo programa da série, os resultados obtidos nos testes feitos com amostras úmidas. Realmente não fiquei satisfeita. Continuo também afirmando que o programa errou. Concordo que os resultados na base seca não eram errados, mas não está correto dizer que "100 gramas de contra-filé frito sem gordura têm 268 mg de colesterol... quase todo o colesterol que uma
pessoa saudável pode consumir num dia... E para quem tem problema de coração, 100 gramas de contra-filé frito contêm mais colesterol do que o recomendado...", quando na base úmida esses níveis não ultrapassariam as 90 mg. Menos de um terço da quantidade recomendável a ser consumida por uma pessoa saudável, em um dia.

Sobre não incluir o zebu no teste, aqui quem comete uma imprecisão é Carlos Peixoto. É bem provável que o contra-filé utilizado no teste realizado no Ital a pedido do Inmetro tenha sido de carne zebu. Zebu é uma raça bovina de origem indiana, como gir, guzerá e nelore, entre outras. Lembro aqui que a maior parte do rebanho bovino de corte nacional é constituído de animais da raça nelore. Os bovinos são divididos em duas classes: Bos indicus (as raças de origem indiana) e Bos taurus (as raças européias e americanas) e ‘gado bovino’ inclui os animais da raça zebu.

Depois de publicar dois artigos sobre o tema, um na revista TeC Carnes e outro neste Observatório, recebi várias mensagens de apoio e novas informações sobre tabelas equivocadas usadas por médicos e nutricionistas; e sobre novas pesquisas que
revelam não haver ligação entre consumo de colesterol e colesterol ruim no organismo. Não concordo que as minhas críticas sejam inadequadas, e nem mesmo excessivas. E continuo acreditando que não só o Fantástico, mas também outros veículos de comunicação, podem ter mais cuidado ao levar ao ar, ou publicar na forma impressa, reportagens que pretendem alertar a sociedade sobre as maneiras de cuidar melhor da sua saúde. Principalmente por se tratar de um programa que está no ar há 28 anos, como disse seu diretor, que é líder de audiência e que exerce forte influência na formação da opinião pública. [ Simone Pallone de Figueiredo, repórter da revista TeC Carnes]