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OFJOR CIÊNCIA
GENOMA HUMANO
Informação e desinformação
Roberto Belisário (*)
Desorientação: esse deve ter sido o sentimento do leitor com pouco conhecimento de Genética frente às reportagens científicas nos dias que se seguiram a 6 de abril. Esta foi a data em que a empresa norte-americana Celera anunciou que está na iminência de completar a primeira fase do seqüenciamento do genoma humano. O fato em si foi veiculado em toda a imprensa. Porém, das informações científicas básicas indispensáveis para uma boa compreensão das idéias envolvidas, pouquíssimas foram divulgadas.
Na verdade, o noticiário em torno do anúncio da Celera constituiu um grande desafio à capacidade de divulgação da mídia, devido à enorme complexidade e interdisciplinaridade do assunto – um coquetel de questões científicas, éticas, jurídicas e mercadológicas. Além de dar conta de aspectos tão variados, a imprensa deveria ainda driblar a euforia inicial e evitar as tentadoras especulações exageradas. Dentre as muitas falhas, uma das maiores foi a insuficiência na divulgação científica.
Nos dias 7, 8 e 9 de abril, as reportagens de quatro grandes jornais brasileiros – Folha de S.Paulo, Estado de S.Paulo, Jornal do Brasil e O Globo – disseram corretamente que o feito da Celera constituiu-se em decifrar as "letras do alfabeto" do código genético humano. Mas não explicaram o que vem a ser "código genético". Nem tampouco o que é genoma, gen, cromossomo e DNA; e não falaram da importância desses conceitos na transmissão das características hereditárias de pais para filhos. Tudo foi feito como se todos os leitores já tivessem todas essas noções bem compreendidas – com exceção de um pequeno glossário publicado pelo Jornal do Brasil no dia 9, três dias depois do anúncio.
Quanto ao o processo de seqüenciamento, informações superficiais apareceram em alguns diagramas que acompanhavam os textos. Mas esse assunto mereceria uma apresentação um pouco mais detalhada, pois trata-se de um dos processos de engenharia mais espetaculares já criados pela Ciência, com enormes implicações na vida humana. Era a hora ideal para dar ao leitor informações elementares sobre como se processa a extração do DNA das células, a fragmentação das moléculas de DNA e um pouco sobre o modo como o computador identifica as diversas bases (unidades constituintes do DNA). O leitor poderá consultar o site do Projeto Genoma Humano (em inglês) para uma explanação sobre os principais conceitos envolvidos na Engenharia Genética.
Além disso, houve uma confusão quanto ao tempo necessário para que o seqüenciamento seja completado, com informações mal esclarecidas ou mesmo desencontradas. Segundo a Folha de S.Paulo (7/4/00, pág. 1-13), "Craig Venter, presidente da Celera, disse à rede CNN que a etapa final do projeto estará completada em três a seis semanas" (grifo meu). Mas a mesma Folha publicou (8/4/oo, pág. 1-17), que "o trabalho de descrever cada um dos 80 mil genes, ou pelo menos os mais importantes (...) pode consumir ainda um século". O Estado de S.Paulo (9/4/00) diz que a Celera "prevê concluir em um mês o seqüenciamento de todo o material genético do homem". O Jornal do Brasil (9/4/00), afirma que a Celera diz que, "em poucos meses, com ajuda de computadores, terá identificado a seqüência dos pares de bases que formam o DNA humano." Em "O Globo" (8/4/00), lemos: "O Hugo [Projeto Genoma Humano] prevê que terá um rascunho do genoma [humano] em junho (...) e que terá finalizado todo o trabalho em 2003. Já a Celera promete concluir a missão em 2001".
O leitor fica sem saber se o genoma humano será seqüenciado completamente em três semanas ou em cem anos. Uma das razões para essa confusão é que os jornais falharam em esclarecer suficientemente que:
- Uma coisa é completar a "segunda fase" do seqüenciamento do genoma humano (que consiste no ordenamento dos fragmentos de DNA cujas seqüências a Celera está em vias de acabar).
- Outra coisa é o passo seguinte – determinar quais as seqüências que contém informações úteis, e isso leva mais tempo (só 3% do código genético humano contêm informações relevantes, o resto é "lixo").
- Outra coisa ainda é o passo final, ou seja, determinar a função de cada gen, a fim de que possa haver aplicações concretas, tais como a cura de doenças genéticas (o que levará décadas).
A imprensa deveria ter tornado bem claro qual desses três objetivos se entende por expressões como "finalizar todo o trabalho" ou "etapa final do projeto", usadas nos jornais.
Alguns telejornais que noticiaram o anúncio da Celera no dia 6 começaram a reportagem com frases bombásticas sobre novas portas se abrindo na História da Humanidade – um claro exagero. A imprensa escrita saiu-se bem melhor. Mas esta última se viu diante do grande desafio de divulgar não apenas o fato em si ou os seus aspectos científicos, mas também tópicos muito diversos – questões éticas, jurídicas e mercadológicas relacionadas ao patenteamento de genes e questões éticas relativas à utilização do código genético para discriminações sociais (como na decisão de uma empresa de não aceitar um novo empregado cujos genes denunciam maior probabilidade de, por exemplo, morrer de câncer). Além disso, ainda dentro da divulgação científica propriamente dita, deveriam ser dados esclarecimentos sobre os métodos usados na pesquisa, suas limitações, comparação com os métodos usados no Projeto Genoma Humano oficial, e aplicações concretas que já estão aparecendo.
Seria praticamente impossível abordar satisfatoriamente todos esses quesitos numa reportagem de meia página. Mas foi exatamente isso o que a maior parte dos jornais tentou fazer nos dias seguintes ao anúncio da Celera. Em geral, foram privilegiados os temas do patenteamento de genes, da análise das diferenças entre os métodos da Celera e do Projeto Genoma Humano oficial e de algumas aplicações futuras das pesquisas. A exceção foi o O Estado de S.Paulo, que publicou, no dia 9, algumas páginas com reportagens abordando todos esses assuntos.
Site do Projeto Genoma Humano: <http://www.ornl.gov/TechResources/Human_Genome/home.html>. Clique em "FAQs" para informações relacionadas aos principais conceitos da Engenharia Genética.
Site da empresa Celera: <http://www.celera.com/>
(*) Físico. Colaborou com este artigo Djane Y. Hanasilo, estudante de Biologia da Unicamp.
AMAZÔNIA
O que faltou dizer
Roberto Belisário
O Programa Avança Brasil poderá provocar um aumento entre 80 e 180 mil km² de área desmatada na Amazônia, nos próximos 25-35 anos – segundo relatório apresentado por três renomadas organizações não-governamentais científicas. Esta notícia foi veiculada pela Folha de S.Paulo (19/3/00, págs. 1-17 e 1-18). A grande vilã é a pavimentação de 3.500 km de estradas através da Amazônia Legal, prevista como parte do programa plurianual elaborado pelo governo federal.
As três ONGs responsáveis pelo relatório são o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), o Instituto Sócio-Ambiental (ISA), ambos brasileiros, e o Centro de Pesquisa Woods Hole (WHRC), de Massachusetts, EUA. O relatório está disponível na Internet, no site do IPAM. Traz os resultados do projeto "Cenários Futuros para a Amazônia", realizado pelas três organizações. O objetivo do projeto é justamente avaliar os impactos ambientais do Programa Avança Brasil na Amazônia.
A Folha teve acesso ao relatório logo após a sua apresentação no Banco Mundial (feita em 16 de março, em Washington, EUA) e publicou uma reportagem sobre ele no mesmo dia em que seria disponibilizado na Internet. Ao escolher a notícia como manchete do jornal, a Folha deu o tratamento adequado a um assunto relevante.
O texto da Folha possui várias características de como devem ser escritos textos contendo material científico: reproduz dados quantitativos e explica o método com o qual as previsões foram obtidas. Além disso, cita um trabalho da ONG Imazon, que apresenta alguns resultados diferentes daqueles contidos no relatório – o que ajuda ao leitor avaliar melhor o grau de certeza das conclusões das três ONGs. Acresce-se a isso as declarações defensivas da secretária de Coordenação de Amazônia do Ministério do Meio Ambiente, Mary Allegretti, no tradicional box com a visão do "outro lado", sempre apresentado pela Folha em tais situações.
A reportagem inclui também informações de fontes adicionais. Contém, por exemplo, trechos de entrevistas com o consultor-chefe de biodiversidade do Banco Mundial, Thomas Lovejoy, e com o ex-presidente do Ibama e consultor ambiental Eduardo Martins. Apresenta ainda uma discussão sobre o recente crescimento do papel das ONGs científicas no meio acadêmico, ajudando o leitor a compreender melhor quem são e a importância dos autores do relatório.
Duas ressalvas, porém, devem ser feitas. A discussão a respeito da dinâmica do processo de devastação, causado pela expansão das fronteiras de desenvolvimento (pág. 1-18), é cheia de defeitos. Fala sobre a influência das atividades madeireiras e dos pequenos agricultores, mas deixa de mencionar as da pecuária extensiva. O texto do relatório deixa claro que a pecuária extensiva é uma das maiores responsáveis pelo desmatamento na Amazônia e pela proliferação dos incêndios.
A segunda ressalva é sobre uma omissão mais grave. No texto do relatório, é proposto um modelo alternativo e menos pernicioso de desenvolvimento para a Amazônia, para ser usado no lugar do Programa Avança Brasil. Este modelo privilegia a renovação de fronteiras de desenvolvimento antigas, em vez de abrir fronteiras novas. O relatório mostra que essa estratégia pode estancar os "ciclos viciosos" de desmatamento e queimadas na Amazônia, enquanto a abertura de novas fronteiras tende a expandir esses ciclos. No entanto, a reportagem da Folha nada diz a respeito desse modelo alternativo, fazendo com que as três ONGs pareçam se enquadrar numa espécie de "grupo que só diz não", que critica sem apresentar soluções.
Site do IPAM: <www.ipam.org.br>
Site do Programa Avança Brasil: <www.brazil.gov.br/html/abr_set.htm>
(*) Físico
MÍDIA OMISSA
CPI dos Medicamentos
sai da primeira página
Isak Bejzman (*)
A mídia brasileira é omissa quanto às especialidades farmacêuticas, um mercado de consumidores pobres, que em 10 anos se expandiu de 4 bilhões de dólares para 12 bilhões de dólares ao ano, e que de 1996 para cá teve seus preços inflacionados em mais de 50% em dólares americanos.
Ao não dar ao fato a importância merecida, a mídia, inconscientemente, mantém o povo brasileiro na total ignorância dos riscos que enfrenta na assistência médica. É fundamental que a imprensa brasileira critique os preços dos remédios, num país em que a maioria da população, miserável, vive com 1 real por dia. Como comprar especialidades farmacêuticas?
É importante que a mídia brasileira faça uso da memória. Já houve no Congresso Nacional uma CPI dos Medicamentos; atualmente está em andamento outra, e assim mesmo a mídia mergulha pouco no problema. Até o momento não percebi a menor curiosidade (jornalística) em querer saber quais as razões que levaram à primeira CPI dos Medicamentos e por que foi instalada a segunda.
Ninguém ignora que uma substância ativa, até chegar a ser um medicamento e depois ingressar no mercado como especialidade farmacêutica, leva de 5 a 10 ou mais anos. Todo cidadão de mediana formação é sabedor de que o corpo profissional de uma indústria farmacêutica é altamente sofisticado. Somos do Terceiro Mundo, mas não tão imbecis para que não saibamos que a trajetória de um produto do laboratório à prateleira de farmácia consome alguns milhares de dólares e, portanto, é justo que o laboratório tenha retorno do investimento, o que se sabe só ser possível pelo lucro comercial.
O diretor-geral do sindicato francês da indústria farmacêutica, Bernard Lemoine, disse: "Não vejo por que se exigiriam da indústria farmacêutica sacrifícios especiais. Ninguém pede à Renault que dê carros a quem não tem". No mínimo grosseiro e desrespeitoso com bilhões de seres humanos, ao comparar o direito do ser humano ao tratamento de sua doença e o direito de preservar sua vida com um bem material de luxo.
A reunião da Organização Mundial da Saúde (OMS) em Alma Ata pôs em ação a chamada "revolução sanitária para o planeta Terra", pensando que poderia contar com o conteúdo humanista de uma indústria como a das especialidades farmacêuticas. A realidade é outra. É no mínimo trágico e desumano assistira aos laboratórios cobrando de forma ferrenha o patenteamento de fórmulas e lutando de forma mais ferrenha ainda contra os medicamentos genéricos; e retirando do mercado remédios essenciais ao tratamento de moléstias tropicais, porque povos que delas padecem não podem pagá-los.
As indústrias do tabaco trabalham com margem de lucro de 20%; as de cerveja e refrigerantes, 30%, e a de medicamentos, 40%. A indústria farmacêutica gasta de 15% a 20% do volume de seus negócios em publicidade, propaganda e pesquisa de opinião. Doenças tidas no Brasil como erradicadas estão retornando, como o flagelo da tuberculose. O bacilo atual é de uma nova cepa, o que faz com que velhos medicamentos percam seu efeito. Embora o número de contaminados no mundo seja de 8 milhões, a indústria farmacêutica não gastou um vintém na pesquisa de vacina contra tuberculose. É que essa praga só atinge gente famélica, desnutrida e miserável.
A mídia se envolve nos milhares de problemas do país mas ignora quando as empresas farmacêuticas organizam uma espécie de separatismo no acesso a um bem público mundial. O medicamento está sendo reduzido a produto por essas empresas. Por isso é tão importante que a CPI dos Medicamentos permaneça na primeira página dos jornais.
Existe uma lista extensa de drogas descobertas postas de lado e medicamentos que não são mais fabricados. Bernard Pécoul, coordenador do projeto de medicamentos dos Médicos Sem Fronteiras, observou que, de 1.223 drogas lançadas no mercado entre 1975 e 1997, apenas 13 são especificamente voltadas para o tratamento de doenças tropicais (América Latina, África, Ásia).
Há grande diferença entre descobrir um produto (sulfa, penicilina), fazer nascer uma nova substância terapêutica e, depois da descoberta a partir desta mesma substância servindo de base, chegar a novas substâncias, modificando moléculas, associando moléculas, criando assim novos produtos terapêuticos. Da cortisona nasceu a hidrocortisona, da qual nasceu a prednisona e finalmente, desta, a prednisolona. Dos efeitos secundários de um anti-histamínico como Fenergan, uma fenotiazina, nasceu a clorpromazina, utilizada em psiquiatria. Atualmente, o processo bioquímico (células do organismo humano, receptoras e inibidoras) está sendo suplantado por processos biogenéticos, e os custos da pesquisa de um produto farmacêutico já são bem menores.
Sou daqueles que pensam que uma empresa deve ter retorno de investimento, porém jamais pode perder os limites do humanismo. Salvo melhor juízo, a mídia está com uma imensa dívida na defesa de um povo pobre e faminto, que não tem condições para sustentar um mercado de 12 bilhões de dólares.
(*) Médico-psiquiatra e jornalista
ASPAS
Javier Sampedro
"Divulgação científica tem absurdos e tolices", copyright El País / Folha de S. Paulo, 12/4/00, tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves
"‘Pesquisa britânica não encontra correlação entre os estudos jurídicos e partos por cesariana’, dizia um título divulgado há alguns meses por uma agência de notícias dos Estados Unidos.
Alguém estaria louco na redação da agência? Não. O estudo não apenas existia, como havia sido feito pelo University College de Londres e publicado na revista médica mais prestigiosa do mundo, ‘The Lancet’.
As redações dos jornais são inundadas diariamente por pesquisas científicas, relatórios técnicos, conclusões de especialistas, comunicados de congressos e resenhas de revistas especializadas, que na maioria das vezes perturbam a paciência e põem à prova os limites da compaixão humana.
O pesadelo de um editor de jornal é que, no dia em que um cientista realmente curar o câncer, o comunicado à imprensa se perca em sua mesa, enterrado sob toneladas de notas soporíferas, mais ou menos disfarçadas de ciência apresentável.
Algumas vezes os estudos originais não são tão ridículos quanto as versões que chegam às redações. Por exemplo, o Prudential Center for Health Care Research, em Atlanta, Estados Unidos, publicou no ano passado que 33,9% dos pacientes idosos entendiam mal as explicações sobre suas doenças, o que freqüentemente dificultava que seguissem corretamente os tratamentos.
Até aí tudo bem – mais ou menos –, mas a forma como uma agência de notícias apresentou o fato era para se cair de costas: ‘Idade avançada causa problemas no tratamento de idosos’. Afinal, quem os mandou se consultar, com idade tão avançada?
Vejam este título de agência sobre uma pesquisa feita pela Universidade do Texas: ‘Estudo alerta sobre os perigos para o feto do consumo excessivo de álcool durante a gravidez’. Quem poderia imaginar isso?
E respire fundo antes de ler esse outro, referente ao trabalho feito na Universidade de Hamilton, no Canadá: ‘Estudo indica que o primeiro olhar de um bebê é o primeiro passo em seu aprendizado visual’. É ver para crer!
E esse exemplo, tirado do ‘New England Journal of Medicine’: ‘Novas drogas antidepressivas não reduzem o número de quedas entre pacientes idosos’. Pois então, para que diabos os idosos tomam antidepressivos? Não é para depressão?
Quando faltam dados sobre a realidade, uma estratégia comum é perguntar às pessoas o que pensam da realidade, e assim sempre se pode conseguir uma conclusão do tipo ‘Tantos por cento dos homens de tal idade acreditam que os exames regulares de saúde são muito bons para todo mundo, menos para eles mesmos’.
Um exemplo é o macroestudo do Departamento de Educação para Saúde da Universidade de Maastricht, realizado em estreita colaboração com a Escola de Educação da Universidade de Birmingham, e que chegou à seguinte conclusão: ‘Cerca de 27% dos estudantes entre 6 e 16 anos são incapazes de citar três desvantagens de fumar.’
Uma variante dessa técnica consiste em comparar o que as pessoas dizem com o que fazem, como nesse exemplo, que uma equipe de psicólogos da Universidade do Colorado apresentou na última reunião da Associação Americana de Psicologia, realizada em Boston: ‘Os motoristas que não se consideram agressivos podem ser tão perigosos quanto os que admitem sê-lo.’ Realmente, quando alguém é atropelado por um carro, a opinião do motorista é o que menos pesa.
Na mesma reunião de Boston, o investigador Thanos Patelis, da Universidade de Nova York, apresentou análises psicológicas feitas entre 15 sobreviventes de catástrofes aéreas, e conseguiu o seguinte título de agência: ‘A saúde mental dos que sofrem acidente de avião é melhor que a dos passageiros que não o sofrem, segundo pesquisa.’ Na verdade, quem não tem boa saúde mental é porque não quer, já que é tão fácil sofrer um acidente de avião...
Com as correlações estatísticas pode-se chegar a quase qualquer conclusão imaginável. Por exemplo, um estudo dirigido por Philip Leadbitter, da Universidade de Wellington (Reino Unido), publicado recentemente na revista ‘Thorax’, assombrou o mundo em setembro passado com o seguinte resultado: ‘Os bebês que medem mais de 50 cm ao nascer são mais propensos a sofrer de asma quando maiores.’
O comunicado que divulgava o trabalho esclarecia, alguns parágrafos abaixo, talvez de modo um tanto gratuito: ‘Essa é a primeira pesquisa que relaciona ambos os conceitos.’
Mais relações? Veja algumas: ‘Os consumidores de café têm menos riscos de ataque cardíaco do que os que consomem chá’ (‘Journal of Epidemiology and Community Health’); ‘Experiências trágicas diminuem o número de filhos homens’ (‘British Medical Journal’); ‘As temperaturas quentes favorecem a concepção de homens, enquanto o inverno é mais propício para gerar mulheres’ (comunicado apresentado no Congresso Europeu de Urologia, realizado há três semanas em L'Aquila, Itália); ‘Fumantes que mudam de marca têm maior tendência a parar de fumar’ (‘Anais de Medicina do Comportamento’).
Mas, por outro lado, ‘jovens que usam roupas com marcas de cigarro fumam mais’ (‘American Journal of Public Health’). Sem necessidade de qualquer estudo, poderíamos acrescentar com segurança: ‘Os homens que fumam mais de dois maços por dia tendem a levar isqueiro no bolso.’
O seguinte despacho de agência chegou no último dia 11 de janeiro: ‘Risco de morrer em acidente de automóvel aumenta em proporção ao número de passageiros que estão no veículo, segundo pesquisa publicada na última edição do ‘Journal of the American Medical Association’. Na verdade, a revista referia-se ao risco de morte do motorista.
Sem intenção de ser cansativos, concluímos com uma rápida lista de títulos de agências recebidos nas últimas semanas:
‘Aconselhamento psicológico aumenta possibilidades de gravidez.’
‘Mistura de remédios com hambúrgueres ajuda crianças soropositivas.’
‘Pensar dificulta condução de veículos, segundo pesquisadores espanhóis.’
‘A livre expressão dos pensamentos beneficia pacientes com transplante de rim.’
‘Pessoas pessimistas morrem mais cedo, segundo a Clínica Mayo.’
‘Divórcio depois dos 40 é mais aceito por mulheres.’
‘Calvície pode fazer um político perder 30% dos votos.’
Enfim, é mais provável que você não esteja lendo esse parágrafo, já que 80% dos leitores não chegam ao fim das reportagens. Mas, se essa antologia lhe pareceu curta, não desespere: o avanço da ciência é inexorável, e prometemos mais novidades."
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